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POR EM 19/04/2008 ÀS 01:48 PM

A hora dos ruminantes

publicado em

 

José J, Veiga foi profeta: em sua famosa novela, deu-se que os ruminantes invadiram uma cidade, e tomaram de assalto à sua alma. Nenhuma instituição ou cidadão desfrutou de ordem e de paz, depois que os ruminantes (metáfora da brutalidade) chegaram. À época da publicação do livro, que estourou, em sucesso imediato, críticos de plantão cogitaram de ser a horda dos ruminantes uma alusão aos bárbaros (ou à ditadura, que fazia das suas, colocando a liberdade em camisa de força, e costurando a roupa da Constituição Brasileira segundo o molde de seus interesses). Veiga, caladão como sempre foi, não gastou energia em cair na armadilha de rotular-se como papagaio ideológico. Não é função do artista desvendar os véus que colocou em sua obra, a fim de faze-la artística, ou de nela introduzir verdades ocultas à percepção rasteira.
        
Eis senão quando, os ruminantes, que só eram muitos para a cidadezinha interiorana, que invadiram com estrondo, tornaram-se mais de 150 milhões, ultrapassando a população humana de nosso país. Pois são favas contadas saber que hoje temos mais bois do que pessoas, no Brasil. Certo, ao menos foi este mais um avanço quantitativo, como se deu nos vinte anos de vigência da ditadura, que dentre outros feitos, deu-nos este, de que se jactava, ironicamente, Alfredo Benetti, pai do meu amigo Nilo Benetti: "A Revolução de 1º de abril foi muito boa para o Brasil. Nosso país nunca antes teve cem milhões de habitantes, e agora tem!".
    
Dito isto, faz-se urgente refletir sobre o significado deste avanço a mais, em nossa estatística econômica. A hora dos ruminantes chegou, triunfante, produzindo grande estrondo, e extraordinário avanço predatório em nosso cerrado, campos e florestas. O Brasil passou a ser um país ruminante. É que, para cada boi posto a pastar, energúmeno e forte, necessário se faz desmatar um mar de terras. É de se calcular o preço ambiental de tão vasto ruminar. Tendo, hoje, mais bois do que pessoas, é de se perguntar: e o que será de nossas florestas? Onde passa boi passa boiada - e homem nenhum dá conta de reparar o estrago, quando acontece um estouro de boiada. Vai a vida assim, sendo estourada, até que seja decretado aos cidadãos não poderem sair de casa sem conjugar, no particípio presente: eu rumino, tu ruminas, ele rumina. Nós ruminamos, vós ruminais, eles ruminam.  
 
Sem falar que a terra tende a tornar-se deserto de areia nua, depois de submetida a pisoteio intenso. Onde passa boi passam boiadas, devastadas com furor selvagem, para que eles possam ser postos a pastar, sem maiores cuidados com o dia de amanhã. Pois que boi no matadouro costuma ser a coisa melhor que há - para quem o cria, para quem o come, quem o comercializa. Principalmente, com sua engorda e seu abate se regala a viúva do erário, ávida por embolsar os impostos e taxas inerentes à carnificina. Onde passa boi, passa boiada, que leva à seara do nada o país da esperança. Para que um quilo de carne bovina possa ser produzido, lá se vão dezesseis mil litros de água doce. Que haverá de fazer muita falta, quando vier a faltar. E atentem para o fato de que em muitos lugares do Brasil maravilha o precioso líquido já é artigo de luxo.
 
Onde passa boi, passa boiada. E para cada flato (ou bafo) lá vai, em forma de gás metano (muitas vezes mais letal que o CO2) o aumento do descalabro térmico que irá esturricar o planeta em prazo não muito longo. É mole, ou queremos mais? Talvez a hora dos ruminantes, coincidindo com a tragédia planetária do aquecimento global seja propícia a colocar-se em debate um tema que vem sendo objeto de verdadeira e santa cruzada, por parte do senador Cristóvão Buarque: a de que precisamos reeducar o humanismo, ou talvez educá-lo pela primeira vez, já que nunca foi educado. Pois, segundo o senador e ex-reitor, este humanismo representa a arrogância antropocêntrica, burra e irracional, do ser humano diante da natureza.   
                       
Pérolas da modernidade ruminante
 
                       
Na vida como na arte,
enfumaçadas celebridades
viram personas de triste figura. 
                       *
Na estética do toco
como no Cinema Novo
a galinha gava o seu ovo. 
                       *
Tão pavorosas se tornam
certas celebridades de triste figura
que realizam em si a estética do espanto. 
                       *
Ou dá ou desce:
a primeira trombada
a gente nunca esquece. 
                       *
As feias, como as belas
vão caindo
pelas tabelas. 
                       *
Assim como as belas
ostentam lordezas,
as feias são humildes por natureza. 
                       *
Quanto maior a cidade
mais nulidades se empavonam
a trombetear auto-importância.  
                       *
Em perfídias bem sucedidas
se esmeram eminências de fino trato:
vivem a assaltar os cofres do Estado. 
                       *
UNE: noves fora, nênias
de nonadas: entidade paga
para ficar calada

 


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POR EM 06/04/2008 ÀS 03:57 PM

A marcha dos mortos vivos

publicado em
 
Que tempo é este, tão falto de verdade e paz que torna impossível o encontro humano? Tempo de absoluta confusão, em que mentes estreitas nos governam, por meio de astúcia política e mediocridade ululante adquiridas - e se envaidecem de sua ignorância arrogante! Em ondas de normose reprodutiva os mortos vivos atentam contra a vida, onde quer que estejam - e assim aceleram o trágico espetáculo da decadência humana.
           
Tudo o que não é essencial passa, sem deixar no chão do vivido, vestígios de verdade que não teve. Jogos de egos e posturas de personas mascaradas cessam sua algaravia egocêntrica de maneira veloz - indo do sublime ao ridículo, a ponto de não se saber para que sobreviveu ao oblívio da morte. Outras vezes, em face do absurdo a galopar nas estruturas do mundo, chegamos a não saber se os mortos estão vivos, ou se os vivos estão mortos. 
           
Por que pessoas que se revestem com armaduras de autoridade, empavonando-se em posturas de vaidosura e arrogância são as menos confiáveis. Um texto publicado na revista Theosophy, em Los Angeles, nos idos de 1926, responde com notável lucidez: "Confiança é algo que só pode ser depositado com segurança no indivíduo consciente que, durante as horas em que está em processo de vigília, permanece no controle constante e positivo de seus métodos de ação, sendo precisa e atenta em todas as ocasiões. Ser confiável significa viver no presente, concentrado aqui e agora, e não deixando as tarefas pela metade enquanto sonhamos com um futuro glorioso".

Os índios não carregam caminhões de certezas vazias, nem se fazem didatas de verdades que não sabem. Um dia acreditam em Deus, no outro não acreditam mais. E não sofrem por isto. Ao contrário dos "selvagens", os ditos "civilizados" fazem questão de armazenar montanhas de crenças, idéias, opiniões - saberes de segunda mão, que lhes servem de escudo, em forma de curriculum encobridor de sua incompetência crassa e inabilidade de existir. São os casos crassos e escorreitos das sumidades e PHDs a vomitar doutorices, mesmo que não saibam viver. E ainda assim arrostam falsa importância - mesmo sendo a flatulência de uma vitalidade vazia, com seu brilho de purpurina de personas postiças, que já não podem viver sem suas máscaras.

A revolução do neocinismo triunfante faz que se acelere, de forma trágica e sinistra, a marcha da destruição. Que tempo é este, em que templos se multiplicam como pequenos ou grandes negócios - máquinas da fé, organizações comandadas por malandros de gravata, experts em esfolar rebanhos de néscias e incautas ovelhas em busca de milagres para a salvação de suas mal sucedidas espertezas. Negócios de oportunidade (livres de impostos e emolumentos) escorchantes e implacáveis aos que trabalham honestamente - em que ávidas hienas rapaces cevam suas contas bancárias, na certeza de serem imensos os lucros e dividendos!
           
Num tempo assim, povoado de crimes hediondos, falar de árvores chega a ser uma falta - mero delírio de lunáticos ecochatos. Neste tempo avacalhado o homem trivial torna-se suspeito, sendo perseguido como sempre pela raça dos Morcenigo, a soldo da normose reprodutiva. Tempo haverá, tempo haverá em que o Homem terá se tornado tão humano que volte a ser criança - flexível, amoroso e mutante como tudo o que vive a reverdecer-se em flor do instante em amor e esperança?

Vivemos em tão gritante e avassaladora inversão de valores, que prostitutas de luxo dão entrevistas pagas - como coisa que não acontece em relação a cientistas e humanistas benfeitores da humanidade. Pessoas tornadas célebres por atos de crueldade, como a Calabresi que torturou uma criança durante anos, manifestam intenção de escrever livros sobre o perdão. Que reivindica para ela própria, é claro. A lucidez profética de T.S. Eliot lança luz sobre a questão: "Assim acaba o mundo/não com um estrondo/mas com um gemido". Talvez a morte se faça cada vez mais viva pela tenacidade com que a humana raça multiplica suas desgraças no ódio ao vivo que perpassa os gestos insensatos dos que em nós grassam como vitória da sombra, a ameaçar tudo o que vive.
 
Litania ladina
 
Construímos uma relação de poder com Deus. Nós o queremos consultor financeiro para nossos negócios de oportunidade, e o elegemos leão de chácara de nossas propriedades. Queremos Deus para nosso capacho e para dirimir pendências de desarvoro constante e leniência de praxe.

Que o barbudo celeste remova céus e terra, para que triunfemos em nossas guerras. Pelo sim pelo não, que nos dê um caminhão de felicidades gratuitas.
 
Que perdoe as nossas dívidas, enquanto cobramos com ruído e furores os nossos devedores. Que avie as receitas para as doenças de alma mas que não nos cure de vez, que precisamos de firmeza para perpetrar maldades de fino jaez.
 
Não desejando renunciar às nossas maldades contumazes e nossos atos perversos, nos abençoe assim mesmo. Quem sabe em outra encadernação,montados em nota preta, tomemos coragem para tomar preceito. Por ora vamos pecando com gosto e enquanto oramos a vós perdoamos a nós mesmos!

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POR EM 26/03/2008 ÀS 11:53 AM

Por quem os sinos dobram

publicado em
                                                                                                                    
Em épocas de crise e turbulências financeiras, as pessoas são tomadas pelo frenesi ilusório de que podem se tornar milionárias da noite para o dia. Algumas conseguem, de fato, alcançar tal meta, enquanto outras, que eram milionárias, atingidas pela quebradeira, tornam-se os novos pobres da praça associada. O mais incrível é perceber o quanto são parecidos, em avidez de alma, os pobres que se tornam ricos, e ricos que se transformam em mendigos.
           
Só os que se acham profundamente adormecidos não escutam, no rugir dos gritos nos pregões das Bolsas de Valores, em quedas sucessivas, o desespero impotente das massas, a queimar dinheiro nas ruas, nos terríveis dias do crash de 1929. E depois ainda há quem não acredite que a história se repete. O que se vê e se sabe é que a financeirização da riqueza desvia a sociedade do circulo virtuoso da produção pelo trabalho.

Sendo a geração da riqueza representada pelas finanças (dinheiro fazendo dinheiro, via especulação) cifras passam ativos com mais valor no mercado do que produtos essenciais à existência humana. O dinheiro como fator capaz de gerar mais dinheiro passou a ser o cativador empenho mais levado em conta. E para as pessoas para quem só o dinheiro conta, perdê-lo, ou ganhá-lo em menor quantidade pode ser um desastre maior do que seria a sua própria morte. Assim sendo, os adoradores do bezerro de ouro vão ter que mamar em outras tetas...
           
Até que, chegada a hora do acerto de contas, uma vez desabando a pirâmide que tinha como base maços de algodão doce na chuva (portanto, uma falsa e virtual riqueza, que se volatiza em prazo a fazer quebrar tanto o Petrônio quanto a Tíbia, bem como todo o resto da família) lamenta o ávido investidor, que decifra a vida no sotaque do Deus môney: pois é... um rapaz tão moço... Mundo i-mundo, vasto mundo: como ficarão os meus fundos, se o meu môney acabou - e tudo michou?.

Ao ver mercados financeiros desabarem, abandonando o tom triunfalista e retumbante muitos, em todo o mundo, estão a dançar o tango argentino. Ou, para ser mais folclórico: terão de perguntar aos deuses consultores dos mercados e finanças: "Para onde foi o meu, que estava aqui, bem aplicadinho?". O gato comeu. E onde foi o gato? Foi pro mato. E onde está o mato. Fogo queimou. E onde está o fogo. Água apagou. E onde está a água? O boi bebeu..." E assim por diante segue a brincadeirinha de procurar o que não foi perdido, uma vez que era só um faz-de-conta.
           
Quando se chega à situação em que o devedor tem medo de tomar emprestado, e o banco, por medo de não receber, recusa emprestar, tem-se uma pedra no caminho. O chamado imbróglio, nó cego difícil de desatar. Como diria o vulgo: "Se a liquidez empossa", fazê-la fluir não há quem possa. Vamos e venhamos: a crise veio da prática do subprime - ou seja, passar adiante o desastre previsível - tiro que saiu pela culatra. No golpe da pirâmide os malandros locupletam-se e saem de fininho da cena do crime.

O que foi o caso dos bancos do "paraíso" norte-americano, que passavam a outras mãos a bomba de efeito retardado. Agências de classificação de risco empacotavam créditos, vendendo gato por lebre, em reluzentes embrulhos, em que havia mais joio que trigo. No futebol como nos mercados, feio é perder. Deram crédito a pessoas sem renda, sem emprego, sem bens, sem lenço e sem documento. Uma vez despertados do sonho do consumismo sem freios, viram-se em meio ao pesadelo de um inferno financeiro sem paradeiro.

Como se já não bastasse o estrago que causam na sanidade os catrumanos  -humanos que se tornaram desumanos - (evoé, Guimarães Rosa!) agora temos a mata enlouquecida dos parvenus (saudações, Visconde de Taunay!) - capitalistas sem capital, empresários sem empresa, que em frenesi demoníaco dedicam-se, como especuladores da Bolsa de Valores,. a fazer dinheiro com dinheiro. Outros Sonsândrades pós-modernos, em face da súbita falência, terão que vender as pedras da Vitória!  Na velha República como na nova, picaretas abaixo de toda suspeita (com suas malas pretas) entregam-se às viagens da voracidade (e como aves de rapina - ou hienas engravatadas) buscam lucrar em cima do trabalho alheio.

Mas quando a Bolsa cai que esborracha, saem com ar de coitadinhos, a anunciar á praça que são os novos falidos do pedaço. Sendo o jogo de ganhar o mesmo que nos leva a perder até as calças, é de se prever que não é difícil ser conviva no banquete milionário, quanto dar com os burros n´água. Pena que a queda tenha se dado quando os novos ricos e remediados estavam chamados à festa.

Agora, que soam na taba cívica de Macunaíma os sinais da quebradeira, uma pergunta não quer calar: por quem dobram os sinos da Bolsa? Os sinos dobram pelos que acreditaram ser possível enganar ganhar muito dinheiro o tempo todo, sem correr riscos. No mais, é como re-escrevevia Drummond, o vate itabirano, encarnando o cândido José: "E agora, José/ a festa acabou/o povo sumiu/o fogo esfriou/e agora, José/ para onde?".  

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POR EM 20/03/2008 ÀS 09:41 AM

Putas da minha vida

publicado em

   
Nunca me deixei impressionar pelo fato de que a zona boêmia, tanto ou mais que o engenho de açúcar, (em seu moer e coar como canas colônias de vidas escravas) é uma máquina de viciar e gastar gente. Por muito tempo andei querendo encontrar quem eu sou nos labirintos da perdição. É comum ver-se, nos puteiros, mulheres velhas, decrépitas, com uma pele só rugas, de pouco mais de quarenta anos. Obrigadas, pelas cafetinas, a beber a noite inteira, enquanto copulam até vinte vezes por dia, com a sucessão de maus tratos, as surras que recebem do cafetão e dos meganhas, as brigas, a insegurança, o medo e a permanente violência, e pelo fato de estarem sujeitas a contrair todos tipos de doenças venéreas, com poucos anos de "profissão", viram mulambos humanos. 

Não por outro motivo que os coronéis d´antanho, assim como os oligarcas contemporãneos dão preferência às mocinhas, recém-chegadas no ofício. É que cedo perderão o viço da pele, o brilho dos olhos, o brilho da vida, que em tais criaturas se esvai com velocidade espantosa. Nos bordéis de antigamente, (que hoje os há mais sofisticados e, com o aumento da concorrência, hoje é difícil saber quem está no ofício só por gostar do meretrício, ou quem nele mergulhou de cabeça, pra valer), em poucos anos a mocinha dadeira virava velha rameira, tão sôfrega e selvagemente lhe era sugados o viço e a seiva da juventude.
 
Conheci uma prostituta tão velha e decrépita que parecia a chaga viva da humana ruína, exposta ao escárnio do público. Tinha um corpo e um rosto destruídos, apesar de seus pouco mais de quarenta anos. Era impossível determinar, com a ponta de uma agulha, um lugar de seu rosto onde não houvessem rugas. Era, em verdade, um inventário de rugas, como rios do desespero, em seu rosto destroçado.
 
Maracujá de gaveta perdia para ela. A velha noviça, feia, de uma fealdade inescondível e absoluta, era a prova, em carne viva, de que não existe chinelo sem dono, e nem sandália que seja impedida de ir a salão de festa, pois arranjava fregueses, entre os iniciantes, os tímidos, os paupérrimos e os que eram, como ela, extraordinariamente horrendos e despojados de todo e qualquer atrativo físico. Atendia pelo codinome de Dolores, e foi com muita dor que, acometida de câncer, veio a falecer no puteiro, depois de pungentes e doloridos anos de sofrimento (não tinha ninguém de seu, que pudesse tirá-la da "casa da sordidez").  

Morreu ali, à míngua medicina (que eu nada a ajudaria), mas não lhe faltou o amor e o companheirismo das outras "mulheres de vida alegre". Apodreceu, ao pé do leito mortuário de seu imenso desamparo. Só, e abandonada, como uma fruta que, cansada de madurar para nada, apodreceu, encroou, e virou fóssil vegetal. Morreu como viveu - sem ter um cã a quem pudesse acarinhar ou de quem algum afago recebesse. Viveu e padeceu no cemitério de gritos do câncer, e no viver foi como uma fruta a apodrecer, sem que ninguém sequer a contemplasse, na árvore ou na fruteira, com olhos de família, ou desejo de amante. 
 
Foram anos seguidos de lenta e dolorosa agonia. Dolores morria devagar, embora fosse desejo e (não lhe faltou a solidariedade das companheiras), que não a atiraram "no olho da rua", como chegou a ser sugerido, nem por piedade de eutanásia apressaram seu desenlace. sua despedida das solidões da carne foi lenta e dolorosa. Pedia, aos gritos, que a morte lhe chegasse como uma graça e dádiva terminal de quem viveu sem saber, ao menos em breves instantes, o que é ser amado e feliz, em sua existência vivida sob o signo de tânatos, ainda que por vocação de ofício tenha entregado seus dias aos gritos e sussurros do sexo pago.
 
A morte instalara suas teias sobre as vísceras de Dolores, mas Dolores não se decidia a morrer de fato e de direito. Morria em vida - e, lentamente, como uma fruta que amadurece, e a mão de Deus ou dos homens não tem a piedade de estender, para colher seu gesto inaugural de ternura - seu terminal desejo de entrega à juventude da vida, começou a desidratar e a reverdecer, como sucede às pessoas ficam encroadas, como frutas mal amadas, depois que de suas vidas e almas se extraiu todo suco e toda essência que nelas pudessem ter existido um dia.
 
De seu corpo, que apodrecia em vida, exposto à curiosidade pública, como se fosse de uma espécie muito rara, exalava um fedor adocicado, como o que exalam as fartas mangas abandonadas, que viram lama ao pé das fruteiras. Seus gemidos se misturavam com os gritos e sussurros das putas que gozavam (ou fingiam gozar), pois é sabido que as profissionais do amor só gozam e só aceitam ser beijadas na boca pelos "queridos" - e assim a vida se mostrava trágica e desesperada como é: quem ali entrasse para transar o sexo pago, ou quem apenas se entregava ao convívio seresteiro com a boêmia, e ficasse na sala, a ouvir e a cantarolas músicas de Nelson Gonçalves e Carlos Gardel, ouvindo gemidos vindos do quarto, não podia identificar se eram gemidos da dor de morrer em vida, ou se eram produzidos pela máquina de esfolar e fazer gozar pessoas mortalmente vivas, e tristes e solitárias. 
 
Toda vez que ouço, nas vozes embriagadas, e violões enluarados, "A volta do boêmio", na voz de Nelson Gonçalves, dardejam nos meus ouvidos, como sinos da agonia, os gemidos de Dolores, a prostituta mais velha, mais feia, e a mais sofrida já existida ou por existir, nas "casas de luz vermelha" da Campininha das Flores: "Boemia/ aqui me tens de regresso/ e suplicando te peço/ a minha nova inscrição/. Voltei/ pra rever os amigos que um dia/ eu deixei a chorar de alegria/ me acompanha o meu violão...". Então entendo porque as putas e os boêmios voltam sempre, a procurar, sedentos, os sítios do perigo e da perdição . Agora entendo as putas e os criminosos, que mesmo depois de haverem escapado ao perigo e à indignidade dos crimes que fizeram, quando a adrenalina retoma os níveis normais, escravos de forças magnéticas e poderosas, sempre voltam ao local do crime.
 
Um poderoso magnetismo, ou quem sabe o fascínio pela queda, e a sede de mergulhar na vertigem, fez que retornassem ao puteiro mulheres que encontraram companheiros, filhos, e o pacato e burguês "lar doce lar", que abandonaram, em dia de luciférica lucidez, reencontrando a perdição de que jamais se libertaram. E só quando amei tive olhos e ouvidos capazes de ouvir e entender estrelas. E só quando, na solidão do outro, de meu abissal desamparo me libertei, pude entender o que dizia o boêmio, quando cantava sua alegria vital, por haver de novo encontrado o caminho da perdição: "Fiz de tudo o que eu podia/ e de tudo o que eu fazia/ não me arrependo/ e te juro que faria/ tudo de novo/".
  
Dolores, seus gemidos e ais, e suas dores demais. Havia a pedra da solidão, em seu caminho. E a pedra de Sísifo, que ela carregou até o último gemido- suspiro, foi a de ter sido estrangeira para os outros, e para si mesma, em seu quarto, na casa em que morria, em seu pais, e no triste planeta terráqueo. Dolores nunca mais esqueceria do acontecimento da dor, na vida de suas retinas tão fatigadas. "O que é pior? Uma puta que vive de se entregar, ou uma puta que nunca se entrega?".
                                                
 
P.S. De putas, deputados e outras lambanças
 
               
Fêmeas fatais têm sido o abismo de celebridades políticas. Quanto mais estonteantes as beldades, mais perigos trazem em potencial. O rigor do método doidivano tem encontrado a perdição cartesiana em combates de coxas e lascívias de bocas - inconfessáveis ao público externo que paga a conta do banquete em que mulheres para 400 talheres são convocadas aos doze trabalhos de Eros.  
           
De um modo geral, sempre foi assim: a começar por Afrodite , passando por Cleópatra, guerreiros deram seus reinos (ou seus cavalos) por uma noite com suas belas putas. Poetas nefelibatas entram em delírios de loucura pura. Bill Clinton fuma o charuto cubano da luxúria americana com uma estagiária (Mônica amorosa e dadivosa) e quase perde o comando da pátria de Tio Sam.
           
No Brasil, um Itamar deslumbrado empunha o cetro público de sua lascívia senil, ao ver os pelos púbicos da vedete, na festa da carne em que todos os pudores se perdem. Outros farão filhos por fora - que vão estudar no estrangeiro, para não arranjarem pampeiro no chão brasileiro. Na presidência do congresso dos agachados o varão Renan Galheiros (fazendeiro do ar, de gado simbólico, para mutretas de lesa-fisco) moverá céus e terra para não faltarem abundantes alimentos à amante nutriz. Não dispensará os serviços de um gerente de empreiteira, para não faltar mamadeira à infante que pôs no mundo fora do seio da sagrada família.
           
Enquanto caem as estrelas dos pais da pátria, tidos e havidos como sendo acima de qualquer suspeita, resplandece o brilho das dadivosas, que desfilam triunfalmente por todas as mídias. Escrevem livros, lançam-se na vida pública (como esta já não fosse a sua) - dão consultorias sobre combates de coxas, e tornam-se, da noite para o dia, celebridades milionárias, a quem se trata com venerando respeito. As mais proletárias da mais antiga das profissões limitam-se a lançar griffes espúrias, em alusão irônica à perseguição petista à Daslu. Sem contar que Goiás comparece como líder no ranking dos Estados exportadores de putas. Daí reproduzir a pergunta feitas linhas acima, no conto-verdade inserido em meu livro Memorial do medo: o que é pior, a puta que se entrega, ou a puta que não se entrega nunca?
           
Se considerarmos que muitas santas mães de família são prostitutas de seus maridos, uma pergunta se alevanta: uma santa mulher pode ser uma puta putana, ao costurar para dentro? Outra insiste em falar: por que o ser mulher de vida alegre e airada há de ser uma desfeita, se dá aos homens o amor faltante em seu mundo? Por isto há de se preferir a vida alegre de alguém que assuma o respiro da vida, do que a solidão compadecida de si, da senhora "acima de qualquer suspeita", que sai com o senador, por um punhado de dólares, e uma gorda pensão alimentícia - a outra e a mesma que, no altar de sua hipocrisia, reza as trezentos e cinqüenta Ave-Marias de suas sublimes vilanias.  

 

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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:16 PM

Pessoas chocantes

publicado em
                                                        
Pessoa chocante não é a que tem por mau costume chocar as outras pessoas. É a que persiste no vício enclausurante de não chocar a si mesma, dando á luz ou ao novo que tem o dever de fazer aflorar em si. Há criaturas (bípedes pensantes) cujas vidas entram em paralisia de pântano. Sua estagnação vem da recusa em chocar a vida nova, enclausurada na casca de ovo que são - e toda criatura o é, em um sentido simbólico.
           
 Recusar-se a romper as estruturas do medo de viver é manter-se em morte viva de normose ou mesmice. Não irromper da rigidez para o movimento, permanecer em antecipado rigor mortis, antes de passar pela leveza permeável e flexível das crianças, é uma forma de antecipar em nós os poderes da morte. Significa enclausurar-se em caverna escura, de onde nada sai, e onde nada penetra.
           
Não sair do ovo, temendo os perigos do mundo, é retroagir a ave futura em ovo goro - por medo ou pirraça mantendo a si mesmo como sub-ser cavernoso - milagre falhado, sem serventia para os outros, desprovido de futuro para o mundo - para que foi nascido —  e até para si mesmo demitido de sentido.
 
A vida enxota os que entulham os seus caminhos. Viver é colocar-se em marcha - não estancar o fluxo do eterno movimento de tudo o que vive. Pois, nesta vida, segundo Heráclito, tudo muda o tempo todo. Só a mudança não muda nunca. Vida é movimento. Quanto mais muda um ser humano, mais vitamina a si mesmo. Se for artista, ao conceber uma divina canção, abraça a si mesmo, na intenção universal de abraçar o mundo.
 
                                              
Vertigens de ventríloquos
 
           
Há por toda parte uma triunfante e vertiginosa exaltação do poder que nos dá o fato de ser bem informados. Poder para que? Há de se perguntar, uma vez que quanto mais informação rola pelos megabytes das mídias eletrônicas (para não falar das outras, mais lentas), mais desastres e absurdos são provocados por pessoas tidas como bem informadas.
           
Esquecem de informar os idólatras dos super-poderes da informação que acreditar não é saber. Cultura não é saber por ouvir dizer. Um saber não processado torna-se um caos desenxavido, sem alinhavo ou cerzido que lhe dê algum sentido. Tem o valor protéico de um veneno bem ou mal digerido. Informação só dá poder quando se processa o que se sabe - e quando se acredita porque se sabe.
           
Montanhas de informação não processadas vêm da vala rasa da cultura inútil, sem conexão com as leis que regem a vida. Não resultam em cultura, e menos ainda em sabedoria. Têm a duração de um punhado de algodão doce na chuva. Naqueles, néscios bem informados que as acumulam, restam acúmulos ridículos de vaidosura. E a doce ilusão de terem se beneficiado daquilo que não podem digerir. Pior é que passam por sábios, feito ventríloquos tagarelas, papagaios rastaqueras, e esgoelar-se em tagarelices, enquanto propagam à praça que são os novos reis da cocada preta. 

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POR EM 10/03/2008 ÀS 08:22 PM

Alguém melhor que Ele mesmo

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"A constituição do seu espírito condenara-o a todos os anseios. A do seu destino, abandoná-los todos". A aparente oposição entre destino e espírito em uma só pessoa é um truque ou recurso estilístico inerentes à personalidade pluriforme de Fernando Pessoa. Tal frase está entre os papéis guardados no baú do grande poeta lusitano — assinado por Bernardo Soares, um de seus semi-heterônimos, tem trechos em que o escrevente entra em litígio direto com Fernando Pessoa-Ele mesmo. Falarei disto mais adiante.
           
Antes, atenho-me a tecer considerações sobre este abandonar-se do destino que lhe coube (Bernardo Soares, ou Pessoa?) deveu-se ao desassossego de viver, que parece ter sido inerente aos dois. Isto Fernando Pessoa Ele mesmo já declarava, em sua estética da abdicação: "conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isto tora vitória é uma grosseria. Vence quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar".

Estranhamente (mas não para Fernando Pessoa) estas reflexões vão na contra mão dos livros de auto ajuda, que tanto bebem, rebuscam e até mesmo manipulam e distorcem as palavras do poeta, a ponto de as tornarem lacrimosas ou simplesmente ridículas. Crime de lesa-autor de que também são vítimas freqüentes Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, de quem se vê na internet, em PPS melodramáticos, risíveis e até mesmo caricatos - diante dos quais nossos aclamados bardos cometeriam suicídio - se é que não estão a imprecar e deblaterar, do lugar (penso que bom) para onde foram (?) suas almas ímpias, porém piedosas.

Palavras estas, inscritas no Livro do Desassossego, do semi-herterônimo Bernardo Soares, que se contrapõem às de Fernando Pessoa-Ele Mesmo, ao se pronunciar sobre o sentido (ou ausência de) do fazer que, se não resultou em dinheiro, garantiu-lhe glória póstuma. Pois Pessoa assim via o sentido de ser poeta, neste grande e estranho mundo, em que tudo é comprado e vendido, e tem valor assegurado, menos as palavras dos alquimistas do Verbo: "Cumpri, com meu dever, o meu destino ao mundo. Inutilmente? Não, porque o cumpri".

Aqui Fernando Pessoa-Ele mesmo entra em contradição com o que afirma Bernardo Soares. Se para este "só é forte quem desanima sempre", e o "melhor é  abdicar", tanto de espírito quanto do próprio destino, para o Outro (na verdade, seu inventor), "Tudo vale a pena/se a alma não é pequena". E o que importa não é angariar vitórias ou sofrer derrotas, mas cumprir o destino que nos trouxe ao mundo. Talvez as palavras de Joseph Campbel, um mitólogo nosso contemporâneo (um dos mais brilhantes, por sinal) contribua para fazer avançar em síntese a polêmica (aparente oposição) na obra múltipla, ambígua e universal do vate lusitano: "Qualquer mundo é um mundo vivo, e o que importa é trazê-lo (você) de volta à vida. E a forma de fazer isso é descobrir, no seu caso pessoal, onde está a sua vida, e viver".

"Ver, sentir, lembrar, esquecer". Em desolada solidão de só viver de mundos mortos, fazemos do existir uma paralisia ativa - uma canção sem vida, por nunca ser percebida. Ao reler O livro do desassossego, meu livro de cabeceira, onde vou buscar lucidez e sabedoria, deparei-me com outra contradição (se é que um poeta, sendo vasto como Ele, não tem direito a contradizer-se, uma vez que sua alma antiga contém multidões).

Em ver com desconfiança o rigor mortis em que se mascaram os reformados (em sua maioria, cadáveres ativistas) Fernando Pessoa pensava como Krishnamurt, filósofo e místico que ele deve ter conhecido, uma vez que Pessoa era teósofo, tendo traduzido quase todas as obras de Anie Besant, que presidiu a Sociedade Teósofica Internacional. Está no Livro do Desassossego: "Se há uma coisa que odeio, é um reformador. Um reformador é um homem que vê os males superficiais do mundo e se propõe a curá-los, agravando os fundamentais. O médico tenta adaptar o doente ao corpo são. Mas nós não sabemos o que é corpo são e o que doente em nossa vida social.  E, mais adiante, Pessoa, em estado de Bernardo Soares, verbera: " O Governo assenta em duas coisas: refrear e enganar. O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam. Embebedam, quando muito, e isto é outra cousa".

Embora fosse Fernando Pessoa-Ele mesmo sabidamente um estudioso de ocultismo, o que está mais que revelado em sua poesia (vide apresentação de Nelly Novaes Coelho à edição de sua obra completa, pela Aguilar Editora). praticante de alta magia e fazedor de mapas astrológicos (para os outros e para si mesmo), utilizando o semi-heterônimo Bernardo Soares, o pluri-vate lusitano é taxativo em condenar o mau estilo dos mestres de sabedoria antiga que conhecia e amava.

Antes de transcrever o seu texto, comente-se: tão cioso era o poeta de seguir o que dizia o mapa astrológico que ele mesmo fazia para cada situação de sua vida, que chegou a desmarcar um encontro com a poetisa brasileira Cecília Meirelles, que ia conhecer, no hotel em que ela se achava hospedada. Ao descer, na hora combinada, Cecília, nossa excelsa e etérea poetisa, também versada em misticismo, encontrou um bilhete que lhe mandara Pessoa. Desculpava-se, não iria ao encontro, pois seu mapa astrológico lhe dizia não lhe dava bons prognósticos. Assim, por simples implicância dos astros, nossa diáfana e excelente poetisa viu-se privada de conhecer o bardo múltiplo incomum, capaz de ser muitos Nele mesmo.

Mas vamos ao protesto do poeta contra o mau estilo dos bruxos desencarnados: `O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível é que, quando escrevem para nos sugerir ou contar seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no Dogma e no Ritual da Alta Magia que impida alguém de escrever —  já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta-, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no abstruso as pode haver? Por que há de desgastar-se toda energia da alma no estudo da linguagem dos deuses, e não há de sobrar um reles com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?".

P.S. Como Pessoa era plural, muitos em um, podia dar-se à pachorra de entrar em debate até consigo mesmo. Direito assegurado a quem com plena consciência e direito, escreveu sobre si mesmo: "Existe em mim alguém melhor do que eu. 


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POR EM 28/02/2008 ÀS 02:44 PM

Medíocres e canalhas

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"Apenas por afrontamento insisto na maldade de escrever", confessou Ana Cristina César. Quanto a mim, apenas por lealdade ao sentido daquilo para que fui nascido, insisto na vanidade de escrever. Mesmo sabendo da impotência e inutilidade de tal fazer, o que faz dele um ato falho em si mesmo. Bertolt Brecht o disse de outro modo: "Eu sei que tem gente com sede e fome, mas mesmo assim eu como e bebo". Paul Valéry escreveu, em seu diário de bardo: Quem diz obra diz também sacrifício. A grande questão é decidir aquilo que vamos sacrificar. É preciso saber quem será comido".
           
Até porque, sendo o mundo um cruel e sangrento palco de eterna devoração (uns animais a matar e a comer uns aos outros, para se manterem vivos, assim vivendo em permanente estado de necessidade) a questão a se colocar, quanto ao"sacro ofício", a que têm de submeter-se o poeta e o artista, é: vale a pena sacrificar algo em si, em função da hipotética satisfação de criaturas de alma pequena? Qual ato de amor à verdade pode vingar, ou tornar-se visível, em uma sociedade de mortos vivos, que vive a consagrar e a ministrar a mentira e a hipocrisia em doses cavalares, para um sempre sedento e insaciável mercado?  
 Mesmo sabendo ser a sua entrega à solidão de seu ofício um sacrifício inútil, o verdadeiro artista não desiste, nem permite que o corrompam com promessas de falsos paraísos, a acenar com vanidades que apelam à satisfação dos sentidos. Insiste em manter-se íntegro e leal à dignidade inerente ao seu ofício, como o fez Clarice Lispector, que nunca se quis escritora profissional, para não ter que entregar a liberdade de ser quem era, naquilo que escrevia.  


Em solidão criadora de quem era em si mesma uma atmosfera, a revelar não uma pessoa prosaica, mas uma solidão inquieta, no grande e estranho mundo das palavras em estado de liberdade, em sosinhês de ser ela mesma, não fazia retoques de maquiagem para agradar ou "fazer bonito" à parvoíce de medalhões ululantes. E nestas obstinada recusa em ser repasto no banquete dos vampiros do Deus Mercado, fazia coro às palavras de Albert Camus: "Então, se a lucidez é mentira e hipocrisia, por que não seria a loucura verdade e pureza?"
 


É fácil perceber: um mundo que perdeu a sua alma possibilita, mais do que nunca, o triunfo das nulidades. Assim, medíocres & canalhas passaram a habitar (e a prejudicar abundantemente) o palco de vaidades da literatura e das artes, com plagiadores e diluidores de plantão a ganhar prêmios até mesmo daqueles a quem plagiam. Triste é saber que a literatura é usada como trampolim de alpinismo social, escada fácil e fútil para a ascensão de retumbantes mediocridades!
 


Basta publicar um opúsculo contendo versinhos de sentimentalismo barato para ganhar o pomposo nome de poeta ou poetisa! Com alegre leviandade, fazendo uso escancarado do tráfico de influências, logo estarão batendo à porta das academias de letras - que abundam nas capitais e províncias, proliferando como praga. Afinal, já dizia aquele bardo das virgens poucas, que já foram loucas: "A história da literatura é a história das amizades!" Sendo ele próprio o insuspeito exemplo do que afirma.  


Bafejados por fortuna, e/ou prestígio social ou político, que saibam escrever uma frase afirmativa simples, têm acesso garantido. Serem chamados de "acadêmicos" é glória de que se ufanam, vanidade que enche o peito de falsa importância. A praga da mediocridade ululante, a retumbar com estrondo, como um caminhão basculante, sem nenhum conteúdo, manifesta-se também como chusma de piolhos da subliteratura, a pedir prefácios, encômios & espaços; mal põem as manguinhas de fora, já querem ser tratados como gênios. Pior é que ainda se dão à pachorra ou ao direito de serem arrogantes.
 


Como hordas, solertes e rapaces, multiplicam-se como praga as legiões de mediocridades, anônimas ou triunfantes, a pulular nos salões, a despejar suas sandices subsidiadas por leis de incentivo que deveriam dar-se ao trabalho de selecionar, pelo critério da qualidade, as abobrinhas que patrocinam. O quadro se torna dantesco quando as mediocridades ululantes triunfam, tendo em vista as facilidades que o tempo oferece às falsetas, e ainda por cima se revelam solertes e rapazes canalhas, capazes de empulhar e enganar a muitos, durante muito tempo. A esta tipo infernal de mediocridade triunfante aplica-se o brocardo: "Há pessoas que não têm nenhuma importância, mas têm amigos nas redações". 
 


Como nunca ficou tão fácil publicar, publica-se em cascatas, produzindo-se o barulho de trombadas de basculantes. E sabe-se, pela experiência: quanto mais vazio um caminhão basculante, mais barulhento. Em face do acanalhamento tendendo a tornar-se geral e irrestrito, a invadir todas as áreas e segmentos da população, mormente entre os políticos, não é de se estranhar que o neocinismo oportunista e pernicioso ganhe, a cada dia, mais e mais adeptos, também no setor cultural e artístico. Tão descaradas e ousadas são as nulidades, que emplacam obrinhas risíveis, de tão patéticas, como leitura obrigatória em vestibulares - outras, como autoridades da cultura, fazem dos concursos literários ação entre amigos, com prêmios sendo amavelmente trocados entre si.  Daí que Clarice Lispector, Lúcio Cardoso (e outros, da sua dignidade e estirpe) tiveram sorte, em terem saído mais cedo deste mundo em que triunfa o absurdo. Se àqueles tempos, em que ainda haviam legítimos talentos, eram tristes, é de se imaginar o desespero em que viveriam hoje!


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