A vingança de Moby Dick
Publicado em 1851, “Moby Dick”, de Herman Melville, é um clássico. O romance é produto da imaginação do escritor americano — discípulo que rivaliza com Shakespeare — e, ao mesmo tempo, baseado em fatos reais. Muitos leitores certamente avaliam que o espírito vingativo de Moby Dick, um cachalote gigantesco, é uma invenção literária de Melville. A baleia do livro parece ter sentimentos, como a capacidade de ser vingativa, de perseguir o seu perseguidor, o obcecado capitão Ahab, que parece mais selvagem do que seu oponente marítimo. A história é baseada num acontecimento real, de 1820, que, sem a cobertura da recriação poderosa da literatura, teria se tornado um rodapé na história náutica. Baleias atacam barcos de curiosos que aparentemente as agridem, talvez pela proximidade excessiva e ameaçadora. Na edição de 22 de julho do jornal espanhol “El País”, Lali Cambra relatou, na matéria “O ataque da baleia”, como um mamífero de 40 toneladas atingiu e destruiu parcialmente o barco Intrepid, na costa atlântica da Cidade do Cabo.
O jornal publicou duas fotografias, da Agência EFE (o nome do fotógrafo não é mencionado), impressionantes. A primeira exibe a baleia jogando-se sobre o Intrepid. A segunda mostra o barco de 10 metros destroçado. A reportagem afirma que é “inusual” baleias se jogarem em cima de barcos. Autoridades marítimas sul-africanas concluíram que a baleia pode ter sido “acossada e perseguida” por pessoas que ocupavam pelo menos dois barcos — um deles o que quase foi afundado. Paloma Werner e Ralph Mothes, proprietários do barco, contaram que, assim que avistaram a baleia, desligaram o motor. O casal observou-a por cerca de uma hora, a uma distância de 120 metros. Eles “asseguram que a baleia, sem que fizessem qualquer coisa, aproximou-se e jogou-se em cima da embarcação”. Nenhum deles se machucou.
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Será lançado na Inglaterra, em setembro, o livro “A Primeira Guerra de Hitler”, do historiador Thomas Weber, da Universidade de Aberdeen (Escócia). Weber sustenta que mais de 70% de seu livro é baseado em fontes ainda não utilizadas por outros pesquisadores. Parte de suas revelações foi retirada dos arquivos do 16º Regimento de Reserva da Infantaria Bávara (RIR 16). Os arquivos não haviam sido catalogados nem utilizados pelos especialistas.
A imprensa brasileira é cínica ou mal informada. Não se cansa de mostrar a “volta” de Fidel “Bela Lugosi” Castro ao cenário político, mas não explica o motivo do ressuscitamento do encanecido ditador.
Livro de jornalista sobre jornalismo e jornalistas invariavelmente é desinteressante. Ficamos sabendo, em geral, da parte rósea da profissão, que estimula tantos garotos a prestarem vestibular para o curso de Jornalismo. Nas obras cor-de-rosa, os jornalistas contam que falaram com as eminências de seu tempo, contam maravilhas sobre suas viagens e, para atrair mais leitores, uma pitada de sexo é inescapável. Experiências próprias e de gente famosa. Não é o ocorre com o livro “O Repórter e o Poder” (Editora Alegro, 271 páginas), as memórias de José Carlos Bardawil. Trata-se, na verdade, de uma longa entrevista, não muito bem editada (e com vários erros), feita por Luciano Suassuna (diretor de Jornalismo do portal iG). O livro não tem nada de chato e pode ser lido de uma sentada. Conta uma história, digamos, quase cruenta de parte da imprensa brasileira. Bardawil morreu ainda novo, aos 54 anos, vítima de câncer. Suas memórias têm um tom de mágoa, de ajuste de contas. Percebe-se, também, que o jornalista transforma fatos irrelevantes em fatos decisivos. Como obra de maledicências, não deixa de ser muito interessante, lembrando, quem sabe, Humberto de Campos. 
Durante anos, na União Soviética, dizer o nome de Óssip Mandelstam (1891-1938) publicamente era uma ofensa grave ao “guia genial dos povos”, Stálin. Aquele que o citasse podia ser preso ou, mesmo, assassinado. A polícia política fez uma varredura cultural e limpou o nome do escritor russo Mandelstam (nascido em Varsóvia) — que o político Nicolai Ivânovitch Bukhárin amava e, enquanto pôde, protegia — dos livros de história de literatura russa ou qualquer outra. Na União Soviética, “ninguém” sabia, ou podia saber, sobre o escritor Mandelstam. Era terminantemente proibido. Seus livros, como os de Boris Pasternak, não eram editados.
A revista italiana “Max” decidiu publicar uma fotomontagem de Roberto Saviano (chamada de “O assassinato de Saviano”), autor do romance de não-ficção “Gomorra”, na qual o escritor aparece morto numa maca de uma espécie de Instituto Médico Legal — pronto para ser necropsiado. Teria sido “assassinado” pela Camorra, a violenta máfia napolitana. A fotografia vazou e, publicada no jornal “La Sampa”, de Turim, gerou debate entre jornalistas e intelectuais sobre os limites do jornalismo. Para uns, é um incentivo à morte do jovem prosador. Para outros, não é ético dizer que uma pessoa morreu se está viva. Há os que defendem a liberdade de expressão.
A melhor crítica literária da obra do escritor português José Saramago, recentemente falecido, foi escrita por alguém do Vaticano. Os padres disseram que sua literatura é populista. Acertaram na mosca.
Como definir Ian McEwan, possivelmente o maior escritor inglês vivo? Julian Barnes e Martins Amis são muito bons, mas nenhum de seus livros pode ser comparado ao esplêndido romance “Reparação” (Companhia das Letras, 448 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto). Se levasse espiritismo a sério, diria que McEwan é a reencarnação de Henry James. “Reparação”, com sua ambiguidade literalmente à flor da pele, é um romance de James parido por McEwan. Como o americano, o britânico não diz as coisas às claras, conta-as aos poucos, às migalhas, e mesmo assim o quadro nunca parece completo, à semelhança da prosa do autor de “As Asas da Pomba”. Não que a literatura de McEwan seja complicada, mas exige um leitor minimamente instruído, que queira participar do jogo literário e que tenha interesse em formar seus próprios quadros mentais e estéticos, sem excluir os postulados pelo autor. O prosador às vezes se torna crítico especialíssimo, admirador de, entre outros, John Updike. Nos seus romances saborosos, em que o sexo é dominante, como pedaço da vida e não apenas escândalo, Updike reconstruiu meticulosamente a mentalidade da classe média americana. Ele tinha um quê de sociólogo e psicólogo, potencializado por sua imaginação literária. No livro “Conversas Entre Escritores — As Entrevistas da Believer” (Arte & Letra, 315 páginas, tradução de Irinêo Netto, Miguel Nicolau Abib Neto e Ernesto Klüpel), McEwan é entrevistado pela escritora Zadie Smith. “Believer” é uma revista literária norte-americana.
O Brasil tem Fernanda Young, reserva de Paulo Coelho. Cuba tem Wendy Guerra, igualmente performática, mas talentosa. “Nunca Fui Primeira-Dama” é um romance-vingador. A Involução de Fidel Castro destruiu a família da autora e, por isso, Wendy ataca a ditadura castradora. Batalha estética corrosiva.