Vida besta
Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro
![]() |
No seriado de televisão 24 Horas, o personagem Jack Bauer recorre a todo o momento à tortura para obter informações de suspeitos. É a ficcionalização da Lei Patriota, de 2001, com a qual os Estados Unidos colocaram seus próprios cidadãos num permanente estado de exceção, sob alegação de combate ao o terrorismo. A apologia do brutalismo já estendeu além-mar e apareceu no Brasil do Capitão Nascimento, do filme Tropa de elite, que assume a posição dos civilizados em meio aos bárbaros. Frente a um cenário de medo de atentados e crimes comuns, admite-se a infração das normas que, em outros tempos, receberam o nome de direitos humanos.
A linguagem da mídia piora as coisas e vai surrando as palavras, tornando-as mais e mais vazias. Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro. A reação é a busca da aniquilação de quem carrega essa suposta ameaça. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, no entanto, os norte-americanos perceberam que eles mesmos haviam se tornado “estranhos” para alguém. E nessas situações, o ataque preventivo vira a melhor defesa.
Giorgio Agamben vem analisando o moderno estado de exceção que suspende a validade dos direitos humanos para garantir a segurança. É uma contradição em cima de outra contradição. Segundo ele, o modelo político contemporâneo (o do biopoder) é o campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. A situação do ser humano que vive sob o biopoder é a do homo sacer, cuja vida se resume aos aspectos biológicos e não políticos. Agamben resgatou essa figura na Grécia antiga. O Estado pode fazer o que bem entender dos corpos. Se um prisioneiro judeu não tinha condições de trabalhar num campo, deveria ser eliminado porque se trata apenas de um corpo.
Candidatos também fortes a homo sacer são os asiáticos que vivem nas zonas de processamento de exportação. Eles trabalham 16 horas diárias, sem direitos trabalhistas e previdenciários, em fábricas que possuem todas as isenções fiscais possíveis e operam em puro regime de exceção econômica. Os iPods e tênis Nike são desenhados nos Estados Unidos e produzidos de maneira quase servil na China e Taiwan. É o sonho daqueles que criticam o Custo Brasil. Quem quiser maiores detalhes de como é o homo sacer oriental e hiper-produtivo pode ler Sem Logo — A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, da canadense Naomi Klein.
Sobre o modelo capitalista asiático, Slavoj Zizek fez uma pergunta intrigante: a China é o passado ou o futuro da economia de mercado? Caminhamos para um trabalho no estado de exceção, sem qualquer proteção, ou para a prosperidade? O universo do trabalho fornece uma infinidade de exemplos de como o humano é muslim (seria um muçulmano?). Há um reality show nos Estados Unidos (devidamente tropicalizado por aqui) cujo prêmio é um emprego ao vencedor. Ao longo dos capítulos, os participantes são demitidos um a um, e o apresentador aponta o dedo para dizer “você está demitido”. O homo sacer vai assumindo características assustadoras.
O Brasil sempre foi muito bom para operar o biopoder. Basta lembrar que fomos uma das últimas nações a abolir a escravidão no século XIX. Mas não somos racistas, gritam os intransigentes. O homo sacer brasileiro de hoje é negro, jovem, homem e pobre. Segundo as estatísticas, ele tem bem mais chances de morrer do que os brancos. Qual a explicação? Predisposição genética? Desigualdade de renda? Louvado em prosa medíocre na mídia e premiado no Festival de Berlim, o Capitão Nascimento tem uma resposta baseada na teoria dos jogos e já nos mostrou o que é a vida nua nessas bandas. Certo mesmo é que, para ele, a vida é mesmo besta.
leia mais...












