Don Juan desce ao inferno

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Na minissérie de televisão “Queridos Amigos” (2008), o personagem Tito assiste ao noticiário que mostra a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Ex-exilado político da ditadura militar e declarado comunista, ele começa a chorar e não acredita na cena. A personagem Carina, uma modelo de capa de revista na história, pede a Tito para desligar o aparelho a televisão, e partem os dois para uma cena de sexo. A felicidade não estava lá fora, nas ruas, mas sim nos braços de uma linda mulher que faz questão de ignorar o que seja a política.
A história de Maria Adelaide do Amaral se baseia em seu livro “Aos Meus Amigos” (1992). O clima permanente é de luto e melancolia — para os antigos militantes de esquerda, é claro. Os novos ricos da trama, descolados que só, estão felizes da vida, a louca vida. Não perdem a chance de dizer que os sonhos acabaram, ou então, soltam “eu mudei, e você continua a acreditar nas mesmas bobagens”. As bobagens são as idéias dos anos 1970, quando uma parte dos personagens da série partiu para as vias de fato. Em 1989, estão ferrados na vida.
Daqui uns dias, começa a enxurrada de imagens para lembrar os 20 anos de derrubada do Muro de Berlim, quando os países do Leste Europeu teriam “caído na real”. Com certeza, vão aparecer as imagens do filme “Adeus, Lênin” (2003). É a história de um filho que inventa um programa de televisão para a mãe doente acreditar que nada mudou e o comunismo da Alemanha Oriental continua vivo. Foi um delírio para certas pessoas aqui no Brasil. Mas poucos notaram a crítica ao fato de a televisão aparecer como a falsificadora da realidade — será que o muro caiu mesmo?
Irônico pensar que a celebração do fim comunismo no Leste Europeu ocorre justamente no período que os países da região entraram em bancarrota. Eles foram os mais atingidos pela crise financeira internacional, iniciada em setembro de 2008. Como entraram de cabeça no capitalismo e se endividaram a rodo no exterior, os antigos comunistas tiveram um súbito corte de financiamento. Dias atrás, a Cazaquistão (que fazia parte da ex-União Soviética) pedia moratória. Saíram do comunismo para entrar de cabeça na globalização. Bem feito, pois quem manda rezar a cartilha.
As escolhas pós-Muro de Berlim foram interessantes. O Leste Europeu chafurdou nos mercados globais e segue oferecendo mão de obra barata e qualificada para a indústria ocidental — além, das prostitutas de luxo, de 1,90 m, nos períodos de crise econômica acentuada. Os chineses fizeram o caminho contrário de um capitalismo perfeito, como o sonhado por Adam Smith. Vale a pena ler o livro de Giovanni Arrighi sobre os mercados ideais dos chineses. Resta Cuba, que sonha em fazer um caminho à chinesa de abertura econômica, mas esbarra em seu tamanho pequeno. Os cubanos sabem apenas que não querem exportar prostitutas.
O choro do personagem Tito, de “Queridos Amigos”, ocorreu no momento em que a América Latina escolhia seu caminho. A preferência foi pelo modelo do Leste Europeu, pois, por exemplo, a equipe do economista Jeffrey Sachs aplicou na Bolívia a mesma receita adotada na Rússia. Deu em Evo Morales, um sujeito que trouxe a questão indígena para o campo político. Como a região quebrou vergonhosamente nos mãos de desqualficados (Menem, Fujimori, Sachez de Lozada) e de mal qualificados (Fernando Henrique Cardoso, Andrés Pérez), cresceram as lideranças populares que se equilibram e querem falar grosso no cenário internacional.
Hoje, Tito poderia estar aplaudindo às cegas a descoberta do pré-sal que, segundo o palavrório oficial, pode colocar o Brasil entre as nações ricas do mundo, transformá-lo numa potência. A alternativa seria virar um satélite da aliança hiper-reacionária que junta ex-lideranças da UNE dos anos 1960 aos ternurinhas da Opus Dei, com o suporte de verdes e antigos militantes do partidão. Os novos bárbaros oferecem apenas essas duas opções, afinal eles defendem o “there is no alternative” e o “é a economia, estúpido”.
Cazuza pertencia à fina flor da elite carioca, bem zona sul. As letras falavam de um Brasil arrasado da época, de “só as mães são felizes” e de garotos que “dão autógrafos em talões de cheque”. Tanto Cazuza, como Russo, viveram intensamente o período e morreram vítimas da Aids, assumindo que sempre gostaram de “meninos e meninas”

Quando você vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou.
Chico Buarque (2004)
As guitarras elétricas de "Alegria, alegria", de Caetano Veloso, assustaram os admiradores da jovem MPB no final dos anos 1960. Alguns disseram que se tratava de uma perversão da canção nacional, pois o compositor baiano teria se afastado do genuíno som brasileiro. Na época, poucos se lembraram de que essa autenticidade brasileira, sintetizada pelo samba, só havia sido firmada três décadas antes, no governo Vargas (1930-1945). Questionava-se, isso sim, uma tradição inventada, por contradição, por ideais modernizadores. Desde então, era como se os portugueses tivessem encontrado sambistas, e não índios, ao desembarcar por aqui em 1500.
As críticas a Caetano repetiram as censuras feitas a Bob Dylan, quando este agregou o formato guitarra-baixo-bateria a seu estilo já inconfundível de voz e violão norte-americanos — outra tradição construída. Hoje, podemos criticar a estreiteza dos ataques. Mas eles faziam muito sentido naquele período, no Brasil, que buscou o tipo ideal do "homem simples", o popular e, principalmente, uma identidade nacional. A MPB era vista como instrumento de aproximação de classes sociais, um ponto de encontro de letrados e iletrados. O que pouco se via era que o país e seus músicos já eram engolidos pela máquina cultural do mercado.
A jovem guarda pode ser considerada o berço do pop brasileiro, no sentido de um campo cultural com produtores, veículos de divulgação e público. O próprio nome Jovem Guarda vinha de empréstimo de um programa de televisão. Roberto Carlos, Wanderléa, Erasmo Carlos, Os Incríveis e Golden Boys eram as figuras de uma nova música que falava à juventude, com rocks leves e romantismo. O Brasil ainda era aquele do começo da década de 1960, naquela virada do otimismo desenvolvimentista anterior ao golpe militar de 1964. O crescente obscurecimento chega ao auge quatro anos depois com as regras baixadas pelo AI-5 (prisão, exílio, tortura, censura).
A rapaziada da Jovem Guarda vinha avançando para outros sons, assim como ocorria com Beatles, Rolling Stones e Beach Boys lá pelo ano de 1966. O pop incluiu novos instrumentos e foi além do padrão de canções de três minutos (que seguiam o formato duas estrofes, um refrão, mais uma estrofe, um solo de guitarra, repete-se o refrão e um coro termina a música). Os maiores responsáveis pela experimentação brasileira foram os Mutantes, que reunia a mocinha sardenta Rita Lee e dois irmãos de franjinha, Arnaldo e Sérgio Baptista. O pop local atinge a maioridade e dialoga com a MPB da época e o rock feito pelo mundo afora.
Tempo das viagens
A trajetória dos Mutantes foi marcante pelo experimentalismo. Bem no espírito da época, eles foram morar juntos na Serra da Cantareira, na cidade de São Paulo. O isolamento permitia viver e respirar música o tempo todo, logicamente num ambiente de contracultura. Também pesava a favor a convivência com os baianos do Tropicalismo e figuras como Glauber Rocha, José Agrippino de Paula e Hélio Oiticica. Percebe-se que havia um caldeirão cultural que colocava a produção brasileira no circuito mundial de bens culturais e contrastava com a estreiteza da ditadura militar — esta carregou valores nacionais, da família e da propriedade.
O espírito contracultural viabilizou um passo adiante no pop rock brasileiro no aparecimento de Secos e Molhados e de Raul Seixas. Os primeiros eram liderados por Ney Matagrosso e usavam bem a teatralidade nos shows. Foi um êxito que demoraria a se repetir no cenário local, em músicas como “Rosa de Hiroshima”, “Sangue latino” e “Flores astrais”. O segundo vinha da Bahia e se dizia herdeiro do espírito do rock’n’roll dos anos 1950. O que Raul soube fazer de melhor foi juntar letras que evocavam uma “sociedade alternativa” (em parceria com Paulo Coelho, depois um escritor de sucesso) e sons de rock acústico dos Estados Unidos.
Talvez por conta da ditadura e das mudanças sociais nos anos 1970, houve uma aproximação de várias áreas do campo cultural. No caso do pop, a poesia marginal ou chamada de mimeógrafo foi chegando mais perto e fez parcerias que se desenvolveriam para valer na década seguinte. Poetas como Chacal, Cascaso e até mesmo Paulo Leminski fizeram letras para grandes figuras da MPB. Mas foi Bernardo Vilhena quem mais escreveu para o pop rock do Rio de Janeiro. Suas letras, como “Vida bandida”, foram cantadas por Lobão e Cazuza. Essa proximidade elevou o patamar das palavras cantadas pelos roqueiros que, hoje, guardam distância de poesia.
Influenciado pela poesia marginal e pelo teatro de grupos como Asdrúbal Trouxe o Trombone, o ambiente fértil do Rio de Janeiro propiciou a explosão do conjunto de pop rock Blitz, em 1982. Já distante da canção de protesto da década anterior, o grupo apostou num som “new wave” dos Estados Unidos e em letras com humor e referências à sexualidade. A ditadura militar, enfim, dava os últimos suspiros. Mas não sem antes proibir duas faixas do LP da Blitz. Os vinis foram riscados manualmente, apenas nas duas últimas canções, por ordem dos censores. Emissoras de rádio estavam impedidas de veicular as músicas com trocadilhos que remetiam ao sexo.
Pós-ditadura
O final da ditadura militar coincidiu com a ascensão de grupos como Barão Vermelho, Gang 90 (liderado por Júlio Barroso, grande poeta e que se suicidou), RPM, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso e Camisa de Vênus. As músicas falavam de “louras geladas”, “a gente somos inútil”, “nosso louco amor” e outras egotrips — esta uma expressão bem da época para enfatizar o individualismo, em contraponto ao ideal coletivo da turma da Era de Aquários. Com o lançamento da revista Bizz em 1985 e de programas de vídeo clip na televisão, o mercado brasileiro passava a ter os ingredientes de uma cultura voltada aos jovens, com sons feitos por e para eles.
Dois trabalhos significativos da época vieram do grupo Legião Urbana, liderado por Renato Russo, e do compositor Cazuza, ex-vocalista do Barão Vermelho. Foram as vozes mais incisivas na observação da segunda metade dos anos 1980 no país. Surgido em Brasília, o Legião absorve a influência do rock inglês de então (Gang of Four, The Smiths) e junta a isso uma nova forma de fazer canções. Não há mais rimas, mas apenas o “eu” isolado no mundo como personagem das letras. Criam-se multidões de seguidores. As músicas falavam desde os “burgueses sem religião” até a história de um nordestino que migra para Brasília.
Cazuza pertencia à fina flor da elite carioca, bem zona sul. O espírito livre da poesia marginal se aliava nele ao rock clássico e ao samba, na linhagem de Noel Rosa. As letras falavam de um Brasil arrasado da época, de “só as mães são felizes” e de garotos que “dão autógrafos em talões de cheque”. Tanto Cazuza, como Russo, viveram intensamente o período e morreram vítimas da Aids, assumindo que sempre gostaram de “meninos e meninas”. Outro parceiro dessa viagem de captar os anos 1980 foi o escritor Caio Fernando Abreu, que morreu da mesma doença e imaginou outras maneiras de viver a década perdida.
Os anos da pós-ditadura brasileira possibilitaram boas experimentações musicais. Em São Paulo, havia Fellini, Patife Band, Akira S & as garotas que erraram e Mercenárias, que abriram um mercado alternativo para o pop rock brasileiro. O Ira! seguia um rock mais clássico, e os Titãs flertavam com a poesia concreta por meio das letras de Arnaldo Antunes. Os punks tinham representantes nos Inocentes e nos Ratos de Porão. A cena paulista tinha espaço até para o Violeta de Outono, altamente influenciado pelo rock inglês da época. Percebe-se uma diversidade de sons e estilos que levaram o pop rock um degrau acima. .
Outras cidades também apresentam bons nomes que realizaram trabalhos fecundos. No Rio de Janeiro, estavam os Picassos Falsos, que tinha pitadas de samba e Jimi Hendrix. A cena gaúcha gerou os tradicionais Engenheiros do Hawaii e o grupo antecipador de estilos De Falla, Depois, viriam os inclassificáveis do Graforréia Xilarmônica. Os mineiros contribuíram com Sexo Explícito (embrião do Pato Fu) e o fenômeno do Sepultura, um conjunto de metal que ganhou o mundo a partir de Belo Horizonte. Para um período socialmente medíocre, aqueles anos foram essenciais para consolidar o mercado pop no Brasil.
Pop-up nas margens
O cenário dos 1990 foi marcado por uma abertura para as margens da produção musical. As inovações tecnológicas permitiram, sobretudo por meio da informática, o gradativo crescimento de um mercado alternativo do pop brasileiro. Gravadoras fora dos grandes centros (Rio de Janeiro e São Paulo) começaram a trabalhar com distribuição nacional. Chegou-se ao limite com a criação de um vasto mercado pirata, a preços muito baixos e com grande velocidade de divulgação de músicas e cantores. E a internet vem pulverizando essa divulgação de novos nomes, como atesta o surgimento de Malu Magalhães, uma adolescente que usava a rede social MySpace.
O descentramento musical viabilizou o movimento do manguebeat de Recife. Mundo Livre e Chico Science & Nação Zumbi utilizaram o hibridismo para aliar o maracatu pernambucano ao rock inglês e à eletrônica. Retorna o sentimento antropofágico, tropicalista, de deglutir influências estrangeiras e filtrá-las na tradição. Com isso, chega-se a um novo som. Anos antes, em 1986 precisamente, o estilo híbrido se manifestou na música “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso. A redescoberta do Brasil está também nos brasilienses dos Raimundos, que misturaram o punk rock a letras debochadas do brega e do forró nordestino.
As margens produziram nos anos 1990 o fenômeno do rap nas periferias das metrópoles brasileiras. O êxito maior veio com os paulistanos dos Racionais MC. Eles rejeitam os meios tradicionais de divulgação da música e explodem com a pirataria de CDs vendidos por poucos reais a cada esquina do país. A periferia do Rio de Janeiro populariza o funk entre a garotada de classe média. De repente, os pobres começam a produzir uma música feita por eles e para eles mesmos — seduzindo os mais ricos. A partir do caldeirão do rap, cresceram pelo lado pop os excelentes O Rappa e Marcelo D2, que fazem o encontro do hip hop com o rock e o samba.
Tais manifestações periféricas são viáveis graças à tecnologia nova de gravação e distribuição. Ficou muito barato gravar um CD, vendê-lo e realizar a divulgação pela internet. É desse esquema que nasce um grupo como os cuiabanos do Vanguart, que mescla a tradição pantaneira ao folk rock de Bob Dylan. Esse é o mais recente estágio do pop brasileiro que ganhou maioridade com os Mutantes na década de 1960, mostrou uma tremenda inquietação na pós-ditadura militar e agora vem se fragmentando em inúmeros sons pelos downloads na rede mundial de computadores.
Tom Jobim dizia que “na minha época de rapaz, artista era Van Gogh”. Depois, as estrelas eram os Beatles, Michael Jackson ou Madonna. Hoje, com a internet, qualquer um pode virar a nova celebridade
Nos velhos tempos, o rock era uma distração que afastava você dos estudos; agora pode bem ser o que você esteja estudando.
Terry Eagleton
Raul Seixas já dizia que o rock´n´roll acabou com o surgimento dos Beatles, no começo dos anos 1960. O quarteto fabuloso de Liverpool inovou ao reunir o melodioso Paul McCartney com o roqueiro John Lennon, porém a novidade estava mesmo no esquema de produção e distribuição da música. Virou lenda a história de que o empresário deles comprou todas as cópias do compacto “Love me do”, em 1962, só para colocar o grupo entre os dez mais vendidos da Inglaterra. Havia os cortes de cabelo, os filmes, as relações amorosas, as viagens à Índia e as declarações bombásticas, como aquela de que seriam mais famosos que Jesus Cristo.
A ascensão dos Beatles foi acompanhada de uma perda de inocência quanto ao funcionamento do campo cultural no século XX. Dali em diante, não bastava fazer boas canções e ter talento. A visibilidade pública passou a contar muito, num esquema que alimenta, por exemplo, a mídia de celebridades ávida por separações conjugais, drogas, confissões. Que o digam os Rolling Stones, que rivalizavam os holofotes com os Beatles na mesma época. Eles perderam o guitarrista Brian Jones, encontrado morto dentro de uma piscina. Tinham o cantor (Mick Jagger) que jogava com a ambigüidade sexual, com seus trejeitos entre o grosseiro e a delicadeza.
Nos anos 1960, o rock vira pop. A carga pesada de marketing, no entanto, foi contraditoriamente acompanhada por uma sofisticação. O clima da época estimulou a aproximação com sons orientais, descoberta de novos instrumentos e influência de temas políticos. Bob Dylan começou aquela década apenas com violão e voz, seguindo o estilo rural dos cantores folk dos Estados Unidos. Mais à frente, passou para os sons elétricos. Causou a fúria de seguidores, mas buscou novos caminhos e influenciou os Beatles. A virada para a década de 1970 registra aos poucos uma impressionante onda de inovações e de radicalização desse pop.
Os Estados Unidos e a Inglaterra tornam-se o centro de uma nova cultura global para a juventude. Apareceram Kinks, Who, Pink Floyd, Love, Yardbirds, Jefferson Airplane, Doors, Jimi Hendrix e, sobretudo, Velvet Underground. Este último havia sido apadrinhado por Andy Warhol, expoente da Pop Art. Liderado por Lou Reed, o Velvet resgata os sons de Bob Dylan para juntá-los aos tons da vanguarda de Nova York, os chamados minimalistas. Em meio ao lema de paz e amor dos hippies, da espera pela Era de Aquários, surge esse grupo que fala da cidade sombria, drogas, sadomasoquismo, filmes do submundo.
O movimento rumo à sofisticação se acentuou no começo da década de 1970. O pop rock sonhou em alcançar o estágio de grande música. Canções se estenderam na duração, e os instrumentais tentaram seguir o padrão de uma sinfonia. Nomes como o do grupo King Crimson são a novidade que chama a atenção pela extrema elaboração musical. Perdem-se as melodias, e o pop vira algo sinfônico, com alto grau de abertura para inovações estranhas. Os mais populares nessa linha são os ingleses do Pink Floyd, que fazem até trilha sonora para o filme “Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni. É a época do som viajante.
“A day in the life” (1967), dos Beatles, representa uma síntese da capacidade de sofisticação da música pop. Primeiro, entra um violão com a voz de John Lennon. Aos poucos, vão aparecendo o piano, a bateria e as cordas de uma orquestra. De repente, há um corte. Ressurge a batida acelerada, o som de um despertador, mais violinos e uma nova interrupção. O ouvinte acompanha a montagem e a desmontagem de uma canção. Desfaz-se a ilusão de uma música pronta, surgida do nada e com perfeita harmonia e unidade. É como se pudéssemos ver os encanamentos de um prédio; eles ficariam de fora das paredes expondo a estrutura.
Sem futuro
Foi contra essa sofisticação que, em 1977, se insurge o movimento punk na Inglaterra. Com boas doses de marketing, a rapaziada não tem mais o frescor e a leveza dos Beatles. O período é de alto desemprego e dos primeiros passos da onda reacionária de Margaret Thatcher, que assume o poder em 1979 e espalha pelo mundo a praga do novo liberalismo. Enquanto ela rosnou “there is no alternative”, o Sex Pistols gritou “no future”. Começam aí tempos sombrios que, no universo pop, reaparecem anos depois no niilismo do grunge norte-americano de Nirvana, Soundgarden e Mudhoney. O som é rudimentar, e as letras expressam muito pessimismo.
A cultura suburbana dos punks tinha um companheiro em outro extremo: a cultura do heavy metal. Desde a década de 1960, grupos como Black Sabbath e Led Zeppelin fazem um som mais pesado, influenciado pelo blues norte-americano e muito bem tocado. Havia uma preocupação em fazer músicas no sentido da alta elaboração. O rock e depois o pop, diga-se de passagem, sempre se caracterizaram pela produção à base de guitarra, contrabaixo e bateria. O metal, o hard rock e os progressivos queriam ir além dessa estrutura elementar, o que rendeu a pecha de pretensiosos. Nesse clima, o movimento punk se coloca como a reação e defendia a simplicidade por meio do lema “faça você mesmo”. Bastava aprender meia dúzia de técnicas musicais.
À margem da disputa entre sofisticados e simplificadores, aparecem algumas manifestações que terão forte impacto no pop mundial nas décadas seguintes. Os alemães do Kraftwerk faziam música eletrônica antes mesmo da popularização dos computadores. Foi caminho aberto que vai ser desenvolvido em seguida por David Bowie (o camaleão e talvez o maior criador pop da época), Joy Division (que se tornaria New Order) e Brian Eno. Este último atua como produtor de grupos como U2 e vem dando esse toque europeu e eletrônico ao pop. Seria impensável o tecno de hoje sem o trabalho pioneiro dos criadores de “Autobahn” e “Robots”.
Outra manifestação fundamental foi o aparecimento em cena do jamaicano Bob Marley. Ele populariza a hibridização de sons, em nível global. O pessoal da Jamaica pegou um ritmo de país (o ska) e misturou-o ao soul norte-americano, criando o reggae. Aquele período é também a fase da “diáspora pós-colonial”. Diante da crise, habitantes de antigas colônias européias vão buscar a sorte nas metrópoles e levam a cultura negra, caribenha e africana para o centro do mundo. A chegada dos jamaicanos a Londres é um acontecimento sem igual, pois fazem a cabeça do exilado brasileiro Gilberto Gil e desencaminham os punks do The Clash e os roqueiros do The Police.
A influência da música negra é outra onda crescente nesses anos preciosos e vão servir de base para a explosão futura do rap. A gravadora Motown Records já havia colocado no mercado dos Estados Unidos uma série de grupos e cantores, como os Jackson Five e os Temptations, nos anos 1960. O ponto alto dessa onda black foi o surgimento da Marvin Gaye, que fundiu sons dançantes do soul com a experimentação de efeitos sonoros que vinha do pop inglês. Nessa trilha de inovação, aparecem Sly and the Family Stone e George Clinton com Parliament/Funkadelic. É possível ver essas ousadias no rap de hoje e em grupos brancos como o Red Hot Chili Peppers.
Tudo ao mesmo tempo
O hibridismo foi uma das principais heranças daquele período. A música da diáspora negra e os sons black dos norte-americanos dão uma liberdade grande de criação e revigoram a música pop. No entanto, a contribuição maior ocorreu na inversão do movimento de influência cultural. Tradicionalmente, as formas culturais dos países centrais viajavam para a periferia do mundo. Com a hibridação, há a contaminação de influências que não permite mais definir quem é o criador. Os ingleses do The Clash foram os mais bem sucedidos aos fundir o reggae jamaicano ao punk europeu.
Os Talking Heads entenderam bem a importância do hibridismo. Nascido na vanguarda de novaiorquina, o grupo de David Byrne juntou o punk, a eletrônica e a música africana. Hoje, ele é capaz de dialogar intensamente com o brasileiro Tom Zé, uma das figuras mais importantes do Tropicalismo, que ainda revelou aos estrangeiros a criatividade dos Mutantes de Rita Lee e os irmãos Baptista. A cidade de Nova York viveu na virada para os anos 1980 um período muito fértil que variava dos punks dos Ramones ao pop do Blondie, passando por Television, Patti Smith e, mais tarde, o minimalismo do Sonic Youth.
Na Londres dos anos 1980, o pop começou a olhar para trás. Os novos grupos se voltaram ao passado para resgatar a psicodelia dos anos 1960 e misturá-la à urgência dos punks e da vanguarda novaiorquina. Da Liverpool dos Beatles, veio o Echo and the Bunnymen. A cidade de Manchester teve New Order e The Smiths. Este último buscou os sons bem melódicos do pop britânico de 20 anos antes, adotou a pulsação punk e se deu o direito de cantar sobre os “doces hooligans” (torcedores de futebol fanáticos e violentos), além de desafiar o conservadorismo de Thatcher, que estava jogando a ilha na irrelevância e tornando-a um satélite dos Estados Unidos.
A contrapartida do pop rock norte-americano teve duas vertentes nos anos 1980. Primeiro foi o surgimento da música produzida por universitários e a criação de um circuito alternativo no país, cujo nome maior foi o R.E.M. e seu som influenciado pela vanguarda de Nova York e o rock caipira dos Byrds. Mais para o final da década, os Pixies saem de Boston e se lançam em Londres. Todos pensam que se trata de mais um conjunto inglês. O que os dois grupos sinalizam, na verdade, é o nascimento de um ambiente que vai resultar no grunge a partir da década seguinte. Será o casamento do mercado alternativo com um retorno ao espírito livre dos punks.
Nesse mesmo período, a abertura de novos espaços foi crucial para a música negra. Com a hibridação, o pop da classe média branca descobre e passa a consumir o rap de grupos como o Public Enemy. Qualquer jovem de periferia poderia fazer sua própria música e “cantar falando” à maneira de Bob Dylan. Essa explosão negra teve o estímulo de dois grandes músicos ao transformar o funk e o soul: Michael Jackson e Prince. O primeiro colocou o mundo para dançar com músicas bem populares, e o segundo retomou a capacidade de experimentação dos anos 1960 para usá-la dentro da mais alta tecnologia. Prince abriu inúmeros caminhos para a música.
Sociedade das redes
Os anos Reagan e Thatcher foram catastróficos em termos políticos, sociais e comportamentais. Foi o período de trevas, do “não há alternativas”. A resposta musical veio pelo grunge nos Estados Unidos e pela popularização da cultura das raves na Inglaterra. Garotos de Seattle, no noroeste americano, usaram o mercado de música alternativa para divulgar um som que misturava o heavy metal dos anos 1970 com o rock mais novo de Pixies, Jesus and The Mary Chain e Sonic Youth. O pop voltou a ter a agressividade e vigor. O niilismo, no entanto, levou a principal figura (Kurt Cobain) do movimento ao suicídio, repetindo a vida breve de muitos astros.
Na virada para os anos 1990, os ingleses se esbaldavam em festas (as raves) com ecstasy e músicas que mesclavam eletrônica, funk, punk e Beatles. Nomes como Happy Mondays, Soup Dragons e Stone Roses começam uma nova onda que vai se consolidar em seguida com Oasis e Blur. O pop inglês recuperava sua importância e refletia o momento de mudança política com a chegada do primeiro-ministro Tony Blair, uma figura mais humana que rompia com os anos de fundamentalismo liberal. Houve um revigoramento inglês, já bem modernizado pela eletrônica e com referências constantes a Beatles e Rolling Stones.
Ao longo daqueles anos, a eletrônica ganhou terreno. No lugar de grupos com formações de guitarra-baixo-bateria, os DJs usam pedaços de músicas, sons gravados na rua, e realizam colagens. A canção tocada por pessoas desaparece, e nasce uma nova forma feita de retalhos de outras músicas. Fat Boy Slim e Chemical Brothers inovaram ao recuperar os experimentos do Kraftwerk, que fazia tudo em computadores 30 anos antes. Com uma base instrumental pré-gravada e também feita de pedaços de outras músicas, os rappers também avançam ao criar letras sobre o cotidiano difícil das metrópoles e viram os trovadores modernos pelo mundo.
A síntese entre pop rock e eletrônica veio com o Radiohead – o nome do grupo foi inspirado numa canção dos Talking Heads. A banda começou na trilha do grunge, com instrumentos tradicionais e muito barulho. Aos poucos, as músicas de Thom Yorke assimilam sons estranhos, computadores e chegam a uma hibridação eletrônica em “OK Computer” (1997). O último lançamento, “In Rainbows” (2008), foi o pioneiro de um grande grupo ao ser lançado apenas para download na internet. A rede mundial de computadores acabou entrando em todas as fases da música pop, da produção à comercialização. Muitos apostam que não haverá mais campeões de venda.
Cauda longa
Chris Andersen fez uma análise que ficou popular na era da internet. Segundo ele, a indústria fonográfica se construiu na venda de milhões de cópias de alguns poucos artistas. Foi o tempo dos big hits. A partir dos downloads, o cenário muda para poucas vendas de muito artistas. Essa é a teoria da “cauda longa”, que faz brilhar os olhos dos fanáticos por redes sociais (Orkut, Facebook, My Space). Os músicos passam a ganhar dinheiro nos shows, e o CD e as canções baixadas por computador tornam-se material de divulgação e até podem distribuídos de graça – uma vez que a luta contra a pirataria já é considerada uma derrota certa.
Tom Jobim dizia que “na minha época de rapaz, artista era Van Gogh”. Depois, as estrelas eram os Beatles, Michael Jackson ou Madonna. Hoje, com a internet, qualquer um pode virar a nova celebridade, bastando estar metido num esquema de comercialização por meio de redes sociais e lojas virtuais para downloads. Se vai ser considerado um gênio ou um grande músico, isso pouco importa. Pois o pop não poupa ninguém e deglute tudo.
Marcinho VP não teve caixão metálico do brother Michael Jackson, teve latão de lixo do Complexo Penitenciário de Bangu. A estrela desceu

— E aí, negão, subindo agora?
— Não deu mais, brother...
— Senta aqui do lado. Olha só a baía de Botafogo.
— A gente vai demorar aqui? Podia passar logo.
Representação
Carlo Ginzburg escreveu um ensaio para investigar a noção de representação, um tema muito caro às ciências humanas em geral. Segundo ele, o termo era usado na época em que os corpos de soberanos mortos na França e na Inglaterra precisavam enfrentar longos funerais. Enterrava-se o cadáver, e um boneco de cera ou madeira, com a reprodução dos traços do monarca, era colocado para visitação nas cerimônias. O que se sepultava, por último e com todas as honras, era a representação do rei. Representar é ter um objeto no lugar de outro.
O velório de Michael Jackson teve muito de representação. No lugar do corpo à vista de todos e das câmeras de televisão, havia um caixão metálico, ao que parece, e encoberto de flores. Será que o corpo do cantor já havia sido enterrado? Ninguém viu nada, não tinha cadáver para ver e comprovar que ele realmente morreu. O palco, além do caixão, abrigou artistas, parentes, atores famosos, esportistas, todos ali ocupando seus papéis de celebridades, de pessoas públicas – essa a outra definição para o ato de representar, estar no lugar dos outros.
— Te lembra, negão, quando nos encontramos, aqui mesmo, no Dona Marta?
— Mais ou menos, brother.
— Pô, fevereiro de 1996... Gravação do clipe, teve o rolo para gravar aqui.
— Ah, eles ainda se importavam comigo.
Encontro inesperado
O cineasta Spike Lee bolou um clipe de Michael Jackson com filmagem no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Coisa de 13 anos atrás. Teve uma história de negociar com Marcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, que seria o representante do tráfico local e poderia liberar aquele trampo. Bandido pé-de-chinelo virou manchete de jornal e de televisão. Esse é o cara, o mais perigoso da cidade e que deixou a estrela mundial baixar na favela. Michael desceu e subiu de helicóptero, parecendo sequência de “Apocalipse Now”, com norte-americano invadindo país bárbaro.
Após a filmagem de “They don´t care about us”, Marcinho deu entrevista para o “Jornal do Brasil”, “O Dia” e “O Globo”. Lascou tudo. Como é que um mané daqueles, que nem peixe grande era, sai dando uma de bonitão? Sem noção demais. O jornalista Caco Barcellos sacou que era a “hora da estrela” e propôs o romance “Abusado, o dono do Morro Dona Marta”, lançado mais tarde em 2003. O livro diz esconder as identidades de pessoas, mas conta as histórias do tráfico carioca. Deu a maior bandeira. Vacilão, Marcinho parecia querer ser o dono de tudo.
— Você gosta de holofote, brother.
— Negão, que papo é esse? Gosto de pensar. Estratégia.
— Tu canta funk, conta a verdade aí.
— Nada rapaz. Negócio meu é ler.
O banqueiro e o traficante
Em 1998, o documentarista João Moreira Salles enfiou na cabeça que deveria subir um morro carioca e fazer “Notícias de Uma Guerra Particular”. Foi ,junto, Kátia Lund. Deu de cara com Marcinho VP. Perguntou se a vida dele era traficar. Que nada, disse o cara, negócio meu é estratégia, pensar a logística da coisa, imaginar outra vida para a comunidade. Foi tanto palavrório que o cineasta tirou do filme as duas horas de depoimento. Trechos vieram a público em 2003, quando o abusado morreu.
Marcinho VP para João Moreira Salles: "Minha luta será sempre pelo povo (...) Eu queria fazer filosofia, ser professor. Aqui, para não ser morto, você tem de tomar uma atitude. (...). Não existe possibilidade do morro sem tráfico. Ou você é traficante ou escravo do capitalismo. O povo brasileiro é totalmente omisso, escravo. (...). Eu quero conscientizar o meu povo de que não pode continuar assim. Eles têm que brigar".
Filho de banqueiro e irmão de dono de uma grande editora, João jogou a isca. Marcinho poderia escrever um livro. Para isso, teria um adiantamento. Topou e fugiu da polícia. Foram mil dólares mensais, durante três meses.
A casa caiu no dia em que a polícia descobriu a mesada, lá pelo ano de 2000, e decidiu vazar a história para a imprensa. Joãozinho dava dinheiro pra traficante escrever livro? Conta outra. O jornal “O Globo” nem quis saber e chutou o balde. Deu um rolo danado. O coordenador de segurança pública caiu, o documentarista apareceu mal na foto. E o cara que negociou com Spike Lee a filmagem do clipe de Michael Jackson virou estrela de vez. Aqui, seguimos de perto o ensaio “Marcinho VP (um estudo sobre a construção do personagem)”, de João Camillo Penna, publicado no livro “Estéticas da Crueldade” (2004).
— Conta aí, dá vontade de ser negão de novo?
— Brother, é tudo representação. Eu não sou mais eu, sou um outro.
— Também senti isso. Achavam que eu era o monstro, o fodão, e até me colocaram numa Comissão Parlamentar de Inquérito. Virei personagem
— Precisa de muito culhão para agüentar.
Crueldade
João Camillo Penna faz um inventário de como Marcinho VP vai da história do clipe de Michael Jackson à imagem de mega-traficante. Sobe na vida, fala muito, porém é destituído de voz, é editado. Vira objeto e nunca sujeito. O pior foi na época quando alguns acreditaram nas viagens do personagem Abusado. O traficante preso em 2003 ligou para o autor e pediu para ler a obra porque saíram umas coisas na imprensa e tinha neguinho puto da vida.
De tanto acharem que se tratava de bandidão, Marcinho foi em cana. A galera do presídio detestou a coisa do livro . Mario Amaro de Oliveira voltou a ser de carne e osso, pois os colegas presos decidiram matá-lo e colocá-lo na lixeira. Morreu como despojo do biopoder à brasileira. Não teve caixão metálico do brother Michael Jackson, teve latão de lixo do Complexo Penitenciário de Bangu. A estrela desceu.
Vida nua
O poder penetra os corpos vistos apenas em seu aspecto biológico. Perdem o nexo político. O corpo de Marcinho VP precisava, na ótica da mídia e do governo, ser extirpado da sociedade para assim fazer a purificação. Eliminação é faxina social. Dito e feito: acabou na lata de lixo porque falou demais e não soube qual era o seu lugar. Onde se viu falar uma coisa dessas em CPI no Congresso Nacional: “Ele [João Moreira Salles] teve a oportunidade de ver que estava lidando com uma pessoa que é povo que nem ele. Porque o senhor [o deputado Robson Tuma] está dividindo as classes, a ideia dele não foi dividir classes, foi lidar com problema de ser humano pra ser humano. Por isso houve essa necessidade no coração dele”.
A biopolítica invadiu o corpo de Michael Jackson por meio de próteses. O nariz afinou, a pele ficou branca. A mídia foi implacável: era a degeneração, pois não poderia ser coisa de gente normal. Porém, a mesma mídia estimula a insatisfação com o corpo e produz a montanha de programas com médicos que sugerem como ter um corpo melhor e bonito. É ela que espalha a onda do bodyfitness, para em seguida tratar como auto-mutilação. Michael Jackson virou representação do monstro. The star is dead.
Francisco Ortega: “A mídia se apropria com frequência do discurso médico da auto-mutilação e o dissemina na sociedade, apresentando-o como um problema social emocionalmente provocativo que faz surgir um sentimento que mistura medo, repugnância e horror nos leitores diante das descrições sensacionalistas de práticas de modificação corporal. Constitui-se um discurso moralista que compreende as práticas unicamente como regressões inumanas ou comportamentos de desvio”.
— Agora, negão, é vida eterna.
— Nua e crua, brother.
Rubem Fonseca é um dos principais pontos de referência contemporânea. Alguns dizem que sua qualidade foi antecipar os traços da violência das cidades, mas outros têm certeza de que estamos diante da exploração barata de crimes e do rebaixamento das mulheres – numa versão urbanizada de Jorge Amado

Ler a literatura contemporânea é sempre muito perigoso. Causa medo errar na avaliação. O autor pode simplesmente sair de moda ou ter a obra morta antes de sua própria morte. Por isso, algumas universidades definem hoje que o contemporâneo no Brasil termina em Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Há, porém, quem encare o desafio de entrar no terreno movediço da produção a quente. Os mortos estão frios e conservados para degustação segura e deliciosa de um tempo que louva o ideal abstrato e vazio de conhecer e valorizar apenas os clássicos. Na verdade, são as estudiosas brasileiras que mais se debruçam sobre uma produção variada e, como no espírito da época, fortemente pressionada pelos padrões de mercado.
Beatriz Resende enxerga três aspectos na produção literária atual no Brasil: fertilidade, qualidade e multiplicidade. A síntese de sua análise está em “A literatura brasileira na era da multiplicidade”, no livro Contemporâneos (2008). O terreno fértil revela que nunca se escreveu tanto como agora. A qualidade aparece, segundo ela, na “escrita cuidadosa, o conhecimento das muitas possibilidades de nossa sintaxe e uma erudição inesperada, mesmo nos autores muito jovens deste início de século”. O lado múltiplo fica evidente na variedade de tons e formas. Beatriz tem uma visão que destoa do pessimismo superficial que só vê fracassos nos autores brasileiros contemporâneos.
Os autores representativos para Beatriz Resende são os suspeitos de sempre: Sérgio Sant´anna, Rubem Fonseca, João Gilberto Noll e Silviano Santiago. Mas, no livro, ela faz apostas em análises mais aproximadas de Bernardo Carvalho, Cecília Gianetti, Paloma Vidal, Santiago Nazarin, Luiz Schwarz, Daniel Galera, Joça Terron, Maira Parula e Ana Paula Maia. Não existe uma preocupação de eternizar o que se faz na atualidade, mas sim de avaliar o que essas pessoas estão dizendo e escrevendo para merecer a atenção dos leitores atuais. As narrativas podem sair tanto em livros lançados por grandes casas editoriais, como em páginas na internet.
Ao seguir o pensamento de Beatriz, o leitor vai conhecendo certas características partilhadas por autores brasileiros contemporâneos. Há, segundo ela, a presentificação das coisas, como se não houvesse passado nem futuro. Bem ao sabor da época, tudo se resolve no presente mínimo e que desacredita no amanhã superior ao hoje. O progresso material ou das relações humanas desaparece nas metrópoles, onde é possível apenas o destino trágico. Dessa maneira e como o mercado (e não o diabo) gosta, a presença da violência urbana vira um segmento de best sellers. É bom negócio narrar o medo de uma classe média ao encontrar pobres, pretos & favelados. O outro se torna o monstro a assombrar becos e vielas das grandes metrópoles.
Quando se cobra de um autor brasileiro uma presença na república mundial das letras, deve-se ter em conta que o desafio não é de qualidade literária. A questão é de mercado, de estar dentro de um padrão

O campo literário rechaça o compositor. Quando Chico Buarque deixou o lugar cômodo e seguro de músico e aceitou correr riscos, vieram os ataques mais violentos e ressentidos, que por sinal persistem até o recente lançamento do romance “Leite Derramado”
Anos atrás, Roberto Schwarz notou o resultado pouco animador da eleição de um intelectual com boa formação marxista e, depois, de um sindicalista moderno à Presidência da República. Ambos nasceram politicamente na resistência à ditadura militar (1964-1985), mas, ao assumir o comando do país, sucumbiram à razão prática que criticaram no passado. As pessoas vindas dos movimentos de esquerda tiveram um êxito na disputa pelos cargos mais importantes na política brasileira, sem que houvesse a correspondente vitória de um pensamento de esquerda.
“O êxito da esquerda foi pessoal e geracional, mas não de suas idéias, das quais ela se foi separando, configurando algo como um fracasso dentro do triunfo, ou melhor, um triunfo dentro do fracasso. Talvez se pudesse dizer também que parte do ideário de esquerda se mostrou surpreendentemente adequado às necessidades do capital. O respeito marxista pela objetividade das leis econômicas não deixa de ser uma boa escola”, disse Schwarz, num discurso em homenagem ao arquiteto Sérgio Ferro, que foi um militante da luta armada dos anos 1970.
Sérgio Ferro é um dos intelectuais de esquerda que lutaram contra a ditadura e, passados os anos, se mantiveram ligados aos princípios de esquerda. Não foi mais um a se ajustar aos tempos modernos por pragmatismo ou oportunismo. Não houve aquela atração pelo mercado, pelas facilidades do capital, que diluíram as ambições intelectuais e até mesmo reformistas (dizer revolucionárias virou termo pejorativo) dos arquitetos contemporâneos. Ele se preocupa com as relações sociais nos canteiros de obras e não com a decoração de interiores de casa e apartamentos.
A trajetória de Sérgio Ferro e a análise de Schwarz são relevantes para entender o caminho tomado por Chico Buarque ao longo de sua carreira. Aliás, o compositor de “Construção” fora aluno de Ferro na Universidade de São Paulo, lá no começo dos anos 1960. Há um sentimento comum dos três (Ferro, Schwarz e Buarque) sobre o quanto é difícil e complexo se manter íntegro em relação às visões próprias de mundo, pois existe uma pressão social muito grande para que eles se ajustem às últimas crenças do mercado de idéias.
Chico Buarque transita no fio da navalha da indústria cultural e a grande arte. Seja na música, seja na escrita (romance, teatro), ele insiste em antecipar movimentos. O compositor dos anos 1960 catalisou o clima de “respiração artificial” no período mais duro dos militares. Foi o intelectual engajado que, com meias palavras, atingia em cheio os comandantes do regime, em canções como “Apesar de você" e "Acorda, amor”:
Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão
Que aflição
Era a dura
Numa muito escura viatura
Minha nossa, santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão
Ao mesmo tempo, o engajamento dividia espaço com o intérprete da alma humana. Era capaz de criar personagens, como em “Valsinha”:
Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz
Em “João e Maria”, foi capaz de jogar com os tempos verbais e denunciar a própria ficção que o ser humano cria: “Agora eu era um herói...”.
Chico foi virando uma marca da resistência à ditadura e uma certa sensibilidade brasileira. Sua presença era garantia de crítica certeira ao regime. Mais importante: ele cumpria a função de fazer a ponte entre os intelectuais e a massa. Na sociedade brasileira, os letrados se isolam e vêem sinais de populismo em qualquer proximidade com o povo. Porém, os músicos são figuras que fazem essa mediação no país de poucas letras e os milhares de iletrados. Foi assim com Noel Rosa, ao qual Chico Buarque deu continuidade no trabalho hábil de aproximação social.
O ocaso da ditadura representou um esvaziamento do discurso engajado mais direto. Para o bom senso comum, não havia mais contra o que lutar. Afinal, o Brasil entrava na democracia, jogara o passado debaixo do tapete chamado Anistia, e os inimigos militares haviam sido derrotados. Interessante que, quando mais se precisou do pensamento crítico, ele se dissolveu na resignação e na adesão ao mercado. Não é por acaso que Caetano Veloso tenha se ajustado barbaramente aos instrumentos da indústria cultural e se dado tão bem. Ele consegue ser o pensador polêmico, porém dentro dos limites fixados pelo mercado.
Chico vai do “engajamento” à “perplexidade”. Ele não se ajusta às novidades. E foi na literatura que o olhar perplexo se manifestou com toda a intensidade. Quanto mais ele mergulha nas narrativas de ficção, no entanto, mais resistência encontra pelo caminho. “Aqui e ali narizes se torceram, e se torcem ainda, como se farejassem um turista das letras, pior que isso, um usurpador, um sem-credenciais a medir e ocupar com seus best-sellers a reserva de mercado das letras. ´O mundo dos escritores é muito complicado´, avalia Chico, mais à vontade no dos músicos”, escreve Humberto Werneck, num perfil biográfico do autor.
O campo literário rechaça o compositor. Wilson Martins o atacou sistematicamente desde o romance “Estorvo”, ao classificá-lo de mero plagiador. Bruno Tolentino aproveitou a oportunidade e começou a desqualificar a veia poética dos compositores da MPB. “Letra de canção não é poesia”, disse. Quando Chico Buarque deixou o lugar cômodo e seguro de músico e aceitou correr riscos, vieram os ataques mais violentos e ressentidos, que por sinal persistem até o recente lançamento do romance “Leite Derramado”.
Os admiradores do compositor engajado e lírico não estavam preparados para o escritor. No lugar de personagens inesquecíveis e cheios de poesia, surgiram figuras anônimas, uma narrativa tensa de um sujeito vagando pela metrópole caótica. “Estorvo” antecipa boa parte da produção posterior e contemporânea de narrativas que tratam da violência urbana. A perplexidade começa a dominar o universo de Chico, como ele mesmo bem sintetizou numa entrevista de dezembro de 2004:
Eu cada vez mais me abstenho por reconhecimento da minha limitação, da minha ignorância. Aí eu sou realmente modesto. Não sou modesto em relação ao que eu faço como artista. Mas, sobre os rumos ou possibilidades do país, não vejo honestamente que contribuição eu possa dar. O que eu posso fazer é só constatar minhas perplexidades, meus receios diante desse quadro cada vez mais assustador. Como não se vê perspectiva de mudança a curto ou mesmo a médio prazo, a sociedade toda é levada a um certo conformismo, ou mesmo a um cinismo. Na alta classe média, assim como já houve um certo esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário, com tintas de racismo e de intolerâncias impressionantes. O medo da violência na classe média se transforma também em repúdio não só ao chamado marginal, mas aos pobres em geral, ao sujeito que tem um carro velho, ao sujeito que é mulato, ao sujeito que está mal vestido. Toda essa indústria da glamourização, de quem pode, de quem ostenta, de quem torra dinheiro -enfim, ser reacionário se tornou de bom tom. As moças bonitas no meu tempo eram de esquerda. Hoje são todas de direita (risos). Boutades às vezes racistas, preconceitos de classe, manifestações de desprezo mesmo pelos mais pobres se tornaram algo muito comum e socialmente valorizado.
O artista Chico Buarque está apenas buscando formas novas de se expressar, no caso as da literatura. Para ele, a canção é um formato que se esgotou. O rap torna-se a novidade que é criada pelos e para os mais pobres. Ele não canta rap, mas está de olho (perplexo) no que ocorre no subúrbio:
Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda.
Das perversidades machadianas à perplexidade buarqueana, o escritor brasileiro vive enredado nas memórias. Há uma dificuldade enorme dos letrados em entender quem são aqueles outros que vivem nas ruas, sobrevivem de favores, trabalham na informalidade e moram em locais insalubres

O escritor dá forma à memória desordenada: uma brincadeira de criança, a alegria na fazenda, a passagem para a vida adulta, o rito de passagem intelectual, o desgosto pela convivência em meio à gente ignorante, a situação então incompreensível e agora entendida do país. O que são ruínas pequenas das lembranças serve de matéria para narrativas longas. Nada garante que tudo não vai continuar arruinado. O desconforto inicial torna-se prazer, e o autor dana a escrever, falar, interpretar. Quem fala é o indivíduo que não se considera parte de um extrato da sociedade. Ele decide qual o seu lugar diante dos outros.
O letrado brasileiro mantém uma relação tensa com os iletrados. Não abre mão do que tem, rejeita a compartilhar – ou melhor, evita comunicar com. Escrever significa ter o controle das representações, visões, interpretações disseminadas em toda sociedade. Quem escreve, manda. Contra isso, segundo Willi Bolle, surge a novidade do romance “Grande Sertão: Veredas”, que é um diálogo realizado na forma de um monólogo imenso. Já velho e latifundiário, o personagem Riobaldo conversa com um sujeito citadino – a cidade seria o espaço para a modernidade, as letras, a civilização. Cria-se finalmente um diálogo.
A literatura brasileira é feita por escritores que falam muito de si e assumem a missão de representar o outro iletrado. É um fardo para quem acha que nasceu para guiar a nação. O outro fala muito pouco, quase nada escreve. Em seus melhores momentos, esse narrador à brasileira problematiza a relação dos poucos que possuem todas as letras com os muitos que tiveram escassas palavras. Quando atingem momentos mais altos, os letrados desvendam suas próprias baixezas, que é a própria má-formação do país e dão voz aos iletrados para expor outra visão de mundo. Mas pouco espaço existe para o sem-letra escrever e exibir sua representação da vida.
Senhores perversos
A inovação de Machado de Assis foi criar um narrador diferente em seus romances de segunda fase, a partir de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. As primeiras obras já traziam o realismo e o quadro histórico de uma sociedade escravista baseada no favor, conforme assinala Roberto Schwarz. O novo narrador machadiano é o sujeito que escreve, se posiciona socialmente e sente um gozo imenso ao contar suas perversões. Brás Cubas fala de tudo, se contradiz. A cada capítulo, acha que pode mudar de opinião. O tom jocoso é sucedido, na mesma página, pelo ar solene e grave.
O narrador machadiano atinge um refinamento em “Dom Casmurro”. A atitude perversa continua a mesma de Brás Cubas, mas o personagem Bentinho traz a novidade da dissimulação. Desaparece o sujeito grotesco e espalhafatoso. Agora, tem o controle do mundo o indivíduo que sabe jogar com a teatralização da vida. O primeiro capítulo mostra os objetivos de Bentinho ao escrever: “Vou deitar ao papel as reminiscências que me vieram vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo”. Em plena época do realismo/naturalismo, Machado de Assis lança a “a ficção de si mesmo” de um personagem que conta suas memórias.
Emile Zola defendia que a escrita realista deveria ter os métodos do cientista que observa as coisas e cria um espelho da realidade. Machado vai contra essa orientação e tem consciência de que a escrita é uma construção, algo manuseado, sobretudo numa narrativa memorialística. No capítulo “Uma ponta de Iago”, de “Dom Casmurro”, o narrador apresenta seu estilo de filtrar o mundo pelas palavras: “O discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade”.
As memórias de Bentinho podem se dar o luxo de relatar assim o desfecho do motivo maior de sua escrita: “A mãe — creio ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça”. A “mãe” é Capitu, por quem o narrador se apaixonara, casara e sentira ciúmes intermináveis. No entanto, o narrador a trata com desdém, que é um traço dos letrados brasileiros em relação aos iletrados. Meio abobalhado no início do livro, o velho e silencioso Bentinho vai sofisticando as técnicas de dissimulação que, segundo ele, seria a principal característica negativa de Capitu.
A perversidade machadiana reaparece em Graciliano Ramos, um autor que, a princípio, trata apenas do mundo rural e está longe dos jogos de sobrevivência nas cidades. O personagem Paulo Honório, de “S. Bernardo”, dá continuidade a Bentinho ao escrever obsessivamente a respeito do ciúme e da propriedade. Já no início do romance, ele fala de sua divisão social da escrita. Mas logo desiste e assume ele mesmo a tarefa. O controle das letras é completo: “Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo com está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras”.
O “pio da coruja” ativa a memória de Paulo Honório, que passa a relatar a vida de fazendeiro e de marido de Madalena. “É o processo que adoto; extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço”, diz ele. Esse narrador transforma justamente os outros em bagaços. O ciúme pela esposa (uma letrada, em um meio rústico e tradicional) provoca o descontrole. Capitu e Madalena são mulheres esclarecidas que desagradam os senhores de todas as letras. Eles não conseguem controlá-las e usam a violência da escrita para impor uma versão dos acontecimentos. A elas, cabe o desfecho da extinção, da morte por tristeza, para que se mantenha a situação obscura e estagnada na sociedade.
Diálogo difícil
Guimarães Rosa traz a novidade dos narradores letrados que problematizam a difícil relação com os iletrados. Não há mais o sujeito isolado em casa, escrevendo suas memórias do tempo perdido. O que surge é um diálogo entre grupos sociais que foi interditado e, agora, pode finalmente se realizar. Os conhecidos neologismos do autor fundem as palavras de várias línguas estrangeiras com as expressões do interior de Minas Gerais. A escrita rosiana é uma reinvenção da fala do interior do país, uma recriação que mistura a oralidade dos iletrados à erudição dos letrados. Rosa não espelha o linguajar sertanejo, como seria de esperar numa narrativa realista. Ele a transfigura.
“O problema da falta de diálogo social é trabalhado nessa obra [Grande Sertão: Veredas] em todos os níveis: desde a situação narrativa, que confronta um narrador sertanejo e um ouvinte letrado, passando pela história contada, com a fala de chefes políticos e de pessoas do povo, até a representação de uma nação dilacerada e a utopia da invenção de uma nova linguagem”, nota Willi Bolle. Esse diálogo complexo dentro da sociedade brasileira é também o ponto central de outros contos de Guimarães Rosa, como “Famigerado” e “Meu tio o Iauaretê”. Tais narrativas indicam uma possibilidade de mudança social. Outra forma de dialogar poderia existir na cultura brasileira.
O otimismo dos anos 1950 vai se desfazendo na medida em que os anos avançam no Brasil. O papo fértil entre as diversas classes foi a utopia anterior ao Golpe de 1964, com os intelectuais se aproximando do povo, do “homem simples”. Os primeiros anos da ditadura militar se concentraram justamente na tentativa de rompimento do laço que se fortalecera desde os Centros Populares de Cultura (CPC) até a “câmera na mão” do Cinema Novo. Só partir de 1969 é que, sob a fantasia de ameaça comunista, os militares adotaram a política de encerrar, de uma vez por todas, o diálogo dos letrados com os iletrados.
A conversa impossível do intelectual com o outro aparece de maneira formidável em “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector. O livro não é a história da nordestina pobre. É a narrativa da dificuldade do escritor em construir a personagem que vive na mais absoluta pobreza. O narrador Rodrigo SM pode exercer todas as perversidades para criar Macabéa: “Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina”. Ele quer aparentar o controle total: “É um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós”.
Em alguns trechos, o criador se identifica com a criatura, afinal ele é um escritor e ela, uma datilógrafa. Ambos trabalham com a escrita. “Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si. Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus”. No fim, de desgraça em desgraça, o narrador condena o destino de Macabéa. Ela morre atropelada, e ele lembra que chegou o tempo de morangos. Não tem mais conversa, e tudo se acaba.
Eu, o supremo
O novo milênio é a continuação dos 30 anos anteriores, do final do século XX. Valoriza-se o individualismo. O consumo orienta os desejos. O conhecimento (as letras?) vira insumo para a criação de produtos. O dinheiro volátil viaja por computadores, em redes mundiais que conectam sujeitos ilhados.
Em ambiente de tamanha desagregação, dois memorialistas foram as duas melhores novidades da literatura brasileira recente. Bem ajustados à tradição cultural do país, seus narradores escrevem, contam suas memórias à beira da morte e desvendam as artimanhas dos letrados para controlar a sociedade. Estamos em casa com esses velhinhos perversos, herdeiros de Bentinho e Paulo Honório.
Em “Heranças”, Silviano Santiago dá voz a Walter, um senhor que se muda de Belo Horizonte para Rio de Janeiro de hoje para viver os últimos dias de vida. As memórias jorram: “Não importa se tenha de me valer de recursos artificiais na recordação e na descrição do tempo presente. Aceite, pois, que eu busque apoio na muleta da memória voluntária. Sairemos ganhando Garanto-lhe”. Seguem daí as desventuras de um homem com mulheres virgens, prostitutas, abortos preventivos, negócios com imóveis e na bolsa de valores. A quem deixar tanto dinheiro? Não importa; afinal o dinheiro só serve para ser acumulado no Brasil, sem destino. A herança, na verdade, é o próprio relato do livro.
O legado de outro memorialista recente difere da abundância de dinheiro de Walter. Em “Leite Derramado”, de Chico Buarque, o personagem Eulálio está num hospital, aos 100 anos, sem um tostão dos recursos e sem a glória do passado. Só lhe resta narrar a história desde os ancestrais portugueses ao atual tataraneto traficante de drogas. É a rememoração do lento declínio de como ele e o Brasil deixaram o leite derramar. “Eulálio Montenegro d´Assumpção, 16 de junho de 1907, viúvo. Pai, Eulálio Ribas d´Assumpção, como aquela rua atrás da estação do metrô. Se bem que durante dois anos ele foi uma praça arborizada no centro da cidade, depois os liberais tomaram o poder e trocaram seu nome pelo de um caudilho gaúcho”, destaca o narrador, sobre o passado importante de sua família.
O senhor exemplar do passado, no entanto, vai parar num subúrbio carioca, pouco antes de agonizar no hospital no ano de 2007. Numa das melhores passagens, ele e a filha Maria Eulália chegam ao bairro longínquo, que havia sido um local de “clubes campestres e chácaras aprazíveis”. Mas hoje: “Perplexa, Maria Eulália olhava aqueles homens de calção à beira da estrada, as meninas grávidas ostentando as panças, os moleques que atravessavam a pista correndo atrás de uma bola. São os pobres, expliquei, mas para minha filha eles podiam ao menor se dar o trabalho de caiar suas casas, plantar umas orquídeas”.
Das perversidades machadianas à perplexidade buarqueana, o escritor brasileiro vive enredado nas memórias. Há uma dificuldade enorme dos letrados em entender quem são aqueles outros que vivem nas ruas, sobrevivem de favores, trabalham na informalidade e moram em locais insalubres. Os melhores momentos da literatura brasileira estão justamente nos mergulhos pelos baixos instintos dos endinheirados e pelas vidas degradadas dos empobrecidos.
Em “O Cânone Ocidental”, um panfleto contra tudo e todos. Bloom fez um ataque violentíssimo, messiânico e ideológico ao que batizou de “Escola do Ressentimento”. Para ele, os ressentidos podem ser encontrados em seis ramos: feministas, marxistas, lacanianos, neohistoricistas, desconstrucionistas e semióticos. O pecado deles havia sido trocar os estudos sobre Shakespeare por autores que pertencem a minorias étnicas e sociais

O ano de 1994 marcou o início da disseminação, no Brasil, das idéias do crítico literário Harold Bloom. O entusiasmo por este scholar norte-americano restringe-se aos meios de comunicação que lhe dedicam páginas e páginas a cada novo lançamento. No ambiente universitário, as obras dele têm circulação bem restrita e dividem espaço com outros estudiosos de literatura. Trata-se, portanto, de um fenômeno predominantemente midiático. E é curioso buscar as razões para um estudioso complexo de literatura inglesa do começo do século XIX cair no gosto de divulgadores culturais, em um país periférico de língua portuguesa.
Não se deve estranhar a volubilidade dos letrados brasileiros em assimilar idéias da última hora – ou da “a última moda em Paris”. Em 1986, Roberto Schwarz lembrava que ele mesmo já assistira à sucessão de impressionismo, historiografia positivista, “new criticism” americano, estilística, marxismo, fenomenologia, estruturalismo, pós-estruturalismo e teorias da recepção. “É fácil observar que só raramente a passagem de uma escola a outra corresponde, como seria de esperar, ao esgotamento de um projeto; no geral ela se deve ao prestígio americano ou europeu da doutrina seguinte”, diz Schwarz.
A recepção de Bloom no Brasil é mais um movimento volúvel de troca de teoria, ainda que confinado a um ambiente (a mídia) avesso ao pensamento teórico. Mas qual a motivação para tanto entusiasmo nos meios de comunicação?
Harold Bloom caiu como uma luva em um cenário (a primeira metade dos 1990) em que o campo cultural brasileiro sofreu o abalo do fim dos regimes do Leste Europeu e encantou-se com as virtudes do mercado. Foi o período de virada em direção aos encantos da globalização econômica. Algo que um dos barões da mídia muito bem sintetizou no livro para louvar os 50 anos do caderno da cultura e entretenimento de seu próprio jornal: “Nenhuma obra mais causa escândalo, nenhum (sic) geração de artistas faz uma revolução, porque todas as experimentações com a forma já foram feitas. Parodiando Fukuyama, a história cultural também acabou”.
O jornal deste barão ilustrado foi, por sinal, o principal divulgador de Bloom, lá pelo ano de 1994. Na época, trombetas celebraram o lançamento do livro “O Cânone Ocidental”, um panfleto contra tudo e todos. Bloom fez um ataque violentíssimo, messiânico e ideológico ao que batizou de “Escola do Ressentimento”. Para ele, os ressentidos podem ser encontrados em seis ramos: feministas, marxistas, lacanianos, neohistoricistas, desconstrucionistas e semióticos. O pecado deles havia sido trocar os estudos sobre Shakespeare por autores que pertencem a minorias étnicas e sociais.
Esse tipo de comentário veio no momento certo para servir de arma no debate cultural e político brasileiro de 15 anos atrás. Um crítico de literatura romântica, alguém completamente deslocado no tempo e no espaço do país, dava a resposta exata para uma disputa, essa sim, de espaços. E é lógico que, para Bloom, o mentor do ressentimento só poderia ser um marxista.
Diz ele em “O Cânone Ocidental”: “O herói desses anticanonizadores é Antonio Gramsci, que em suas “Seleções dos Cadernos de Prisão” nega que qualquer intelectual esteja livre do grupo social dominante se se apóia apenas na ´qualificação especial´ que partilha com o ofício de seus companheiros (como outros críticos literários)”. É muito interessante notar como a escolha de Gramsci como inimigo coincide com as idéias de nossos aristotélicos aloprados que infestam hoje revistas e jornais brasileiros.
Bloom começou ali a pregar a existência de um mundo estático, cujo único movimento seria a luta edipiana de autores (a teoria da “angústia da influência”) contra o gênio de Shakespeare. E daí? E daí que foi um tal de redescobrir o “bardo inglês’, os clássicos universais. Numa época em que o mundo se voltava mais e mais para obras de africanos, árabes, indianos, aparece um especialista para falar de cânones e restringir o rol de obras que são reconhecidas como arte.
O militante Bloom faz a cruzada contra a linhagem de estudos que relacionam arte e sociedade. É a velha, surrada e conhecida história da autonomia da arte, que já foi esmiuçada por Pierre Bourdieu em “As Regras da Arte”. Em tempos mais reacionários e anticomunistas que o da Guerra Fria, porém, a defesa do cânone veio a calhar.
Os leitores midiáticos de Bloom usam o crítico norte-americano como arma letal na guerra de idéias, no “fim da História” cultural. É para isso que ele serve. Ataca-se a tradição da crítica materialista de Antonio Candido e Roberto Schwarz, mas não se recorre a Silviano Santiago ou a Luiz Costa Lima. A fórmula para os novos tempos, os anos 1990 globalizados, eram as sacadas contra uma “Escola do Ressentimento”, que estaria destronando e rebaixando as grandes obras canônicas. Porém, os divulgadores bloomianos não vão à sofisticada e criativa teoria de “angústia da influência”, até porque exigiria um aprofundamento de estudos.
O caso recente e pitoresco do efeito Bloom no Brasil ocorreu no lançamento do livro “Gênio”. Ao incluir Machado de Assis entre os “gênios”, o crítico norte-americano provocou lágrimas e uma tietagem que beirou a histeria. Um dos fãs soltou essa: “E é difícil não reconhecer a precisão deste julgamento da obra mais famosa de Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: ‘Brás Cubas jamais sofre e, por conseguinte, jamais sofremos com ele. Todavia, uma frieza misteriosa emana das suas Memórias Póstumas, obra que contém atmosfera tão original que não permite comparação com qualquer outro texto ficcional´".
Outro divulgador conseguiu uma entrevista com Bloom a respeito do novo livro e arrancou a confissão do mestre: “Considero Machado o maior gênio da literatura brasileira do século XIX. Ele reúne os pré-requisitos da genialidade: exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo. Procuro um grande poeta brasileiro vivo. Ainda não o encontrei. Conheço Carlos Drummond de Andrade e ouvi falar de Guimarães Rosa, que adoraria ler. Não sei se terei tempo”.
Bobagens não são exclusivas da mídia brasileira. Que o diga Larry Rother. Ele publicou no ano passado, no “New York Times”, uma reportagem sobre o centenário Machado de Assis na qual, obviamente, Harold Bloom é a grande estrela, a começar pelo título: “After a Century, a Literary Reputation Finally Blooms”. Ou seja, o dito maior jornal do mundo dispensou o principal leitor de Machado em língua inglesa, John Gledson, para ouvir os lugares-comuns de Bloom.
Quem deu a melhor dica para entender o efeito bloomiano foi Terry Eagleton: “A crítica de Bloom revela com clareza o dilema do liberal moderno, ou humanista romântico – o fato de que, de um lado, não é possível uma reversão a uma fé humana serena, otimista, depois Marx, Freud e do pós-estruturalismo, mas que por outro lado qualquer humanismo que, como o de Bloom, tenha sofrido as pressões agônicas dessas doutrinas, está fadado a comprometer-se com elas, a ser contaminado por elas”. Esse é um desejo bem atual na mídia e certos círculos intelectuais: voltar a um mundo anterior ao marxismo e à psicanálise. Ainda bem que jamais conseguirão.