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Edival Lourenço

POR EM 09/12/2008 ÀS 11:47 PM

O rumo inesperado de madame Liólio

publicado em

Ela, sim. É que era mulher feliz. Pelo menos era invejada por dez de cada dez mulheres de Mundocaia.

Consuelo Abadia Liólio, mulher de empresário monopolista, mãe de quatro filhos saudáveis e inteligentes, patronnesse das mais badaladas festas do hight society. Era o que  Ibrahim Sued convencionou chamar de “locomotiva”. Por onde ia, arrastava todo mundo, ditando a tendência da moda. Só pra se ter idéia da força de sua liderança, certo dia ela apareceu a uma festa com um rasgão acidental na meia, na perna direita. Na festa seguinte, - pasmem! - suas súditas, sem exceção, circulavam galhardamente, ostentando suas meias rasgadas,  a lá madame Liólio.

No tempo devido, os filhos, um a um, foram se casando, como uma coisa natural. Na mesma ordem em que nasceram. Obviamente com as moças mais cobiçadas. Não do lugar. Tinham o capricho de importar as mais belas beldades da Capital, que Munducaia talvez não tivesse moçoilas à altura de seus rapagões.  Cada enlace, um acontecimento, uma festa de arromba de ficar na memória pro resto da vida.

No entanto, cada filho que ganhava o mundo era um pique apertando as correias das percepções do existir. A noção de refúgio vazio, de vida sem sentido aterrava sua alma com a força dos deslizamentos de terra. As festas, que antes lhe proporcionavam alegria, eram agora verdadeiros tormentos.

Ao mesmo tempo em que as emoções eram esburacadas pela tristeza sem conta, os hormônios cuidavam de redistribuir suas carnes e banhas em proporções nada complacentes. As ancas bem esculpidas foram se esvaziando, subindo para a corcunda, as omoplatas e os úberes. A barriga avolumou-se com banhas vindas sabe-se lá de onde.

Foi então que chegou a vez da filha caçula se casar. Para aumentar o desgosto já reinante, ela enoivou-se com um empregado subalterno de uma das empresas do pai. O sujeito pardavasquinho, sem eira nem algibeira, trabalhava no curtume, na lida de couros, e deles portava o fedor impregnado.

Madame Liólio tentou de tudo para remover da filha o propósito de desposar-se com o camaradinha. Mas para ela, nada servia, a não ser o casório, no dia e lugar já combinado, com o sujeito com odor de curtume e tudo. Mas na noite da véspera, a mãe chamou o que era pra ser genro e com ele teve uma conversa reservada, em local neutro, fora da vigilância familiar. Ninguém sabe exatamente do que trataram.

Só se sabe que na noite seguinte, convidados a postos, festança preparada, o noivo não compareceu, nem madame Liólio foi vista. Sem genro, sem sogra, sem casório, a euforia da festa foi se convertendo em lágrimas, decepção e tititi. Para sorte dos azarados, os quitutes e acepipes foram servidos no outro dia em abrigos de idosos e crianças enjeitadas.

Tempos depois, correu a assombrosa notícia de que a ex-futura sogra foi vista com o ex-futuro genro levando vida selvagem nas cavernas, entre morcegos e bichos ferozes, na região de montanhas e cânions, da reserva de Bamberra.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:50 PM

O relatório Ayres Brito

publicado em

Na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que visa impedir as pesquisas com células-tronco embrionárias, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito teve uma atuação impecável.  Nesta que é uma das ações mais importantes que já ocorreram na história da Suprema Corte, Ayres Brito foi diligente em tudo. Pela primeira vez o STF valeu-se do instrumento de representação popular chamado Audiência Pública, para colher as mais representativas opiniões sobre o assunto. Ainda não houve a decisão final, mas o relatório do ministro é uma peça que vale a pela de ser lida até como obra literária. Não bastassem a qualidade técnica, o embasamento científico, a articulação lógica dos assuntos, o texto foi composto num estilo elegante, claro e cativador, digno das melhores peças literárias. Leia alguns trechos do relatório, que tem 72 laudas, e confirme.   

 
 
Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito
 
Excertos: artigos 29, 30, 31

Não estou a ajuizar senão isto: a potencialidade de algo para se tornar pessoa humana já é meritória o bastante para acobertá-lo, infraconstitucionalmente, contra tentativas esdrúxulas, levianas ou frívolas de obstar sua natural continuidade fisiológica. Mas as três realidades não se confundem: o embrião é o embrião, o feto é o feto e a pessoa humana é a pessoa humana. Esta não se antecipa à metamorfose dos outros dois organismos. É o produto final dessa metamorfose. O sufixo grego “meta” a significar, aqui, u’a mudança tal de estado que implica um ir além de si mesmo para se tornar um outro ser. Tal como se dá entre a planta e a semente, a chuva e a nuvem, a borboleta e a crisálida, a crisálida e a lagarta (e ninguém afirma que a semente já seja a planta, a nuvem, a chuva, a lagarta, a crisálida, a crisálida, a borboleta). O elemento anterior como que tendo de se imolar para o nascimento do posterior. Donde não existir pessoa humana embrionária, mas embrião de pessoa humana, passando necessariamente por essa entidade a que chamamos “feto”. Este e o embrião a merecer tutela infraconstitucional, por derivação da tutela que a própria Constituição dispensa à pessoa humana propriamente dita.
 
Essa pessoa humana, agora sim, que tanto é parte do todo social quanto um todo à parte. Parte de algo e um algo à parte. Um microcosmo, então, a se pôr como “a medida de todas as coisas”, na sempre atual proposição filosófica de Protágoras (485/410 a.C.) e a servir de inspiração para os compositores brasileiros Tom-Zé e Ana Carolina afirmarem que “O homem é sozinho a casa da humanidade”. E Fernando Pessoa dizer, no imortal poema “TABACARIA”:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo”.
 
Por este visual das coisas, não se nega queo início da vida humana só pode coincidir com o preciso instante da fecundação de um óvulo feminino por um espermatozóide masculino. Um gameta masculino (com seus 23 cromossomos) a se fundir com um gameta feminino (também portador de igual número de cromossomos) para a formação da unitária célula em que o zigoto consiste. Tal como se dá com a desconcertante aritmética do amor: um mais um, igual a um, segundo figuração que se atribui à inspirada pena de Jean Paul Sartre.
 
Não pode ser diferente. Não há outra matéria-prima da vida humana ou diverso modo pelo qual esse tipo de vida animal possa começar, já em virtude de um intercurso sexual, já em virtude de um ensaio ou cultura em laboratório. Afinal, o zigoto enquanto primeira fase do embrião humano é isso mesmo: o germe de todas as demais células do hominídeo (por isso que na sua fase de partida é chamado de “célula-ovo” ou “célula-mãe”, em português, e de “célula-madre”, em castelhano). Realidade seminal que encerra o nosso mais rudimentar ou originário ponto de partida. Sem embargo, esse insubstituível início de vida é uma realidade distinta daquela constitutiva da pessoa física ou natural; não por efeito de uma unânime ou sequer majoritária convicção metafísica (esfera cognitiva em que o assunto parece condenado à aporia ou indecidibilidade), mas porque assim é que preceitua o Ordenamento Jurídico Brasileiro. Convenhamos: Deus fecunda a madrugada para o parto diário do sol, mas nem a madrugada é o sol, nem o sol é a madrugada. Não há processo judicial contencioso sem um pedido inicial de prolação de sentença ou acórdão, mas nenhum acórdão ou sentença judicial se confunde com aquele originário pedido. Cada coisa tem o seu momento ou a sua etapa de ser exclusivamente ela, no âmbito de um processo que o Direito pode valorar por um modo tal que o respectivo clímax (no caso, a pessoa humana) apareça como substante em si mesmo. Espécie de efeito sem causa, normativamente falando, ou positivação de uma fundamental dicotomia entre dois planos de realidade: o da vida humana intra-uterina e o da vida para além dos escaninhos do útero materno, tudo perfeitamente de acordo com a festejada proposição kelseniana de que o Direito tem a propriedade de construir suas próprias realidades. 

clique para ler o relaório integralmente

 


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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:56 PM

Operação Solta & agarra

publicado em
Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin
 
 

Não é de hoje que a fauna ictiológica nacional vem experimentando os privilégios do período de defeso, ou da piracema. Nessa fase, como o próprio nome já diz, a pesca é vedada. A não ser a pesca esportiva, do tipo agarra&solta. A Polícia Federal agarra e o Supremo Tribunal solta.

Nos últimos dias o noticiário nacional deu conta de uma tarrafada espetacular promovida pelo barco pesqueiro da Polícia Federal. Numa só operação trouxe enredados em suas malhas peixes tão importantes quanto aquela proporcionada pelo milagre de Jesus Cristo aos apóstolos no mar da Galiléia.

Dentre os peixes fisgados, três chamaram especialmente a atenção, por se constituírem verdadeiros representantes das espécies mais preciosas encontráveis nas águas do mercado sócio-financeiro nacional.

Numa escala crescente de importância e sofisticação, temos Celso Pitta, uma espécie de cascudo tosco que chafurda o lodaçal dos pântanos, por onde são usurpadas quantias vultosas dos recursos públicos, por meio de ocupação de cargos eletivos, com votos da massa ignara. É uma evolução (ou seria degenerescência?) de um outro cascudo emérito chamado Paulo Salim Maluf.  

Acima dele, vem Naji Nahas, uma espécie de piranha do Nilo, com agilidade e faro especial para negócios excepcionais, além de dentes afiados para grandes bocadas. Eventualmente nada pelo lodo das verbas públicas, mas seu habitat preferencial são as águas turvas das informações privilegiadas. Com essa habilidade leva de roldão verbas públicas e privadas, quebrando bolsas, engrossando fundos, transferido de mãos, de uma hora pra outra, riquezas monumentais.

Já o terceiro, e ocupante do topo da linha evolucionária, está o tubarão iluminado Daniel Dantas, um monetarívoro voraz com aptidão para descolar sua presa em qualquer habitat existente. De lamas sulfurosas a águas translúcidas. Como aquelas bactérias hipertermófilas que toleram ambientes que vão da panela de pressão ao botijão de nitrogênio. Ou seja, em busca de uma oppotunity, trafega com desenvoltura tanto pelas panelas de pressão da patuléia, quanto pelos gélidos botijões do governo.

Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin.

Os demais peixes apanhados são bagres, lambaris, rêmoras, raias-miúdas e outras espécies parasitárias que sobrevivem exclusivamente dos detritos dessas espécies dominantes das águas monetárias brasileiras.

O mais curioso é o método pesqueiro inaugurado nesta mais recente operação, que evoluiu do agarra&solta do defeso clássico para o solta&agarra (do Sânscrito Satiagraha). Obviamente para outra vez soltar. Inauguramos uma espécie de defeso heterodoxo. Talvez o método se justifique porque uma das características marcantes dos peixes é ter o apetite maior que a memória. Minutos depois de morderem uma isca e serem apanhados e soltos, são capazes de morder a mesma isca outra vez.

O método não é do IBAMA, mas tem se mostrado extremamente eficaz enquanto instrumento de preservação de nossa fauna peixeira.

A persistir este jeito de pescar, ou seja, esta prática na administração da justiça, podemos ter confiança de que nossas espécies mais representativas estarão a salvo da extinção. Nem mesmo o aquecimento global terá poder de colocá-las em risco.   

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POR EM 01/12/2008 ÀS 05:16 PM

Flagelados da chuva

publicado em

Chovia. Chovia. Como chovia! Como se a chuva quisesse apagar a memória de um clima ameno, quando era possível viver confortavelmente naquele recanto de vale. Agora o rio era mar, a rua era rio e a enxurrada derrubava tudo feito horda de bárbaros enfurecidos. Estávamos num dilúvio sem arca.

Em suspenso, como se amparando apenas nos mútuos apoios, a gente se acotovelava sobre os móveis mais altos, dentro da casa, dentro do mundo, fora da proteção civil, clamando pelos céus. E chovia, como se a chuva agora fosse o dom natural do tempo.

Pela fresta da janela vi quando veio uma onda, desgarrada do cimo da serra em busca do Vale do Rio Itajaí. Nossa casa, pobre casa! – não haveria de resistir àquela vergasta. Num berro de alerta mobilizei minhas forças e minha família. Num átimo saltamos dentro da chuva rumo a um local mais seguro. Antes que alcançássemos o morrote ali nas cercanias, a onda nos pegou. Nossa casa desceu moída.

Fomos arrastados pelo turbilhão. O rugir das águas sujas se misturava aos nossos gritos desesperados. Fomos ancorados por uma pedra abaixo. Minha mãe já não requeria cuidados: estava morta. Meus filhos estavam escoriados, mas alertas e prontos para se defenderem, até a cima dos limites de suas forças. Minha mulher, coitada, grávida de oito meses, parece que teve antecipadas as dores do parto.

Deixando minha mãe para trás, começamos a empreender nova caminhada rumo à área menos vulnerável. Demos apenas alguns passos transversais, – passos difíceis, atolados, escorregadios.  Foi quando vi que nova onda descia em nossa direção. Meu coração desabalou, mas não era possível imprimir maior velocidade em nossa fuga.

A onda agora era mais densa, quase um barro é que era. Como um azorrague, ela nos bateu sem piedade. Gritei por Deus. Minha mão escapou da mão de minha mulher. Minha mulher, com nosso filho dentro e nosso casal de filhos de fora, foram arrastados como se fossem detritos na fúria das ladeiras. Surfei a onda de barro como um surfista improvisado. A onda amainou-se muitos metros abaixo.

Pude perceber que minha família ainda se debatia e lutava pela vida, tentando erguer-se do visgo da terra. Comecei a cavar com as unhas, com as forças do desespero. Cheguei até descobrir o rostinho de minha filha, que deu um grito de sinal de vida.

Aí, sem que eu visse, é que veio a terceira onda. O arremate da tragédia. Um carregamento de terra que desamarrou-se da encosta e veio deslizando furiosamente, recobrindo tudo o que as ondas anteriores haviam colocado por terra.

Minha família ficou soterrada. Eu, como estava mais na superfície, fui empurrado aos trambolhões. E não vi mais nada. Só vi quando já estava aqui neste quarto de hospital. Dizem que, por um milagre, fui salvo por um bombeiro.  

Eu só sei que tinha planos, eu tinha sonhos para meus filhos e minha mulher amada, o amor da minha vida. A gente já havia comprado roupinhas para o filho que ia nascer. Escolhido o nome. Ia ter o nome do avô. Agora nem sei...    


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:35 PM

Deus e os ovos no porta-malas

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As atitudes de rebeldia foram chegando com a adolescência, devagar, quase que imperceptivelmente. Uma roupa mais corajosa hoje, uma resposta mais dura amanhã, um gesto mais abusado, um prego na língua ou um tatoo nas cadeiras depois. Atitudes que os pais jogavam na conta das inquietações da idade. Um indicador seguro era o boletim da escola, que mantinha níveis aceitáveis para o histórico da família.

Mas quando Analisa descobriu que havia a noite e que na noite havia a balada e que na balada havia... Aí, sim.

Caiu num deslumbre endiabrado. Acabou o tempo para a escola e a família. Passava o dia na internet, alimentando comunidades, atualizando o blog, combinando com a galera sobre a balada que empreenderiam à noite. Duas coisas a tiravam do computador: baladas e compras. Adquiria os modelitos de grife, cada vez mais arrasantes, tanto pelo preço, quanto pela extravagância. Eram, como se diz, roupas de andar pelado.  

E no embalo, de balada em balada, Analisa foi selecionando um grupo maneiro de amigos irados. O tititi que rolava é que ela pertencia mesmo a uma galera da pesada.

No dia em que visitou seu blog, a mãe levou um choque e teve de ser internada. Logo na primeira página estava lá sua filinha querida, sensualmente despachando uma fila enorme de marmanjos mal-encarados, numa seção coletiva de beijos na boca.

Nas páginas seguintes desfilava uma alegoria de horrores. Analisa, com uma malícia medonha, se apresenta fazendo roleta-russa com um revólver prateado. Na seguinte, puxando um brau. Depois, cafungando um carreirão de cocaína sobre um espelho ordinário, desses com moldura cor de cenoura. Na próxima, braço na chincha, recebendo na veia uma dose cavalar de outra droga qualquer.

Mas quando a mãe entrou na área pornô, caiu desmaiada, logo ao ver um piercing animal trespassado nas partes. Nem chegou a ver as orgias tipo hardcore que a pequena fazia e jogava na rede, daquelas de deixar Calígula rodopiando na catacumba.

Quando a mãe se recuperou do choque, juntou-se com outros familiares e orelhou a filha e a internou numa clínica de drogados, ou de malucos, não sei.

Semanas depois, quando finalmente teve alta, a turma já estava esperando Analisa para o retorno à mesma vida de antes. A mãe desesperou-se, mas antes que o marido e outros parentes chegassem para ajudá-la na operação de impedimento, a filha pegou o carro da mãe na garagem, pôs a galera pra dentro e acionou o portão para novamente mergulhar no mundo.

Sem mais a fazer, a mãe entrega ao sobrenatural: vai com Deus, minha filha.

- O carro já tá cheio, mãe. Se Deus quiser ir, só se for no porta-malas.

 Aquela noite Analisa bateu o carro. E bateu feio. Todos morreram. Ficaram irreconhecíveis nos destroços.

Mas, no que sobrou do porta-malas, a mãe encontrou uma cartela de ovos, esquecida ali na última compra. Por incrível que pareça, estavam intactos. A mãe acha que foi um capricho de Deus.  


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:48 PM

A dinastia

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Dava gosto vê-los trabalhar. Ao nascer do sol, puxado pelo pai, seu Adão, o grupo de nove chegava ao pé do eito como quem chega para um espetáculo de dança ou ritual de fé. Um ao lado do outro, por ordem de idade e tamanho, ferramenta no ombro esquerdo. Com a mão direita, retirava o chapéu e o retornava à cabeça, olhando pro céu com gravidade. Protegia o rosto com um escudo de sinal da cruz e balbuciava umas palavras de subserviência a Deus. Tudo em uníssono. E mandava ver.

Seu Adão e os filhos eram afamados no Vale do Bingueiro, a ponto de serem chamados de A Disnatia. Não tinha serviço ruim para eles. Dizem que cobravam caro, mas o coronel Betúlio, seus contratante mais freqüente, achava que era o caro que saía barato: serviço a tempo e a hora.

Seu Adão buscou o nome dos filhos na genealogia de Cristo: Abraão, Davi, Jacó, Jessé, Salomão, Josafá, Ozias, José e Messias. Por ser o caçula, franzino, a rapa da tacha, se diz, Messias ainda não ia pro eito. Quando completou 10 anos, idade boa, Messias teve um troço, um desmaio que assustou todo mundo. O pai fretou um Jipe e o levou para tratar em Mundocaia. Abaixo de Deus, a Medicina lhe deu jeito. Mas Messias voltou com a cabeça virada: queria ser médico.

Seu Adão achou um disparate. Se nem o coronel Betúlio deu conta de ter um filho médico. Ele então!... Mas a idéia foi contaminando a família, como praga ou erva daninha. Os outros filhos, com tato e jeito, acabaram por convencer o pai a mandar o filho pra Munducaia estudar. Se nove não sustentar um, o mundo tá perdido, diziam.

 O filho franzino tinha para o estudo a mesma desenvoltura que os outros para a foice e a enxada. Não demorou para que Messias fosse o agente de idéias da cidade. Em poucos anos estavam todos contrariados com o estilo de vida que levavam. Pior. Perceberam que não havia mais lugar no mundo para gente que vivia como eles.

O mesmo ano em que deixamos o Vale, seu Adão, dona Eva e os filhos com nomes da Bíblia, se mandou pra Munducaia, atrás do sonho de ter uma vida melhor  um filho médico.

Rapidamente, cada qual arranjou uma ocupação. Serviço tosco, mas o bastante para continuar sustentando o sonho de ter um parente médico. Alguém a quem pudessem recorrer em caso de doença, de um ataque, de um acidente. Só lamentavam que o grupo havia esfacelado, cada qual prum canto, por sua conta e risco.

Quando o Messias se formou foi uma festa. A família reunida não cabia em si de justificado orgulho. “Coronel Betúlio não conseguiu ter um filho médico”, a vaidade comichava no íntimo do pai.

Agora Messias tem três empregos e pouco tempo para dar atenção ao pessoal que lhe foi tão bacana. Mas mês passado ele excedeu na displicência. Ao final de seu plantão, no pronto-socorro municipal, veio a notícia de um ancião anônimo atropelado.  Messias alegou que o outro plantonista, quando chegasse, cuidava do caso.

Só na manhã seguinte, Messias soube que o homem atropelado era seu velho e comovido pai. Mas agora era tarde demais.   


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POR EM 10/11/2008 ÀS 12:10 PM

Os desatinos de um nome

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Antes mesmo de nascer, o pai determinou: se for menina vai se chamar Desdêmona. A família não tinha informações de quem era Desdêmona na tragédia de Shakespeare, nem na ópera de Verdi, tampouco que o nome vem do grego e significa mulher de má sorte. Eh, o velho bardo gostava dos tais nomes falantes.

O restante da família achou o nome meio atrapalhado, mas ante a teimosia do pai durão, ninguém ousou demovê-lo. Como não havia ultra-som para revelar o sexo do rebento ainda no cerne da mãe, os familiares torciam para que viesse um menino, para quem o  pai escolhera um nome que não desagradava tanto: Iago. A sogra arriscou perguntar: por que não Tiago? A senhora é ignorante. Então fique calada! Disse o pai arrotando pretensas erudições.

Para descontentamento dos demais e gáudio do pai, veio uma robusta menina. Pai normalmente quer um filho-homem por amor de seu narcisismo. Mas ele se apegara tanto ao nome, que desejava ferrenhamente uma filha para lhe atribuí-lo. Então lá estava ela, a Desdêmona.

Antes que algum impedimento irrompesse, correu ao cartório para o registro. Quando declinou o nome, o escrivão perguntou se tinha certeza. Irritado o pai quis saber por quê. Desdêmona tem Demo no meio, disse o escrivão indiferente. Bobagem, retrucou o pai em sua convicção irremovível.

A menina tinha realmente alguma coisa de extraordinário. Quando a enfermeira foi tirar o sangue para o teste do pezinho, a agulha rejeitou a pele e derreteu que só cera morna. Trouxeram mais agulhas, e nada. Assombrada, a enfermeira desistiu do teste.    

Outras coisas estranhas começaram a acontecer. A enfermeira deu um berro e desmaiou ao adentrar o berçário e ver a pequena levitando meio metro acima da borda do berço.

Quando todo mundo já começa a acostumar com as esquisitices, ela deu de andar pelo rodapé das paredes. Depois evoluiu para as caminhadas pelo teto, de cabeça pra baixo, que nem uma lagartixa branca, falando coisas confusas com voz de caverna. Deu para olhar para os semáforos e as luzes se confundirem. Muita gente se acidentou com as confusões por ela provocadas. A lembrança do Demo no meio do nome assaltou o pai que, já meio assombrado, contou a todos.

A mãe fez novena, já não para a filha sarar. Mas para morrer e livrar a todos daquela tribulação, que julgavam ser a presença do demo. Certo dia, quando ela flutuava entre um bloco e outro do condomínio onde moravam, parece ter perdido a estabilidade e se estatelou no chão. O IML a deu como morta. Velório foi feito, mas, para espanto geral, na hora de fechar o caixão para ser enterrada, ela se levantou lepidamente e falou: mamãe, quero água.

Como tinham o atestado de óbito, acharam por bem considerá-la morta e registrou o nascimento de outra filha, como o nome que a mãe queria: Renata. E todos os problemas desapareceram e a ex-Desdêmmona é agora uma garotinha dócil e amigável. A mãe acredita que sua alma foi trocada.
 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:19 PM

Borboleta de plástico

publicado em

As novas gerações convivem com o plástico de forma tão natural como se ele fosse um elemento primitivo da natureza, sempre fazendo parte da vida do homem, como o fogo, a água a terra e o ar.

Mas o pessoal da minha geração, que mal passa do meio século de existência, sabe que somos mais velhos que o plástico. Mais velhos pelo menos que o uso corrente do plástico.

Me lembro bem da primeira vez que vi algum artefato do miraculoso produto. Era no final dos anos 50.  Meu primo Londino voltara de uma viagem a Iporá e de lá trouxera um pente de bolso que, num esforço cuidadoso, fazia um aro, topando as pontas. É claro que o proprietário do novel objeto não deixava a gente pôr a mão. Era só ele que realizava o prodígio, nos deixando pensar que o pente era de chifre ou de pau e que de repente o Londino tinha virado mágico.

Foi meu pai que o desmascarou, revelando que um amigo seu, o afamado sanfoneiro Zé do Dimas, que andava tocando por todo o país acompanhando duplas sertanejas, já lhe mostrara um pente daqueles, e que o tal produto tinha o enigmático nome de “matéria plástica”.

Meu segundo contato com o dito material foi um pouco mais traumático. No ano seguinte, meu pai voltava do giro da Folia de Reis, no início de janeiro, e trouxe um pedaço de pano de plástico. Do mesmo que era usado para proteger os instrumentos da chuva. Disse que o pano era para estender como uma tolda acima do meu catre, para proteger-me das goteiras, que eram abundantes na palhoça mal vedada.

Apesar das boas intenções de meu pai, o bendito toldo quase me leva a pro além. Na primeira chuva forte depois de instalado, minha mãe acendeu a lamparina para conferir a eficácia do artefato. Inavisadamente, deixou a labareda lamber a beira a barrado. Foi o bastante para que a chama se espalhasse rapidamente. Minha mãe mal teve tempo de me subtrair do incêndio. A palhoça só não queimou inteira porque a chuva, como bombeiro natural, evitou a pior.

Acho que a primeira e frustrada tentativa de usar o plástico em calçados foi no início dos anos 60. Comparado com os de couro era bem barato. Comprei um par de sapatos preto. Na hora que experimentei, com o plástico esticando, não percebi que estava apertado. Mas depois de um mês de uso, além do queimor sem tanto, ele me criou um calo crônico em forma de calando ao longo da sola de meu pé, que ainda ostento, mais de 40 anos depois.

Minha tia Francelina, na mesma ocasião, comprou umas sandalinhas pretas, enfeitadas por uma borboleta amarela por cima. Isso a deixou envaidecida. Mas na primeira vez que foi à escola com a novidade, ela rasgou em pleno recreio, deixando-a constrangida. Até com vontade de suspender os estudos.

Outro dia, andando pelos monturos do quintal da velha casa de meu avô, eis que me deparo com uma das borboletas amarelas das sandálias de minha tia. Estava íntegra, colorida, quase a ponto de voar. Com força bastante para abrir uma janela em minha alma para um mundo terno, cheio de nostalgias e recordações. 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:24 PM

O estranho

publicado em

Não dormiu por toda a noite. Ou pelo menos teve a sensação de não haver dormido. Fora tomado de sensações estranhas. Tudo começou com uma noção equivocada de desnível. De todo jeito que deitava, mesmo que com a cabeça apoiada numa pilha de travesseiros, Cairo se achava de cabeça pra baixo. Junto a isso vinha uma bola no estômago e uma perturbação na boca, como se os dentes tivessem se convertido num misto de algodão e pedregulho.

Não tardou para começar uma espécie de flutuação. O fato de morar na décima laje de um edifício de apartamentos parecia lhe retirar a firmeza. Mas o incômodo avançou. Era como se ele equilibrasse mal e mal numa quilha remota da Via Láctea. Sentia-se num mundo-de-corda-bamba-sobre-abismo.

Suspenso por escoras precárias e que a qualquer momento fossem desabar, arrastando-o para o fundo sem fundo de um buraco.

Cairo tentou pensar em coisas firmes e concretas para se recuperar daquele torpor. Mas suas tentativas surtiram efeito contrário. Seu corpo que apenas boiava sobre o abismo começou também a se diluir como um gás, até esparramar-se por completo a ponto de não haver mais noção de unidade.

Tentava mover-se, mas estava completamente paralisado. Não bolia um dedo sequer. Era como se seu coração e seus pulmões houvessem dissipado. Estava sem pulso e sem fôlego. E a noção de ser-em-si, ainda que vaga, talvez se desse agora por um processo extracorpóreo.  Estaria Cairo morto?

De manhã, o toque do despertador conseguiu reuni-lo outra vez. Mas era como se na urgência do reagrupamento ele tivesse sido refeito num arranjo diferente. Com as células colocadas em locais inadequados, formando órgãos com funções novas e desconhecidas. E porque não dizer, inúteis para a vida cotidiana.

A ver-se no espelho da pia, era como se visse, não um-outro, mas um não-ser.  Era ele mesmo, mas sem legitimidade para existir. Sua cara tacanha. Seus braços de cipó, suas mãos de barbatana, seu tronco de munguba, suas pernas de galho invertido ostentando na forquilha um cacho escroto.

Onde estaria o Cairo assertivo e focado, o executivo pitbull, o eficaz diretor de produção de uma multinacional? Suas mãos se apresentavam inábeis para as coisas mais comezinhas e tudo parecia inadequado, esbarrando nos objetos ou deixando-os caírem. Achou o dentifrício nojento, a escova esquisita e ao tentar escovar os dentes machucou as gengivas com gravidade, a ponto de tirar sangue.

Ao vestir-se não achava a ordem correta. A cueca sobre a calça, as meias sobre os sapatos. Foi um custo para ordenar essas coisas antes tão banais. Mas dar o nó gravata não foi possível. Por fim atinou de usar uma que já vem com o nó feito e é só puxar um fecho ecler. A muito custo arrumou-se. Pegou o elevador, o carro no subsolo e, achando-se um bicho de outro bioma, estranhou o sinal vermelho, avançou e envolveu-se num acidente de graves conseqüências.

 


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:56 PM

Batismo de fogo

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Belmiro sempre foi um menino bom. Nunca se deixou contaminar pelas mazelas da invasão, onde vivia com a mãe. Porque o pai, não. Este sim. Sujeito mala que se deixou envolver pelos negócios nebulosos dos traficantes e morreu cedo em condições suspeitas.

E, de boa índole que era, jurou pra mãe que com ele haveria de ser diferente. Jamais sujaria as mãos com as podridões do mundo em que seu pai se meteu até o pescoço. Haveria de estudar, pegar uma carreira honesta e decente. Ganhar a vida sem fazer mal a ninguém. Quem sabe um dia poderia bater no peito com justificado orgulho e dizer: tive tudo pra me perder na vida, mas aqui estou, honrado, honesto e feliz, para desmentir a todos esses que justificam suas mazelas pelas agruras da rua.

A mãe compartilhava desse sonho. Era questão de tempo: subir daquele buraco embrejado, sair da muvuca e ir morar numa casa de conjunto ou num apartamento de bairro decente. A duras penas mantinha o pequeno Belmiro na escola, só estudando, sem trabalhar, sem ir para a esquina onde pudesse dar curso a atividades ruinosas.

Belmiro escolhia os amigos. Optava sempre por aqueles que também alimentavam sonhos de engrenar na vida, mudar de sorte, encontrar um outro patamar, um jeito de viver e usufruir das coisas boas que a vida oferece, mas pede muita dedicação, firmeza e sacrifício em troca. Assim, um de seus raros amigos era o Toninho Zebu, junto com quem ia à escola, fazia tarefas de casa e descolou as primeiras minas. Um verdadeiro brother.

Ele estava firmemente determinado a seguir o figurino das pessoas de bem, daquelas que trilham pelo bom caminho sem se importar se há tempestade, se há cantos de sereia, se há tentações quase irresistíveis. Quando chegou a hora de trabalhar, Belmiro subiu pra cidade e bateu de porta em porta.

Semeou currículos a vento como as plantas jogam seus polens na primavera. Depois de meses, nenhuma resposta positiva. Foi quando restou a oportunidade de prestar concurso para o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar.

Belmiro nunca pensou em ser polícia, muito menos do BOE. Porque eles é que são chamados quando a situação entorna o caldo. Belmiro não era medroso, mas não queria ganhar a vida usando de coragem violenta.

Pela contingência da vida, fez a inscrição, e passou na prova. Comeu o pão que o diabo amassou naqueles treinamentos escrotos. Envenenou a índole o quanto pôde. Jurou defender a corporação contra quem quer que fosse. Jurou matar bandido como se mata rato no ninho ou se pisa em barata.

Ontem foi o batismo de fogo do novo oficial do BOE. Sua missão era, num bacorejo trivial, quando o comandante apontasse o dedo para um suspeito aleatório, Belmiro lhe aplicaria uma saraivada de balas. Simples assim. Foi então que o comandante apontou o dedo.  Justo para Toninho Zebu. Seu brother. 

 


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