Religião, xenofobia, sexo e literatura
Quando me contenho, me tenho; quando me solto, sou óbvio.
(Chico Perna)
leia mais...
Quando me contenho, me tenho; quando me solto, sou óbvio.
(Chico Perna)
O que leva um indivíduo a expor o filho ao vexatório papel de se transformar na bola da vez na imprensa nacional, ainda mais se pensarmos que este filho tem apenas oito anos, e que tal atitude poderá marcá-lo negativamente para o resto da vida? Dizem as más línguas que tudo foi arquitetado pelo pai, que é candidato a vereador e queria um tempo na mídia. Não sei se devo acreditar nisso. Seria patético admiti-lo, mas vindo do “ser humano”, tudo é possível.
Tudo foi muito estranho e engraçado, lembro-me bem, eu estava na rodoviária de Miracema do Norte, não posso precisar o ano, década de 70, quando vi pela primeira vez um gravador e ouvi a gravação que dele saia, fiquei encantado. Como seria possível aquilo?
Cheguei em casa deslumbrado com o novo conhecimento, com a nova tecnologia. Meses depois, meu Pai foi a Goiânia e nos presenteou com um belo gravador, último tipo, genuinamente japonês, uma maravilha. Passamos a gravar todos os sons que encontrávamos, que fazíamos acontecer, desde batidas em latas, até o som da descarga do banheiro, tudo com muito entusiasmo e graça.
Passamos a gravar as nossas conversas, as conversas dos vizinhos. Brincávamos de espiões, cantávamos e nos dizíamos cantores, artistas. Enquanto isso, uma montoeira de fitas K-7 ia se acumulando nas estantes da casa, compondo a nossa coleção. O certo é que éramos puro entusiasmo, a mesma que tínhamos pelos inúmeros livros da minha infância.
São agradáveis lembranças, mas, o mais agradável, o inusitado, o puro estranhamento, deu-se na fazenda Caridade, do meu avô materno, quando, à noite, nas reuniões que fazíamos, sob a luz dos candeeiros e lamparinas, no pátio da casa grande, o meu pai, Francisco Nolêto Perna; meus avós, vovô Antônio Nolêto e vovó Euzébia Nolêto; minha mãe, Adalgisa Nolêto; meus irmãos; meus amigos que levávamos; os vaqueiros; e os trabalhadores da fazenda estávamos conversando e, depois de muita conversa, após termos ouvido o pífaro de taboca do seo Tonhão, meu pai pediu silêncio. Todos silenciaram, e ele, meu pai, apertou o PLAY do gravador para ouvirmos as nossas falas, as conversas ali travadas, o som ancestral do seo Tonhão. Foi o êxtase total, uma cena indescritível, se considerarmos o rosto, o deslumbramento de cada um. Deus ali se manifestara, o mito, a cosmogonia, os espíritos ancestrais orquestravam aquele evento.
Talvez, se fosse hoje, nada de extraordinário aconteceria, ainda mais por se tratar de ouvir a própria voz, uma simples gravação não causaria tanto entusiasmo, numa época de instantaneidade, de tecnologias que capturam a voz, a imagem, os movimentos e, para muitos, a aura de cada um.
As lembranças da infância são para sempre, não se apagam, boas ou ruins, estarão sempre presentes, como podemos ver no filme O Caçador de Pipas (The Kite Runner), Direção de Marc Forster, baseado no romance do afegão Khaled Hosseini (2003), que conta a história de Amir (Khalid Abdalla), um garoto Pashtun rico de Wazir Akbar Khan, distrito de Cabul, que é atormentado pela culpa de ter traído seu amigo de infância, Hassan, filho do empregado do seu pai, Hazara Uma história comovente, de perdas encontros e desencontros.
Falo do filme, porque foi ele que me fez reviver este fato do gravador, uma história não de tristeza, mas de alegria, de boas lembranças, quando silenciávamos para ouvirmos a nossa voz, amparados pela luz das lamparinas, do candeeiros e, muitas vezes, da lua cheia que nos acompanhava. Uma lembrança gostosa de descoberta e aprendizado.
Goiânia, vira e mexe, sempre tem se destacado como notícia nacional. No passado, foi o Césio; há pouco, a febre amarela, que levou a população ao desespero, todos em busca da vacina, inclusive eu, que, um mês após receber a dose, contraí dengue, passei maus bocados, pelo menos estava tranqüilo com relação à febre amarela, caso contrário, teria enlouquecido, porquanto alguns sintomas são muito parecidos.
Passado o surto da febre, um caso inusitado aconteceu: um casal que se dizia “fugindo das FARC” chamou a atenção da mídia nacional, o casal relatou que havia percorrido - a pé - milhares de quilômetros, da Colômbia ao Brasil, passando pela Venezuela, pela Amazônia, até chegar a Goiânia, depois de ter perdido um filho para aquela organização terrorista. Mais tarde, veio-se a descobrir, após a morte da esposa (que morrera de malária) a verdade: o casal fugia não das FARC, mas da pobreza do seu país. Procuravam melhores condições de vida. Mas como mentira tem pernas curtas, o rapaz será deportado, ficando apenas a imagem de um casal sonhador, abrigado no Hospital de Doenças Tropicais, guarnecido pela força policial goiana.
Mas as más notícias não param por aí, principalmente quando envolve o erário, como aconteceu recentemente, o desvio de mais de 900 mil reais dos cofres do Ibama, supostamente desviados por uma funcionária que cuidava das finanças - segundo declarações do Procurador da República em Goiás - e que teria gastado boa parte desse montante numa clínica de estética. Tudo muito bem maquiado, bem urdido, um atentado à flora e à fauna brasileiras. E haja beleza! Quase um milhão de reais, dividido entre filhos e outras laranjas, laranjas da terra, que agora, depois de despencarem do talo, amargarão por longos anos.
Agressão à fauna, à flora, desvio de conduta, tudo tem marcado o nosso País e, claro nossa grande Goiânia, como a trágica história de uma senhora, de 48 anos, que teve o útero retirado, após ser confundida com uma outra paciente. Segundo relato da própria vítima, ela fora internada para fazer uma reconstituição do períneo, mas começou a achar tudo muito estranho: “Eu senti que algo estava repuxando, perguntei ao médico o que ele estava fazendo e ele respondeu: estou retirando o seu útero.” O mais grave de tudo isso, a mulher que teve o útero retirado fazia tratamento para engravidar, estava na fila de espera do Hospital das Clínicas, para se submeter a inseminação artificial. Trágico, não?
Mas as notícias não param, às vezes trágicas, como o caso da retirada do útero da senhora acima; às vezes hilária, como a história do padre de uma paróquia em Goiânia que proibiu às mulheres, principalmente nas cerimônias matrimoniais, de comparecerem à igreja trajando vestidos decotados, costas nuas, para evitar, segundo o pároco, um mal estar entre os fieis. Pois, segundo ele, as beldades não se vestem decentemente, não usam sutiã, deixando os seios eriçados, à mostra. O padre deve ter lá suas razões, talvez seja preferível proibir a se autoflagelar, principalmente quando se tem uma visão tão apurada. Às mulheres, uma saída: mudar de igreja ou de vestido.