Deus não nos salvará; mas morrerá conosco
Segundo a hipótese mais aceita nos meios científicos, a vida teria surgido há cerca de 3,5 bilhões de anos, possivelmente em algum lugar da Terra. Ou mesmo em algum planeta de um sistema próximo (em termos cosmológicos) e pode ter vindo parar aqui na garupa de estilhaços retirados de algum corpo celeste por cataclismos de dimensões interestelares. Deduz-se que a vida começou em um ambiente singular, cujas características o Homo sapiens ainda não logrou reconstituir e entabular uns serezinhos animados para concorrer aos já existentes.
Aquele foi um momento mágico de nossa ancestralidade, quando por confluência de condições especialíssimas, por mero acaso dos dados atirados pela Natureza cega e sem propósitos, pequenas porções de matéria, inertes e insensíveis, recebem uma chama, uma faísca interior e ganharam autonomia. Essa possibilidade, por exemplo, que tem um pássaro de, uma vez libertado da gaiola, pousar no fio de luz, num filete de antena, no galho de uma árvore próxima ou mesmo se embrenhar no mato num voo aparentemente descontrolado. Não só autonomia, mas também outros importantes atributos tais como: metabolismo, reprodução, nutrição, complexidade, organização, crescimento e desenvolvimento, conteúdo de informação,emaranhamento de software com hardware, além de permanência com mudança. Ufa! No poema OVNI, do livro “Na Vertigem do Dia”, Ferreira Gullar intui que “sou possivelmente/uma coisa onde o tempo/deu defeito”. E, também por mero acaso, esses seres microbianos dos primeiros dias, em demorados processos de tentativas e erros, acabaram por desenvolver as espécies, até chegar nos bípedes implumes dotados de inteligência e arrogância de hoje.
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É no mínimo temerário continuar subjugando a Natureza a nossos desejos e caprichos e acreditar que possamos, ao final de tudo, sair imunes de tal empreendimento. Cedo ou tarde a Natureza vai nos cobrar a fatura. E o preço dessa conta poderá ser muito acima da capacidade de solvência do Homo sapiens. Daí, como soe acontecer com os inadimplentes do tráfico de drogas bem como aos da Natureza, teremos que dar quitação com a própria vida. Não a vida individual, porque esta vem sendo cobrada ordinariamente pelo processo de gestão biológica, mas sim a morte coletiva, geral, irrestrita da espécie como um cataclismo irremediável.
O Homo sapiens sempre se sentiu ameaçado e ao mesmo tempo atraído por profecias escatológicas. Desde as religiões arcaicas até as cientológicas de hoje em dia, todas, invariavelmente, têm um viés apocalíptico segundo o qual a redenção da espécie há de passar por uma mortandade espetacular e coletiva, seguida de uma prestação de contas da vida terrena e um processo de classificação final: os bacanas serão expostos em regozijo nas vitrines celestiais e os malas lançados nos autofornos do inferno, numa tribulação radical e eterna, sob o olhar vermelho e os adornos cornoicos do capeta. A história que nos contam do dilúvio, seja o de Noé, seja o de Gilgamesh, foi apenas um ensaio, um teste da maquinaria sinistra, uma prévia do que poderá ser um apocalipse em condições pra valer.
Por mais industrioso e criativo que seja o Homo sapiens, esse animau çinixtro que se irrompeu agora por último do ramo evolutivo da vida, ele não consegue criar coisa alguma sem que desmanche outra. E o que é mais grave: quase sempre lançando mão de um desperdício extraordinário. Qualquer criação humana implica sempre num desmanche de riquezas naturais. Do tipo assim: para se obter uma posta que seja de picanha é preciso derrubar um sem número de metros cúbicos de árvores, consumir não sei quantos carros-pipas de água potável, assorear quilômetros de rio, espalhar pelo céu toneladas nuvens de gás de efeito estufa e assim por diante.
Quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura? A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros.
Se Deus existe, Ele passou muito tempo na moita até que pudesse ser percebido por alguém. O universo, como existência física, é estimado em 14,5 bilhões de anos pelo calendário terreno, quando surgiu de um ovo pré-universal, numa explosão espetacular, cujos estilhaços formam os monumentais corpos celestes. Em um desses estilhaços, dos bem pequenos, é verdade, o Homo sapiens, a nossa espécie primordial, surgiu há cerca de 145 mil anos, ou seja: a nossa existência no universo ocupa o percentual infinitamente miúdo de 0,001% da existência do mundo.
Depois que paguei a última prestação da geladeira eu pensei: agora vou fazer economia para comprar a TV de plasma, para assistir à Copa do Mundo da África do Sul. Afinal, Copa é Copa, uma emoção que só dá de quatro em quatro anos e pra quem já ta ficando assim mais pra lá do que pra cá como eu, pode até ser a última.
Talvez uma das noções mais nostálgicas, pesarosas e tristes que possamos ter é admitir que um dia o nosso planeta seguirá o curso de seu destino sem a nossa presença, sem a presença do Homo sapiens e seus feitos extraordinários. Sem nossas máquinas, sem nossas catedrais, sem nossos túneis, sem nossos poemas, sem nossas paixões, sem nossas crenças, sem nossa semelhança com Deus, sem nosso orgulho de espécie, sem nossos sonhos, sem nossos descendentes reproduzindo tudo isso em maior ou menor grau, mas com pretensões de originalidade.
O Homo sapiens, este bípede implume, mamífero por condição e pretensioso de nascença, é um animal encantador, que se diferencia de toda bicharada pelo o uso da razão e pelo porte da moralidade. E é ao mesmo tempo um tanto çinixtro, exatamente por ser moral e dotado de raciocínio e se negar a usar essas faculdades praticamente exclusivas para se resguardar como espécie, neste momento da história em que toda a fauna humana passeia perigosamente numa frágil e movediça passarela sobre os horrores de um abismo.
Há pouco tempo narrei em crônica um fato inusitado: Eu estava em minha seção de trabalho e a secretária me avisou que havia alguém que queria falar comigo e não quis adiantar o assunto. A secretária entronizou o moço. À primeira vista, não parecia alguém ligado a livros, como as pessoas que costumam me procurar. Alto e esquelético, pele crespa, cabelos maltratados, com jeito de quem tenha crescido com alto déficit calórico e exercesse alguma atividade ao sol, na poeira. Talvez fosse tratador num confinamento de bois.