A Billie Holiday dos trópicos
Fico tentado a fornecer um guia de leitura do livro “Elza Soares — Cantando Para Não Enlouquecer” (Planeta, 383 páginas), do escritor José Louzeiro. No guia, privilegiaria os capítulos que discutem diretamente a artista e menos sua vida. Mas, se fizesse isto, contribuiria para privar o leitor de entender, de modo mais amplo, como uma favelada, sem nenhuma estrutura, se tornou uma cantora magnífica — espécie de Billie Holiday, pelo menos em sofrimento, dos trópicos.
Aos 12 anos, Elza Soares foi obrigada a se casar com Lourdes (Alaúrdes) Antônio Soares, de 22 anos. O pai, Avelino Gomes, acreditava que havia sido estuprada. Homem simplório e violento, Alaúrdes passou a estuprá-la, sim, mas depois do casamento.
Aos 13 anos, Elza Soares foi mãe. Com Alaúrdes teve cinco filhos, João Carlos, Dilma, Gilson, Gerson e Edmundo. Este morreu de fome. Gerson foi entregue para um casal adotar. No lugar de cuidar da casa, a criança preferia soltar pipa, carregando o bebê numa cesta de vime. Como não queria continuar apenas como “parideira”, arranjou emprego numa fábrica de sabão. Uma vez, como não aceitava seu progresso material e cultural, Alaúrdes atirou na mulher.
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No romance “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira, 552 páginas), de João Guimarães Rosa, há pelo menos sete grandes personagens: a Linguagem, o Sertão, Riobaldo Tatarana (o tradutor do Sertão e pactário com o Diabo), Diadorim (o duplo), Joca Ramiro (o homem fantasmal, o mito), Hermógenes (pactário com o Diabo) e Zé Bebelo. Deus e o Demônio são coadjuvantes. Um dos trechos mais admiráveis é o julgamento de Zé Bebelo, então bate-pau do governo, pelos jagunços.
As cartas de Mário de Andrade são uma espécie de educação sentimental da elite cultural brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Pedro Nava e, entre outros, Fernando Sabino cartearam com Mário e, seguramente, foram beneficiados pela ampla e vigorosa cultura do prosador e poeta paulista.
“Perseguido” pela ditadura civil-militar (as aspas tem explicação: fora a cassação, duríssima, óbvio, e uma prisão ligeira, Lacerda praticamente não foi incomodado pelos governos militares. Disse o diabo de Castello Branco, e nada), Lacerda correu mundo. Fez o que mais gostava de fazer: viajar. Numa dessas viagens, em 1968, conheceu a atriz Shirley MacLaine, por quem se apaixonou. “Foi durante a estada de Lacerda em Los Angeles, a serviço de ‘Realidade’, que ele e Shirley MacLaine se apaixonaram”, escreve o biógrafo oficial John Dulles. Alfredo Machado, dono da Editora Record, era muito brincalhão e gostava de irritar Lacerda: “Você reparou no tamanho dos punhos da Shirley? Se ela lhe der um soco, vai ser muito forte”. Lacerda ficou possesso, mas não respondeu. Depois de intensas juras de amor, Lacerda e McLaine se esqueceram. Mas, não fosse o amor pela família, Lacerda poderia ter sido tornado o marido brasileiro da irmã do ator Warren Beatty.
Na contracapa de “Lula do Brasil — A História Real, do Nordeste ao Planalto” (360 páginas, tradução de Paulo Schmidt e Bernardo Schmidt), o escritor Luiz Fernando Emediato, dono da Geração Editorial, que publicou a obra, escreve: “Os livros de Denise Paraná e o filme de Fábio Barreto contam a história emocionante e épica de Lula. O livro de Richard Bourne faz a mesma coisa — mas também a explica”. Concluída a leitura, constata-se que o livro é uma crônica da vida de Lula, da infância à Presidência da República, mas sem grandes revelações. Pode conter novidades para estrangeiros, mas para o leitor brasileiro minimamente informado é um repeteco do que Denise Paraná publicou na biografia oficial de Lula e do que saiu nos jornais e revistas. Há alguns erros na “pesquisa” de Bourne, que, se não comprometem todo o trabalho, indicam desleixo do professor-doutor da Universidade de Londres e da editora. Há informações interessantes, embora nada novas, como o fato de Lula ter sofrido depressão e ter sugerido que poderia desistir da disputa em 2002. Bourne mostra que Lula já “transferia” voto como metalúrgico. Na década de 1970, Jair Meneghelli não queria disputar a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, mas Lula o impôs. Meneghelli obteve 89% dos votos. Secundando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Bourne sustenta que Lula é uma estrela internacional, mas admite que teve “dificuldade em convencer editores” a publicar seu livro no exterior. O livro não é inteiramente ruim, mas, apesar de recolher algumas críticas, aproxima-se de uma hagiografia.
O romance “O Mestre e Margarida” (Alfaguara, 456 páginas), do escritor, dramaturgo e libretista ucraniano Mikhail Bulgákov, ganha sua primeira tradução patropi direta do russo — um trabalho de mestre de Zoia Prestes. A versão anterior (Nova Fronteira/Abril Cultural), a partir do inglês, é de Mário Salviano Silva. Neste texto, falo mais da tragédia do autor, narrada no excelente “O Diabo Solto em Moscou — A Vida do Senhor Bulgákov” (Edusp, 582 páginas), de Homero Freitas de Andrade. Há também traduções de contos e novelas a partir do original russo.
Quem quiser entender a literatura de James Joyce deve ler a biografia “James Joyce”, de Richard Ellmann, e, talvez, “Homem Comum Enfim”, de Anthony Burgess. Para entender o romance “Três Tristes Tigres” (José Olympio, 517 páginas, tradução de Luís Carlos Cabral), de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), pelo menos para rir com mais proveito de algumas histórias, deve-se ler os artigos e ensaios de “Mea Cuba” (Companhia das Letras, 518 páginas, tradução de Josely Vianna Baptista) — um guia não-guia de acesso aos “segredos” cubanos —, do mesmo autor.
“Los Anos Rojos de Luis Buñuel”(Cátedra, 420 páginas), de Román Gubern e P. Hammond, provoca polêmica na Espanha. O livro prova que, ao contrário do que sempre disse, o cineasta filiou-se ao Partido Comunista Espanhol (PCE) em 1931. Não só. Buñuel se pôs, durante algum tempo, a serviço do brutal stalinismo soviético. 