Lula no país do ornitorrinco
Diziam os ilustrados de então e de até pouco tempo atrás: basta deixar o sonho tropical de um país do futuro e assumir a condição de um satélite de países desenvolvidos. Resultado: um país com bancos entre os mais avançados e o quarto lugar no ranking mundial de homicídios

Em 1982, Felix Guattari esteve no Brasil e encontrou-se com o então sindicalista Lula. A conversa ficou registrada num livrinho de menos de 40 páginas, editado pela Brasiliense, numa daquelas coleções de bolso. Enquanto o intelectual francês relatava os últimos movimentos sociais na Europa, o operário brasileiro explicava as idéias do Partido dos Trabalhadores para tornar públicas as empresas estatais do país, com a gestão nas mãos da população e prestação de contas à sociedade.
Foi um diálogo fecundo entre dois mundos distantes que buscavam uma alternativa ao capitalismo ocidental e ao regime soviético. A opção chinesa ainda era algo desconhecido: o capitalismo ideal, no sentido de Adam Smith, que se tornaria o “show case” da virada do milênio. Naquele momento, começo dos anos 1980, as coisas pareciam possíveis de mudar. As palavras tinham força e amedrontavam. Tanto Lula quanto Guattari eram novidade nas discussões públicas.
O ano de 1982 foi marcante para os brasileiros, em eventos sem muita relação entre si. O México anunciou uma moratória de sua dívida externa e jogou a América Latina no caos econômico e social pelos 20 anos seguintes. Até o futebol, um símbolo de identidade, perdeu o sentido. A seleção brasileira foi derrotada para os pragmáticos italianos. Acabou ali qualquer desejo de ser diferente. A solução estava em reproduzir a eficiência dos europeus. Porém, o Brasil insiste na fantasia do “futebol-arte”.
Naquela época, também começou a ser taxada de ilusão qualquer iniciativa de ter um país diferente. O Brasil foi comprando idéias, as neoliberais, para colocá-lo no mesmo padrão de desenvolvimento dos países ditos avançados – hoje afundados na maior crise desde 1945. Diziam os ilustrados de então e de até pouco tempo atrás: basta deixar o sonho tropical de um país do futuro e assumir a condição de um satélite de países desenvolvidos. Resultado: um país com bancos entre os mais avançados e o quarto lugar no ranking mundial de homicídios.
A política perdeu espaço para a economia, uma vez que a racionalidade do mercado deveria controlar os “transes” dos políticos. A política deveria ser uma técnica, orientada pelo pragmatismo de pesquisas de opinião. É interessante ver o então líder sindical Lula no documentário “ABC da Greve” (1979), de Leon Hirszman. Numa cena, ele aguarda a vez de falar numa assembléia de trabalhadores. Percebe-se ali um sujeito que domina um público, que sabe o momento de atuar frente a uma platéia.
Se passarmos ao Lula de 2002 no filme “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles, é possível ver a transformação da política que vai agora para as minúcias do marketing. Nada daquele sindicalista falando ao livre, de barba e cabelos bem pretos. A imagem de agora deve ser adequada à televisão. A fala é importante, mas é o corpo do político que vai ao primeiro plano e deve se ajustar aos novos tempos. “Entreatos” é um Big Brother high-brow. Leon Hirszman mostrou um Lula no espaço público, e João Moreira Salles exibiu a ob-cena da política contemporânea.
Em certo momento de “Entreatos”, os marqueteiros simulam um show de auditório para apresentar a campanha de Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Os melhores políticos de esquerda estão lá, simulando um programa de televisão. É nessa linha que vai Barack Obama ao usar intensamente em sua campanha, e mesmo no governo, a internet – esta que é o meio de comunicação do “capitalismo tardio”, da financeirização.
Assim como 1982, o ano de 2002 foi igualmente marcante. A política já funcionava como “reality show”, telenovela que não narra mais a nação e moeda que controla os transes pela taxa de risco-país. Não há mais um fio que liga os vários pontos dispersos na sociedade. Grandes cidades transformam-se no inferno terrestre. É o mundo do filme “Linha de Passe”, de Walter Salles, do rap de Mano Brown e dos livros de Paulo Lins e de Ferréz. Desapareceu aquele universo de trabalhadores organizados e seus conflitos de “Eles Não Usam Black Tié” (1981), de Leon Hirszman.
Há seis anos, Lula tenta vender a idéia de que os fios podem ser reatados. Um projeto de país pode ser viável, defende ele. A contradição está nessa orientação política do atual presidente brasileiro e a marcha em direção ao desmonte total que gera uma riqueza expressiva de uma parte da população. Deseja-se uma situação mais igualitária e justa, porém deseja-se também o consumo sem controles, além da liberdade completa para o dinheiro ir e vir. E cresce os condomínios fechados, com suas cercas elétricas.
Francisco de Oliveira chamou essa contradição de “o país do ornitorrinco”, onde os intelectuais tucanos e sindicalistas petistas ocupam funções de operadores do mercado financeiro. Fundos de pensão aliam-se a banqueiros para comprar empresas estatais e, depois, revendê-las a companhias transnacionais. Tal qual o bichinho que não é um mamífero, nem uma ave, uma nova classe surge com uma fisionomia indefinível e volúvel. O comando do país está em parcerias do Bankboston com a CUT.
Como fazer política num cenário destes? Para Luiz Werneck Vianna, Lula descobriu a mágica ao montar um amplo acordo de concessões, que vão desde os sindicatos até os banqueiros. Todos ganham uma fatia do bolo e têm direito a uma voz. De tão boa que é a situação, não se deve estranhar que Lula tenha mais de 80% de aprovação, em todas as classes sociais e faixas etárias. Mas esse arranjo político se desmancha a partir de 2011, com a posse do novo ou da nova Presidente da República. Depois, recomeçará uma disputa política digna dos “reality shows”, com cenas de cinema catástrofe.
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