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POR EM 07/03/2010 ÀS 06:58 PM

A Billie Holiday dos trópicos

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Elza SoaresFico tentado a fornecer um guia de leitura do livro “Elza Soares — Cantando Para Não Enlouquecer” (Planeta, 383 páginas), do escritor José Louzeiro. No guia, privilegiaria os capítulos que discutem diretamente a artista e menos sua vida. Mas, se fizesse isto, contribuiria para privar o leitor de entender, de modo mais amplo, como uma favelada, sem nenhuma estrutura, se tornou uma cantora magnífica — espécie de Billie Holiday, pelo menos em sofrimento, dos trópicos.

Aos 12 anos, Elza Soares foi obrigada a se casar com Lourdes (Alaúrdes) Antônio Soares, de 22 anos. O pai, Avelino Gomes, acreditava que havia sido estuprada. Homem simplório e violento, Alaúrdes passou a estuprá-la, sim, mas depois do casamento.

Aos 13 anos, Elza Soares foi mãe. Com Alaúrdes teve cinco filhos, João Carlos, Dilma, Gilson, Gerson e Edmundo. Este morreu de fome. Gerson foi entregue para um casal adotar. No lugar de cuidar da casa, a criança preferia soltar pipa, carregando o bebê numa cesta de vime. Como não queria continuar apenas como “parideira”, arranjou emprego numa fábrica de sabão. Uma vez, como não aceitava seu progresso material e cultural, Alaúrdes atirou na mulher.


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POR EM 27/02/2010 ÀS 10:44 PM

Lula cria PAC cubano pra financiar regime viciado em repressão

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Lula ao lado do líder cubano Fidel Castro e do presidente da ilha, Raúl Castro

Há viciados em cocaína, crack e tranquilizantes. Os chefes do regime comunista da dinastia Castro são viciados em repressão e dependem dela para manter o poder. Não há outro instrumento adequado. Quando a União Soviética acabou, sem o patrocínio financeiro dos comunistas da terra de Lênin e Stálin, Cuba quebrou e não mais saiu da UTI, junto com Fidel Castro. Daí especialistas do governo, certamente orientados pelo serviço (nada) secreto — treinado pela terrível Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental —, aconselharam a se criar uma “frente diplomática” com narcotraficantes de um cartel da Colômbia. Cuba era usada como entreposto para a cocaína chegar aos Estados Unidos. Tudo ia muito bem, com o governo cubano obtendo dólares fartos e fáceis, até a CIA descobrir a história e os Estados Unidos alertarem oficialmente o rei Fidel e o príncipe sem-sorte Raúl Castro. Como não podiam assumir que o governo trabalhava para narcotraficantes internacionais, como parceiros bem remunerados, os governantes fizeram o que as ditaduras fazem: mandaram para o paredón todos aqueles supostamente envolvidos com o negócio de cocaína. Aliados de Fidel desde a Involução de 1959 foram julgados, por uma Justiça viciada e política, e, alguns, condenados à morte. O general Arnaldo Ochoa, veterano de várias jornadas, inclusive na África — chegou a esboçar um plano ousado para invadir o Brasil, a partir da Amazônia —, foi condenado à morte. Os Castros saíram ilesos e alegaram nada saber do que estava ocorrendo debaixo de seus olhos. Cuba é um Estado policial e, como tal, os Castros sabem de (quase) tudo que ocorre na ilha, ainda mais quando se trata de uma questão grave como o tráfico de cocaína. Não há registro de que o PT e Lula da Silva, que ainda não era presidente, tenham protestado contra o fuzilamento dos cubanos. Ao comentar o “assassinato” do preso político Orlando Zapata Tamayo, depois de 85 dias de greve de fome, o chanceler do governo Fernando Henrique Cardoso, Luis Felipe Lampreia, disse a coisa certa à “Folha de S. Paulo”: “Eles são uma ditadura. Não adianta tentar influir, conversar. Isso é inútil”. Mas Lampreia frisou que a diplomacia brasileira deveria ter se manifestado, condenando a ação do governo cubano, que mantém presos cerca de 200 oposicionistas, segundo a Anistia Internacional. 65 são considerados “presos de consciência” pela Anistia. O ex-ministro tem razão quando diz que o governo de Lula “blinda” os amigos-ditadores.


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POR EM 25/02/2010 ÀS 04:11 PM

O maior julgamento literário da história do sertão

publicado em

Grande Sertão: VeredasNo romance “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira, 552 páginas), de João Guimarães Rosa, há pelo menos sete grandes personagens: a Linguagem, o Sertão, Riobaldo Tatarana (o tradutor do Sertão e pactário com o Diabo), Diadorim (o duplo), Joca Ramiro (o homem fantasmal, o mito), Hermógenes (pactário com o Diabo) e Zé Bebelo. Deus e o Demônio são coadjuvantes. Um dos trechos mais admiráveis é o julgamento de Zé Bebelo, então bate-pau do governo, pelos jagunços.

O valente e palavroso Zé Bebelo pede para ser julgado e Joca Ramiro, chefão da jagunçama, aceita e convoca os “jurados” Sô Candelário, Hermógenes (pactário com o demo), Ricardão, Titão Passos e João Goanhá. “Reunidos no meio do eirado, numa confa”, o grupo começa o julgamento. “Zé Bebelo não estava aperreado. Tomou corpo, num alteamento — feito quando o perú [Guimarães Rosa prefere com acento] estufa e estoura — e caminhou em direitura.”

“‘Lhe aviso: o senhor [Zé Bebelo] pode ser fuzilado, duma vez. Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso...’ — Joca Ramiro fraseou.” Zé Bebelo repostou: “Se era para isso, então, para que tanto requifife?” Sem perder a paciência, Joca Ramiro insistiu: “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei”. Zé Bebelo manteve a verve: “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo”.


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POR EM 14/02/2010 ÀS 11:45 AM

A lição do mestre Mário de Andrade para Pedro Nava

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Correspondente ContumazAs cartas de Mário de Andrade são uma espécie de educação sentimental da elite cultural brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Pedro Nava e, entre outros, Fernando Sabino cartearam com Mário e, seguramente, foram beneficiados pela ampla e vigorosa cultura do prosador e poeta paulista.

O livro “Correspondente Contumaz” (Nova Fronteira, 129 páginas), com 12 cartas de Mário Andrade ao médico, escritor e desenhista Pedro Nava, é divertido e inteligente. Mário puxa as orelhas de Nava carinhosamente, enquanto o orienta a respeito de poemas e desenhos.

O autor do romance “Macunaíma” era um descobridor de talentos. Tinha um olhar perspicaz para a qualidade da literatura de autores novos. Em 10 de abril 1927, numa carta para Nava, então com quase 24 anos, Mário comenta, com interesse, dois poemas do amigo mineiro, “A educação sentimental” e “Prelúdio nº 1”. O primeiro “é uma gostosura”; o segundo, “bonitíssimo”.

Depois do elogio, a crítica corrosiva: “Respingos: ‘tinidos de pios e chilros pipocando pingos dos papos estufados’ positivamente não gosto mais dessas brincadeiras sem valor lírico nenhum e cujo valor artístico como onomatopeia é mais do que duvidoso e muito sabido e muito fácil. Positivamente não carece a gente chamar Pedro Nava pra fazer essas coisas. Martins Fontes também faz e franqueza: faz muito milhor [Mário não escreve “melhor”] que você, Guilherme [de Almeida] e Ronald [de Carvalho] misturados”.


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POR EM 11/02/2010 ÀS 05:13 PM

Lacerda, o cunhado do ator Warren Beatty

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Carlos Lacerda — A Vida de um Lutador“Perseguido” pela ditadura civil-militar (as aspas tem explicação: fora a cassação, duríssima, óbvio, e uma prisão ligeira, Lacerda praticamente não foi incomodado pelos governos militares. Disse o diabo de Castello Branco, e nada), Lacerda correu mundo. Fez o que mais gostava de fazer: viajar. Numa dessas viagens, em 1968, conheceu a atriz Shirley MacLaine, por quem se apaixonou. “Foi durante a estada de Lacerda em Los Angeles, a serviço de ‘Realidade’, que ele e Shirley MacLaine se apaixonaram”, escreve o biógrafo oficial John Dulles. Alfredo Machado, dono da Editora Record, era muito brincalhão e gostava de irritar Lacerda: “Você reparou no tamanho dos punhos da Shirley? Se ela lhe der um soco, vai ser muito forte”. Lacerda ficou possesso, mas não respondeu. Depois de intensas juras de amor, Lacerda e McLaine se esqueceram. Mas, não fosse o amor pela família, Lacerda poderia ter sido tornado o marido brasileiro da irmã do ator Warren Beatty.

O brasilianista John Dulles, na segunda parte de “Carlos Lacerda — A Vida de um Lutador” (a palavra lutador não substitui a verdadeira — agitador, que a família deve ter vetado), resolve enfrentar os mexericos sobre Lacerda. Com luvas de pelica, claro. Depois de esclarecer a história de Shirley MacLaine — de forma favorável a Lacerda, visto como uma espécie de latin lover —, Dulles cita a atriz brasileira Maria Fernanda Correia Dias — “com quem Carlos compartilhava sentimentos do coração e do espírito desde os anos 50” (Dulles, ou o tradutor, ou a família de Lacerda, que foi dona da editora que publicou o livro, a Nova Fronteira, não usa, nunca, a palavra amante). Adiante, Dulles ousa um pouco mais: “Carlos também compartilhara com ela [Maria Fernanda] um apartamento de hotel em São Paulo (colocando um aviso ‘Não perturbe’ na porta durante quase dois dias), e mandara-lhe muitas rosas. Portanto, diziam os mexericos, seu principal caso extraconjugal foi com Maria Fernanda. No final da vida, Carlos disse que de fato se apaixonara e tivera uma grande e estreita amizade com Maria Fernanda, mas que esse relacionamento não passara disso. No caso de Shirley [MacLaine], revelou que foram além de paixão e amizade”.


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POR EM 08/02/2010 ÀS 06:29 PM

Biografia de Lula “mata” militar que está vivo

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Lula do Brasil — A História Real, do Nordeste ao PlanaltoNa contracapa de “Lula do Brasil — A História Real, do Nordeste ao Planalto” (360 páginas, tradução de Paulo Schmidt e Bernardo Schmidt), o escritor Luiz Fernando Emediato, dono da Geração Editorial, que publicou a obra, escreve: “Os livros de Denise Paraná e o filme de Fábio Barreto contam a história emocionante e épica de Lula. O livro de Richard Bourne faz a mesma coisa — mas também a explica”. Concluída a leitura, constata-se que o livro é uma crônica da vida de Lula, da infância à Presidência da República, mas sem grandes revelações. Pode conter novidades para estrangeiros, mas para o leitor brasileiro minimamente informado é um repeteco do que Denise Paraná publicou na biografia oficial de Lula e do que saiu nos jornais e revistas. Há alguns erros na “pesquisa” de Bourne, que, se não comprometem todo o trabalho, indicam desleixo do professor-doutor da Universidade de Londres e da editora. Há informações interessantes, embora nada novas, como o fato de Lula ter sofrido depressão e ter sugerido que poderia desistir da disputa em 2002. Bourne mostra que Lula já “transferia” voto como metalúrgico. Na década de 1970, Jair Meneghelli não queria disputar a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, mas Lula o impôs. Meneghelli obteve 89% dos votos. Secundando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Bourne sustenta que Lula é uma estrela internacional, mas admite que teve “dificuldade em convencer editores” a publicar seu livro no exterior. O livro não é inteiramente ruim, mas, apesar de recolher algumas críticas, aproxima-se de uma hagiografia.


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POR EM 04/02/2010 ÀS 04:45 PM

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

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O Mestre e MargaridaO romance “O Mestre e Margarida” (Alfaguara, 456 páginas), do escritor, dramaturgo e libretista ucraniano Mikhail Bulgákov, ganha sua primeira tradução patropi direta do russo — um trabalho de mestre de Zoia Prestes. A versão anterior (Nova Fronteira/Abril Cultural), a partir do inglês, é de Mário Salviano Silva. Neste texto, falo mais da tragédia do autor, narrada no excelente “O Diabo Solto em Moscou — A Vida do Senhor Bulgákov” (Edusp, 582 páginas), de Homero Freitas de Andrade. Há também traduções de contos e novelas a partir do original russo.

Bulgákov, que cedo trocou a medicina pela literatura e pelo teatro, morreu em 1940, com quase 49 anos, de complicações renais. Muito possivelmente, seu quadro agravou-se devido às pressões do regime stalinista, que o proibira de publicar livros e trabalhar com o teatro. “A partir de 1926, não conseguiu publicar nenhuma das suas obras de ficção, nem mesmo as que mais prezava”, conta Boris Schnaiderman. Sua obra só foi publicada integralmente depois da glasnost de Mikhail Gorbachev. Porque Bulgákov não aceitou o cabresto do stalinismo. Curiosamente, sua prosa era lida e apreciada por Stálin. Uma vez, em desespero, escreveu uma longa carta para o ditador pedindo emprego, pois os teatros e as editoras o censuravam e o vetavam. Stálin ligou para Bulgákov e disse: “Nós recebemos sua carta. Li com os camaradas. O sr. vai obter uma resposta favorável... Será que realmente devemos deixá-lo partir para o estrangeiro? Nós o aborrecemos tanto assim?”. Desconcertado, o escritor respondeu: “Pensei muito nos últimos tempos se um escritor russo poderia viver fora de sua terra. E me parece que não”. Conseguiu emprego num teatro, mas ficou sob vigilância expressa.


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POR EM 26/01/2010 ÀS 07:25 PM

As diatribes de Cabrera Infante contra Alejo Carpentier

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Guillermo Cabrera InfanteQuem quiser entender a literatura de James Joyce deve ler a biografia “James Joyce”, de Richard Ellmann, e, talvez, “Homem Comum Enfim”, de Anthony Burgess. Para entender o romance “Três Tristes Tigres” (José Olympio, 517 páginas, tradução de Luís Carlos Cabral), de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), pelo menos para rir com mais proveito de algumas histórias, deve-se ler os artigos e ensaios de “Mea Cuba” (Companhia das Letras, 518 páginas, tradução de Josely Vianna Baptista) — um guia não-guia de acesso aos “segredos” cubanos —, do mesmo autor.

“Três Tristes Tigres” (TTT) é um mergulho na cultura cubana, e não só. Além de remexer na música, no cinema, Cabrera Infante parodia escritores de quem gosta e de quem não gosta, como pessoa, mas aprecia a obra, apesar de ironizar o estilo às vezes pomposo de um e outro. Algumas de suas “vítimas” são Lezama Lima (que avalia como o maior poeta cubano), Alejo Carpentier (talentoso e embromador) e o contista Lino Novás Calvo (supostamente grande influência no estilo poroso de Cabrera Infante). Lendo “Mea Cuba”, inteligente e divertido, aprende-se mais sobre Cuba e seus autores, pelos quais, mesmo quando irônico, o autor era apaixonado. Cabrera Infante escreve a sério — divertindo-se e nos divertindo, à farta. Lino Novás não gostou de ter seu estilo, seus nomes (dos personagens) e sua prosa parodiados em “Três Tristes Tigres”. Cabrera Infante diz que a paródia foi um elogio e, a julgar pelo que escreve em “Mea Cuba”, tem razão. “La Luna Nona”, volume de contos, “é uma obra-prima do gênero, e quando um dia for escrita a história definitiva do conto na América se verá que Lino Novás está entre seus mestres: Horacio Quiroga, Borges, Felisberto Hernández, Juan Rulfo, Virgilio Piñera, Adolfo Bioy Casares. (...) Lino Novás foi o primeiro a saber adaptar as técnicas narrativas americanas a uma escritura verdadeiramente cubana — e além do mais, habanera. Em seus contos ouve-se falar de Havana pela primeira vez em alta-fidelidade. Sobretudo a Havana dos subúrbios”. Cabrera Infante faz o mesmo em “TTT”, mas não exatamente sobre os subúrbios. “Lino Novás Calvo se transformou em meu escritor cubano favorito, e até a chegada de William Faulkner e de Borges, em meu escritor favorito entre todos.”


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POR EM 20/01/2010 ÀS 10:06 AM

Historiador denuncia a indústria do Holocausto

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Tachado de opositor ideológico de Israel, Norman Finkelstein sustenta que o Holocausto nazista foi “recriado” para defender Estado judeu e enriquecer instituições judaicas

 Norman G. Finkelstein

Antes de apresentar os argumentos do polêmico livro “A Indústria do Holocausto — Reflexões Sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus” (Editora Record, 156 páginas), de Norman G. Finkelstein, professor da Universidade de Nova York e doutor por Princeton, algumas palavras sobre o autor. Em duas resenhas para a “Folha de S. Paulo”, o jornalista Marcos Guterman busca desqualificar Finkelstein como historiador. No primeiro texto, diz que Finkelstein é “crítico histérico e raso da instrumentalização do Holocausto pelos judeus”. O segundo texto é uma resenha, publicada em fevereiro de 2001.

Nesse texto, Guterman ataca, quase no estilo de cruzado de Finkelstein: “A ausência quase completa de documentos específicos do genocídio, grande parte deles destruída pelos nazistas para tentar apagar o episódio da historia, é a base da negação do Holocausto e um dos trunfos de ‘A Indústria do Holocausto’, de Norman Finkelstein”. Guterman escreve que o polemista é visto como “anti-sionista de poucos recursos acadêmicos”. 

A questão-chave pouco ou nada tem a ver com os “parcos” recursos acadêmicos de Finkelstein, e sim com ideologias diferentes. Finkelstein é um intelectual de esquerda, muito próximo do séquito de Noam Chomsky. O leitor do livro ‘A Indústria do Holocausto’, se consultá-lo com rigor, certamente substituirá a palavra “histérico” por “exagerado” ou extremado. Nem tudo que é radical é histérico, assim como nem tudo que é moderado não é histérico. 

Mesmo que não se concorde com as idéias de Finkelstein — e esclareço, desde já, que tenho respeito pela causa judaica —, é interessante passear por sua exposição, não raro apressada e excessiva, sobre o que considera “a indústria do Holocausto”. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, as organizações judaicas dos Estados Unidos, as mais poderosas do mundo — sempre com o apoio de publicações como “New York Times” e “Washinton Post”, os dois jornais mais conhecidos do país, além de revistas, como “Time” e “Newsweek” —, deixaram, por assim dizer, o Holocausto no armário. A tese de Finkelstein: “Elas ‘esqueceram’ o holocausto nazista porque a Alemanha — Alemanha Ocidental, em 1949 — tornou-se um aliado crucial do pós-guerra americano no confronto dos EUA com a União Soviética. Vasculhar o passado não seria útil; na verdade, era um complicador. (...) Lembrar o Holocausto nazista era etiquetado como causa comunista”. As associações judaicas chegaram a fazer vistas grossas à entrada de nazistas nos Estados Unidos. 

A partir de junho de 1967, com a guerra árabe-israelense, na versão de Finkelstein, “o Holocausto tornou-se uma fixação na vida dos judeus americanos. De sua fundação em 1948 até a guerra de junho de 1967, Israel não figurou como foco no planejamento estratégico americano. (...) Para assegurar seus interesses no Oriente Médio, o governo Eisenhower apoiou tanto Israel quanto as nações árabes, contudo favorecendo os árabes”. Finkelstein acrescenta: “A indústria do Holocausto só se difundiu depois da dominação militar esmagadora e do florescente e exagerado triunfalismo entre os israelenses”.


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POR EM 18/01/2010 ÀS 08:02 PM

O flerte de Luis Buñuel com o stalinismo

publicado em

Los Anos Rojos de Luis Buñuel“Los Anos Rojos de Luis Buñuel”(Cátedra, 420 páginas), de Román Gubern e P. Hammond, provoca polêmica na Espanha. O livro prova que, ao contrário do que sempre disse, o cineasta filiou-se ao Partido Comunista Espanhol (PCE) em 1931. Não só. Buñuel se pôs, durante algum tempo, a serviço do brutal stalinismo soviético.

O jornal “El Mundo” fez uma pequena entrevista com Román Gubern, que traduzo a seguir.

Como surgiu a ideia de narrar “os anos vermelhos” de Buñuel?

A origem está no surgimento da carta de Buñuel a [André] Breton, de 6 de maio de 1932, na qual informava de sua filiação ao PCE — informação que sempre havia negado.


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