Desenho de  Wendy MacNaughton
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Eberth Vêncio

POR EM 28/11/2011 ÀS 10:38 AM

O que eu fiz de tão errado pra ter nascido?

publicado em

Senão, vejamos: enfurnado no casulo materno, fruto-resultado da invasão truculenta de um espermatozóide sobre o óvulo da fêmea, o ovo cresce em seu sono desavisado. Ele jamais concebe que há um mundo pulsante lá fora, assim como aquele cordão gelatinoso que o prende pelo abdômen, e com o qual se equilibra pelo hiperespaço líquido-uterino. Ele boia, brinca, zomba da gravidade, como um astronauta. “O mundo é escuridão”, ele pensa, supondo que já saiba tudo. 

Como um tumor, ele cresce, insidiosamente. Eu lamento dizer, mas, há sim diversas similaridades chocantes entre o feto e um tumor. Ambos são parasitas. Ambos se locupletam da seiva de outro ser, sugando-lhe até o quimba, furtando substratos nutritivos de forma lenta, contínua e impiedosa. 

Pregado à placenta, tal e qual um tumor entranhando na carne, o pequeno ser cresce no seu mundinho solitário que tem cara de galáxia (sonhando se vai longe). Ruídos distantes e palpitações repentinas fazem-no especular, lucubrar que possa haver um algo mais além da escuridão. “Mas o quê?!”. Percebam a miséria: desde os primórdios, o homem sonha acordado abastecido pela ignorância. 

Deitado eternamente em berço esplêndido, o feto canta um hino a si mesmo, mas comete um primeiro grande equívoco: “a paz é para sempre”. Durante nove meses o organismo cresce, embora o pensamento permaneça primitivo, ingênuo e simplista. Acomodado em seu leito úmido, mergulhado na quentura do esconderijo uterino, o feto se convence que é uma espécie de deus. Contudo, feito tissunami, advém o parto, um dos mais cruéis e dramáticos fenômenos da natureza. Finalmente, o seu mundo desaba.  


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POR EM 18/11/2011 ÀS 12:28 PM

Se não for dirigir, beba todas!

publicado em

Há diversos paradoxos para se enumerar nesta vida. Por exemplo: a dicotomia entre deus e o diabo, a peleja entre o bem e o mal, conforme magistralmente mostrado na prosa do escritor médico Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. Uau! Que livro! 

Pois então. Não somente as autoridades advertem, mas, as próprias cervejarias recomendam (forçadas pelo tacape da lei), ao final de suas belas peças publicitárias repletas de garotões sem barriga e mulheres jovens saradas: “Se beber, não dirija”. 

No fundo, no fundo, os telespectadores ficam imaginando que, ao tomarem cervejas das marcas xis ou ipissilone, ficarão tão felizes e atraentes quanto aquelas personagens sorridentes da telinha. Pior que, às vezes, a metamorfose alcoólica prevalece e nos tapeia. Feiosos viram galãs. Barangas transformam-se em princesas. Tudo não passa de ilusão e fantasia. É fato: ninguém sai melhor depois de um porre. 

Gosto de ouvir o doutor televisivo Elsimar Coutinho em suas palestras e entrevistas, por causa da inteligência, sarcasmo, bom humor, cultura vasta e coragem ao defender os seus pontos de vista quase sempre polêmicos. Não é incomum que ele seja criticado (e invejado) por seus pares de jaleco, devido ao falatório, à verborragia, opiniões nem sempre referendadas pela comunidade científica. 


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POR EM 11/11/2011 ÀS 03:25 PM

Ela tem os olhos de um husky siberiano

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Os Países Bálticos constituem uma região do nordeste da Europa cujos países integrantes são a Estônia, a Letônia e a Lituânia. Quem nasce na Estônia é estoniano; na Letônia, letoniano; na Lituânia, lituano, e em Cachorro Sentado-Go, cachorro sentado (ou cadela sentada). 

Não sou tão culto quanto se poderia presumir. Pesquisei algumas fontes, inclusive o Seu Damásio, professor estadual aposentado que carrega uma placa dependurada no seu sexagenário pescoço, em que vai escrito “compra-se ouro”. “Tô ralando mais agora do que quando riscava a lousa”, reclama o eterno professor. 

O preâmbulo geográfico é pertinente. O protesto contra a histórica desvalorização dos mestres, idem. Não desistam, meus caros. Leiam. 

Jotabê parece enxergar o mundo de ponta-cabeça. É o que diz o povo quando uma pessoa escapole dos padrões do “belo quadro social”. Mulheres diuturnamente expansivas, comunicativas e bem humoradas são taxadas como vulgares, idiotas. Faltam-lhes parafusos na cabeça, é o que dizem. Outro exemplo de julgamento pelas aparências (um dos nossos mais corriqueiros defeitos): se um homem aprecia poesia, afirmam logo que é um tolo, sonhador ou efeminado (ou as três coisas juntas). Antes que os gays mais engajados cortem os seus pulsos com prestobarbas e me acusem de ser preconceituoso, garanto que não adjetivei com propósito depreciativo. Nem pra tentar fazer graça. Não sou um Rafinha Bastos.  


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POR EM 04/11/2011 ÀS 02:42 PM

Esqueça os mortos, que eles não levantam mais

publicado em

Tenho o couro e a alma demasiadamente marcados pelo braseiro da música. O título acima foi pinçado de “Negro amor”, a versão brasileira setentista de Péricles Cavalcante e Caetano Veloso para “It’s all over now, Baby Blue”, de Bob Dylan. Àqueles que não conhecem a canção, recomendo que o façam, em especial, pela beleza constrangedora da letra. Será verdade que, em termos musicais, já não se fazem mais poetas como antigamente? 

Brasileiro adora carro, mas adora ainda mais os feriados. “O Dia dos Mortos” ou “O Dia dos Fiéis Defuntos” é comemorado pela Igreja Católica e seu assustado rebanho de asseclas no dia 2 de novembro. A prática de reverenciar aqueles que já saltaram do planeta é secular e, como sempre acontece, rende muitas lembranças (algumas boas de serem sentidas, outras boas de serem enterradas para sempre nos subterrâneos da memória), lágrimas, chiliques, filas e negócios-da-hora para o comércio ambulante de velas, flores e penduricalhos. Que fique bem claro aos mortos: estamos vivos e saudosos, mas não estamos nos comportando tão bem assim. Se conseguirem, descansem em paz. Não acendi uma só velaem Finados. Tambémnão areei azulejos, nem depositei flores artificiais sobre lajes de sepulturas, conforme alertaram as autoridades municipais da Saúde, a fim de se evitar a proliferação do mosquito Aedes Aegypti. O homem está sempre se ocupando em fugir das pragas e das pestes. Pode até ser que o mosquito tenha proliferado menos durante o feriado, mas as minhas dúvidas...  


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POR EM 28/10/2011 ÀS 12:11 PM

A vida é assim mesmo, meu chapa!

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Fazia frio. A chuva fina que caía ininterruptamente há dois dias provocou queda na temperatura. A mudança brusca das condições climáticas de uma cidade do centro-oeste brasileiro, acostumada ao calor seco sempre tão nocivo à mucosa respiratória e ao capim, compromete o humor das pessoas. Geralmente, para menos. Nunca se está plenamente satisfeito com o que se tem, não é mesmo?! 

Pois bem: ele morava com a família num condomínio de luxo. Um apartamento por andar. Quisera ele tivesse também um pensamento por vez dentro da cabeça. Não. O turbilhão de lembranças o deixava zonzo e irritado. 

A esposa saíra com os filhos pequenos. Aniversário de criança. Preferiu ficar em casa tentando desopilar aquele mau humor pegajoso. Gozava apenas da companhia do cachorro, uma criaturinha pela qual não nutria tanto afeto assim. Aliás, há dois anos, fora voto vencido quanto à sua entrada no apartamento. Sentia-se desamparado naquela noite chuvosa. Frente fria é assim mesmo. Parece remorso. Pega a gente quando menos se espera. Garimpou na estante alguma música animada que exorcizasse tantos demônios, mas acabou mesmo optando pela coletânea de blues. Colocou bi-bi-quingue pra tocar. Embora não fumasse, desejou um cigarro. O uísque escorria fácil pela garganta e era deglutido em goles apressados. Naquela situação, convinha não adiar o entorpecimento. 


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POR EM 21/10/2011 ÀS 12:47 PM

100% honesto

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Suponha que você seja 100% honesto. Eu digo “suponha” porque suponho que você — assim como eu, Pedro e Barrabás — tenha lá seus pecadinhos. E pecado há de todos os calibres, meu irmão. 

Em maior ou menor grau, eles estão encastoados no de-ene-á humano a solaparem idoneidade e afrontarem a ética, coisas bobas, aparentemente inofensivas, como: escolher rapidamente o pedaço mais carnudo do frango, antes que alguém da mesa o faça; fingir que um amigo guardava o seu lugar na fila e passar à frente de quem chegou mais cedo (cambada de trouxas!); sair do restaurante sem pagar um produto que você consumiu, mas não foi lançado na sua conta; estacionar o carrão na vaga para deficientes físicos, mesmo gozando de saúde impecável; comprar recibos falsos de um dentista que é primo do vizinho do seu amigo, pra abater no Imposto de Renda e enganar os carcarás da Receita; trapacear na prova, enganando o professor enquanto ele vai ao toalete, cheio de confiança (e a bexiga cheia); comprar uma dissertação na faculdade, ao invés de perder tempo estudando; não assinar a Carteira de Trabalho da empregada doméstica (aquela mocinha semianalfabeta que acabou de chegar do Norte); assediar, azucrinar a vida, mentir o tempo inteiro para uma mulher até conseguir fazer sexo com ela (daí, então, cair fora o mais rápido possível).  


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POR EM 14/10/2011 ÀS 02:23 PM

Que canção lhe faz doer por dentro?

publicado em

Recomendações preliminares: crônica para se ler e ouvir. Se possível, tente prosseguir a leitura deste texto ouvindo a canção “O silêncio das estrelas”, na voz do cantor nordestino Lenine. Se preferir, faça uma cena: queime depois de ler. Tô nem aí.

Fico pensando o que seria de mim sem a música. Imagino meu castigo maior, o quanto viver tornar-se-ia insuportável se eu ficasse, de repente, deteriorado no juízo ou nos ouvidos.

Sinto certo grau de indignação ao supor que os malvados (celerados e canalhas outros), além de possuírem reserva moral para o amor, — refiro-me ao amor sensual, aquele sentir a falta do (a) amante —  têm lá as suas preferências musicais. Sabe-se, por exemplo, que Hitler, um dos maiores vilões da História, além de ter-se afeiçoado por Eva Braun e pelos cachorros, gostava de ouvir Wagner.

Similarmente, imaginei um torturador chegando à casa, tirando a camisa suja de suor e sangue de tanto bater numa pessoa sem defesa, jogando ao canto da sala os sapatos respingados de dor e com os quais chutou as costelas da sua vítima, reclamando de cansaço à esposa, beijando-a com paixão na boca, tendo uma ereção, abrindo a braguilha e uma garrafa de cerveja, desfilando de ceroula, e escutando música, enfim, só pra relaxar. O dia foi duro, beibe... Certa vez, ao assistir a um documentário cujo nome não me lembro, um dos entrevistados —  ex-preso político que fora torturado no período da ditadura militar brasileira —  contou que, durante as sessões de tortura, os seus algozes colocavam na vitrola sempre a mesma canção, em volume máximo, a título de provocação e, acima de tudo, humilhação, para que a vizinhança não escutasse gritos, choros e “outros sinais de fraqueza humana”. A canção era “Apesar de você”, de Chico Buarque. Hoje em dia, aos primeiros acordes desta música, o ex-torturado estremece, perde as estribeiras e quase se urina.


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POR EM 07/10/2011 ÀS 12:28 PM

Estudar muito até ficar burro

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Não sei quem começou tudo isto, que maldita escola desta cidade decidiu ministrar aulas aos sábados, domingos e feriados. Impaciente, Júlia me provoca, na autoridade inquisitiva de seus 13 anos, qual a importância real futura de se saber que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.

Por outro lado, Felipe, o irmão mais velho, deixou de praticar piano e abandonou a galera do futebol porque os professores incutiram que é preciso estudar mais, muito mais, se quiser vencer a concorrência do vestibular no final do ano.

Exigência do mercado, cobrança dos pais ou márquetim das escolas? Mais que adestrar adolescentes é essencial educá-los. E existe forma mais transformadora senão através das vivências? Então, que ensino é este?

Semírames, por exemplo, embora pertença a uma velha geração desprovida da informática (sim, meus jovens, houve um tempo em que sobrevivemos — razoavelmente bem — sem o mister de orcutes, tuíteres e sexo virtual), também se entregou de corpo e alma aos afazeres acadêmicos e à carreira profissional. Semírames estudou fora da cidade natal praticamente uma vida inteira. Aos quinze anos, foi morar de favor na capital, na casa de uma tia, onde concluiu o colegial (hoje denominado Ensino Médio). Não fazia outra coisa senão ir para o colégio e para a igreja (raciocínio da tia-tutora: tomar conta dos filhos dos outros sempre exige cuidados adicionais, uma vigilância diuturna contra os estrogênios e o capeta). Lazer? Mais ou menos. Torcia para que as segundas-feiras chegassem logo.


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POR EM 30/09/2011 ÀS 03:21 PM

Menino de 10 anos atira em professora, mas acerta a cara da gente

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Pensem num moleque ingênuo, quase besta. Aos 10 anos, forçado pela dura realidade dos dias, eu até já deixara de acreditar que Papai Noel existisse. Mas mantinha incólume a minha confiança em Deus, na cegonha e na canhotinha salvadora do Rivelino.

Com a mente agitada de tanta fantasia, eu chutava a bola de cobertão sobre o asfalto, escalavrava os dedões do pé e sonhava ser jogador de futebol (até aqui, nenhuma novidade, certo?!).

Os meus pensamentos eram tão elásticos quanto o “drible do elástico”, muito utilizado pelo craque bigodudo para humilhar os zagueiros. Mas a gente cresce, perde a inocência, a elasticidade, o cabelo, os dentes, e quase perde os objetivos também. Enfim, descobrimos que a vida, sim, é que nos humilha ao podar quase toda a fantasia.

Certa vez, já na minha adultícia, conheci um garoto de 10 anos que também gostava de jogar bola — como já gostei — entretanto, sabia mais sobre o sexo do que eu. Exageros à parte, o moleque era de origem muito pobre e morava com sete pessoas da família num barraco de dois cômodos. Naquele cubículo denominado casa, não havia água encanada, energia elétrica, comida suficiente para todos; a privada ficava do lado de fora (no escuro), tomava-se banho de cuia, e todos dormiam amontoados num mesmo cômodo, um valendo-se do calor de outro (os cobertores também eram minguados). Quem demorasse a pegar no sono, acabava por testemunhar os gemidos sem dor dos pais. Agitação na penumbra.


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POR EM 23/09/2011 ÀS 01:57 PM

Dia Mundial Sem a Humanidade

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“Não seja tão grosseiro”, ele recomendou que eu evitasse trocadilhos, comentários depreciativos, tentativas de fazer piadas com a fé alheia nos meus textos literários. “Se você não crê em Deus (ele disse assim) é problema seu. Esmere-se nos textos tristes. Gosto muito dos seus textos tristes”, emendou, percebendo o meu abatimento subitâneo após a “crítica construtiva”. 

As críticas construtivas acabam por me destruir um pouco mais. Eu me abato facilmente. Fazer o quê? A vida é assim mesmo, uma infindável desconstrução, “uma coleção de perdas”, como diria o escritor Edival Lourenço. 

Para encerrar o papo, meu quase algoz amigo Léo Galinha comentou, com todo o desdém peculiar a um homem de convicções políticas extremistas, que o discurso da Presidente Dilma na ONU fora uma “porcaria”. “Você viu?”.  Não, eu não vi. 

Pela primeira vez na história, uma mulher fora incumbida de abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. “Do jeito que as coisas estão caminhando, já-já vão colocar um presidente viadinho pra discursar na ONU, porque um analfabeto já fez isto, você sabe...”, completou o meu carrancudo interlocutor desprovido de qualquer compaixão crstica. Não, eu não sabia.  Mas o assunto de hoje não é o marco histórico cravado pela Presidente do Brasil — uma mulher brasileira convalescente de câncer linfático e que abdicou da autocomiseração para se manter no complexo e muitas vezes mal cheiroso xadrez político — no plenário mais importante do planeta, muito menos, as admoestações de Leontino Damaceno Beltrão e Silva, mais conhecido no bairro como Léo Galinha, por conta da sua avidez pela mulherada acima de quarenta quilos, embora seja “casado há séculos” (este chiste é de autoria do próprio). 


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