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Eberth Vêncio

POR EM 14/06/2010 ÀS 10:01 AM

Livro revela como foi articulado assassinato de Trotski

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Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha IndesejadaA biografia clássica e detalhada de Liev Trotski (1879-1940) é a escrita pelo historiador Isaac Deutscher, publicada no Brasil em três volumes. Como parte dos arquivos soviéticos foi aberta, depois da queda do comunismo, a pesquisa está, em alguns pontos, datada, o que animou o general e historiador russo Dmitri Volkogonov a escrever “Trotsky — The Eternal Revolucionário” (Free Press/Simon & Schuster, 524 páginas, 1996). Trata-se de um livro notável, dado o acesso de Volkogonov aos arquivos abertos em 1991 e à sua experiência como militar que participou dos governos comunistas. O caráter autoritário de Trotski é rastreado e explicado com mestria, bem como sua excelente formação intelectual. Mas sobre o assassinato de Trotski o livro mais importante é “Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha Indesejada” (Publicações Europa-América, 543 páginas, 1994), de Pavel Sudoplatov, com a colaboração de seu filho, Anatoli Sudoplatov. Como chefe das Operações Especiais (assassinatos e terrorismo), Pavel Sudoplatov foi o homem que coordenou o assassinato do revolucionário ucraniano, no México, em 1940, e o roubo dos segredos atômicos dos Estados Unidos. Com o apoio do filho e dos pesquisadores Jerrold L. Schecter e Leona Schecter, Sudoplatov decidiu contar histórias sobre as quais não há informações precisas nem nos arquivos soviéticos (Stálin tinha o hábito de dar ordens verbais, sobretudo quando se referia a assassinatos e envenenamentos). No prefácio, o historiador inglês Robert Conquest, dos primeiros e mais gabaritados analistas do stalinismo, escreve: “Esta é a mais sensacional, a mais devastadora e a mais informativa autobiografia que alguma vez emergiu do meio stalinista. Um documento único”. O livro de Conquest “O Grande Terror — Os Expurgos de Stálin”, publicado na década de 1960, permanece atualíssimo, em linhas gerais.


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POR EM 14/06/2010 ÀS 09:23 AM

Sexo Temporão

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A vida tem lá uma certa comicidade também. Especialmente, na visão de brasileiro: “povo fodido, mas feliz...”. E o senso de humor aguçado permeia os ricos e a ralé, os emergentes e os submersos (falidos, quebrados, miseráveis e a tal gente abaixo da linha da pobreza...). Já que a vida neste planeta não se explica, que a levemos na flauta.

Recentemente, por ocasião do lançamento da campanha de prevenção à Hipertensão Arterial, o Ministro da Saúde sugeriu à nação que praticasse sexo mais vezes a fim de serem mantidos normais os níveis pressóricos. “Cinco vezes por semana seria o ideal”, ele disse, em tom professoral. “Será que é cinco vezes com a mesma mulher?!”, perguntou um amigo meu à própria esposa, ato impensado de extremo risco e que lhe rendeu uma noite mal dormida no sofá da sala de estar.

A ilustre autoridade recomendou também a prática habitual de esportes, controle do estresse (para não ser afetado por ele, só ficando enclausurado numa bolha, perdendo o juízo ou entrando em coma...), alimentação saudável (como sobreviver sem hormônios, conservantes e agrotóxicos?!) e uso comedido do sal. O ministro já imaginava que o conselho cairia no gosto de jornalistas, cronistas e piadistas. Espertezas do marketing. Dá-se o recado da forma mais assimilável ao grande público, provocando celeuma, ainda que uma parcela de abstêmios das “delícias da carne” se veja atingida pela surpresa, indignação e, supostamente, picos de pressão alta.


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POR EM 26/05/2010 ÀS 06:51 PM

MBA em Felicidade

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MBA é uma sigla inglesa dentre tantas outras (na modernidade, antes de tudo, é preciso resumir, condensar, economizar tempo até mesmo com as palavras; tempo é dinheiro; não temos tempo a perder; etc e tal...). Significa “Master in Business Administration”. Aportuguesando, quer dizer “Mestre em Administração de Negócios”. Por que, então, não se diz MAN, ao invés de MBA? Seria a língua inglesa mais glamorosa? O velho complexo de vira-latas enraizado na alma brasileira? 

Andraus (sim, ele tem o mesmo nome daquele edifício incendiado em São Paulo nos anos 70) está sentado no alpendre de casa colocando em dia as correspondências acumuladas. Telegramas de condolências têm aos montes, mas ele nem abre. Joga tudo dentro de um cesto de vime pra ler, quem sabe, qualquer dia desses. Já tinha lacrado fotografias, roupas, brinquedos e outras lembranças do filho. Podia, sim, engavetar telegramas solidários da mesma forma.

Comerciante rico e bem sucedido, ele se depara com um folder luxuoso enviado por um instituto especializado em pós-graduações para empresários: marketing (por que, diabos, não escrevem logo “mercadologia”?!), gestão de pessoas (este deve ser mesmo um curso muito útil, pois alguém ensina alguém a lidar com outro alguém, ou seja, tolerar, treinar, influenciar, dominar e domar pessoas), gestão empresarial, mercado de capitais, gestão de negócios, controladoria e finanças corporativas...


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POR EM 08/05/2010 ÀS 04:52 PM

A César, o que é de César; a Deus, o que é de Deus; e pra mim, 10% tá bom

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Um dos fragmentos mais conhecidos do Novo Testamento conta um episódio curioso acerca dos ensinamentos de Jesus Cristo para o povão daquela época (se na atualidade o ser humano esbanja ignorância, imagine só naqueles tempos bicudos).

Durante peregrinação com os discípulos e outros seguidores (e conta-se que eram muitos), Jesus teria sido provocado por um fariseu folgado. O espírito-de-porco perguntou ao Rabi se ele considerava justo que tributos fossem pagos pela população a Roma. Sabido até mandar parar, o mestre deu uma resposta de mestre ao interlocutor malicioso, já o repreendendo nas entrelinhas: “ — Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Na minha leiga interpretação, penso que Jesus sugerisse que não confundíssemos dinheiro com espiritualidade, ou materialismo com a fé. Departamentos avessos, diferentes. Para mim, leitor relapso dos textos sagrados, este foi o recado do Nazareno ao fariseu otário e a todos que já leram esta e outras estórias.

Estranhamente, várias religiões promovem um mix mais que profano (muitíssimo antagônico) entre os bens materiais (principalmente, a grana) e a religiosidade. Esta equivocada e perniciosa relação entre dinheiro e divindade propagada por bispos, pastores e demais domadores das massas atinge o impensável.


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POR EM 24/04/2010 ÀS 10:41 AM

Como morrer bestamente (manual incompleto)

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Pensa numa coisa triste, muito triste. Velório de criança. “Ninguém merece. Jamais presenciei uma situação tão cruel assim na minha vida”. Era o que o povo dizia, com os olhos inchados de tanto chorar. Lágrimas: frutos da saudade, do pavor ou da ignorância? Se é que ela existe, para onde vai a alma, afinal? 

Existem poucos provérbios tão óbvios e ridículos quanto “para se morrer, basta estar vivo”. É o que muitas pessoas dizem, abobalhadas, umas para os outras, perante o enigmático fenômeno denominado morte. Elas se solidarizam para aplacar a dor e não perderem a fé. Sempre se corre um risco de desacreditar em Deus... 

Porque, ainda que decorridos milênios de peleja no planeta, não nos acostumamos com a morte, o segundo maior mistério a ser desvendado pela humanidade. Como será Deus vem em primeiro lugar. Aliás, Deus, frente às tragédias, talvez se sinta numa situação deveras desconfortável... 

Velório é um acontecimento social dos mais interessantes. Presta-se, dentre outras coisas, ao último adeus ao morto, um gesto de solidariedade aos entes queridos, um compromisso incômodo do qual não há como se esquivar. É fundamental preparar o corpo da criatura morta a fim de entregá-la ao pó, antes que deteriore e vaze entre os vivos. Há assuntos supérfluos e até desrespeitosos nos funerais. Há quem consiga flertar, agendar encontros secretos, ou mesmo arquitetar falcatruas financeiras entre velas e coroas de flores. O odor das rosas, então, mescla-se ao enxofre. Aos que creem no maligno, trata-se de ofício do capeta, uma espécie de deboche, pura diversão defronte à dor dos homens. 


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POR EM 19/04/2010 ÀS 09:44 AM

Eu, o papa e o casal Nardoni

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Quisera eu pudesse me sentar à mesa de um boteco (poderia também ser uma mesa do Vaticano cravejada com crucifixos de ouro maciço) tendo a companhia do papa e do casal Nardoni. Tomando cerveja popular em copos reciclados de requeijão cremoso (ou vinho tinto italiano em cálices de prata), haveríamos de debater a respeito dos mistérios da existência humana na Terra. Para início de conversa: como se explica tanta violência contra as crianças ao longo da história?

 Recentemente, a imprensa mundial divulgou, com a volúpia que lhe é peculiar, denúncias nas quais o Papa Bento XVI (por que não nunca fui com a cara deste papa?! Seu olhar me lembra aquele da personagem de Jack Nicholson no thriller “The Shinning”...), quando cardeal, teria protegido, acobertado, aliviado a barra de padres pedófilos na Alemanha e nos EUA.

Segundo foi amplamente divulgado pela imprensa, um deles teria molestado mais de duzentas crianças em Miami (total e maliciosa deturpação do preceito cristão “vinde a mim as criancinhas”...). As crianças teriam ido, sim, para o colo do padre, ludibriadas ou forçadas a tal, inclusive meninos surdos de uma escola norte-americana. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça! As denúncias federam e o Vaticano bradou raivosamente, reclamando de uma suposta campanha desmoralizadora da imprensa contra igreja, comparando a “propaganda” ao massacre anti-semita da Segunda Grande Guerra. Os massacrados, no caso, seriam os religiosos, e não as crianças abusadas. Entendeu?


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POR EM 15/04/2010 ÀS 05:16 PM

Nota de falta de esclarecimento

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Gerou algum frisson o último texto que escrevi e foi publicado nesta revista eletrônica. Seu título: “Se tomar o Santo Daime, não atire!”. Creio que todo escritor aprecia quando os leitores passeiam os olhos (e a imaginação) nos seus textos. Portanto, gostei demais de saber pelo editor da revista, ao me telefonar apavorado, que dezenas de mensagens chegaram pelo correio eletrônico, a maioria delas execrando a crônica.

Bom samaritano, meu amigo editor não publicou comentários que contivessem baixarias, xingamentos e ameaças, “chutes na canela”, como ele mesmo gosta de dizer. Sendo assim, agradeço ao editor-chefe (tão benévolo quanto Sarney e a Irmã Dulce) e àqueles que se dispuseram a ler o texto e emitir as suas considerações. Mesmo aos que apelaram feio, aos que coraram de ira e tiveram seus manifestos barrados, agradeço humildemente como um frade franciscano.

Sinto-me realizado ao saber que provoquei nos leitores maior ou menor grau de ativação das sinapses neuronais. Opiniões são individuais e devem ser respeitadas como tal. Contudo, conforme reza a cartilha de boas maneiras da minha falecida avó, há que se ter compostura e fazer uso das palavras com moderação (será que deputado tem avó?! ói que não tem...). Palavra é disparo a queima-roupa. Pior ainda para o cronista quando não atinge o leitor no ponto desejado e seu texto é tido e havido só pela digestão das beiradas, rasuras da periferia. Foi assim comigo. A intenção não era atingir o Daime (a minha isca) com um direto de direita, mas com um despretensioso “jab”. Não dosei o peso do peixe, por isto, o anzol, a chumbada e a linha acabaram devorados por ele.


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POR EM 05/04/2010 ÀS 11:46 AM

Se tomar o santo-daime, não atire!

publicado em

Há séculos, a ignorância humana quanto ao seu papel e destino neste e noutros mundos (?!) a arrasta para as mais diversas agremiações religiosas e seitas — muitas delas nefastas (já adoramos o sol e o ornitorrinco!!) —, para a fé cega (fanatismo) ou, contrariamente, para a incredulidade (ateísmo). Impulsionados pela fragilidade de respostas plausíveis nos dogmas e livros sagrados, muitos já amorteceram seus dilemas nas artes, na “porralouquice” das drogas lícitas e ilícitas, e até no autoextermínio (casos extremos incompreensão e vazio existencial).

Fruto da aflição humana, as religiões arregimentam exércitos de seguidores e proliferam no planeta, cada qual reivindicando para si a exclusividade da verdade plena e absoluta. Enfim, percebendo brechas gigantescas no imaginário popular, líderes talentosos em oratória convencem plenários lotados, dão a eles algum alento em troca de fidelidade, dízimos rechonchudos, doações materiais e até depósitos bancários. É a busca da paz interior, custe o que custar... Nos últimos dias, os debates acerca do Santo Daime retornaram à tona por conta do assassinato de um famoso cartunista brasileiro e seu filho, ambos fulminados bestamente com tiros à queima-roupa desferidos por um jovem desequilibrado. As três personagens eram adeptas da seita na qual a ingestão de um chá alucinógeno integra os ritos.


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POR EM 01/04/2010 ÀS 10:27 AM

A intolerável alegria daqueles pequenos estranhos

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A camionete avançou o sinal vermelho e derrubou no asfalto o motoqueiro. Eu vinha logo atrás, distraído, enclausurado numa cápsula sobre quatro rodas. Um carro. Apenas mais uma peça da nefasta engrenagem que se tornou o trânsito desta metrópole.

A picape arrancou em velocidade, sem prestar socorro ao acidentado, desaparecendo na paisagem urbana. Não tive tempo de anotar a placa, mas no vidro traseiro havia um adesivo que anunciava em letras garrafais: DIRIGIDO POR MIM, GUIADO POR DEUS. Uma sacrílega parceria atribuída ao suposto criador do universo, ainda mais naquela situação de erro e fuga.

Não fosse pelas escoriações e constrangimento, o sujeito até que se safou bem. Ele sabia que era apenas mais um motociclista entre tantos que se ferram no trânsito. Bateu as mãos sobre a roupa despregando a poeira da rua, pesquisando sangue, e agradeceu a Deus por não ter se ferido. Seria o mesmo Deus no qual cria o fujão da camionete?! Subiu na motoca e tocou em frente, misturando-se aos demais crentes e ateus.

Observar atentamente a cidade é uma forma de amá-la. Diariamente, numa famosa alameda perto da minha casa, há dezenas de pessoas praticando corrida. Os atletas amadores treinam ali mesmo numa beirada da rua, sob a sombra dos pinheiros (jamais poderia supor que pinheiros sobrevivessem ao inóspito clima quente desta região; da mesma forma que os passarinhos, à saga mortífera dos seres humanos).


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POR EM 24/03/2010 ÀS 10:00 AM

Procuram-se homens velhos que ainda sonhem com o futuro

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Por causa da carência de homens (homens vivos) e, também, porque é professor de dança gabaritado, Rubens foi contratado como “personal dancer” por um grupo de senis senhoras. Gay assumido — embora ele não alardeie a condição sexual a fim de evitar chateação, chistes e preconceito — cuida do entretenimento de sessenta e tantas “idosas” (mulheres na senectude), em sessões que duram quatro horas, uma vez ao mês.

Dona Geralda, uma das participantes mais animadas da turma, explica que a insuficiência de parceiros ocorre, na maioria dos casos, devido à viuvez das dançarinas veteranas. Também, os raros senhores remanescentes não têm o mesmo pique que as companheiras e preferem continuar envelhecendo em casa, longe da peculiar tagarelice feminina. Mesmo velhinhas, elas falam pelos cotovelos...

Perguntei a Dona Geralda por que razão os homens morrem mais cedo que as mulheres, mas ela não soube explicar. Insinuei que a culpa seria das próprias mulheres, criaturas das quais emanam preocupação e contrariedade, mas a boa senhora gargalhou, deu de ombros, desdenhando do meu raciocínio viciado. Então pesquisei alguns amigos médicos, profissionais entendedores de assuntos que envolvem a vida e a morte. Os doutores que ouvi justificam a morte prematura da “homarada” ao fato deles negligenciarem básicos cuidados com a própria saúde. Além de serem, por natureza, mais desleixados e estressados que as mulheres (ingredientes poderosíssimos para o incremento de moléstias como o câncer e o infarto do miocárdio), os homens costumam buscar assistência médica quando já estão com as favas contadas.


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