Desenho de  Wendy MacNaughton
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Edival Lourenço

POR EM 30/03/2009 ÀS 09:59 PM

Eis que senão quando, quase...

publicado em

Foi então que quase fiquei rico. O sujeito me apareceu já com um monte de informações minhas. Ele sabia que eu detinha o maior número de opções para vender propriedades na região. O pretenso comprador de fazendas portava um perfil acima de qualquer suspeita: grande feito um cavalo empinado, bem falante, cabeleira farta e bigode idem, tudo branco, botas incrementadas, cinturão largo com fivela de frigideira, roupas de grife country, camionetona Ran 4x4, cabine dupla, azul-cobalto e cromos faiscantes.

Eu também tinha já notícias dele. Ele me fizera chegar, hoje sei, mas na época nem suspeitava, ele me fizera chegar um monte de informações sobre ele, sem que eu soubesse que elas partiam dele. Quando foi me relatando suas possibilidades e pretensões, fiquei deveras eufórico. Primeiro, porque as informações batiam com as que eu ouvira falar. Segundo, porque vi ali na minha frente a oportunidade real de ganhar dinheiro numa proporção que jamais imaginara. Agora, sim. Nem que eu quisesse exercer as prevenções da dúvida minhas ambições não deixariam mais.

Aí ele puxou dum laptop e me mostrou fotografias de sua fazenda zebueira recém-adquirida em Uberlândia. Máquinas revirando terra, peões no curral em posições acima de qualquer suspeitas inseminando vacas, uma estrutura que dava gosto. Ele nos retratos, flagrado em gestos expressivos de quem ditava ordens.

Ao final da exibição das fotos ele abre outra tela, assim como que até meio distraído e me mostra uma cédula de crédito com sinais do tesouro americano. E me falou, menos exaltado do que falava normalmente, como quem confidencia,  do jeito de quem tem café no bule: Sou filho de criação de um magnata americano. Meu pai me passou um bilhão de dólares pra eu comprar fazendas no Brasil. Já investi o mesmo tanto na Austrália. Do you speak English?

Eu abanei a cabeça que não, e fiquei olhando pra cédula na tela do laptop. Não digeri o valor, mas como ele dizia que o treco era de um bilhão de dólares, não pude duvidar, porque era zero às pampas à direita do número um. Tampouco duvidei da veracidade da cédula de crédito.

Como ele disse que estava chegando de São Paulo, e a placa do carro confirmava, que veio dirigindo e estava um pouco cansado, e também porque já era hora do almoço, levei-o para se hospedar no melhor hotel da cidade. Na portaria ele disse pro atendente que poderia fazer a ficha em meu nome, porque ele havia esquecido a carteira no carro. O atendente era meu chegado e dei pra ele uma confirmação de cabeça.

No dia seguinte a gente começaria a via sacra às fazendas. Eu tinha no mínimo umas vinte no jeito pra lhe mostrar. Mas aí ele amanheceu com crise de labirintite e não podia nem se mexer. Mas eu soube que, mesmo tonto, recebia garotas no quarto, dessas caras pra derriça.  Nisso se passaram quatro dias. No quinto ele anoiteceu e não amanheceu. Mas a conta astronômica ficou lá no hotel, em nome do degas aqui.

Atinei de ligar pra fazenda de elite lá em Uberlândia e pedir informações:

— Ah, o Necão doido?... me falou alguém do outro lado da linha.

Foi então, como se diz, que eu caí em si.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 08:57 PM

Um sonho (latino) americano

publicado em

Eu tive um sonho. Eu tive um sonho ruim. Eu tive um pesadelo. Para ser franco, eu tive um pesadelo hediondo.

Sonhei que a marra mútua entre brasileiros e argentinos tinha azedado de vez. Migrou do futebol para as relações econômicos, daí para a diplomacia e, finalmente, desta para a força bruta, depois de uma declaração de guerra.

As forças portenhas vieram afiadas direto da guerra das Malvinas e as brasileiras chegaram ao front bisonhamente, vindas, de velho, da guerra do Paraguai.

Enquanto as batalhas se prolongavam indefinida, com perdas absurdas de lado a lado, o mundo, diante da crise econômica sem precedentes, escorregava de ré do neoliberalismo para o neoabsolutismo. Daí para o neofeudalismo foi um passo. E uma idade média, com cara de pós-modernidade, enraizou-se de norte a sul, de leste a oeste, feito uma praga sem remédio.

Transcorrido mais de uma década, finalmente a Argentina subjugou o Brasil. Mas o ódio dos argentinos por nós era tamanho que não quiseram anexar o nosso território ao deles. Começaram a nos explorar como se explorava um retiro ou um morgado na idade média.

Por direito adquirido ao vencerem guerra justa, os portenhos acharam por bem, não só rapinarem nossos cabedais, mas nos escravizar a todos. Primeiramente, procederam uma segregação rigorosa, separando as pessoas de seus núcleos familiares e de seu ambiente social. Impingiram-nos mordaças, uma mistura de freio de cavalo e boqueira de cachorro, para que não ouvissem nossa voz, tampouco pudéssemos conspirar contra eles.

Por intermédio da concessão de um dízimo periódico, os argentinos conseguiram que um concílio ecumênico mundial, com o papa no meio, exarasse uma bula atestando que os brasileños são seres desprovidos de alma, reduzindo-nos à condição análoga à de semovente.  Por isso poderíamos ser escravizados à vontade.

Destruíram nossas escolas, nossos monumentos, queimaram nossos livros, arrasaram nossas instituições culturais, políticas e sociais.  Atrelados por grilhões de ferro, eles nos acomoldaram em cafuas de papelão e plástico preto. Nos deram alimentação de porcino e carga horária de mula. Levaram nossas popozudas para seus desfrutes furunfários. As mulheres de poucos atrativos, mas em condições de procriar, foram gerar novas safras de escravos. Alguns machos testados foram pegos para reprodutores. Com o excedente de pessoas deu-se início a exportação de mão de obra escrava para o resto do mundo. Os mofinos, os coxos, os manetas, os desprovidos de habilidades em geral foram encaminhados aos desmanches para o aproveitamento de peças. O déficit mundial de órgãos para transplantes zerou em pouco tempo.   

Nosso Brasilzão transformou-se numa confederação de frentes de trabalho agrícola. Cada qual comandada por um irado feitor portenho, de voz gutural e azorrague em riste. Aboliram o samba, a cachaça e o carnaval. Do futebol só restaram os bordões dos feitores, ditos aos berros, que o deles é o melhor do mundo. A música que se ouvia agora era a chula, e o tango na velha voz de Gardel e um bandoneon rasgado. Um inferno a céu aberto se abateu sobre a pátria amada. Salve! Salve-se! 


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POR EM 16/03/2009 ÀS 05:11 PM

O homem trancado de fora

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A mulher levantou cedo. Na verdade foi de madrugada que ela se levantou. É que naquele dia tinha compromissos com fornecedores na cidade vizinha e para chegar no horário combinado, qual seja, antes do expediente, tivera mesmo que levantar-se com os primeiros espinhos de luz furando o véu da alvorada.

Fernando poderia ficar de bobeira na cama, tirando uns cochilos reparadores até mais tarde. Cumprira antecipadamente a meta do mês e fechou um acordo: aquela manhã seria dele para resolver uns businesses. Ou então não fazer nada, uma vez que a manhã era sua. Optou por não fazer nada e curtir uma preguiça maneira.

Mas a mulher, ao sair, lhe pediu um favor: ajudá-la a levar uns petrechos até o elevador. Sonolento e só de cueca, Fernando saiu no corredor engalfinhando um monte de tubos. Como não haveria mais ninguém transitando àquela hora, resolveu exercer suas gentilezas já um tanto descuidadas. Propôs ir até a garagem para completar a tarefa, levando as coisas também do elevador ao carro.

Fez tudo correndo como se temesse ser visto em trajes sumários. Mas na realidade a pressa era mesmo só para retornar ao berço e curtir sua tão acalentada manhã de preguiça.

Ao torcer a maçaneta, qual não foi a surpresa. Estava trancado de fora. Sem chave, sem roupas, sem celular, sem os óculos fundo de garrafa, em débito com a bexiga e outras precisões fisiológicas. Desceu correndo pelas escadarias para ver se ainda alcançava a mulher ajeitando as coisas no carro. Chegou tarde. O portão já estava terminando de fechar e ela alcançara a pista próxima, de alta velocidade. Pensou em ligar a ela, mas não havia como. Com a comodidade das memórias eletrônicas, nunca tinha decorado o número.

Ressabiado, foi até a portaria e pediu que olhassem nas anotações o número da esposa. Mas o dela não estava lá. O porteiro, entre sonolento e malicioso, ostentava um sorriso gaiato ante sua desdita. Pensou em ligar para um dos filhos que moram na cidade. Mas o problema era o mesmo. Eles só tinham celular, dos quais ele não se lembrava do números e não era possível pegar em listas nem em centrais de informações.

Injuriado, subiu pro seu andar e ficou no corredor, ao pé da porta, sem jeito, imaginado o que poderia fazer, já que a mulher não voltaria antes das doze. Não tardou para que a vizinha do lado entreabrisse a porta e o visse naquele estado. Ela ligou pro porteiro, denunciando o gesto atentatório. O porteiro lhe explicou o ocorrido e imediatamente ela propõe uma ajuda.

Para garantir a assepsia das intenções, chamou a mãe velha. Convidou o vizinho a entrar. De lá poderia subir pela janela, transpor as colunas que separam os dois apartamentos e adentrar o seu próprio, que deveria estar com a janela destrancada.

Sem titubear, nervoso e enxergando mal, Fernando escala a janela aos tropeços. Abraça as colunas com desespero e, sem avaliar direito se teria destreza bastante, se atira para vencer o vão.
 


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POR EM 10/03/2009 ÀS 09:27 AM

O despertáculo de Pio Vargas

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Domingo, 8, completou 18 anos da morte do poeta Pio Vargas, apontado por Paulo Leminski como um de seus sucessores. A carreira meteórica do autor de “Anatomia do Gesto” e “Os Novelos do Acaso” foi tragicamente interrompida por uma overdose de cocaína, na tarde de 8 de março de 1991, tinha 26 anos

Pa­ra co­me­çar com uma fra­se dos sa­u­do­sos e dos meio ca­du­cos, eu me lem­bro co­mo se fos­se on­tem: Era ju­lho de 1981 quan­do me mu­dei de vol­ta pa­ra Ipo­rá e fui re­si­dir à Ave­ni­da Mi­nas Ge­ra­is. A mes­ma em que mo­ra­va um jo­vem po­e­ta cha­ma­do Pio Var­gas. Já ou­vi­ra fa­lar de­le, ti­nha o vis­to al­gu­mas ve­zes, mas a gen­te nun­ca se fa­la­ra. Não que hou­ves­se mal­que­ren­ça en­tre nós. O que fal­ta­va era o es­ta­be­le­ci­men­to da ami­za­de. Cer­ta ma­nhã quan­do ele pas­sa­va à por­ta de mi­nha ca­sa, co­xe­an­do vi­si­vel­men­te (se­que­la dos ex­ces­sos da pe­da­go­gia ca­sei­ra), an­tes que eu to­mas­se a ini­ci­a­ti­va de in­ter­cep­tá-lo, ele me abor­dou. E fo­mos lo­go fa­lan­do de li­vros, lei­tu­ras, po­e­si­as. Em meio tem­po, éra­mos ve­lhos ami­gos.

Pio era ain­da um ga­ro­to es­tu­dan­te do ci­clo bá­si­co, alu­no da en­tu­si­as­ta pro­fes­so­ra de Por­tu­guês Lau­rin­da Bar­ba­lho, res­pon­sá­vel pe­lo acom­pa­nha­men­to de su­as pri­mei­ras cri­a­ções po­é­ti­cas. De­pois da­que­le dia, eram bas­tan­te fre­qüen­tes su­as pas­sa­das em mi­nha ca­sa, oca­si­ões em que de­mons­tra­va cor­dia­li­da­de e gen­ti­le­za co­mi­go, com meus fi­lhos e mi­nha mu­lher. Mas o que ele in­te­res­sa­va de fa­to era fa­lar de Li­te­ra­tu­ra e ter aces­so aos li­vros de mi­nha bi­bli­o­te­ca que, ape­sar de não ser gran­de, era uma das mais se­le­ci­o­na­das que ha­via em Ipo­rá, à épo­ca.

Até ho­je mui­tas pes­so­as di­zem que fui uma es­pé­cie de pai li­te­rá­rio de Pio Var­gas, que fui seu ori­en­ta­dor, a pes­soa que o co­nec­tou com a po­e­sia con­si­de­ra­da de boa qua­li­da­de. Eu mes­mo che­guei a ali­men­tar es­sa ilu­são por al­gum tem­po. Mas olhan­do ago­ra de lon­ge, pe­la pers­pec­ti­va que o tem­po nos dá, acre­di­to que há um equí­vo­co em tu­do is­so. Na ver­da­de, se há um pai li­te­rá­rio nes­sa re­la­ção, eu é que sou fi­lho de Pio Var­gas.

Ocor­re que eu bei­ran­do meus trin­ta anos, bus­can­do as­cen­são pro­fis­si­o­nal, cu­i­dan­do da fa­mí­lia, já es­ta­va bas­tan­te con­for­ma­do com a me­ra con­di­ção de lei­tor e au­tor di­le­tan­te. Mas Pio Var­gas me apa­re­ceu in­cen­di­a­do pe­lo en­tu­si­as­mo, com be­los ver­sos iné­di­tos, com fra­ses de efei­to des­con­cer­tan­tes, com mil pro­je­tos de es­cre­ver is­so e aqui­lo, de fa­zer e acon­te­cer atra­vés da es­cri­ta. Ime­di­a­ta­men­te fui con­ta­mi­na­do pe­la sua cha­ma po­é­ti­ca, co­mo se eu ti­ves­se vol­ta­do uns dez ou quin­ze anos em mi­nha vi­da, quan­do eu tam­bém an­da­va in­cen­di­a­do pe­lo ar­dor da pa­la­vra.

Foi en­tão que eu apres­sei a es­cri­ta e pu­bli­quei “Es­ta­ção do Cio”, meio que com­pe­tin­do com ele, que es­cre­via “Ja­ne­las do Es­pon­tâ­neo”. Lo­go em se­gui­da co­me­cei a es­cre­ver os po­e­mas de “Coi­sa In­co­e­sa” e fa­zer as pes­qui­sas pa­ra o ro­man­ce “A Cen­to­péia de Né­on”. Ele es­cre­via os po­e­mas que de­pois fo­ram dis­tri­bu­í­dos nos li­vros “Os No­ve­los do Aca­so”, “Ana­to­mia do Ges­to”, “Sa­bor de Pa­la­vras” e “Os En­ge­nhos do Vão”. Ha­via em nos­so tra­ba­lho mui­ta co­o­pe­ra­ção e cum­pli­ci­da­de. Eu da­va pi­ta­co nos tra­ba­lhos de­le e ele da­va nos meus.

Pio Var­gas era um ca­ma­ra­da crí­ti­co, go­za­dor. Per­dia a ami­za­de, mas não per­dia a pia­da, co­mo se diz. No en­tan­to era de al­ma le­ve. De­pois da pia­da e o ri­so gai­a­to era ca­paz de man­ter a mes­ma ami­za­de sin­ce­ra de sem­pre. Nu­tria um cer­to sar­cas­mo pe­las au­to­ri­da­des, pe­las pes­so­as bem-pos­tas, pe­los po­e­tas es­ta­be­le­ci­dos, por aque­las que co­mem abó­bo­ra e ar­ro­tam fai­são.

Is­so tal­vez te­nha lhe cus­ta­do ex­tre­ma­men­te ca­ro. Até ho­je, mes­mo pas­sa­do qua­se du­as dé­ca­das de sua mor­te, o po­li­ti­bu­ro li­te­rá­rio e o es­ta­blishment cul­tu­ral go­i­a­no não o en­go­lem. Ape­sar de ter dei­xa­do uma obra con­sis­ten­te, cri­a­ti­va e ful­gu­ran­te, é tra­ta­do co­mo um na­da li­te­rá­rio. Não há quem de di­rei­to que se atre­va a co­men­tá-la. É co­mo se ele ain­da cons­ti­tu­ís­se uma ame­a­ça pai­ran­do ar, que pu­des­se de re­pen­te rou­bar o pe­des­tal de al­guém.

Den­tro da co­men­da Tro­féu Ja­bu­ru, por exem­plo, há uma me­da­lha in­ti­tu­la­da Pio Var­gas de Agi­ta­ção Cul­tu­ral, pro­pos­ta por mim, quan­do es­ti­ve mem­bro do Con­se­lho Es­ta­du­al de Cul­tu­ra. Va­le lem­brar que mé­ri­tos não lhe fal­tam. Ele es­te­ve à fren­te de uma efer­ves­cên­cia cul­tu­ral con­si­de­rá­vel em Go­i­â­nia no fi­nal dos anos 80, prin­cí­pio dos 90, ao edi­tar e di­vul­gar no­vos au­to­res por meio de su­as ir­re­ve­ren­tes edi­ções xé­rox, in­ti­tu­la­das PN (de por­ra ne­nhu­ma). Mas por obra e gra­ça dos aba­fa­do­res de plan­tão, es­sa me­da­lha vem sen­do so­le­ne­men­te es­que­ci­da.

Seu li­vro “Os No­ve­los do Aca­so” foi prê­mio da Bol­sa de Pu­bli­ca­ções Hu­go de Car­va­lho Ra­mos, em 1990, pro­mo­vi­da pe­la UBE, com pa­tro­cí­nio da Pre­fei­tu­ra de Go­i­â­nia. Re­cen­te­men­te dei uma olha­da na lis­ta dos ven­ce­do­res do cer­ta­me des­de 1944. Adi­vi­nhem o que en­con­trei? Exa­ta­men­te a au­sên­cia do no­me de Pio Var­gas da lis­ta dos ga­nha­do­res, nos anais da ins­ti­tu­i­ção. E so­men­te o de­le.

Um dos mais be­los po­e­mas so­bre Go­i­â­nia foi es­cri­to por Pio Var­gas e se cha­ma “Ou­tu­bro ou na­da”. Num li­vro re­la­ti­va­men­te re­cen­te que reú­ne os po­e­mas de di­ver­sas épo­cas que têm Go­i­â­nia co­mo te­ma, es­se do Pio foi pro­vi­den­ci­al­men­te es­que­ci­do. Ape­sar de ter si­do lem­bra­do por oca­si­ão do le­van­ta­men­to. Um ou­tro des­ca­so: A bi­bli­o­te­ca do cen­tro de Cul­tu­ra Ma­ri­e­ta Te­les Ma­cha­do le­va o no­me de Pio Var­gas. No en­tan­to, em seu acer­vo não há uma úni­ca obra sua à dis­po­si­ção dos even­tua­is lei­to­res. Por is­so já foi en­tre­ou­vi­do o se­guin­te di­á­lo­go:

— Quem foi es­se tal de Pio Var­gas?

— Sei lá. De­ve ser al­gum pa­ren­te do Ge­tú­lio Var­gas.

Pio Var­gas foi um ape­deu­to ilus­tra­do. Não che­gou a con­clu­ir o pri­mei­ro grau, mas es­cre­via bem e de­cla­ma­va me­lhor ain­da. Po­rém o bom mes­mo era ver sua agi­li­da­de men­tal, su­as ti­ra­das es­pi­ri­tuo­sas, no ca­lor dos fa­tos. Cer­ta vez, a gen­te to­ma­va cer­ve­ja num bar ba­ca­na em Ipo­rá. Um dos con­vi­vas, re­co­nhe­ci­da­men­te de fa­mí­lia abas­ta­da, por um mo­men­to de mi­u­de­za es­pi­ri­tual, la­men­tou que te­ve de lu­tar mui­to pa­ra che­gar on­de se acha­va, co­meu o pão que o di­a­bo amas­sou, por ser fi­lho de pai po­bre. No que foi pron­ta­men­te in­ter­rom­pi­do pe­lo Pio:

— Se vo­cê é fi­lho de pai po­bre, eu sou fi­lho de “pai pér­ri­mo”. E a gar­ga­lha­da ge­ral in­ter­rom­peu a fal­sa la­mú­ria.

Cer­ta fei­ta um po­e­ta fa­lan­te, au­to­a­lar­de­a­dor e de es­ta­tu­ra agi­gan­ta­da che­gou a um even­to li­te­rá­rio em Ipo­rá. O tal po­e­ta se cha­ma­va Se­mi Gi­drão. Ao se apre­sen­tar ao Pio, ou­viu o co­men­tá­rio:

— Se um se­mi­gi­drão é tu­do is­so, ima­gi­na um gi­drão in­tei­ro!?

Nou­tra vez, quan­do era pre­si­den­te da Co­mis­são Na­ci­o­nal da Ju­ven­tu­de, um ór­gão que en­tão exis­tia no PMDB (que era um par­ti­do pro­bo e ide­a­lis­ta na lu­ta con­tra a di­ta­du­ra mi­li­tar), Pio Var­gas foi par­ti­ci­par de uma con­ven­ção em São Pau­lo. Lá foi con­vi­da­do à me­sa de hon­ra, co­mo ti­nha de ser. E quem foi fa­zer a aber­tu­ra do even­to? Ele, o pre­si­den­te do par­ti­do, o Sr. Di­re­tas Já, o pre­si­den­te do Con­gres­so Na­ci­o­nal, o mai­or mi­to de nos­sa His­tó­ria con­tem­po­râ­nea: Ulis­ses Gui­ma­rã­es. Após os pro­le­gô­me­nos de pra­xe o de­pu­ta­do Ulis­ses, já ve­lhi­nho, afir­mou:

—Eu sou um pe­e­me­de­bis­ta his­tó­ri­co... E sem mai­o­res ce­ri­mô­ni­as, Pio Var­gas o in­ter­pe­lou:

— His­tó­ri­co sou eu, pre­si­den­te, o se­nhor é pré-his­tó­ri­co. A gar­ga­lha­da foi ge­ral, in­clu­si­ve do pró­prio Ulis­ses. Daí em di­an­te a con­ven­ção tran­scor­reu no mai­or cli­ma de ale­gria e en­tu­si­as­mo. E a ti­ra­da agra­dou tan­to ao ve­lho Ulis­ses que mui­tas ve­zes de­pois, em oca­si­ões di­ver­sas, afir­mou que era um “pe­e­me­de­bis­ta pré-his­tó­ri­co”.

Dez anos de­pois de a gen­te se co­nhe­cer em Ipo­rá, Pio Var­gas mor­reu em Tur­ve­lân­dia, a 218 km da Ca­pi­tal de Go­i­ás, ví­ti­ma de uma do­se ca­va­lar de al­ca­loi­de. Na noi­te que an­te­ce­deu a sua mor­te, to­mei uma cer­ve­ja com ele num bar­zi­nho em fren­te à sua ca­sa, à Rua 24, no cen­tro de Go­i­â­nia. Eu fa­la­va de meus pro­je­tos, ele fa­la­va dos de­les. E tam­bém de um pro­je­to co­mum. Es­tá­va­mos co­me­çan­do a es­cre­ver um li­vro de po­e­mas a qua­tro mãos: um co­me­ça­va o tex­to e o ou­tro ter­mi­na­va. A au­to­ria era atri­bu­í­da a Gas­par do Val­le, as­sim co­mo Jor­ge Lu­ís Bor­ges e Bi­oy Ca­sa­res es­cre­ve­ram crô­ni­cas e as­si­na­ram com o pseu­dô­ni­mo de Bus­tus Do­mecq. Pio pa­re­cia es­tar com o co­ra­ção con­ges­ti­o­na­do de sen­ti­men­tos con­tra­di­tó­rios. En­tão ele me fa­lou uma coi­sa que não en­ten­di na ho­ra. Que a mor­te tal­vez fos­se uma for­ma de exer­cer a vi­da em sua ple­ni­tu­de, em sua con­di­ção mais ex­pan­di­da. Pen­sei que ele es­ti­ves­se fa­lan­do de uma pos­si­bi­li­da­de po­é­ti­ca, de uma coi­sa me­ta­fó­ri­ca.

Na­que­la noi­te ele ain­da dei­xou com a Edi­le­ne Na­ves, sua mu­lher, um en­ve­lo­pe la­cra­do pa­ra ser en­tre­gue a mim. Den­tro con­ti­nha um li­vro de tí­tu­lo sin­to­má­ti­co: “Tu­do Que é Só­li­do Des­man­cha no Ar” (do americano Mars­hall Berman) e um po­e­ma pa­ra eu com­ple­men­tar. Com sua mor­te no dia se­guin­te, con­cluí que o po­e­ma es­ta­va pron­to. Por­tan­to nun­ca o com­ple­men­tei, e nun­ca vou com­ple­men­tá-lo. É a pri­mei­ra vez que mos­tro es­se po­e­ma, que tem um tí­tu­lo su­ges­ti­vo: “Despertáculo”.

Des­per­tá­cu­lo

Es­tou pron­to
pa­ra a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do:

bo­tei vi­gia nos sen­ti­dos
e ilu­di com com­pri­mi­dos
ou­tros se­res a meu bor­do.
Aban­do­nei o ví­cio
de es­tar sem­pre
a so­le­trar ru­í­nas,
dei li­ber­da­de a meus de­ten­tos
mi­nha pres­sa di­lu­iu nos pas­sos len­tos
e ras­guei
meu ca­len­dá­rio de ro­ti­nas.

In­ver­ti a or­dem.

Já não saio por aí
a de­vo­rar com­pro­mis­sos,
to­mei pos­se no go­ver­no de mi mes­mo
e der­ro­tei os meus omis­sos.

Ven­ci a ba­ta­lhas
de ter que es­tar sem­pre por per­to,
às ve­zes voo pa­ra den­tro
do meu so­nho a céu aber­to.

Es­tou pron­to:

eu já con­cor­do
com a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do.

Os sons do ofí­cio

É por­que re­co­lho o vá­rio
no avi­á­rio das vér­te­bras
e me há um si­lo de cé­lu­las
e me há um qua­se-aquá­rio,
que o po­e­ma se me che­ga,
es­tu­á­rio.

Que me im­por­ta
a si­na ju­gu­lar das fa­ses,
a vi­da con­ju­gal das fra­ses
e o sem­blan­te cí­ni­co
das fe­zes,
se não fa­ço po­e­mas
co­mo quem de­fen­de tes­es.

Fa­ço po­e­mas
pa­ra que pas­sem os di­as
e pas­cem os re­ba­nhos
e os oce­a­nos pas­mem
an­te o nau­frá­gio
de to­das as da­tas
no ca­len­dá­rio-la­nho.

Ou se­ja, fa­ço-os
co­mo quem vi­ce­ja
os la­ços do ar­re­mes­so
co­mo quem vis­lum­bra
si­lên­cio nos en­tu­lhos
e apren­deu a es­tru­tu­ra ide­al
pa­ra mon­tar ba­ru­lhos
sob a lín­gua mais ba­nal.

Fa­ço-os
co­mo quem lam­be oá­sis no pla­nal­to,
dei­xa­do pe­las ba­ses
de um sim­ples so­bres­sal­to.

É co­mo se o ego
cou­bes­se in­tei­ro
na de­ter­mi­na­ção de um pre­go
que me fi­xa exí­li­os sob a car­ne
mas que tam­bém acio­na
os ga­ti­lhos do alar­me.

A mu­lher que Que­ro

Eu que­ro uma mu­lher de aço que se­ja le­ve co­mo a pe­na,
cu­jo sor­ri­so se­ja um la­ço
a me pren­der co­mo um po­e­ma.

Eu que­ro uma mu­lher ma­du­ra
a me gui­ar du­ran­te o dia,
quan­do for noi­te ser va­dia
a me do­mar sem ar­ma­du­ra
e a me to­mar co­mo num so­nho,
uma mu­lher que se­ja a lua
den­tro do sol em que me po­nho.

Eu que­ro uma mu­lher de fer­ro
com um aplau­so pra quan­do acer­to
e um per­dão pra quan­do er­ro,
co­mo al­guém que se­ja o bri­lho
den­tro do es­cu­ro em que me en­cer­ro.

Uma mu­lher que se­ja ple­na
uma aman­te de ver­da­de
que se­ja mo­ti­vo de lem­bran­ça
e um in­ter­va­lo na sa­u­da­de
que, di­ur­na, me cu­i­da,
mas que, no­tur­na me in­va­de.

Eu que­ro uma mu­lher-mãe
que se­ja vi­nho, cer­ve­ja,
re­fri­ge­ran­te, cham­pa­nhe,
que me en­ten­da se vi­a­jo
e se fi­co me acom­pa­nhe.

Eu que­ro uma mu­lher to­da
que me edi­fi­que co­mo ho­mem
e al­go de­pois me ex­plo­da.

 

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POR EM 09/03/2009 ÀS 08:22 PM

Herói Cubrado & Retumbante

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E o escudeiro Retumbante, quem será? Obviamente que outro não é, senão Fernando Collor, que em outras eras foi o algoz de Lula. O senador alagoano acaba de ser ressuscitado das trevas, do fundo de seu impeachment histórico, que representou a sua ré-tumbância. Fernando Collor acaba de se tornar o mais importante parceiro do Herói Cubrado Lula na condução do PAC

Engana-se quem pensa que o horroroso cacófato, encontrado logo no segundo verso do Hino Nacional Brasileiro,  seja apenas fruto da incúria de nossos  antigos compositores. A coisa é muito mais misteriosa do que inicialmente se parece. Na ausência de profetas bíblicos ou mesmo de um Nostradamus de plantão para abrir frestas  no futuro indevassável,  a peça cívico-musical  serviu de meio para a veiculação de secretos recados.   Algum presságio profético, perpetrado por providências enigmáticas, está inserido ali naquela abrupta trombada de letras. Não tenha dúvida.

Nosso hino é propositalmente escrito numa linguagem arrevesada, hermética, quase impossível de entender. Dá a impressão inicial de que se trata de uma peça de exaltação patriótica. Do tipo nóis é o bão. Nóis capota mais num breca. Nóis é nóis e o resto é nóis traveis.  Mas nas entrelinhas o hino dá notícias sinistras de um gigante pela própria natureza, ou seja, um mondrongo que não se adapta à vida prática e que tal mondrongo está deitado eternamente em berço esplêndido. Ou seja, sofre de algum tipo de preguiça de nascença ou distrofia congênita. Faz ainda relatos apocalípticos de armas  (clava), miséria(penhor), de lutas, cruzes  (cruzeiro) e morte.  E aquele salve! salve! do estribilho não deve ser tomado como viva! viva!, como até poderia parecer num primeiro instante. Talvez expresse mais um grito de desespero: help! help! Ou: Ô, cara! Acuda a gente, pô!

Agora o mais terrível mesmo é o tal do cacófato do segundo verso. Esse é de lascar o cano. Lança uma advertência fatal de que num momento tenebroso do futuro, pois o futuro é o cenário próprio das profecias, aparecerá uma dupla arrasa-quarteirão, tipo final dos tempos, para nos atribular de forma irremediável: Herói Cubrado & Retumbante.

E aqui não se trata de personagens satíricos que, numa técnica romanesca, nos alertam pelo contrário senso, que nos mostram como não devemos ser. Assim como Dom Quixote e Sancho Pança, de Cervantes. A profecia do Hino, como de resto toda profecia, é cabalística, fatal, manobrada por forças ocultas, que não retrocedem nunca. Você recebe aviso de que uma desgraça vai acontecer e qualquer esforço para evitá-la significa apenas mais um passo rumo ao buraco.

Sem a pretensão de retirar significados ultraprofundos, nem de realizar leituras acrósticas e transversais, como costumam fazer os exegetas da Bíblia e das Centúrias de Nostradamus, fiquemos com algumas considerações liminares dos dizeres apenas um pouco além dos sentidos textuais.

O binômio Herói Cubrado traz dois termos paradoxais entre si, mas que no fundo são complementares. Herói é o sujeito notabilizado pelos seus feitos grandiosos. Já cubrado requer um pouco mais de imaginação. Trata-se do particípio do verbo cubrar, que neste caso vira um adjetivo, um qualificativo do herói.  Mas que verbo é esse? Vamos devagar que profecia é coisa embaraçada.  Mas quem tiver ouvidos de ouvir, que ouça. Cubrar é uma variação espúria do verbo cobrir, derivada talvez do presente do seu subjuntivo: que eu cubra, que tu cubras,  que ele cubra etc. Daí, o verbo cubrar. Essa derivação não logrou alcançar os dicionários de hoje em dia. Uma desinência que ficou perdida, qual gene recessivo que de vez em quando emerge do fundo atávico  do idioma. Como o verbo ponhar, muito usado na região rural do Mato-Grosso, que pelo mesmo processo, veio do subjuntivo do verbo pôr.

Mas, com os devidos ajustes, herói cubrado seria então herói coberto, ou cobrido. 
Pelo sentido das entrelinhas, boa coisa não é. Coberto na linguagem de fazendeiros e peões significa que a rês fêmea já foi fecundada pelo macho. Em português claro, e obviamente chulo,  Herói Cubrado, quer dizer herói  coberto, ou fodido.  Ou seja, alguém que foi muito bem até certo ponto, mas depois desembestou-se.

E o escudeiro de tal herói, o Retumbante, o que significa? Numa linguagem de dicionário é aquele que reflete com estrondo, que estrondeia, que ecoa, que ribomba, que se vangloria ou se apresenta com arrogância.

Mas numa linguagem de profecia, o significado vai mais além.  É alguém que tendo alcançado posição de destaque, entra num processo de derrocada, de marcha à ré até capotar. Ré-tumbante é exatamente isso. O sujeito não só anda para trás (ré), como ainda tomba(ou tumba, num jeito nordestino de dizer).

O leitor medianamente perspicaz  já terá percebido que a profecia do Hino está em plena operação.

O presidente Lula se constitui no primeiro momento um herói. Retirante nordestino que consegue mobilizar trabalhadores, fundar um partido e chegar à Presidência da República, conduzindo os sonhos de uma nova ordem. Mas daí vem a fase do Cubrado: Aerolula, mensalão, Zé Dirceu, Marcos Valério,  dinheiro na cueca  do assessor e na conta do filho, os aloprados,  apagão aéreo, apóio a Renan, diplomacia pífia, fome zero, parceria com Chavez, o inchaço do estado, a marolinha, o PAC de Dilma, a apologia da ignorância, os impostos escalpelantes, um horror.

E o escudeiro Retumbante, quem será? Obviamente que outro não é, senão Fernando Collor, que em outras eras foi o algoz de Lula. O senador alagoano acaba de ser ressuscitado das trevas, do fundo de seu impeachment histórico, que representou a sua ré-tumbância. Fernando Collor acaba de se tornar o mais importante parceiro do Herói Cubrado Lula na condução do PAC, a maior tramóia de todos os tempos para um projeto de conquista e/ou manutenção de poder. Leia-se: a eleição de Dilma Rousseff!

Portanto, os enviados de mundos sinistros Herói Cubrado & Retumbante, premonizados pela face profética do Hino, já estão revelados e operando as mazelas de que foram incumbidos. Estão aí para aviar as mais terríveis profecias da pós-modernidade brasileira. E aonde isso vai dar? Quem sobreviver verá.  Salve! Salve!
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:29 PM

O voo da rainha

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Vai, rainha, cruza os caminhos circulares de tua infância, atravessa o rio da aldeia pela ponte de pedra sobre as águas turbulentas. Se não tiveres o sofrimento de alcançar a ponte, podes atravessar a nado o poço do remanso e buscar os horizontes imponderáveis.

Vai, rainha, pega o teu par de asas, esse que os sonhos te deram ainda cedo, instala-o em teu dorso de beldade e alça teu voo panorâmico na brisa dos primeiros alvores do amanhecer. Faze teu último revoo sem pesar nem dor sobre a aldeia que te viu nascer, que assistiu a teus primeiros passos, que viu brotar em ti as primeiras brotoejas desses sonhos desabridos. Depois, rainha, segue teu destino sem olhar para trás, porque é lá no azul sem fim da distância que teus sonhos encontrarão a argamassa e os secantes propícios para se tornarem concretos em tua vida.

Vai, rainha, busca teu horizonte maior. Vai pegar carona em tua carruagem encantada no arco-íris de mil cores, pegar a lua de prata, obter o tão almejado verniz de luz, adentrar o teu éden sonhado, fruir as maravilhas do sétimo céu que se esconde nos outeiros para além da visão embaçada dos mortais comuns. 

Vai, rainha, por entre os campos de lírios, daqueles que nem Salomão em toda a sua pompa se vestiu como um deles. E nos prados de pleno encanto, rainha, colhe os lírios que houver, faze a tua mágica corbeille para entregar a ti mesma como troféu de tuas mais acalentadas conquistas.

Vai, rainha, correr mundo na trilha incandescente de teus eflúvios juvenis. Vai pegar com a mão o fogo sagrado dos deuses, os pavios das manhãs vindouras, as mechas das auroras boreais que virão de soslaio a cada conquista, acenando com mais incenso, se mais desempenho tiveres para dar.

Vai, rainha, conquista mundo e clarimundo e se por ventura te bater aquela solidão que costuma afetar as estrelas de brilho próprio, lembra-te que na vida tudo tem um preço. Então levanta os olhos e parte imediatamente para novos mundos conquistar.

Mas se um dia, rainha, tuas pernas se cansarem irremediavelmente, tuas asas se amolecerem, se teu voo perder altura e governo, se o verniz de tua tez se enfeixar em rugas, se a clarividência de teus olhos finalmente anuviar e o horizonte se fechar em muralhas de ardósia, podes voltar, rainha, que estarei te esperando. Serei o mesmo que era antes (descontados os estragos do tempo) pronto para cumprir as promessas que te fiz.

Sei que, por ora, rainha, me faltam estratégias e cabedais para manter-te nos fechos de meus domínios, por isso, vai viver a força plena da aventura, mas quando queimares a lenha que mantém o fervura de teus sonhos, volta, volta sem detença, ó rainha, que estarei em meu posto de espera.

Serei o poço do remanso em que poderemos fruir as aventuras de um amor maduro e sereno. Serei a ponte de pedra, sobre a qual poderemos olhar lá em baixo a turbulência das águas turvas que levam tudo de roldão. Serei tua felicidade verdadeira, rainha, que buscaste no mundo todo, mas que estava bem ali no mais íntimo de teu coração.  
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:37 PM

Batalha simbólica

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No primeiro domingo de fevereiro de 2009, fui com minha mulher à missa das oito, na Basílica de Trindade. Como de costume, a igreja estava abarrotada de fiéis e o celebrante vendia fé em forma de entusiasmo.
 
Lá pelo meio da missa, um fato conseguiu diluir minha atenção, fazendo-me esquecer parcialmente da homilia. É que sem mais nem menos uma pomba, dessas ordinárias, adentrou a nave por uma porta lateral, na ponta de um voo tumultuado e buliçoso, quase se chocando contra as pilastras. Sem perda de tempo, procurou amoitar-se detrás de uma caixa de som. Pelo o que eu via, estava ofegante e trêmula.
 
Logo me ocorreu que na Teologia Cristã, em que Deus é uno e trino, a pomba representa o Espírito Santo. Então meu pensamento derivou. E se aquele pássaro não fosse apenas um símbolo criado pela imaginação humana, mas o próprio Espírito Santo na sua rotina de correria, tentando equilibrar as contas para não deixar a humanidade sucumbir aos próprios desatinos? Pelo estresse do pássaro a situação estava feia.
 
Antes que meu pensamento seguisse por caminhos ainda mais tortuosos, é revelada a causa de tanto apavoramento. Um falcão-do-cerrado, ou melhor, um gavião-quiri-quiri, que entrou de assalto pela mesma porta, com uma determinação demoníaca de agarrar o seu alvo, como é próprio das aves de rapina.
 
O tal gavião pousou estrategicamente na cabeça da grua, junto da câmara que colhia as imagens da missa para a televisão. A grua fazia seus movimentos de sobe e desce, seus semigiros de 180 graus e o gavião ali em cima, se equilibrando firme, direcionando seu ávido olhar para todos os lados.
 
Em seguida, salta da grua e empreende um voo panorâmico, dentro da nave, indo e vindo em revoo sobre os fiéis, não sem antes emitir um grasnido ameaçador. Suponho que para levar a presa ao desespero e se mexer.
 
Aí me distraio completamente da missa e minha imaginação galopa sem freios. E se a pomba for de fato o Espírito Santo e este falcãozinho, o Demônio, almejando um petisco dos filés divinos?  Estaríamos assistindo de camarote, ao vivo e a cores à luta entre o Bem e o Mal, entre o divino e o profano.
 
Se o gavião agarra a pomba, a crise que se abateu sobre o mundo então se aprofundará irremediavelmente. Pois o Espírito Santo seria o nexo, a coesão, o equilíbrio de todas as coisas. Ele representa desde a gravitação universal que mantém as esferas celestes rodando, equilibradas no espaço, até os elétrons em suas parábolas, ao redor do núcleo dos átomos. Sem o Espírito Santo, o universo seria um monturo, uma bagaceira só.
 
Se a pomba consegue escapar, então ganharemos sobrevida, pelo menos até a batalha seguinte, até a próxima crise.
 
Nisso, a celebração termina, o padre deseja que vamos em paz e que Deus nos acompanhe. O gavião desiste da caça e num vôo rasante vaza por um dos umbrais da basílica. A pomba sai do esconderijo e se restabelece sobre a caixa de som. Exultante, arrulha e abre as asas como a consagrar os fiéis. Fiéis esses que, aliás, nem suspeitam que uma batalha sobrenatural aconteceu bem ali, diante dos olhos de todos que têm olhos pra ver. 


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POR EM 02/02/2009 ÀS 06:12 PM

Uma noite memorável

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Naquele janeiro desolado, deixou para trás a mulher e os três filhos na cabana dos pais já velhos, na pobreza plena de trabalhadores sem trabalho, às margens do ribeirão Bingueiro, e se mandou pra Mundocaia, em busca de melhores dias.
 
Mas Mundocaia foi decepção total. Carlindo Raleado não achou o jeito da cidade. Ela parecia selada, por fora e por dentro, para gente sem beira nem algibeira como ele. Tentou de tudo – servente, segurança, catador de papel, amolador de facas, limpador de quintal, chapa de caminhão – mas de tudo que tentou a cidade lhe foi hostil. Cedo ainda concluiu que a cidade não gostava dele. Que aquilo era uma terra amaldiçoada, caprichosa, habitada por gente sem piedade e sem coração.

Na primeira oportunidade enviou um bilhete à mulher por intermédio de um motorista a da Viação Marrequinho. Estava deixando para sempre a cidade maldita para se aventurar em Goiânia. Não sabia por que, mas acreditava que na Capital ele se daria bem. Talvez porque teria ouvido no rádio que Goiânia estava precisando de muitos trabalhadores para o desenvolvimento de websites e que essa atividade estava dando um dinheiro lascado.

Praticamente dois anos se passaram sem que a família tivesse notícias do aventureiro e vice-versa. Já era tempo suficiente para Carlindo Raleado ir se raleando na memória dos seus. A esposa ainda nova, em plena posse de suas chamas uterinas, de vez em quando não hesitava em olhar para homens ocasionais com olhos de arpão.

Mas agora em dezembro, nas reticências do dia com a noite, Carlindo apareceu de chofre. O filho mais novo gritou: tá chegando um homem aí. O pai, já meio caduco, proclamou: é o fantasma de meu filho!

Sem ao menos esperar a surpresa esvaecer, Carlindo foi avisando: só vim buscar minha família. Tenho obrigações em Goiânia e com obrigações não se brinca. A cada um deu um presentinho à-toa, que seus caraminguás permitiram. Na madrugada juntou a mulher, as crianças e os trapinhos, jogou tudo na Viação Marrequinho, rumo a Mundocaia. Lá embarcou num busu para Goiânia, onde chegou no fim do dia.

Com a família deslumbrada, que ninguém tinha visto cidade grande, Carlindo saiu da rodoviária direto pra cooperativa de catadores de papel. Vestiu os varais da carroça que o esperava, orientou mulher e filhos a segurar nas laterais contra os perigos da cidade e saiu todo lampeiro, exibindo sua habilidade por entre os carros.

Quando chegou ao cruzamento da T-4 com a T-63, esmolou os passantes, alegando o passadio fraco da família. Com o dinheiro amealhado, comprou uma pizza grande, um refrigerante idem, e se encaminhou para o viaduto da 85, recém-inaugurado. Alojou-se sob a rampa magnífica, no local onde vai ser um espelho-d’água. Ali, entre as estrelas, as taças, as luzes e o foguetório do Natal, cearam aquele maná divino, que a família desconhecia.

O filho mais velho, orgulhoso do pai, disse: um dia, papai, quero ter um carro assim, que nem o senhor. Ao que o pai respondeu comovido, num gesto largo, mostrando a cidade e suas luzes: tudo isso filho, até onde a vista alcança, um dia será seu!    


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POR EM 26/01/2009 ÀS 02:24 PM

Livro dá azia?

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Se nos pedissem uma das feições do brasileiro, poderíamos responder, sem medo de errar: a aversão à leitura.
           
Tive a honra de participar como entrevistador da última entrevista do saudoso professor, magistrado e escritor Modesto Gomes, no programa Raízes – Jornalismo Cultural, do jornalista Doracino Naves, na Fonte TV. Ele narrou uma história emblemática da relação do brasileiro médio com o livro. Na juventude, em sua Paraúna natal, ele (Modesto) costumava passar longas horas entregue à leitura. E na vizinhança corria a maledicência de que o filho do Floriano não ia dar em nada. Exatamente porque era portador do hábito de ler.
           
Os murmúrios contra Modesto ocorreram há cerca de 60 anos. E desde então a coisa não só não melhorou como deve ter piorado bastante. Naquela época, ainda nem estava na moda o orgulho de ser toupeira. Nenhum político havia subido ao supremo cargo aos prantos por seu primeiro diploma ser o de Presidente da República. Presidente não costumava fazer apologia da ignorância, nem alardeava que não lia jornal nem livro, porque leitura dá azia.
           
Recente pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA, coloca o Brasil em último lugar entre 32 países avaliados quanto à capacidade de leitura, assimilação e interpretação de texto. Neste quesito nossa escola bombou feio. (Bombar aqui é no sentido antigo, de ser reprovado).
           
Noutra pesquisa feita com adultos, o fracasso não é menos acachapante. Um terço da população é constituída de totalmente analfabetos ou de analfabetos funcionais (lê mas não entende). O pior é que entre os adultos que dominam a leitura, apenas um de cada três lê livros. A pesquisa não revela, mas pelas listas dos mais vendidos, podemos concluir que esses leitores escassos, em grande parte, estão lendo porcaria. Ficamos num incômodo 27º lugar entre os trinta países pesquisados. A pesquisa revela ainda que, mesmo os que leem, leem pouco. Menos da metade do que lê um americano ou europeu.
           
Nossa ojeriza pelo livro tem raízes históricas e profundas. O Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravatura, com isso a educação do povo foi solenemente negligenciada séculos a fio. O ensino primário só foi universalizado na década de 90 do século XX, ou seja, há menos de 20 anos. No entanto, o rádio já estava presente desde os anos 30. A televisão desde os anos 50. Por incrível que pareça, a comunicação eletrônica chegou antes da escrita na sociedade brasileira. É como se alguém cometesse a distorção de aprender o canto anteriormente à fala. 
           
Leitores potenciais alegam que não lêem porque não têm tempo, no entanto, não lhes faltaria tempo para passar horas e horas num botequim ou diante de um tubo de TV. Outros alegam que o livro é muito caro. Em média 10% do salário mínimo. Porém, uma televisão média custa de três a quatro salários mínimos. Nem por isso os lares brasileiros são desprovidos de televisão. Para ter o que ler, bastaria comprar um livro e fazer permutas sucessivas com os vizinhos e amigos. O que falta na verdade é hábito. Valorização social da leitura.           
           
E quem seria o responsável pela formação do hábito? Outra vez a bomba vai cair no colo do governo. É muito comum no Brasil a existência de cidades progressistas, com mais de 100 mil habitantes, largas avenidas, indústria instalada, comércio vigoroso, feira disso e daquilo, festas e convenções diversas, mas nenhuma livraria, nenhuma biblioteca decente. E bares? Dezenas! Centenas! E até milhares!
           
O poder público ainda não conseguiu acertar o passo na relação com o livro. Um estudante é capaz de ir do jardim-de-infância ao pós-doutorado sem ter que entrar numa livraria. Assim como o bar é o ambiente propício para se desenvolver a convivência com o álcool, a livraria (ou biblioteca) é o ambiente propício para se desenvolver a convivência com o livro.
 
Ao longo do tempo, o governo vem desenvolvendo estratégias equivocadas na distribuição dos livros didáticos e paradidáticos. 25% de toda indústria editorial no Brasil é voltada para os livros escolares. A título de economia, os livros no ciclo básico são entregues nas escolas públicas.
 
Se o aluno vai para a rede privada, a própria escola lhe repassa os livros com fornecimento direto das editoras. No segundo grau, as escolas fornecem apostilas customizadas. Na graduação e pós não se recebem livros, mas as indefectíveis xérox de capítulos a serem trabalhados.
 
Além de a escola brasileira ensinar mal, não vem dando oportunidade ao aluno de conviver afetivamente com o livro em seu “habitat”, de ver novas obras, de afeiçoar-se ao objeto que é a maior invenção do homem, a forma mais segura de acumulação e transferência de conhecimento.
 
Uma sociedade que esnoba a educação, que não faz da leitura um hábito natural e salutar, fatalmente formará pessoas insensíveis, que não conseguem captar o mundo em sua essencialidade, nem entender a vida em seu todo. E assim acabam elegendo o consumo como o deleite supremo, a ignorância como identidade nacional e a estupidez como motivo de orgulho. 

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POR EM 10/12/2008 ÀS 09:49 AM

Ciúmes, Viagra e tiros dentro da noite

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Meus amigos nunca entenderam. Meus pais nunca aceitaram. Até bem pouco, eu mesma nunca chegara a compreender direito quais forças me arrastaram para o núcleo trágico da vida do Coronel Ubiratan.

Aparentemente não temos nada em comum: nasci de uma família bem-estruturada, num bairro grã-fino, ele de uma família em ruínas, numa periferia lascada. Tive educação esmerada na Europa, ele se ralou na caserna. Nem à mesma geração nós pertencemos. Sou 23 anos mais nova que ele. Nada temos a comungar, a não ser esta pulsão fatal e incontrolável pela tragédia.

Meu analista diz que fui atraída por ele em razão de sua aura de poder violento, que ele passou a empunhar depois que apagou tantas vidas de uma só vez. E o mesmo motivo que provocou a minha aproximação me levou a matá-lo, pois era como se eu tomasse para mim a força poderosa que nele eu via. Pode até ter uma certa lógica, mas não tem nada de verdadeiro.

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, como disse o bardo inglês, com muita propriedade. No fundo, o que existe é um liame secreto e inquebrantável. Ocorre que, desde muito cedo, eu soube que minha vida seria regida pelo número 11, que é a plenitude do 10+1, o transbordamento, a desmesura, o viver em seu teor máximo, no limite, na raia da ruptura, já alcançando a falha universal, entre o factível e o fugaz.

Agora há pouco, porém, numa pausa que construí no meio desse burburinho, peguei lápis e papel e levantei alguns dados sobre o Coronel Bira e eu nessa situação aberta em escâncaras. Pude constatar o que eu já desconfiava: que a vida dele, assim como a minha, está toda entremeada pela exuberância do número 11.

Senão vejamos: Coronel Bira, como é tratado na intimidade, tem 11 letras. Ele nasceu no mês 4 do ano de 43, cuja soma dá 11. A marca maior de seus feitos são os 111 mortos sob seu comando, no episódio que ficou conhecido como a Chacina do Carandiru.

Vejam só: o número 111 carrega a fatalidade potencializada. É como se fosse um 11 entrelaçado com outro 11, com o algarismo 1 do meio servido aos dois numerais, numa conexão nefasta, em seu máximo grau.

O tumulto que desaguou no massacre foi iniciado pelos líderes de duas facções internas rivais. De um lado o “Barba”, de outro o “Coelho”, cuja soma das letras dá 11. A situação fugiu do controle às 14h51, na qual a soma é 11. A invasão foi comandada por 1 coronel (Ubiratan) mais 325 soldados, números que tendo seus algarismos adidos redundam em 11. A hora provável do tiroteio foi às 18h20, que é igual a 11. O número de disparos contabilizado pela perícia foi de 515 (5+1+5=11). O massacre, propriamente, aconteceu no pavilhão 9, portão 2, um local conflagrado pelo número 11.

Seu julgamento pelo massacre começou no dia 20/6/2001, com a soma resultando em 11. No primeiro júri foi condenado a 632 anos de reclusão (6+3+2 = 11).

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino.

Quando nos aproximamos, fomos conduzidos pelas forças ocultas do número cabalístico, que é ao mesmo tempo divino e libidino, sacro e escroto. Nós nos conhecemos num evento militar em que eu representava minha mãe, no dia 1/7/2001, data que, somada em seus algarismos, resulta em 11. Ubiratam + Carla Cepovilla tem exatamente 22 letras, que, divididas por dois titulares, dão a parcela de 11 para cada um. Inicialmente marcávamos nossos encontros no “clube de tiro”, que tem 11 letras.

Essa coincidência de número 11 segue numa sucessão tão assombrosa quanto enfadonha.

Com esta breve demonstração eu quis apenas dar uma pista de que nem o Coronel Bira nem eu temos qualquer culpa ou dolo em toda essa sucessão de tragédias. Tudo já estava desenhado pelos propósitos do além. Forças descomunais e irresistíveis impuseram as situações, apontaram as armas e premiram os gatilhos. Fomos instrumentos involuntários de desígnios insondáveis.

Quem tem um mínimo de cultura teosófica sabe que o número 11 é o desequilibrador dos elementos constitutivos do universo, determinante de suas doenças e erros. É esse número cabal o símbolo da luta interior, da rebelião, do extravio, do pecado original, da revolta dos anjos, enfim.

Se nem os anjos, que são assessores diretos de Deus, puderam resistir a seus efeitos desagregadores e decaíram, como poderíamos nós, simples mortais, resistir à imposição desse império?

Saibam todos que, visto de um modo superficial e simplista, fui eu quem matou o Coronel Bira, quando ele disse que não ia mais desperdiçar Viagra comigo, que determinada fulana fazia melhor e tal. Mas se olharem a realidade mais profunda, como deve ser, como rogo que façam, tanto o coronel, na realização do massacre, quanto eu, no seu assassinato, não tivemos culpa nem dolo. Fomos, repito, apenas instrumentos de uma determinação superior, simbolizada pelo número 11, à qual ninguém é dado resistir.

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino

 

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