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EDIVAL LOURENÇO
EM 03/02/2011 ÀS 03:32 PM
1 — amar, amar de novo, amar sempre
2 — trocar a parceria, se já não é mais possível a cumplicidade
3 — religar um sonho de juventude e se apaixonar perdidamente
4 — checar os instrumentos de voo, sem deixar que o amor à segurança lhe roube o amor à liberdade
5 — morar num país de cultura não-ocidental
6 — ler Finegans Wake, de Joyce
7 — parar de elogiar Faulkner ou Clarice Lispector só porque os outros elogiam
8 — ler a Bíblia acompanhada de um bom dicionário bíblico
9 — trocar um vício por um novo hábito
10 — passar uma semana num mosteiro ouvindo o silêncio ou o zoar de seus ouvidos
11 — fazer amizade com uma pessoa excêntrica
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EDIVAL LOURENÇO
EM 31/01/2011 ÀS 05:36 PM

A todo instante os veículos de comunicação de massa despejam cachoeiras de notícias em nossos lares sobre os desastres do clima ao redor do mundo. São nevascas glaciais, chuvas despejadas provocando enchentes diluvianas, montanhas que surfam ladeira abaixo arrastando tudo o que há pela frente, regiões assoladas pela seca, incêndios descontrolados, ventanias descomunais, derretimento das calotas polares, morte coletiva de corais, proliferação de algas venenosas, desertificações de áreas agricultáveis, desaparecimentos de elos da cadeia ecológica etc. O homem, esse bicho da terra tão pequeno, como diria Camões, se vê impotente diante de tanta rebeldia do clima. O aquecimento global é o culpado recorrente de todos esses males que nos atribulam nesta fase geológica.
Mas em verdade, o que é esse aquecimento? Há teorias para todos os gostos e conveniências. O ex-presidente neoconservador George W. Bush, por exemplo, se filia a uma ideia de que se trata de um fenômeno natural e cíclico, sobre o qual não podemos exercer nenhuma influência. E mais: estaríamos vivendo o fim da História nos moldes defendidos por Francis Fukuyama ao repisar Hegel e caberia ao Império americano não assinar o Protocolo de Kyoto de redução do efeito estufa, mas invadir o Iraque para debelar o eixo do mal. Sem contar que estaria unindo o útil ao agradável: cumpriria as profecias milenaristas, atenderia às empresas da família e dos patrocinadores de campanhas políticas, além de suprir o mercado americano de petróleo. Em seu realismo alucinado, acreditava simplesmente estar preparando o mundo para um reino de mil anos de paz e harmonia, nos moldes apregoados pelo cristianismo primevo e, sobretudo, medieval. Uma mistura filosófica com desvio supersticioso muito parecida com o amálgama que levou Hitler a empreender o seu malfadado III Reich.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 18/01/2011 ÀS 01:48 PM
1 — colocar esta lista em ordem;
2 — fazer um checkup;
3 — fazer um exame de consciência;
4 — deixar o script alheio e viver o seu próprio;
5 — derrubar uma árvore (que ameaça cair sobre sua casa);
6 — trocar a fiação da casa (antes que ela incendeie);
7 — clarear os dentes;
8 — clarear as vistas;
9 — retirar as manchas da pele;
10 — retirar (ou assumir) as manchas da personalidade;
11 — retirar os caroços do corpo (exceto os essenciais...
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EDIVAL LOURENÇO
EM 14/12/2010 ÀS 10:53 PM
O instrumento mais importante do manejo democrático republicano é sem dúvida a legitimidade. Uma espécie de aval que o governante retira da categoria social mais ampla (tão ampla que às vezes chega às raias da abstração) que é o povo, para, em nome do povo, gerir a nação, ou parte dela, conforme o caso.
Aliás, os países modernos só lograram alcançar existência depois que o instituto da legitimidade ficou cristalizado entre os povos. Ao longo da História, muitas nações entraram em decadência e foram atingidas pelo caos e até pelo desaparecimento por falta de legitimidade. Ou seja, se nenhum grupo que alcança o cerne do poder não tem autorização da maioria para governar, acaba provocando guerras fratricidas. E não raras vezes espalha o caos e leva aquela sociedade ao aniquilamento.
A América latina, ao longo do tempo, com suas propaladas bananas republics, com suas ditaduras famigeradas, tem sido pródiga na produção de governantes sem legitimidade, com golpes sucessivos e consequências desastrosas, com países perdendo o bonde da História. Valendo-se de um bordão de eloquência barata, mas de eficácia comprovada pelo supremo mandatário da nação em vigor, pode-se afirmar sem receio dos equívocos, que nunca antes na história deste país um presidente teve tamanha legitimidade como o Presidente Lula. Se se considerar apenas o mandato conquistado por meio das eleições livres e diretas, sua legitimidade se equipara à dos três presidentes anteriores (Collor, Itamar e FHC).
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EDIVAL LOURENÇO
EM 03/12/2010 ÀS 09:59 AM
Talvez porque estamos tão afundados em nossas batalhas particulares não percebemos quantas guerras se travam ao nosso redor, nestes dias malucos de passagem por nós. Com bastante propriedade, o estresse já foi eleito a moléstia do novo século. O desassossego já se instalou com ânimo definitivo em nossos pobres corações.
Os Estados Unidos e seus aliados travam uma guerra convencional contra o Iraque, supostamente em resposta a uma guerra assimétrica perpetrada pela Al Qaeda contra pontos simbólicos americanos. A guerra do tráfego azucrina o mundo inteiro, com batalhas especialmente purulentas, como aquelas recentes em Medelín, na Colômbia; em Acapulco, no México; e esta agora no Rio de Janeiro, em que bandidos de facções rivais se unem em operações sangrentas e tumultuárias, abrindo fogo contra a sociedade desprotegida, com o intuito sinistro de intimidação e alargamento de seus domínios.
A guerra cambial americana, que consiste em despejar de uma só vez, nos mercados emergentes, seis trilhões de dólares sem lastro, supervalorizando as moedas locais, com efeitos catastróficos para a produção e o equilíbrio da balança de pagamentos de cada país. Acreditam os estrategistas americanos que com isso repartirão equitativamente a crise deles com os países emergentes. Eles consomem além da conta e nós pagamos a pindura descomunal.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 22/11/2010 ÀS 08:32 PM
A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.
Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 25/10/2010 ÀS 01:54 PM
O Homo sapiens é um animau tão çinixtro que chega a pedir perdão pelos crimes que não cometeu. No entanto, em rituais festivos, roga fervorosamente a Deus que o abençoe, pelos crimes que de fato comete. Tentarei inicialmente justificar essas afirmativas, não com argumentos lógicos, como tem sido a praxe desta série de artigos. Mas sobretudo com uma cena que presenciei tempos atrás.
Um amigo me convidou para um churrasco na fazenda de um parente dele, que acabava de concluir uma fase importante num empreendimento agropecuário. Fomos, numa manhã de domingo. O local situava-se numa região onde eu conhecia bem e tinha para mim um alto valor afetivo, pois passara por ali a minha infância. Eu me lembrava que era uma paisagem idílica e exuberante. Um grande vale descansado, com campos limpos e arenosos a sumir de vista, entrecortados por riachos, por matas de galeria, matas de cerradão e vargedos de buritizais, povoado pelas araras, com seu festival de cores e gritos que ecoavam nas colinas levantadas aqui e ali, como espiões de torrão. No meio do cenário passava o rio, como que recolhendo em tributo as águas sempre claras dos ribeiros. De longe já pude perceber os destroços da terra arrasada. O novo proprietário mandara passar tratores de esteira atrelados com correntes brutais sobre a vasta região. Tudo caiu por terra na mesma levada: Cerrados, matas, árvores frutíferas, buritis. Não houve respeito às nascentes, às matas ciliares, aos declives das colinas, à terras úmidas, nem mesmo reserva legal havia, onde a vista pudesse alcançar. Meu amigo me contara antes que seu parente comprara numa região inóspita uma terra de pirambeira e dera aos órgãos de fiscalização do meio ambiente como reserva legal, compensado a que ele não deixara na propriedade.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 14/10/2010 ÀS 08:46 PM
Nas últimas décadas os marqueteiros firmaram a convicção de que nossos impulsos mais irresistíveis nascem de uma camada ancestral de nosso cérebro, aquela do momento evolutivo em que os répteis eram o ramo mais evoluído da árvore da vida. Os estímulos audiovisuais afetam prioritariamente nossa parte do cérebro reptiliano. Os répteis têm predileção pelas coisas que se movimentam buliçosamente diante de seus olhos. Nós, num processo regressivo, também estamos cada vez mais adorando coisas que borbulham em nossa frente. É o nosso lado voyeur por excelência.
Com a nova moldagem de nossas preferências era de se esperar que o mercado desenvolvesse produtos finamente sintonizados a essas necessidades. Nesse contexto, o surgimento do reality show foi uma conseqüência lógica e inevitável. Pois é da natureza do mercado criar necessidades e produtos adequados para supri-las. Qualidade total é isso: artificializar a necessidade e criar um produto sob medida. A noção de reality show foi cristalizada a partir de uma dura advertência de George Orwell, em 1948, com o romance '1984', em que cunhou a expressão Big Brother, o grande irmão dos regimes ditatoriais que a todos veriam e controlariam com tentáculos de polvo. Naquela mesma década surgia o programa Candy Camera, de Allen Funt, aquele que é tido por muitos como o primeiro reality show da TV. A Guerra do Golfo iniciada em 1990 foi um segundo momento do reality show. A Rede de TV CNN desembarcou no cenário de guerra antes mesmo dos soldados e fez uma cobertura espetacular.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 04/10/2010 ÀS 11:28 AM
Quem trabalha como assessor de um executivo, de uma autoridade, seja pública, seja privada, em algum momento, cedo ou tarde, terá a sensação de ser mais inteligente do que o chefe. Não raro este sentimento é sufocado pela ideia um tanto lógica de que se o assessor fosse de fato mais inteligente, por certo o assessor seria chefe, e o chefe seria o assessor. E estamos falados.
E assim o subalterno se recolhe à sua sombra de insignificância e legitima o chefe em seu pedestal. Mesmo quando o assessor seja uma espécie de braço-direito, daqueles que não descuidam de seu assessorado, escrevendo seus discursos, suas palestras, falando por ele nas entrevistas, dizendo-lhe como deve se portar, o que propor, que negócio fechar, que hora entrar, que hora sair de uma situação, daqueles que entregam o parecer finalizado, que levam o despacho pronto para colher assinatura no rodapé do imbróglio mais impermeável. Ainda assim, pela lógica da disposição das coisas, pelas posições no organograma, pelo status do cargo, pelo salário que recebe, o assessor, mesmo percebendo que sua lucidez possa ser maior do que a do assessorado, é levado a crer que alguma coisa do chefe (o músculo de tomar decisão, o tirocínio talvez) seja mesmo superior. Mas, convenhamos. Como não poderia Nicolau Maquiavel ter a sensação de ser mais inteligente do que Lourenço de Médici. Como não poderia José Bonifácio de Andrada e Silva considerar-se mais inteligente do que D. Pedro de Alcântara? Como não poderia Galileu Galilei sentir-se mais inteligente do que o grão-duque da Toscana? Como poderia Carlos Drummond de Andrade não sentir-se mais inteligente do que o Ministro Gustavo Capanema?
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EDIVAL LOURENÇO
EM 27/09/2010 ÀS 10:50 AM
Neste momento em que um texto do Flávio Paranhos sobre a Utilidade da Arte esquenta as discussões aqui na Bula, me parece oportuno o retorno deste artigo que foi publicado há cerca de três meses.
O artigo não responde nem polemiza com Flávio Paranhos, no entanto, por avaliar a questão a partir de enfoques e premissas diferentes, acaba apresentando afirmativas que, pelo menos em aparência, divergem das apresentadas por ele. Assim, a oportunidade se dá não pela polêmica, mas por conceder aos leitores alguns argumentos, ainda que rarefeitos, e uns pontos de vista a mais sobre essa discussão que, tenho suspeitas firmadas, não esgotará aqui, nem nesta geração. Portanto, vamos ao artigo.
(Carlos Willian)
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