O que eu fiz de tão errado pra ter nascido?
Senão, vejamos: enfurnado no casulo materno, fruto-resultado da invasão truculenta de um espermatozóide sobre o óvulo da fêmea, o ovo cresce em seu sono desavisado. Ele jamais concebe que há um mundo pulsante lá fora, assim como aquele cordão gelatinoso que o prende pelo abdômen, e com o qual se equilibra pelo hiperespaço líquido-uterino. Ele boia, brinca, zomba da gravidade, como um astronauta. “O mundo é escuridão”, ele pensa, supondo que já saiba tudo.
Como um tumor, ele cresce, insidiosamente. Eu lamento dizer, mas, há sim diversas similaridades chocantes entre o feto e um tumor. Ambos são parasitas. Ambos se locupletam da seiva de outro ser, sugando-lhe até o quimba, furtando substratos nutritivos de forma lenta, contínua e impiedosa.
Pregado à placenta, tal e qual um tumor entranhando na carne, o pequeno ser cresce no seu mundinho solitário que tem cara de galáxia (sonhando se vai longe). Ruídos distantes e palpitações repentinas fazem-no especular, lucubrar que possa haver um algo mais além da escuridão. “Mas o quê?!”. Percebam a miséria: desde os primórdios, o homem sonha acordado abastecido pela ignorância.
Deitado eternamente em berço esplêndido, o feto canta um hino a si mesmo, mas comete um primeiro grande equívoco: “a paz é para sempre”. Durante nove meses o organismo cresce, embora o pensamento permaneça primitivo, ingênuo e simplista. Acomodado em seu leito úmido, mergulhado na quentura do esconderijo uterino, o feto se convence que é uma espécie de deus. Contudo, feito tissunami, advém o parto, um dos mais cruéis e dramáticos fenômenos da natureza. Finalmente, o seu mundo desaba.
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Há diversos paradoxos para se enumerar nesta vida. Por exemplo: a dicotomia entre deus e o diabo, a peleja entre o bem e o mal, conforme magistralmente mostrado na prosa do escritor médico Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. Uau! Que livro!
Os Países Bálticos constituem uma região do nordeste da Europa cujos países integrantes são a Estônia, a Letônia e a Lituânia. Quem nasce na Estônia é estoniano; na Letônia, letoniano; na Lituânia, lituano, e em Cachorro Sentado-Go, cachorro sentado (ou cadela sentada).
Tenho o couro e a alma demasiadamente marcados pelo braseiro da música. O título acima foi pinçado de “Negro amor”, a versão brasileira setentista de Péricles Cavalcante e Caetano Veloso para “It’s all over now, Baby Blue”, de Bob Dylan. Àqueles que não conhecem a canção, recomendo que o façam, em especial, pela beleza constrangedora da letra. Será verdade que, em termos musicais, já não se fazem mais poetas como antigamente?
Fazia frio. A chuva fina que caía ininterruptamente há dois dias provocou queda na temperatura. A mudança brusca das condições climáticas de uma cidade do centro-oeste brasileiro, acostumada ao calor seco sempre tão nocivo à mucosa respiratória e ao capim, compromete o humor das pessoas. Geralmente, para menos. Nunca se está plenamente satisfeito com o que se tem, não é mesmo?!
Suponha que você seja 100% honesto. Eu digo “suponha” porque suponho que você — assim como eu, Pedro e Barrabás — tenha lá seus pecadinhos. E pecado há de todos os calibres, meu irmão.
Recomendações preliminares: crônica para se ler e ouvir. Se possível, tente prosseguir a leitura deste texto ouvindo a canção “O silêncio das estrelas”, na voz do cantor nordestino Lenine. Se preferir, faça uma cena: queime depois de ler. Tô nem aí.
Não sei quem começou tudo isto, que maldita escola desta cidade decidiu ministrar aulas aos sábados, domingos e feriados. Impaciente, Júlia me provoca, na autoridade inquisitiva de seus 13 anos, qual a importância real futura de se saber que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.
Pensem num moleque ingênuo, quase besta. Aos 10 anos, forçado pela dura realidade dos dias, eu até já deixara de acreditar que Papai Noel existisse. Mas mantinha incólume a minha confiança em Deus, na cegonha e na canhotinha salvadora do Rivelino.
“Não seja tão grosseiro”, ele recomendou que eu evitasse trocadilhos, comentários depreciativos, tentativas de fazer piadas com a fé alheia nos meus textos literários. “Se você não crê em Deus (ele disse assim) é problema seu. Esmere-se nos textos tristes. Gosto muito dos seus textos tristes”, emendou, percebendo o meu abatimento subitâneo após a “crítica construtiva”. 