Amores farsantes
A porta fechou-se atrás deles. Enfim, sós. Ele, o noivo. Ela, uma prostituta arrebanhada assim de última hora. Por precaução, não se deveria chegar tão tarde aos bordéis. Ora, todos os usuários o sabem... Ao fundo ouvia-se o burburinho do povo que lotava o estabelecimento divertido, homens casados ou solteiros em busca de distração, aventura e alguma dor de cabeça também. O quarto estava à meia luz e era mal ventilado. Um cheiro forte de mofo denunciava as condições precárias do prostíbulo. Trôpega, a mulher caminhou pelo recinto, puxando o cliente pela mão, como um cachorrinho. Correu para o pequeno banheiro da suíte. Foi urinar, lavar o rosto, espantar o sono, fazer o último enxágüe da vagina, ajeitar-se para o milenar ofício. Uma luz débil, amarelada, fincou a penumbra do quarto. O rapaz estremeceu. Casar-se-ia amanhã à noite. Apesar do compromisso, ali estava ele, prestes a se deitar com uma estranha embriagada, parcamente remunerada pelos companheiros de farra.
No fundo, no fundo, não tinha vontade de fazer sexo com ninguém naquele lugar. Foi para o puteiro com os amigos, movido tão somente pelo prazer da farra. Despedida de solteiro. Freqüentara os cabarés da cidade pouquíssimas vezes. Além de se sentir meio intruso, era um medroso. Tinha medo das pessoas. Tinha medo das doenças também. Tinha mais medo das pessoas que das doenças, pois estas se resolviam com remédios e ungüentos. Apreciava mesmo era a fuzarca dos companheiros, a algazarra, as performances de mulheres bonitas ou não, novas ou não, e que se despiam sobre as mesas e tablados em requebros às vezes sensuais, às vezes grosseiros. Apesar do ambiente convidativo, não tinha vontade de se deitar com nenhuma delas.
Acostumara-se com a noiva. Até gostava dela. Carinho. Fraternidade. Solidariedade. Interesse também. Pensou nos preparativos do casório. Muito dinheiro a família já havia gastado com o evento. Casar estava mesmo se configurando um compromisso social deveras dispendioso. As mãos pálidas pingavam um filete de suor gelado. Quis recuar. A mulher entrou no quarto trajando uma farda apropriada, embora de cor vulgar, espalhafatosa. Desajeitada, empurrou-o. O rapaz desabou sobre o colchão de molas. O balanço provocou uma leve vertigem no mancebo. Deitado no lençol puído, o noivo mirou o teto onde um empoeirado ventilador girava vivo. Enxergou a mancha escura do mofo que rodeava a luminária sem lâmpada. Goteiras, com certeza. Pensou: uma telha quebrada... Pensou na noiva. Pensou nos amigos. Pensou que aquele encontro estava sendo, por demais, inconveniente. Pensou em dizer a verdade a todos, em acabar com aquela farsa de uma vez por todas.
Sobressaltado, o moço sentou na beirada da cama barulhenta, com as calças arriadas no meio das canelas. Desculpou-se. Vestiu-se. Novato que era, ele tremia. Abriu uma garrafa de água e ofereceu um gole à mulher. Ela recusou, queria mesmo era tomar uma vodca. Estava bêbada, os olhos em brasa, a voz empastada. Constrangido, pagou a moça (de novo). Atou o cinto. Solicitou sigilo, providência até desnecessária, pois ela desmaiou embriagada. Foi-se embora aliviado, ao menos, por enquanto. Restavam ainda o enlace matrimonial e as demais mentiras do amanhã.
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