POR
EBERTH VÊNCIO
EM 16/09/2011 ÀS 01:35 PM
Ocorreram inúmeras manifestações no planeta no dia 11 de setembro de 2011, data em que se reverenciaram os 10 anos desde o ataque formidavelmente morticida ao World Trade Center, quando aviões lotados de gente e raiva foram arremessados contra as Torres Gêmeas.
As cenas incríveis das aeronaves penetrando nas torres, como se elas fossem de pudim, são as mais contundentes que eu já vi, desde que um útero revolto em cólicas expeliu-me do seguro arcabouço materno para me apresentar, a muito contragosto, as agruras do mundo. Há dez anos, eu imaginei que seria a deflagração da nossa última guerra mundial. Mas a estúpida saga do Homem na Terra não encerrava ali.
Ao homenagear as vítimas do massacre binladesco, muitas lágrimas rolaram em rostos convulsionados de saudade, mas houve também quem comemorasse a data com danças, bebidas e rajadas de metralhadora, como se fora um 04 de julho às avessas.
Não. A estória que passo a descrever a seguir não se trata de mais um devaneio de cronista sem inspiração plausível, ou um desagravo à miséria humana, aos que foram soterrados vivos em Nova Iorque, às famílias enlutadas, aos vultosos danos materiais do Pentágono ou à impensável crise financeira norteamericana advinda ao ataque. Tampouco foi psicografada a partir dos depoimentos fantasmas de Obama Bin Laden, ou melhor, Osama Bin Laden (eu sempre a me atrapalhar com obamas e osamas...).
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 09/09/2011 ÀS 12:38 PM
É isto que dá a gente conversar com estranhos. Mas, considerando que somos todos muito estranhos — e nem adianta você remexer na cadeira a negar o óbvio — eu prossegui o colóquio com aquela estranha mulher na lanchonete do cemitério.
E querem saber de um pensamento pra lá de estranho? Tenho nojo de comer esfirras de carne naquele recinto. Coisa esquisita? Pois é. Eu bem que os avisei. Foi assim a nossa conversa. Abre aspas...
Indeusde muito cedo, eu sempre quis fugi de casa. O sinhô sabe que a televisão noticia um monte de criança desaparecida todo santo dia, né não?! Pois é, muitas dela fais é fugi de casa. Tem casa que é um verdadero inferno, dotô...
Que nem a minha, por exemplo. Ele bulia comigo inquando eu tinha cinco, seis ano, nem me alembro mais. Mamãe sabia de tudo. Teve um dia que criei corage e contei dos abuso pra ela.
Ralhô tanto comigo, ela ficô tão braba que prometeu uma surra de vara de goiabera se eu falasse traveis no assunto. Num sei se ela tamém tinha medo do pai do mesmo tanto que eu tinha. Batê nela ele num batia. Nunca vi ele encostá a mão na mamãe, nem pra machucá, nem pra fazê carim tamém. Hoje eu penso: o mais provave é que ela tentasse mantê as aparença e o marido. Naqueles tempo nóis morava na roça e as coisa tava muito difice. Teve uns dia de a gente não tê o que comê na despensa de casa. É ruim demais em a gente passá fome. Cê já sentiu fome argum dia, dotô? Fome de justiça, não. Fome de comida, eu tô dizeno. O sinhô já sentiu um oco na barriga treis dia seguido?
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 02/09/2011 ÀS 11:31 AM
Obrigado por não trocar de página, obstinado leitor. Ao contrário do que a saga moralista possa supor, o título nada mais é que arapuca para se atrair os olhos. A expressão chula ao final da frase (cujo significado seria “de jeito algum”; “em nenhuma hipótese”), que para muitos soará grosseira e dispensável, vocábulo fuleiro largamente utilizado entre quatro paredes até pelos mais pudicos amantes (ou indecentes gestores corruptos), a mim pareceu bem cabível, a despeito das recomendações maternoeditoriais e comichões do bom-mocismo. Prossigamos.
Ao contrário de mim, uma médica moradora de Sobradinho teve intenção verdadeiramente repelente ao fixar um cartaz no portão de casa com os seguintes dizeres ameaçadores: “Muro contaminado com sangue HIV positivo. Não pule”. Sem dúvida, muito mais criativo e impactante que o tradicional “Cuidado: cão feroz”.
A mulher experimentou notoriedade nos últimos dias, não pela descoberta de alguma técnica inovadora para se colar os ossos (a doutora é ortopedista), mas, sim, pela placa aterradora e por ter colocado sobre o muro da sua casa um sem número de seringas supostamente contaminadas pelo vírus da AIDS (haja sangue e gosma!). Ainda bem que ela teve o bom senso de não despejar sêmen contaminado com treponemas nos ladrilhos. Quem não tem fosso com crocodilos se vira mesmo é com micróbios. Parafraseando o cantor popular Nando Reis, somos os cegos do castelo.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 26/08/2011 ÀS 05:39 PM
Que todos morreremos um dia é fato. Fenomenal e certo como um sol repetitivo que se põe (e se dispõe aos nossos olhos) no horizonte. Ora, até a esperança morre a cada dia. Morre e ressuscita, fragilíssima, volúvel como a lua, passageira contumaz dos céus cotidianos. Como instituiu a poeta Florbela Espanca, “tudo no mundo é frágil, tudo passa”.
Mas, aos vinte e seis anos de idade, Joice deveria estar preocupada mesmo era com o noivo (se casavam ou não casavam), com o apartamento novo (se financiavam ou não financiavam), com a carreira profissional (se serviço público ou iniciativa privada); com a fé (se ufologia ou evangelho).
Acontece que, futricando em síndromes e exames, médicos descobriram no reto da moça um tumor maligno do tamanho de um limão (ela mostra as supostas dimensões de um limão, fazendo um círculo com os dedos polegar e indicador da mão direita, elevando os três dedinhos restantes. Se ela não falasse de frutas-tumores, um transeunte alheio ao colóquio haveria de supor que, através de tal gesto, Joice simplesmente me mandava tomar no cú). Mas o problema — eu lamento profundamente — é no ânus de Joice; não é no meu ou do estranho que passa. A junta médica juntou-se e, juntos, que era pra dar mais coragem de se dar notícia ruim, os doutores anunciaram que o câncer ainda era operável, mas o intestino ficaria plugado diretamente na parede abdominal, procedimento denominado “colostomia”, sem data certa do tubo retornar ao leito original.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 20/08/2011 ÀS 10:58 AM
Enquanto chofereava pela beérre153 rumo a Braxília*, Irmão Demóstenes (mais conhecido pelos inimigos políticos e ecumênicos como “Demo, o Cão Andaluz” — evidente alusão ao filme surrealista do diretor Luís Buñuel) ia maquinando como é que entabularia as conversas dentro do Ministério dos Negócios. Afinal, ainda ontem mesmo, caíra o quarto Ministro do Desgoverno, fora os bagrinhos e sanguessugas do segundo escalão. Morria de medo de escutas telefônicas, câmeras escondidas, Receita Federal e da falecida mãe.
É certo que ninguém fica preso muito tempo por conta de delitos do colarinho branco, mas é muito constrangedor sair foto da gente nos jornais e na televisão. Fica ruim chegar em casa e encarar a família, os vizinhos. Não que se sinta vergonha, é que não se consegue conter o riso, daí o povo fica achando que é só provocação. Assim ele matutava lá com os seus botões, enquanto o dial sintonizava a Fé Cega FM, uma emissora que transmitia, ao vivo, mais uma espetacular expulsão de demônios. Ah, ele também tinha medo de ser expulso do partido. E então? Então teve a idéia de pedir que a concunhada o acompanhasse até o prédio do Ministério. Se fosse o caso, poderiam enfiar as cédulas dentro da sua calcinha (dela, óbvio) que, se não era sexy, ao menos constituía um improvisado cofre dos mais complacentes. Ninguém jamais imaginaria um esconderijo tão morno e seguro. Se houvesse um flagrante, certamente os cães da PF o revistariam, tocariam suas pernas e genitália em busca de dinheiro público surrupiado nas meias ou na cueca, locais hoje em dia mais-do-que-manjados pelos agentes federais e telespectadores dos noticiários.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 15/08/2011 ÀS 12:24 PM
Vida real e fantasia às vezes se confundem. Mais que isto, comumente elas se mesclam e a liga surge perigosa, muito mais deletéria ao ser humano do que à personagem que lhe recebeu a aura. Armadilhas pra se pegar celebridades. Muitos jamais escapam delas.
Todos souberam: atendendo aos pedidos da audiência, quem matou Odete Roitman foi uma bala de festim e muito quétichupe. Por outro lado, o mundo (que exagero) aguarda ansioso pelo laudo cadavérico que irá apontar a causa da morte da cantora Amy Winehouse. Antes da artista se autodestruir homeopaticamente, havia na internet uma bolsa de apostas especulando quando ela sucumbiria, e é bem possível que haja outras pipocando neste instante, sobre o que teria feito o coração da britânica extravagante parar de bater.
Enquanto Barack Obama arrota a velha arrogância norteamericana, urubus pajeiam os famintos na África, e mandíbulas são fraturadas nas ruas de Londres, fãs e curiosos palpitam a respeito do irrelevante assunto: overdose ou síndrome de abstinência? Assassinato ou suicídio? Morreu dormindo ou sofreu a coitadinha? Enfim, o motor que gira o planeta está batendo bielas, quase ao ponto de fundir, e muita gente, pra variar, anda preocupadíssima com os riscados da lataria. Assim funciona o choubis. Uma vez atingida, não há como escapulir da fama, senão morrendo.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 08/08/2011 ÀS 10:01 AM
A poesia é fraca, mas a estória é forte. Eu confesso que não conhecia o cantor e compositor fluminense Evaldo Braga. Então, bom menino que sou (e mentiroso), fui pesquisar. Evaldo nasceu na pobreza, não conheceu seus pais, criou-se num orfanato e, segundo consta, foi abandonado pela mãe, que era prostituta, numa lata de lixo. Nota-se que o hábito de largar lactentes em lixeiras não é de agora. O ser humano não está piorando, colegas. Na verdade, a gente não presta já tem muito tempo.
O cantor conseguiu escapulir da penúria, mas não da sua história de vida dramática e miserável. Tornou-se um artista popular, fez sucesso no rádio e na TV, transformou-se num ícone negro e alcoólatra. Poderia ter sido tiro da polícia, tuberculose ou cirrose hepática, mas Evaldo morreu, aos vinte e cinco anos, num acidente automobilístico, em 1973. Um enredo mais ou menos batido entre a negritude social massacrada. Há poucos dias, retornando ao refrigerado reduto no Senado, Alfredo Nascimento, ex-ministro dos Transportes despachado pela Presidente Dilma, subiu à tribuna e fez um discurso eloquente, inflamado, em tom de desabafo, detonando o governo do qual fazia parte: “Eu não sou lixo, meu partido não é lixo, nossos sete senadores não são lixo!”, ele esbravejou empolado, levando às lágrimas de indignação ao menos uns sete parlamentares.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 02/08/2011 ÀS 10:36 AM
Nunca se sabe do que um ser humano é capaz. Um bicho acuado não se entrega facilmente, não clama ao agressor por misericórdia, nem exige interferência divina nos seus dilemas mais fatais. Ou foge, ou luta. Ou morre, ou mata.
Observem: num campo de batalha, cada corpo adversário que tomba agonizante ou sem vida é comemorado como um gol, um touchdown, um peixe graúdo apanhado no anzol. Imaginem só a parede da sala de estar, ornamentada com cabeças de Homens, alces, ursos e outros mórbidos troféus.
Eu jamais imaginava ferir uma pessoa. Aliás, sendo um médico a serviço do sistema público de saúde, meu compromisso era com a vida, com o bem estar da comunidade, com o alívio da dor e do sofrimento daquela gente pobre. Eu rezava convicto na cartilha de Hipócrates. Até que, num dia de fúria, o mal sorriu para mim (já ouviram esta estória antes?!). Mais que isso, penso que ele sorriu de mim. "— Mãos pra cima, doutor", alguém gritou. Quando dei por mim, estava prensando o funcionário da lanchonete sobre a chapa de assar hambúrgueres. O cheiro de cabelo queimado dissipou rapidamente dentro daquele cubículo, um trailer improvisado e sujo. A cena apavorou os poucos gatos pingados que matavam a fome naquela melancólica noite de domingo. A minha noite era igual à deles, mas a fome, diferente: eu quis matar aquele homem.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 25/07/2011 ÀS 10:17 AM
O derradeiro filme de Woody Allen, “Midnight in Paris”, está fazendo um sucesso danado no mundo inteiro, exceto entre os cretinos que preferem mesmo um bom besteirol em qualquer idioma, principalmente se há tetas balançando e um monte de piadas adolescentes com duplo sentido. Rir é um antídoto na medida para aplacar as tensões do cotidiano, mas, quem disse que os jovens só devem se divertir com porcarias? Rapaziada, já basta também de tanta “stand-up comedy”, pelo amor de Deus!
“Meia-noite em Paris” caminha para ser campeão de bilheteria na obra de Woody, e é realmente um filme delicado, sagaz, embora alguns especialistas apontem repetições autorais aqui e acolá (quem não as tem, ora bolas?), nada que desmereça a curiosa trama (ao menos, na minha visão de cinéfilo). Saí da sala de cinema com algumas certezas em mente: não preciso tanto assim de um telefone celular; preciso estudar mais arte e literatura; preciso viajar pelo mundo (mais que isto, é urgente conhecer Paris). De olho gordo nas locações do diretor nova-iorquino, Zé do Caixão espera o término das filmagens de Allen em Roma para convidar o colega a produzirem juntos. Zé batizou o projeto como “Nightmare in Brazil” (Pesadelo no Brasil). O exótico diretor acredita que convencerá o exigente Woody Allen, pois o mesmo jamais filmou um “thriller” em sua carreira.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 15/07/2011 ÀS 12:27 PM
Cépticos não acreditam nem mesmo em anti-sépticos. Ameaças invisíveis? Se os olhos não veem é porque não existe. Eles são terríveis, terríveis... Alguém aí faz ideia do contingente da humanidade que acredita em vida após a morte? Alinhavando uma tribo remota do continente africano, Nova Déli, Manhattan e Tabocas do Brejo Velho na Bahia, eu apostaria em 98%.
1% dos terráqueos (estatística muito plausível) não creem em absolutamente nada, nem na alma, nem na carne, nem no osso, nem no suposto (escarrado?) “esquema do mensalão do PT”, pelo simples fato de não regularem bem das faculdades mentais, anulados pela demência, poupados de preocupações fúteis objetivas, como dar descarga no vaso após usá-lo, trabalhar mais para juntar mais patrimônio, pagar mais imposto ao Governo, e fomentar mais desavenças entre herdeiros na hora da partilha. Dá pra entender coisas como estas?! 1% responderá assim, de pronto, sem titubear: morreu, acabou. E ponto final.
Fiquei assustado quando Dona Socorro nos contou que o marido jamais deixara de dormir ao seu lado na cama, mesmo tendo morrido há um ano e meio. O depoimento foi de arrepiar. “Será que Alzheimer está afetando a pobre velhinha?” — matutei, com o ceticismo irritante de sempre. Por que simplesmente não aceito determinadas coisas e pronto, eu vivo a me perguntar. Tornaria a convivência com meus pares muito mais descomplicada. “Mas você não acredita em nada, meu filho?!”, é assim que o povo diz, conferindo-me de alto a baixo, como se, ao invés de dúvidas, eu tivesse lepra. Ora, não se trata de um tipo aberrante de “bullying” contra a minha pessoa, caros amigos?!
leia mais...