Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Escolheu o melhor vestido, o salto mais alto e a cueca mais bonita. Horácio Leal ...

    2 dias atrás por Horácio Leal sobre 30 contos de até 100 caracteres
  • Valeu, Mario. ...

    2 dias atrás por eberth vencio
  • HENRIQUE, JEAN, LUIS THIAGO, EDUARDO E FELIPE, obrigado pelos seus comentários. ...

    2 dias atrás por eberth vencio
  • Ximenes, obrigado pela sua visita. Um abraco. ...

    2 dias atrás por eberth vencio

últimas no twitter

  • @everaldomarques Palpite?
    13 horas atrás
  • 'Descoberta a cura da enxaqueca: guilhotina.' (@cherguevara)
    1 dia atrás
  • 40 anos tentando atravessar a Abbey Road: http://t.co/BTdWg2dD
    1 dia atrás
  • Historinha interativa criada pelo Google narrando a trajetória de um e-mail, do remetente ao destinatário: http://t.co/9NoyAZBS
    1 dia atrás
  • 38 garotas, 38 quartos: http://t.co/HpnQksH4
    1 dia atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

sugestões de filmes

  • O Homem de La Mancha, com Sophia Loren

Edival Lourenço

POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

...e o gambá sobe ao céu!

publicado em

Para boa parcela dos habitantes de Mundocaia, gambá tem alma e, no tempo devido, sobe ao céu. Essa crença não vem de tradições vetustas, tampouco de jecas superstições. O fato é novo e eminentemente urbano.
 
Há duas décadas, ali na Av. Carambas, próximo à Praça dos Trogloditas, um gambá saiu de um quintal, em fuga de uma matilha enfurecida. Alcançou um lote baldio e achou um toco de cerca de dois metros e nele subiu no desespero. Ali no alto se resguardou, olhando os cães danados rosnando e latindo lá em baixo.

A intenção dos cachorros era deixá-lo nervoso até que se desarrumasse e caísse no chão para ser esmiuçado. O gambá, mesmo se caísse, contava ainda com uma arma: sua bomba feroz de fedentina. Mas os cães estavam dispostos a enfrentá-la.

Três dias e três noites foi o tempo que os cães revezaram-se na vigília ao marsupial. Mas finalmente começaram a perder o interesse. Um se afastava para mijar e de lá escapava de fininho. Outro ia em casa com desculpa de  beber água e lambiscar alguma coisa e não voltava mais. Ao final desse tempo o interesse dos caninos se esvaziou total, quando uma cadelinha no cio passou esbanjando charme e a matilha remanescente sai toda em perseguição de outro interesse mais premente.

Três dias e três noites foram o bastante para deixar o fujão desidratado e fraco de fome. Olhava pro chão e sentia vertigem, sem coragem de saltar. Gambá, em seu normal, já tem dificuldades de descer de toco. Naquele estado então, parecia uma tarefa sem jeito.

Finalmente se entregou ao cansaço e dormiu. Sem acordar, entrou em coma. Sob o castigo do sol, veio a óbito. E ali secou feito um bacalhau com cabeça. Uma coruja, reivindicando posse do lugar, derrubou o corpo no chão, nas abas de um cupinzeiro. Os cupins cuidaram logo de encobri-lo.

Algum tempo depois, passavam por ali à noite, saídos de um evento, o pastor Walkid (fundador e presidente mundial da Igreja Cuidado com o Cão dos Últimos Dias), o delegado Kantídio e alguns outros figurões que dão orgulho à cidade.

Foi então que viram uma claridade se reunir a partir do chão, de um ponto bem definido, organizar-se em uma bola colorida, bailar ao sabor do vendo e depois zarpar verticalmente rumo ao infinito.

Aproveitando da coragem do delegado e de sua lanterna Led light, entraram no lote, identificaram o ponto de onde a luz brotou e com ferramentas improvisadas, localizaram os ossos do gambá.

Sem ouvir as explicações do delegado, de que se tratava de fogo-fátuo esvaindo-se dos ossos, pastor Walkid  espalhou a seus fiéis que a luz era na verdade a alma do gambá subindo ao céu. Inclusive em suas homilias daí em diante ele afirma com cega convicção que o gambá só vem ao mundo para perder a catinga e voltar aos céus. E  que do mesmo modo o homem tem que perder suas catingas para um dia ver a face de Deus.  
 


leia mais...
POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

O marido da mulher-coisa

publicado em

Tavares passou dos trinta solteirão da silva xavier. Alcançou os quarenta e dos quarenta já ia passando, completamente insensível aos apelos do casamento. Não que fosse gay ou frio, tão pouco auto-suficiente, daqueles que se contentam com os orifícios artificiosos de mão, no sexo artesanal.

Ocorre que Tavares era detentor de uma fobia incontornável em relação à intimidade. Dormir na mesma cama respirando os vapores recíprocos, fazer duetos de tosse e outros sons escrotos, confundir os dejetos no mesmo pinico, escovas se abraçando no mesmo porta-trecos... essas coisas lhe causavam gastura.

Sem contar que pelava de medo de ter que enfrentar um diálogo e isso levasse a parceira ao fatal convite: Bem, vamos discutir a relação?! Não. Tavares jamais cairia numa armadilha dessas. Para suprir sua necessidade de fêmeas, ele as pegava nos bordéis, nos inferninhos, nas baladas. Com o cuidado de não repetir para não travar intimidades. Sexo só com estranhas.

Agora por último andou lendo essas revistas de psicologia vulgar e descobriu que existe um tipo de mulher que lhe despertou grande interesse: a chamada mulher-objeto ou mulher-coisa.

Em suas rotineiras garimpagens de fêmeas descobriu uma baixinha, de nome Leylane, que se enquadrava perfeitamente no que ele imaginava ser o perfil de mulher-coisa.

Com ela travou um relacionamento distancioso, artificial, sem nunca deixar que ela arrombasse os arames de seus feudos pudorentos. Entraram num jogo como se estivessem num túnel com um tigre correndo atrás: não havia outra opção que não fosse sair do outro lado. E sair do outro lado implicava cumprir os rituais do que mais lhe causava urticária: casamento.

Cumprindo as regras do jogo, Tavares desposou Leylane. Mas era público e notório que Leylane era uma típica mulher-coisa. Todo mundo sabia. Mas todo mundo mesmo. Inclusive o Estado, em suas ramificações burocráticas.

Depois da nupcial cerimônia, saíram numa viagem errática de lua-de-mel; o homem refratário e sua mulher-coisa.

Foi então que Tavares percebeu que a burocracia é um negócio mais pernicioso que um relacionamento íntimo. Como levava uma mulher-coisa, teve problema logo no posto do Ibama. Ali foi multado porque havia pegado uma mulher que não atingira ainda (e não iria atingir nunca) as medidas mínimas exigidas para a espécie.

Algumas dezenas de quilômetros depois foi novamente multado numa blitz do Inmetro, porque a coisa que levava não obedecia aos padrões métricos para aquele tipo de objeto.

Ao fim do dia, já cansados, suarentos e mal-cheirosos, Tavares foi interceptado numa barreira da Vigilância Sanitária. Onde não só foi multado, como teve sua mulher-coisa apreendida, sob a alegação de “impróprio para o consumo”. 


leia mais...
POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

O duelo atrapalhado

publicado em

De duas uma: ou Cydoidão percebeu que seu estilo de vida não era mais viável, ou então que era viável demais. O fato é que aproveitando de seu estilo new-jacu, de seu folclore de toureiro sem touro, de montador sem montarias, de matador de aluguel sem mortes, ele abriu um boteco: o Cydoidão Saloon.
 
Não sei quem são seus sócios, nem onde arrumou grana, mas não é de ver que o tal boteco ficou a fina flor de ajeitado? Paredes de pau a pique, telha de zinco, um balcão oval com tamboretinhos redondos, daqueles em que um magro usa um, e um gordo usa dois: uma rodinha pra cada popa. Além do assoalho de tábua e da porta lambedeira; um legítimo saloon do Velho Oeste.
 
O boteco abriu bombando. Toda moçada bonita de Mundocaia, aquela criada com colostro e leite-ninho, queria frequentá-lo. Para se conseguir uma mesa precisava reservar com até uma semana de antecedência. Mas a moçada atraiu os tiosões como um ímã. E os tiosões, também como um ímã, atraíram as biscates mais pé-de-toddy que havia. A moçada fugiu dos tiosões,  os tiosões fugiram das biscas e o boteco passou por um período roscó.
 
Não sei quem lhe soprou a ideia. Mas Cidydão justifica que tudo foi consequência do estouro dos derivativos hipotecários nos Estados Unidos da América. O Saloon, por ser de estilo americano, teria sido o primeiro a sentir o baque.
 
Nesse círculo vicioso, ficaram só as biscas, fazendo seus businesses de biscas. Não demorou para que elas atraíssem os marginais, os tortos, os caolhos da vida, os musculosos e sobretudo os valentões sem causas, de conseqüências imprevisíveis.
 
Agora por último, o boteco andava atufado de esquisitões. Foi nesse clima que um cara musculoso, agigantado e um olho pubo, vindo não se sabe de onde, talvez um caminhoneiro clandestino, entra mastigando um copo de vidro e cuspindo sangue, aos berros:
 
— Quem é que é homem aí pra me encarar? Aqui é terra de frouxos. Cadê os homens daqui? Tem algum macho aqui nesta espelunca? —  e mais um rosário de impropérios contra a homência do lugar.
 
Os insultados entreolham-se na busca quase inútil por um valentão à altura, que pudesse topar a parada. Finalmente a missão recaiu sobre o dono do Buteco. Cydoidão não se deu por vencido:
 
—  Para pegar esse merda? Nem é preciso eu! Basta o Cobra-verde! —  e transferiu a árdua missão para um garçom novato e mofino. Combinou rapidamente com ele que poderia encarar o fera numa boa, que ele, Cydoidão faria a cobertura. Já ficaria com o trabuco enfiado com a perfeita mira. No primeiro sinal de derrota do garçom ele, Cydoidão, mandaria bala no forasteiro.
 
O tal Cobra-verde até que aguentou uns dois ou três sopapos. Mas ali pelo quarto  ia sucumbindo e Cydoidão pregou fogo. Que por azar dos azares, foi bem nomeio da testa do pobre garçom. Finalmente Cydoidão inscreve em seu currículo um crime de sangue, façanha que sonhara por toda vida.
   


leia mais...
POR EM 22/06/2009 ÀS 10:20 AM

O galo e as sombras

publicado em

Era o mais parrudo daquela ninhada; pelo menos uma vez e meia o tamanho dos outros pintinhos. Seu porte avantajado foi acentuando-se mais e mais à medida que o tempo. Ainda sob a aba da mãe, chegou a mais que o dobro dos irmãos. Quase um frango. Bem desajeitado. Mas nenhum outro de sua geração logrou ser tão graúdo. 
 
Foi o primeiro a manifestar os temperamentos de macho. Tirar um canto, ensaiar uma dança ao redor das franguinhas, arrastar uma asa para uma galinha popozuda.

O caseiro um dia me disse, a título de sugestão: “Este nós vamos deixar pra galo.”  “ Não seria pra galinha?” — caçoei.  “É...” — e conforme o sugerido a sorte do frango foi selada; seria o galo do terreiro.

Em pouco tempo vieram as barbelas, a crista de meia roseta, as esporas afiadas, a plumagem de fantasia; essas coisas de aparatos de galo. Quando a macheza definiu bem, chegou a manifestação da valentia incondicional.

Começou o processo de revogação dos concorrentes. Tornou-se um emérito encrenqueiro contra os demais frangos. E, com o uso impiedoso de suas armas, foi eliminando os rivais. O caseiro chegou a encher o freezer com os frangos que perdiam o duelo. Pra não pegar infecção nos ferimentos ele, o caseiro, matava os sobreviventes depois da derrota.

Eliminados os concorrentes de sua iguala, o macho presumido partiu para comprar desavenças com os galos mais velhos, que gordos e distraídos no bem-bom de seus haréns, sequer percebiam a ameaça que vinha vindo. Com o vigor da juventude e a habilidade adquirida nas batalhas em série, foi batendo um a um até dizimar a nobiliarquia dos galos estabelecidos.

Finalmente absoluto, unificou os haréns e o comandava com ordens duras e punições severas. No entanto, um dia o caseiro viu e me mostrou que havia uma galinha no bando que na verdade não era galinha. Suas decorações de macho eram bem discretas, não batia no peito nem cantava como os galos, mas era um galo que, protegido pelo disfarce, vinha comendo pelas bordas. Chegou a ponto de, certa vez que uma galinha morreu deixando órfã uma ninhada, esse galo dissimulado assumiu os pintinhos e como mãe os tratou, mas sempre com extremo cuidado, para não se submeter às investidas do macho do lugar.

O galo convicto nunca descuidou de cantar pro sol se pôr, pro dia nascer perfeito. Sempre protegeu o bando, arranjando ninhos, localizando melhores pastos, trucidando serpentes e teiús, afugentado os gambás, desferindo golpes de esporas e berros de proprietário contra os gaviões. Agora, já entrando na madureza, pegou umas esquisitices. Deu pra quebrar os ovos nos ninhos das galinhas chocas, como a eliminar os rivais no nascedouro. À tarde ou de manhã, quando sua sombra se projeta em alguma parede, ele se arrepia inteiro, compra briga com a própria sombra, desfere golpes malucos ao vento. Até peita a parede, numa luta inglória.

Ele não sabe por que nem por quem, mas fareja no ar que seu reinado está indo pro beleléu.   
 


leia mais...
POR EM 11/06/2009 ÀS 05:01 PM

Uma cantada de jeito

publicado em

Jeremias Sandroni é temente a Deus. Mais que temente. É grato a Deus pelo trabalho quem tem, pela mulher bonita e dedicada, pelo casal de filhos maravilhosos. Sem contar outras bênçãos colaterais, como os pais ainda saudáveis, os amigos solícitos, o chefe camarada e o apartamento adquirido em prestações toleráveis, no melhor bairro da melhor cidade do planeta. Às vezes sentia um pouco de culpa por ser tão feliz, quando o mundo ao redor seguia surrado pelas tribulações, que ele julga serem bíblicas. Até quando ele estaria a salvo?
 
Naquela sexta-feira, ao fim do expediente, subia feliz pela 85, rumo à sua casa, onde pegaria a mulher para encontrar os amigos, jogar conversa fora num boteco de gente bonita, nos arredores de alguma fonte ejaculante e luz difusa. Os filhos ainda pequenos ficariam em segurança com os avós.
 
Parou num sinal, mirou o retrovisor interno, conferiu com orgulho o rosto simétrico, a cabeleira farta de corte bem feito, entreabriu os lábios e confirmou a presença dos dentes brancos e bem alinhados. Arrancou um fio de cabelo que pendia da narina esquerda, único detalhe em desalinho.  Atrasou um átimo na saída quando o sinal esverdeou-se. Foi o bastante para que um carro o tocasse na traseira.
 
Não deixou de levar um susto. Leu nos jornais que esbarrões sem importância têm tido consequências desastrosas. Os motoristas estão num estresse de lascar e partem pra ignorância, sem que nem porquê. Mas logo viu que até nisso dera sorte.  
  
Desceu do carro uma moça em bolha de primavera, feições alegres; uma beldade e tanto. Moça digna, alta, com todos os espaços colonizados pela beleza. Quando falou foi como se falasse com a voz dos deuses, talvez a voz de Eros. Jeremias até se esquece de verificar os danos. Percebe que a moça também se encanta por ele.
 
Após os olhares mútuos de encantamento, ela toma a iniciativa de averiguar os estragos. Para sorte de ambos, não houve amassados nem esfolas. Tinha sido mesmo um esbarrãozinho de nada. O entrevero não atrapalhava muito o trânsito, pois acontecera na faixa lateral direita. Jeremias, como que por instinto, aproveita para esticar um pouquinho a prosa, entabular um assunto, um sobrevoo de reconhecimento, uma busca de convergência de interesses. A moça faz discretos trejeitos de recato. Mas dá alguma vaza ao joguinho de Jeremias. É a primeira vez, desde sempre, que alguém o deixa naquela levitação sem conta.
 
Num gesto de ir embora, a moça puxa de um cartão na bolsa e lhe entrega:
 
— Se notar algum problema, me liga. Mas eu ficaria mais feliz se você me ligasse porque não notou problema nenhum.
 
Jeremias passa um fim de semana aturdido. Pela primeira vez achou a mulher chata e os filhos entojados. Mal esperou segunda-feira para ligar. Encontraram no apartamento da moça. Ela lhe pareceu mais bela ainda. Entenderam-se. Fizeram juras de amor. Rolou sexo. Não daquele velho de recreação ou reprodutivo. Mas um sexo-manifestação-cultural, que oscila entre as artes visuais e as artes cênicas. Saiu dali com o firme intento de contratar um advogado para o seu divórcio.

Jeremias percebe, sem lamentações, que a tribulação havia chegado pra ele também. Tudo em sua vida estava agora do avesso. Num doce avesso! 


 


leia mais...
POR EM 06/06/2009 ÀS 12:10 PM

Um cão de lata ao rabo

publicado em

Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos

(Um exercício, com base em conto de Machado de Assis, com o mesmo título)

Gengis Khan — que quer dizer homem valente, invencível — nasceu miserável, numa comunidade pobre, perdeu o pai ainda criança e tinha o destino traçado: morrer anônimo, como era costume acontecer com outros mongóis de seu tempo. Mas ele se rebelou contra seu destino medíocre. Dotado de uma coragem invulgar e um tirocínio espantoso, o jovem Gengis, no início do século XIII, unifica várias tribos turco-mongólicas, organiza uma cavalaria devastadora, e parte para a conquista de toda a região da Pérsia, Índia, China etc. e forma o grandioso império Mongol.

Não se sabe o que era mais relevante em Gengis Khan. Se a capacidade organizativa, se o exercício da liderança, se a fúria guerreira, se a intuição ou o repente criativo que lhe permitia se adaptar às novas circunstâncias, por mais adversas que se apresentassem. Teve, porém, um azar: seu povo desconhecia a escrita e assim não teve um Homero, um Virgílio, um Luis de Camões para lançar na posteridade a epopéia de sua saga imperial. Sobraram de suas façanhas alguns vestígios materiais, algumas crônicas escassas escritas por outros povos e alguns causos orais que, no fluxo das gerações, de tanto serem contados e recontados, ganharam ares de lenda. Muito pouco, talvez, para um conquistador tão feroz e fulgurante.

Recorro a um desses causos remanescentes. O exército de Gengis Khan vinha de uma seqüência gloriosa de conquistas. Sua cavalaria afoita passava a fio de espada todo aquele que esboçasse a mais pálida contrariedade em se submeter aos poderes do grande guerreiro. Deixava para trás destruição, morte e subjugados. Levava em seus alforges, frutos da rapina, toda sorte de tesouros: ouro, prata, roupas, escravos, cavalos, alimentos. E a confiança sempre crescente de que nada, nem ninguém poderiam barrar a sanha conquistadora.

Foi com esse ânimo exaltado e justificadamente confiante que Gengis Khan chegou aos portões da cidade de Pequim. Com seus generais a postos, com os soldados aprumados em seus ginetes empinadiços, com as armas adequadas em punho, com seus pesados aríetes prontos para arrombar os portões e ver a tropa entrando e quebrando tudo, como as águas turbulentas de uma represa desmantelada.

Qual não foi a surpresa da tropa ante a inusitada ordem do comandante:

— Dispersar!

Poderiam todos levar seus palafréns ao ribeirão a sorver água, ou então deixá-los a pastar no bem-bom do verde. A excitação da eminente luta, agora desautorizada, criou um começo de tumulto. Mas o chefe se explicou para os generais mais chegados.

Ele tinha um plano.

Afinal, Pequim era uma cidade preparada demais para se enfrentar assim, simetricamente. Iria negociar com o comandante das tropas inimigas, que deveriam estar postadas logo atrás dos portões, armadas até os dentes, prontas para o mais duro combate. Além dos ardis que por certo teriam preparado pelos quatro cantos da cidade.  Então, aquela que se desenhava a luta mais sangrenta e temerária, nem precisaria acontecer.

Os comandados não entenderam bulhufas. Será que o impávido guerreiro, assim não mais que de repente, estaria afinando?  Mas não se dilataram em questionamentos. Afinal, quem tem um comandante do naipe de  Gengis Khan, não é preciso entender direito para prestar obediência.

O poderoso rei dos mongóis, solitário, desarmado e a pé, bateu às portas de Pequim, modesto como um menestrel ou um beato. Disse que buscava entendimento e paz. Propôs ao chefe dos chineses: para que não haja batalha, me tragam um cão de cada residência, ou melhor, me tragam todos os cães que existem nessa progressista cidade (há uma versão que diz que ele pediu gatos, mas os cães servem melhor ao nosso propósito).

Animados com a possibilidade de uma solução pacífica, nem perguntaram para que tanto cão. 

Aceita a primeira condição, combinaram o horário. Os chineses se aliviaram e imediatamente, de altivos guerreiros, se converteram em modestos e risonhos laçadores de cachorros. Os generais agora se misturaram às mulheres, aos velhinhos, às crianças à cata dos titius. E deles se despediam com ternura de quem se despede de um ente querido que parte para uma missão redentora. Intuitivos como são, arrepiados, de rabo enfiado entre as pernas (travando o sorriso), os cães pareciam ter maus pressentimentos.  Mas no horário combinado, estava lá toda a matilha, atrelada e ajoujada.

Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos. Diante de tanta benevolência, até levaram, entre vênias e risos, presentes para os invasores: vasos de porcelana, bonequinhos de terracota, cachaça de arroz, guisado de cobra...

Mas na sexta-feira, início da tarde, quando o sol é mais abrasador, a tropa mongol, sem doçura, quebra os portões de Pequim na porretada. Solta a cachorrada, cada cão com uma pequena lata atada ao rabo. A lata continha um material de lenta combustão, composto de cal virgem, potassa e estopa de linho, já impregnado por uma mecha de fogo. Tudo devidamente acondicionado e protegido por uma tela delgada.

Gengis Khan, pessoalmente, rumou contra as pedras umas canas-da-índia assadas na fogueira, e berrou como um danado. As canas estouraram como bombas e os cães saíram em disparada, que desde tempos imemoriais, cachorro tem medo de foguetes (antes mesmo de alguém os ter inventado). Entraram tresloucados pelos portões caídos, ganindo cãe-ãe cãe-ãe pelas estreitas ruas de Pequim e os chineses, sem entender que armação era aquela, ficaram paralisados, em seus risinhos sem quê nem por quê.

Os cães enfurnaram em suas casas e se esconderam onde costumam se esconder ao ouvir qualquer explosão: debaixo da cama de seus donos.

Em minutos, a cidade era uma só labareda.

Foi então que os poucos sobreviventes de Pequim entenderam, tardiamente, que o apego dos guerreiros mongóis ao mais antigo companheiro do homem, não era assim tão inocente.
 


leia mais...
POR EM 05/06/2009 ÀS 06:36 PM

O editor maluco

publicado em

Duas moças de corpos longilíneos, uma ruiva e a outra loira, gestos elegantes, cabelos bem tratados, dentição perfeita e óculos de grife. A vestimenta casual e esvoaçante completava com esmero o belo conjunto. No meio da manhã de uma segunda-feira brava, dessas que ocorrem depois de um feriadão, elas bateram à porta do editor. Ele é mais conhecido pelo humor azedo do que pela sensibilidade refinada que se espera de alguém que exerce uma profissão tão cheia de sutilezas.

Na presença daqueles dois exemplares femininos perfeitos, estaria mais inclinado a fazer uns gracejos de natureza lúbrica do que arrotar o seu mau humor costumeiro, mas como a esposa trabalha na sala ao lado e de comum mantém a porta aberta, não lhe restava outra alternativa: ia mandar mesmo era de mau humor.

 — Pois não! — disse secamente, sem olhar direito pras moças, enfiando uns papéis no espeto, ao lado do telefone. (Mais um gesto de mau humor do que de insinuações eróticas).

 As moças entreolharam-se ligeiramente perdidas.

 — É que minha amiga  — disse a ruiva  —  escreveu um livro... ouvimos dizer que o senhor é o editor mais conceituado daqui e tal...

 — A loira escreveu um livro... hum! procura outro editor. Não tenho interesse não. A não ser que seja a história de suas experiências apimentadas. Ou então um depoimento do tipo: Eu, fulana de tal, sequestrada e estrupada aos 12 anos...

 — O senhor está sendo deselegante...  —  protestou a loira.

 — De que trata seu livro?  — meio que ponderou o homem detrás da mesa, fazendo um gesto tardio para as moças se sentarem. Ele também sentou e enfim as olhou nos olhos.
 
— O livro dela, diz a ruiva, é um romance denso que aborda ambições, crimes, mercado de arte, psicologia, uma trama de engolir o fôlego. Uma história séria e muito interessante.

- Bobagem, diz o editor em tom professoral. Qualquer história realmente séria e interessante já foi escrita e está na Bíblia. Quando alguém quer ler uma história interessante vai na Bíblia. Livro moderno tem que ter é fofoca, pimenta no dos outros. É isso que o mercado quer.  

— O senhor é preconceituoso e nivela as coisas por baixo... 

— Ah, meu deus, eu mereço... Mas o que você já fez antes, assim de extraordinário que possa dar red bull à sua assinatura?
 
— Olha, disse a ruiva, ela é a artista plástica Sira Yasbeck, reconhecida mundialmente. Eu sou a marchand dela. Será que isso conta?

 — Taí, gostei dessa história. Uma loira bonita, que pinta quadros, famosa pelo mundo afora, e seu macho é uma ruiva também bonitona. Me traz essa história escrita com ganchos, laços, suspenses e contrapontos que eu tenho o maior prazer em publicar.

 — Um grosso, isso é o que o senhor é  — disseram em uníssono. E as moças foram saindo como dois anjos escoiceados, esvoaçando dentro da manhã de pleno sol. 

 


leia mais...
POR EM 22/05/2009 ÀS 01:57 PM

A câmera pós-futurista

publicado em

Estava eu totalmente absorvido e até um pouco fatigado no ofício de edição do meu mais recente trabalho. Mas também pudera. É um copião medonho. São mais de cem horas de filmagens, sem rumo, sem objetivo, sem unidade. E minha árdua tarefa é dar sentido aquele mundo caótico. Transformar o emaranhado de áudio e vídeo num produto, em algo permeável ao senso de apreciação dos consumidores de documentários.

Foi então que o interfone tocou. Antes só queria contar que meu pequeno apartamento foi totalmente transformado num estúdio. Acho que foi também por isso que minha mulher me abandonou. Ela achou que não havia mais espaço para ela no apartamento; nem em meu coração. Aí ela fugiu com o amolador de facas.

Como dizia, o interfone tocou. Apertei o stop da ilha de edição. Ia despachar sumariamente quem quer que fosse. Escutei do outro lado da linha: Aqui é o Borovski. Da parte do Dr. Almeida Garrett, para lhe apresentar uma novidade.

Eu não podia deixar de atender, o Almeidinha é o cara que produz e negocia meus documentários. Ele me explora, eu sei. Mas sejamos francos: ele me sustenta quando as vacas estão anoréxicas. Ainda que chateado, apertei a tecla que libera o portão e autorizei o camarada subir.

Imediatamente chegou um magricela anexo à mala, com um sorriso lorpa de trambiqueiro. Eu lhe falei, o que você traz aí, camarada? Ele quis antes se apresentar: era um judeu russo, que trabalhava com as últimas novidades da tecnologia israelense.

Abriu a mala, enquanto dava uma olhada panorâmica pela sala atulhada. Retirou uma caixa, de dentro dela um engradado de isopor e, do miolo, uma geringonça que supus ser uma filmadora. Me falou que aquela era a última joia dos pesquisadores judeus. Me garantiu que com aquela eu iria fazer documentários impensáveis até então. Indaguei o que ela tinha de especial. Pra começar, parecia coisa dos anos 70; pesadona.

Me explicou que aquela filmadora substituía todo o meu estúdio. Tudo que eu precisava estava ali. Já me agradou. Se eu arrumasse mulher nova talvez ela não fosse embora, pelo menos em razão do entulhamento. Mas só fazer sozinha o que seu estúdio faz para os judeus é pouco. Seria coisa de japonês: diminui, mas não inova. Essa máquina tem duas funçõezinhas mágicas. Com esta aqui, disse apontado o dedo, o senhor pode filmar flagrantes de fatos já ocorridos. Mas como? eu quis saber. O senhor chega num local que aconteceu um desastre, por exemplo, aponta a filmadora para o cenário do evento e aciona esta função. Ela tem um dispositivo que reconstitui as imagens de toda a cena, através dos resíduos de ectoplasma que pairam no ar.

– Só isso que ela faz ? – eu disse ironizando.
– Claro que não! – me falou. Esta outra função aqui faz o trabalho inverso...
– ...filma a cena que vai acontecer, através dos ectoplasmas mobilizados para configurar o evento! – completei.
– É exatamente isso, falou empolgado.
– Cai fora daqui, seu picareta! – berrei. Ele mal teve tempo de juntar a tralha.

Na outra semana o Almeidinha me liga de Portugal:

– Ó, cara, você jogou o nosso trunfo na mão da concorrência?!       
 


leia mais...
POR EM 15/05/2009 ÀS 10:40 PM

O arauto transcendental

publicado em

Era uma tarde de dezembro com seu mormaço costumeiro em que eu despachava na UBE os papéis do dia-a-dia. Nada de extraordinário parecia acontecer naquele turno, a não ser por umas muriçocas rajadas, que dizem ser transmissoras da dengue, que insistiam em me cortejar. Eu tentava esmagá-las entre as mãos. Elas apenas recuavam em vênias, como quem agradece pelo aplauso.

Nisso a secretária me anuncia um escritor novato, que desejava me falar. À primeira vista, não parecia alguém ligado a livros. Alto e esquelético. Pele crespa, cabelos maltratados, com jeito de quem cresceu com alto déficit calórico e exerce alguma atividade ao sol, na poeira. Talvez fosse tratador num confinamento de bois.

Convidei-o a sentar-se. Parecia espantado, olhando ao redor com sofreguidão. Mas curiosamente me solicita que feche a porta. Queria me dizer algo em segredo. Confesso que fiquei cismado, mas o atendi. Mais à vontade, começou a falar como quem tivesse comido molho de quiabo.

— Moço, sou muito pobrinho e não gosto de ser famoso. Só quero 50 mil preu comprar uma casa pra minha mãezinha!

— Como assim, 50 mil? — indaguei.

— Ah, como sou lerdo. Aí o sr. não vai entender mesmo. É que eu escrevi o livro mais importante do mundo. Tá lá em casa. Mas não quero publicar no meu nome, que eu não tenho temperamento pra ser famoso. Por isso eu vendo ele pro sr. por 50 mil, compro a casinha pra minha mãe, e pronto. O sr. pode assinar o livro como autor. Não precisa nem me fazer agradecimentos.
 
— Mas o que de tão importante você escreveu nesse livro?
— Meu livro revela a origem do universo. Não só do universo, mas até a origem de Deus.

Até hoje a ciência consegue ir só até o Big Bang. Mas eu, não. Meu livro vai até zilhões de anos antes do Big Bang. Até zilhões de anos antes do infinito.

Meio bolado, indaguei: você já ouviu falar de Einstein, Humbble, Stephen Hawking?
— Ih, essa turma pra mim é tudo neném. Eles tão engatinhando numa coisa que eu sei voar. As teorias deles só passam rapando.

— O que você cursou? Estudou onde?

— Eu só fiz o primário numa escola rural. Mas com estudos não chega aonde eu cheguei não. O que eu sei foi tudo revelação de Deus. Revelação direta, sem intermediários. Sou pobrinho e não gosto de ser famoso. O sr. me comprando o livro, pode se preparar pra receber o Nobel.

— Mas por que Deus escolheu você?

— Isso também tá no meu livro. E tem menos de 100 páginas. Deus, o sr. sabe, não tem gagueira na língua nem faz rodeios. É direto. É 50 mil e eu compro a casinha pra minha mãe.

Depois de dizer um tanto de outras coisas igualmente assombrosas, foi saindo, meio perturbado. Então eu disse: deixa eu dar uma olhada, quem sabe?

Já na rua, foi andando pra direita. Mas imediatamente, retornou pra esquerda com determinação e se foi, sem me dar esperanças.            
 


leia mais...
POR EM 08/05/2009 ÀS 06:44 PM

A mulher do atirador de facas

publicado em

O circo Transalém chegou a Mundocaia com o alvoroço de sempre: as carretas de tranqueiras e coiseramas, os contêineres de macacos e animais ferozes. Durante uns três ou quatro dias foi aquela movimentação na Praça dos Trogloditas, que é a reservada para o circo, a tourada, o for-mula-cross, o racha, o homem da cobra, o cuspidor de fogo, o engolidor de espadas, o dorminhoco em cama de pregos e outras doideiras.

Agora era a vez do circo Transalém na Praça dos Trogloditas. Minha mãe me prevenira muitas vezes para nunca nunquinha beirar aquela praça. Pra ela aquilo era uma reserva do coisa ruim, lugar de se aprender o que não deve. Mas como o circo chegou, não pensei duas vezes. Para ser franco, não pensei uma vez sequer.

Matei aula no grupo, me juntei à patota e fomos fazer serão à beira das cordas que separavam os curiosos do local de onde o circo levantava lentamente, com o trabalho suado daqueles homens musculosos, sem camisa. Dizem que o padre falou na missa pras mães não deixarem as filhas olharem àqueles homens com jeito de vitrine de açougue. Eram, no dizer dele, o começo da perdição pras mocinhas ainda mal formadas.

Finalmente ficou pronto o circo. Ganhamos a confiança do encarregado que nos deixou espiar por dentro. Era o troço mais grandioso do mundo. O picadeiro, as arquibancadas, as estacas que iam varando o céu, os cabos de aço coisa de doido, o globo da morte enorme, o trapézio vertiginoso sobre o vazio. Um cenário de magia. Tudo encoberto por uma lona novinha em folha.
 
Valeu o nosso esforço. Fomos selecionados pra divulgação. Recebemos carimbo na testa que nos garantia entrada de graça na estréia e lá fomos nós atrás do palhaço das pernas de pau, fraque e cartola, cuja copa quase encostava nos fios mais bambos. Fomos gritando a toda prega “tem sim, senhor!” entre o homem varapau e o elefante puxado por um anão de pernas zambas, que se parecia a um tracajá empinado.    

Nesse tempo vivia certa moça em Mundocaia que se chamava Serena. A confiar nos mais velhos, ela fazia o papel principal nos sonhos dos homens do lugar. Embora não desse bola pra ninguém. É que uma cigana lera em sua mão que ela estava reservada para um homem hábil e muito especial que haveria de chegar voando dentro de uma bolha de encantos. 

Daí pra ela cair de amores pelo trapezista foi um salto. Quando o circo foi embora, Serena foi junto. A família disse que ela foi ter vida de rainha. Já os rapazes se sentiram roubados e diziam maledicências: bilau de trapezista é só um fiapo. Não dou nem um ano pra Serena voltar. Se era só um fiapo ou não a gente nunca soube. Mas Serena não voltou, como previsto.

O fato é que o Transalém só retornou a Mundocaia 20 anos depois, numa situação precária: o leão urrava de fome, as arquibancadas rangiam, a lona parecia recém saída de uma chuva de granizos ou de uma intifada de palestinos. 

O antigo trapezista tivera uma crise de labirintite e fora rebaixado a atirador de facas. A belíssima Serena, que já nem era mais bela assim, era o seu alvo e fazia poses com visível indiferença. Não fosse um certo terror no olhar de que numa hora imprópria a labirintite voltasse a atacar o marido, com severa interferência na pontaria das facas.  
 


leia mais...
‹ Primeiro  < 5 6 7 8 9 10 11 12 13 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2012 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br


renovatio