Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Chega ser desonesto articular a situação ambiental degradante atual à religião, como se doutrinas religiosas fossem reponsáveis pelo buraco na camada de ozônio, por exemplo ou quem sabe pelas tonelada ...

    9 horas atrás por Carlos Rio sobre Pode detonar que Deus recupera
  • Compartilho da mesma angústia. ...

    14 horas atrás por Elizabeth sobre Garrafa ao mar
  • Euler e Elder, obrigado pelos comentários. ...

    15 horas atrás por eberth vencio
  • Caro, lei sempre seus textos. Gosto sempre. Entretanto, quando exagera na conversão de estrangeirismos para a língua portuguesa, fica bobo. Uma sugestão: não deixe de fazê-lo, mas faça com cautela, d ...

    15 horas atrás por Elder sobre A pior coisa que já escrevi na vida

últimas no twitter

  • Respire: 'Summertime' (George Benson e Jill Scott): http://t.co/CFRBWEat
    5 horas atrás
  • Numa carta escrita um ano antes de sua morte, Marilyn Monroe já se despedia: http://t.co/aQGLv7T0
    5 horas atrás
  • Busque um lugar para se hospedar, diretamente com os proprietários, em 19 mil cidades de 192 países: http://t.co/E28pOJhQ
    6 horas atrás
  • Navegue pelo corpo humano em 3D (é mais detalhado do que o aplicativo do Google): http://t.co/vHI5k5gi
    6 horas atrás
  • @myriamkazue Normalmente, não?
    9 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

Brasigois Felício

POR EM 04/07/2008 ÀS 09:56 AM

Cidade das ilusões

publicado em

A Sociedade dos Refratários Vivos renasce sempre que impera a Idade Negra, em que já não há valores a serem preservados. Os Refratários tornam-se suspeitos e são considerados perigosos por serem diferentes. “Ser diferente é ser suspeito, sem risco à segurança, uma ameaça ao Status Quo...”.     

Uma vez tendo voltado o tempo (como sempre volta) em que a criatura humana corre grande perigo, por ser sábia, e aprender a discernir o real do falso, o fugaz do permanente, na alquimia interior de “saber separar a erudição da cabeça da sabedoria da alma”, triunfaram os eruditos e os seres hiper-informados, e o retorno deste tempo de cybernautas do nada representou o triunfo do homem cérebro, arauto do absurdo e pregoeiro do nada. 
        
Não tendo aprendido a ver os deuses em tudo, o tempo dos homens sem rosto obstinou-se em só ver significado nos ícones midiáticos do verão (insetos de um dia) aclamados como divindades humanas num dia, e relegados ao esquecimento, no outro. Pertencer à sociedade secreta dos refratários vivos passou a ser a única e desesperada forma de escapar ao ódio ao vivo, que move a mente dos puritanos, sempre a proferir solenes discursos pelo retorno à rígida moralidade dos antigos, enquanto deleitam-se (e acumulam fortunas) em azeitar as engrenagens da milionária indústria da pornografia. 

Insetos de um dia, aos moinhos de Deus os mortos vivos cobram que o Creador de tudo moa os dias em esplêndida pureza, na dimensão do tempo que conhecem. Insanos e cegos, não querem ver lampejos da eternidade em tudo o que existe, pois não sabem que tudo decorre do mundo das causas, e tudo o que acontece hoje é porque já aconteceu antes. O “Jardim das sensações” nos ilude com suas imagens e ícones, mas não nos acena com as grandes palavras dos eternos mestres de sabedoria, daí porque chegamos, como nos diz Philippe Sollers, escritor francês, e membro sem honorários da Sociedade dos Refratários Vivos, à irônica e trágica circunstância em que “os mortos – os que chamamos mortos – se dirigem a nós de maneira realmente nova. Nós os conhecemos mal, pensamos que são coisas do passado, Mas não, o passado está aqui. Talvez pela primeira vez possamos ouvir de muito perto o que foi dito através dos séculos. Você abre a Bíblia, os Upanixades, você abre o arquivo, mas não para recopiar e sim para que eles falem a você pessoalmente. À medida em que a memória é destruída, que o cálculo se intensifica, o lucro e a mercadoria reinam, e a soberania da técnica é total e totalizante”. 

Em entrevista concedida ao Suplemento Mais! da Folha de São Paulo, Phillipe Sollers menciona o crítico italiano Roberto Calasso, que em seu livro “A literatura e os deuses”, diz que não é mais preciso procurar os deuses no cosmo, porque eles estão na linguagem, se refugiaram ali. “para saber escrever, é preciso saber ler. Por isso há cada vez menos bons escritores, porque ninguém mais sabe ler. Mas, para saber ler, é preciso saber viver. Viver a verdadeira vida é vivê-la lendo e dizendo. Fazer verdadeiramente o amor é dize-lo também. (...)
 

Você tem, de um lado, a linguagem convencional, institucional, recalcada, ou a linguagem da violência e da pornografia. Uma e outra, porém, se dão as mãos hoje, como se vê muito bem nos Estados Unidos, um país extraordinariamente puritano e ao mesmo tempo capaz de uma grande mise-em-scène pornográfica. No século 19, o sexo era o diabo, a blasfêmia. Hoje, o sexo é uma mercadoria como qualquer outra. Evidentemente, o mercado reduz isso a um mínimo de significação, com uma certa brutalidade e violências, para realizar a circulação mercantil. E um mínimo de palavras também. Por isso os filmes pornográficos têm a prevalência da imagem e uma linguagem próxima da afasia ou da idiotia. Eu gostaria de fazer um filme pornográfico com a “Ética”, de Spinoza, mas ninguém me daria um euro ou um dólar por isso. Seria, contudo, algo muito belo”.
 

Em todos os tempos o mistério da morte foi objeto da angústia e devaneios de vivos e mortos vivos. A Sociedade dos Refratários vivos coloca em evidência, em suas meditações (silenciosas, como deve ser toda meditação, sob pena de transformar-se em agitação) o tema do mistério da vida. Qual dos dois mistérios seria primordial, e o mais crucial? O mistério da Vida, ou o enigma da morte? Quem nasceu e quem deve morrer primeiro? O mistério da vida e da morte talvez se restrinja ao fato de não serem misteriosos. Quem sabe se não pertencem a uma só e mesma realidade?  

Talvez por serem as coisas findas, muito mais que lindas, as que permanecem, como intuiu Carlos Drummond de Andrade, um milenar decano itabirano da Sociedade dos Refratários Vivos, alguns dentre os mortos vivos ainda suspirem por uma vida nova. Mas o novo entardece na ferrugem do outono, e o que floresceu no instante resplandece em rosa alquimia interior de insondável momento.
 

Isto sucede em meditações silenciosas, em que os refratários vivos, temendo ser descobertos, em sua vigilância de Ser, estudam com humildade a Doutrina do Coração. Enquanto isto, a leste do Éden, no deserto humano da intolerância, desde Rute e Sara, a ciranda da insanidade prossegue, e no milenar ódio ao vivo, que nos movem, não aceitamos a Eudade do Outro. Isto acontece não porque deuses com nomes diferentes não se comuniquem, pois o Um não escolhe nem exclui, e menos ainda negaria aos vivos o direito à leveza e à inocente alegria. Pois quando cada ser se refugia no cárcere de sua pobre ou bela metáfora, diz: “Sou o escolhido! Deus está só comigo!”.
 

Tornados estrangeiros na pátria de seu corpo, os homens sem rosto fazem de seu semelhante seu escravo servidor, tecendo, no tecido da sociedade, um retrato hediondo. E assim procedendo, fazem de si mesmos eternos Sísifos, condenados ao eterno recomeço de viver exilados de si mesmos. A hediondez (ou, se quiserem, a estranheza ou a anulação do Ser) tornou-se visível, como enfatiza o refratário Sollers. “quando a linguagem foi reduzida à comunicação, ao cálculo, para dizer o instantâneo que favoreça as trocas comerciais.
 

Por que alguém reivindicaria sua experiência do mundo? Não se tem tempo. Passamos pelas coisas muito apressadamente ou de maneira, de maneira turística, ou de modo cansado e barulhento... os diferentes totalitarismos do século 20 decretaram que a vida humana é supérflua.” Por quais motivos teria a comunidade de sábios, sido colocado como abaixo de   todas as suspeitas, e alvo preferencial tanto dos néscios da mass-média, como por parte dos eruditos das academias? Por que os refratários à anulação e à hediondez do ser tiveram que optar por usar máscaras, para poder sair às ruas, vivendo disfarçados, enquanto trabalham, passeiam, estudam e vivem seu cotidiano, igual em tudo ao de todas as demais pessoas?
 

Talvez isto tenha acontecido porque a raça dos Morcenigo, em seu selvagem e incessante ódio ao vivo, sempre perseguiu e matou os que vieram ao mundo com a missão de trazer à humanidade as eternas verdades, assim tornando possível que vivam uma vida nova. Basta olhar para trás, na pátina dos dias, e ver o que sucedeu aos que chegaram para dizer a seu tempo as grandes palavras: Galileu Galilei, Giordano, Bruno, Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Helena Blavastki, pagaram com a vida, ou sofreram perseguições mesquinhas e furiosas, por terem sido arautos de mensagens transformadoras, capazes de produzir no ser a
metanóia, a alquimia interior que nele revele os deuses em que pode se transformar. Talvez isto sempre tenha acontecido, ao longo dos milênios da trágica e bela história da raça humana, e temendo serem vítimas dos mesmos atrozes sofrimentos e perseguições que sofreram os mensageiros e defensores da Vida, os refratários tiveram que aprender a não se deixar identificar: “Eles são incrédulos, subversivos ou suspeitos, pois se deslocaram do barulho, não cederam a seu desejo pessoal, no desejo de ir mais longe no conhecimento de seu desejo”.                                              
 

 
Há uma cidade de sonhos, onde todos vivem em busca de ilusões. Ninguém se aceita como é. Há uma obsessão permanente da busca do corpo e rosto perfeitos: a perfeita beleza plastificada em que não pode ser visto nenhum defeito. E tal obsessão passou a ser o motivo de viver de homens e mulheres de todas as idades, não excluindo ai o universo das crianças e adolescentes. Com as pessoas não aceitando os rostos e corpos que têm, a indústria mais próspera do tempo e das cidades passou a ser a das academias de ginástica, de emagrecimento, as casas especializadas em vender produtos de beleza, as clínicas de cirurgia plástica... as casas para doentes nervosos. 

Sem contar que proliferou como praga, nos centros mais adiantados, a milionária indústria da pornografia e da prostituição, para atender à compulsão por sexo, que invadiu corações e mentes, fazendo com que homens e mulheres tivessem que ter um falo ou uma vagina na cabeça, como se tê-los significasse, por si, uma promessa de certa e maravilhosa satisfação. Os sex-shop, as ofertas de corpos pelos anúncios classificados, em todas as mídias, as casas de strip-tease e de sexo ao vivo, cubículos de onde se pratica o velho voyeurismo... 
        
Na cidade das ilusões os concertos musicais são anunciados como espetaculares, mas os regentes, vindos dos grandes centros de música erudita do mundo, não têm instrumentos e instrumentistas que possam seguir sua regência: o que regem os grandes maestros é tão somente uma monótona e interminável gravação. Ninguém poderia imaginar que a Sociedade dos Compulsivos Anônimos se transformaria na instituição pública mais poderosa e crescente dentre quantas entidades de perdidos, vazios e desesperados haviam na cidade das ilusões. 

As pessoas, escravas de seus impulsos e compulsões, organizavam-se em agrupamentos conforme a natureza da doença de alma e de espírito de seus integrantes. Haviam os compulsivos viciados em ginástica, álcool, drogas, sexo, compras, comida, e tudo o que representa gratificação corporal, estímulo sensorial, sem nada a ver coma inteligência, a espiritualidade, o discernimento e o altruísmo. Como sempre acontece quando se fortalece o império da Idade Negra, desaparece o culto aos valores do humanismo, passando a ser tidos como cidadãos suspeitos os que existem em valoriza-los. Em tempos assim perde-se a consciência de que uma dose diária de Platão torna dispensável a overdose cavalar de Prozac.

Os Compulsivos Anônimos não conseguem se sentir bem estando em sua própria companhia. E quando renunciam a uma compulsão é porque já se escravizaram a outra. O compulsivo do tipo prevenido não quer expor-se a riscos no sexo real, corpo a corpo. Prefere ser Voyeur de dança erótica, em estreita cabine, onde com moedinhas vai tendo sua cota de prazer psicológico. Haja moedas para satisfazer a sua ânsia de ver e o seu medo de viver o real. Estranho animal é o homem! Com tantas possibilidades de encontrar um parceiro de devaneio, e prefere o amor virtual, o sexo pago à vista, ou no cheque pré, da solidão profissional. Que misteriosa criatura é esta, que podendo ser feliz, tendo a si mesma e outro como parceiro de alumbramento, prefere deixar morrer no esquecimento a parte do ser que é imortal.  

Quando a Idade Negra a tudo cobre, com seu luto indescritível, a sociedade vê-se acometida pela deslembrança de curar o desequilíbrio da alma, a única alternativa capaz de libertar o Ser da insustentabilidade de sua falsa complexidade, que as torna escravas de suas compulsões. Ser mais Heráclito, sua profunda intuição, e menos Aristóteles poderia ser a solução, mas o mundo caduco e em processo de autodestruição preferiu ficar com o racionalismo reducionista e mecanicista da mecânica mental da ciência pura. 

Toda cidade tem uma identidade, como as pessoas têm um rosto. Uma cidade que perde a sua alma já não pode ser vista no espelho de sua história. Fica igual às outras, que também perderam suas fisionomias, e no processo de inchaço, a que chamam de crescimento, viraram mistura de aço, vidro e argamassa, sem sonho algum que reflita as esperanças de seus fundadores; sem esperança que alimente os caminhos do futuro.

A miséria dentro das cidades é criada pelo próprio poder, que transforma palácios em bunkers, como se estivéssemos em guerra; e estamos, mesmo, mas é uma guerra civil não declarada; é um conflito em que todos perdem, uns mais, outros menos, mas todos perdem. 

Uma cidade adoce quando perde o seu espírito; a partir daí não cresce, incha; não gera, degenera. Não expande, implode. E quando morrem todos os que deram vida a seu espírito, fica apenas o tumulto de um mundo insano e absurdo, a espalhar o medo e a violência, no úbere da urbe. 
                   

leia mais...
POR EM 28/06/2008 ÀS 10:03 AM

Poesia, pensão e alimentos

publicado em

Tenho uma recente amiga, que anseia por ser poetisa, ao mesmo tempo em que deseja não ser. Um dia destes, em um evento reunindo o poetariado, buscou ela obter algumas dicas e conselhos sobre um tratado que está pensando em assinar, com uma editora. Todos fizeram ouvidos moucos. Não é de se estranhar, uma vez que o pessoal do poetariado em geral só tem ouvidos para escutar suas próprias vozes. Eu a ouvi, dei os palpites pedidos, mas enquanto falava que a poesia iria lhe servir de alimento, ela se interessou vivamente. Mas pelo motivo errado: pensava a moça que iria ganhar dinheiro, isto é, alimentos, casa, comida, e roupa lavada, com o ofício de fazer versos.
           
Desfiz o equívoco, esclarecendo que estava a falar de alimento para sua alma, não pensava em grana, luxo e riqueza, que o fazer literatura , em um país como o Brasil, não dá camisa a ninguém. Em muitos casos, até tira, deixando o sujeito em cueiros. Tal foi seu desencanto que me arrependi da franqueza: "Então estou perdida, mesmo. Se poesia não dá dinheiro, e é o que meu ex-marido pensa disto de ser poeta, como é que vou me meter nisto? Ele me banca, mesmo estando separados há muitos anos, mas me proibiu de gastar meu tempo com o que ele chama de "bobagens de desocupados".
            
Notei que minha recente amiga, ao me ser apresentada, não ofereceu a mão inteira - só os dedos, e assim mesmo, não todos os gadelhos de sua destra. Ao refugar um gesto mais afoito, de um vate que lhe segurava as mãos, declarou, alto e bom som, que desde que se separou sequer segurou a mão de alguém do sexo oposto ao seu. Eu diria não oposto, mas diferente. O amor não existe em oposição a nada, e o sexo também não. Os dois só existem no Encontro. E até ensejam a conciliação dos opostos.
 
Fiquei a matutar: minha amiga está a sofrer de complexo de Bela Adormecida: aprisionada atrás de um vidro, em um encanto auto-imposto, recusa interagir com a vida e os perigos do mundo. Mas que vantagem existe em viver séculos, mas adormecida em sono profundo? Viver é perigoso, Guimarães Rosa já o dizia, mas se não saímos à luz do dia, para enfrentar os obstáculos criados para nosso aprendizado e ensino, como poderemos crescer, e vencer a jornada?

A recusa ao desconhecido, em nome de um conhecido falhado, não seria um ato fugaz, de fuga insensata? Quanto à palavra "bancar", que escutei de sua boca, esta ficou a ressoar em minha memória, como a acenar com seu sentido profundo. Bancar é agir como banco - financiar alguém ou coisa, mas cobrando pesados juros. "Os deuses cobram quando dão", disse um filósofo.  
 
Talvez a mulher pudesse sair do conflito se escutasse as palavras de Pierre Weil: "Só o Amor pertence ao ilimitado. Mas não há meta para o caminho do amor. O Amor é o caminho". Eu acrescento: Não há nada que possa alcançar o amor, a não ser o próprio amor. pelo amor. Não há nada que ele possa atingir, a não ser a si mesmo.  
 
O mesmo se aplica aos bancos, ou a quem banca alguém ou alguma coisa. Arroga para si o direito de manter engaiolado a quem mantêm em dependência. Fiquei a pensar que minha amiga está diante de uma encruzilhada - se não escolher o rumo que desejam tomar sua personalidade física (a máscara de cada um), ou a sua alma sedenta de liberdade, perecerá, afogada na indecisão.
 
Uma coisa é tombar na jornada da alma, e outra é fugir à "lucidez do compromisso", e outra é se declarar vencidos, sem ao menos tentar. Mais sabedoria e coragem leva consigo quem, como Fernando Pessoa, sabendo que existe nele alguém melhor do que ele mesmo, proclama ao universo: "Multipliquei-me, para me sentir/para me sentir, precisei sentir tudo/e há em cada canto de minha alma/um altar a um Deus diferente/". 
 
*
 
P.S. Talvez por isto Fernando Pessoa tenha partido desta vida muito cedo. Não é fácil viver intensamente tantos eus em um mesmo Si-Mesmo. Sabe-se que, quando morreu Fernando Pessoa, com 47 anos de idade, seus parentes disseram: "Lá se foi um inútil". Tão inútil às vanidades, em sua palavra essencial, que por toda parte ilumina os caminhos da humanidade. Sublimes inúteis são os da raça de Prometeu, que roubam aos deuses o fogo da criação. Inútil foi o poeta, inúteis os outros todos o são. Cabe a cada um encontrar, ao longo de sua jornada, "o dom de ser capaz de ser feliz".
                                      
 
O GRANDE INÚTIL
 
Quando, em seu
 
leito de morrer,
 
Fernando Pessoa
 
agonizava,
 
parentes próximos
 
ao vê-lo, nas últimas,
 
em uníssono,
 
proclamaram:
 
"O mundo não vai
 
perder grande coisa:
 
é um inútil".

leia mais...
POR EM 22/06/2008 ÀS 05:45 PM

Drummond, a estética do estranhamento

publicado em

"Eu não deveria te dizer,/mas esta lua, este conhaque/deixam gente comovido como o Diabo".
Carlos Drummond, o anjo gauche, vindo das montanhas de Minas, escreveu estes versos por saber que os anjos são impassíveis às nossas angústias, e só o Diabo pode se comover. Inútil nos fiar no poder que as palavras, em estado de poesia, possam ter. Pois segundo Luis Costa Lima, "A poesia não salva ninguém. Ao contrário, nos deixa tortos, em nossos cantos". Em meio à fumaça e ao furor do tempo das máquinas insones, Drummond fez a poesia da blague e do humor negro, assumidamente anti-convencional, sendo ele próprio a imagem do homem convencional em tudo. Praticou o anti-lirismo do estranhamento. Sem saber, ou de caso pensado, passou a ser uma pedra no sapato dos anjos perfeitos.  
           
O poeta itabirano assume mergulhar nas inquietudes do Eu, não para tentar entendê-lo, mas para exercê-lo. Não se refugia no reino das palavras para se afastar do conflito, mas para torná-lo criativo. Em Minas, de uma roda de mentes brilhantes, o que mais reluziu, como perfeito diamante, foi o anjo torto itabirano - o mais namorador, e o menos bem informado. Estranha ironia, a confirmar que nem sempre os mais eruditos são iluminados pelo dom da criação. Dentre os anjos conformados, o poeta é o anjo bêbado, que desafina no coro dos contentes: "Tudo é aparência/tudo é espuma./Muito poucas coisas são importantes na vida/".
           
Uma voz silenciosa, surgindo das áspedras montanhas de Minas, parecia dizer ao magro vate, em seu espanto perante a máquina do mundo: "O amor no escuro, ou no claro, é sempre triste, meu filho Carlos". Não desejando ser poeta de um mundo caduco, Drummond também não quis cantar o mundo futuro. Em sua angústia criativa, a ele só interessava a matéria do presente. O tempo foi a sua matéria. O tempo presente. A vida presente: "Chega um tempo em que a vida é uma ordem/a vida, apenas/sem mistificação/".
           
Depois, da descrença niilista, passa ao instante de participação na marcha do existir. É quando descobre que a flor pode furar o asfalto, "vencer a dor, o medo, o nojo e o ódio". Então, "no auge de um porre de esperança", segundo Leandro Konder, ingressa na militância comunista, e não se adapta à rigidez da burocracia partidária. Ao brigar pela posse de um livro de atas, o poeta rompe com o partido. Mais tarde, procurado por uma militante, que pedia-lhe para assinar um manifesto pela paz, encabeçado pelo Partidão, recusa-se a fazê-lo. Diante da insistência, e da insinuação de que ele seria pela guerra, ele perde a placidez: "Sou sim, minha filha! Sou contra a paz e pela guerra!".
           
"Foi preciso que um poeta mineiro, não dos maiores, mas entre os mais galhofeiros", visse na alegria triste de Carlitos a sua própria tristeza de nunca ter encontrado a criança que foi. E assim se viu seguindo de mãos pensas, neste mundo habitado de dor e desesperança. Que outro poeta, senão este, que procurava elidir o peso da gravidade de existir poderia invocar uma namorada que morreu de apendicite? A morte, em sua forma bem banal, vem ressaltar o destrambelho das paixões do desenfreio. O que difere da morte madrugadeira, do entregador de leite: "A noite geral prossegue/mas a manhã custa a chegar/". Mesmo numa aurora de espanto e sangue inocente, em que, muitas vezes, a viaja.
           
 Tendo sido a palavra seu exílio voluntário, foi sob o signo de seu mistério que vislumbrou o sentido possível do mundo. Se tudo nesta vida são meras miragens, amores que nos ferem "sete vezes por dia, em sete vidas de ouro", são só imagens do sonho humano o jogo da poesia. Deu-se, então, que no entardecer de sua existência, em pleno crepusculário dos oitent´anos, o poeta recolheu-se em si mesmo. E, tal como Raduan Nassar, fez um acordo com o mundo. Em troca de seu barulho, deu-lhe o seu silêncio.
 
                                    
O ANJO ESCREVEDOR
 
 
Não querendo aprender
a decifrar a alma dos negócios,
fez-se anjo torto,
e não entrava em clubes
que o aceitavam
como sócio.
 
Entre as montanhas de minas,
no brejo das almas,
o poeta-gauche
entrou no som do caminho
e foi fazer destino
como perfeito burocrata
e alquimista do Verbo.
 
Não sendo homem
de ócios capadócios,
viveu tentando ocultar
sua magra figura
do olhar do absurdo,
mesmo sabendo:
ninguém, jamais,
há conseguido.
 
Assim, foi um ser tão discreto
que não foi tentado
pelos anjos da ingenuidade,
nem por demônios per-versos.
 
Em um mundo governado
menos pelos vivos
e mais pelos mortos
e seus vampiros,
foi mais um anjo escrevedor
a desafinar
no coro dos contentes.
 
Bêbado de lucidez,
só andou de mãos pensas
na desordem espandongada
da máquina do mundo

 

leia mais...
POR EM 21/06/2008 ÀS 03:43 PM

Ai de ti, escritor brasileiro!

publicado em

Que peso e significado tem o ato de fazer literatura, em um mundo cada vez mais açoitado por marés de violência, estupidez e insensibilidade? Em um mercado onde tudo se vende, qual o valor daquilo que não tem preço? Em um mundo onde tudo se vende e se compra, só o trabalho do artífice do verbo não tem preço. Como nos lembra Bertolt Brecht: “Se vou ao mercado comprar uma calça, me dizem: já não tens uma?”.
 
Conhecendo a encruzilhada em que o artista tem de escolher entre vender o miolo da cabeça, para comprar o miolo do pão, assim escreveu Lygia Fagundes Teles: “Ai de ti, escritor brasileiro, que há muito conhece a ladeira do desespero!”.
 
Em um mundo em que só tem valor aquilo que tem preço, como precificar o trabalho da consciência que não se vende? Como são vistos pelo mercado os trabalhadores da literatura? Teremos valor simbólico e, portanto, mítico, enquanto nos apresentarmos como consciência e defesa dos valores mais altos da vida. Só assim seremos dignos de carregar a chama que nos deu a ousadia de Prometeu.
 
Sucumbiremos à normose deste tempo que nada perdoa, menos ainda o fracasso, se nos ocuparmos apenas em manter acesas as fogueiras das vaidades. Quando os seres da recepção se transformam nas criaturas da decepção, ou seres de segunda mão, o que resta às criaturas cujo ofício consiste em simbolizar e metaforizar a beleza e a profundidade da vida e do mundo? Que tempo é este, em que os bárbaros podem ser a solução? 
*
                               
De onde vem a música? De um não-lugar indizível – o Nada Absoluto, onde tudo nasce. De que ventre insondável nasce a palavra poética, que ilumina e desperta? De onde brotam os veios do verbo que incendeia a alma dos poetas? Quando menos se espera, no momento distraído em que a mente aberta viaja vastidões, a beleza desce. Em forma de verdade eterna, ilumina a mente do filósofo.
 
Como antevisão da fórmula secreta, faz que o cientista avance em descobertas visionárias. Como aconteceu a Albert Einstein, segundo o qual a fórmula da teoria da relatividade lhe veio pronta, de uma matriz cósmica. Talvez a inteligência alerta tenha clarões do esplendor, vindos da música das esferas “O lugar onde tudo é música infinita”.
 
Ainda que a gênese do poético (seja qual for a linguagem artística em que se manifeste) seja impregnada de mistério e maravilha, este legado inefável está sendo perdido na leviandade com que escritores e artistas de todo o mundo tornam-se vassalos do Deus mercado.
 
Como um Saturno pantagruélico, que vive a devorar seus filhos, como ditadura do sucesso, nos diz que importa é levar vantagem em tudo – vender os tubos, “bombar” nas paradas, ser mega-hit da grei dos inconscientes, arranjar uma boquinha nas listas semanais dos vendilhões mais vendidos. 
 
Talvez a palavra de conforto, nesta hora universal de embrutecimento da sensibilidade, em uma aldeia global onde só tem espaço o pornográfico, o insólito e o trivial, nos venha de Paulo Mendes Campos, ao falar do dilema em que se debatem os que se propõem o heroísmo de serem artistas neste tempo: “Se multiplicaram a minha dor, também multiplicaram a minha esperança”.
 
A saga do viver implica em estarmos atentos e ativos, e não em ostentar a arrogância auto-suficiente de nosso grande irmão apedeuta Lula da Silva, que se envaidece de não ler e não ter cultura. Requer firmeza no compromisso solidário de sermos úteis ao tempo e ao lugar em que vivemos.
 
Pois se com a trepidante modernidade os poetas perderam o halo mítico que antes ostentavam, não foram despojados da paixão de viver que os impulsiona. Ainda podemos fazer de nossa dor uma canção que faça despertar os homens e adormecer as crianças. Drumonnd vem iluminar estas palavras: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas!”. 

leia mais...
POR EM 12/06/2008 ÀS 12:11 PM

Itinerário da cegueira

publicado em

 

"Sabemos quem somos, mas não quem podemos ser". (William Shakespeare). De todas as formas de cegueira, uma existe, tão antiga quanto o Homem, escolhida por suas vítimas. É a cegueira dos que não querem ver. Para esta não há oftalmo que dê jeito. Atacado de catarata psicológica, o ser humano afunda na infelicidade crônica, aceita como "normal" pelos normóides.

É a cegueira espiritual, de que falou José Saramago. O que pode ser pior do que viver em permanente medo e tensão? Medo de perder o que se tem, expectativa de ter sempre mais. Tanto amesquinham o Ser certas criaturas insanas, que se tornam infra-humanas - sem lembrança de serem vivas, levam a morte constante, em suas vidas.

A sociedade da aparência e da trivialidade cria padrões de falsa felicidade. Faz que seja possível o acesso aos sonhos de consumo, sem deixar de produzir outras ambições vazias, de modo a fazer que as pessoas fiquem sempre ansiosas e insatisfeitas. Assim, não cessam de desejar ter bens, coisas e mercadorias que dão conforto e status.

Existem muitas formas de cegueira, sendo a mais freqüente a obstinação em não ver, não enxergar as coisas, a vida e a natureza como de fato são. Além de que, nada sendo como vemos, muito mais realidade existe, além do que podemos (ou queremos) perceber.

Muitas vezes a pior cegueira é a que nos acomete em forma de negrume de ignorância que não quer ser despertada. Nada é como vemos em nosso querer não ver. Em ver os cegos tateando, nos cegamos para nossa miopia de somente enxergar nuvens passageiras, meras sombras da verdade. Assim como morremos um pouco quando se vão nossos vivos queridos.

"Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, a simples ausência de luz; que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a experiência dos seres e das coisas, deixando-os intactos através do céu negro". (José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira). 
                                                          
*
Eis que assim nos fazemos escravos da busca ansiosa da parafernália do "progresso". Sem isto não somos merecedores de respeito e consideração social. Então vivemos o inferno em vida, do medo de perder o que acumulamos, e o desejo insaciável de acumular mais. Onde então está a felicidade, se o preço a pagar por sua obtenção é perder a paz, no querer ter muito mais?
           
A criatura humana vai á busca de ter uma infinidade de coisas que propiciam prestígio e conforto, mas ao tempo sustenta em sua mente (seu primeiro e mais próximo meio ambiente) um inferno atualizado de terríveis estados mentais.

No tempo em que ser feliz é conseguir comprar coisas de que não se precisa, poucos desfrutam do contentamento de ser o que são. Os que o sabem o sabem, e vivem na bem-aventurança da paz. Os que não sabem sofrem da cegueira espiritual de colocar a felicidade desejada sempre longe de onde estão.          
  
Hoje muitos são bem sucedidos em prolongar seu tempo de vida corporal, mas poucos se lembram de melhorar a qualidade do viver parando o círculo vicioso do sofrimento auto-criado. Ao contrário, tornam cronicamente viáveis as engrenagens que o produzem. Assim, aceleram a sustentabilidade da morte. De que adianta prolongar sofridamente uma felicidade de bases falsas? Para ser feliz nunca é tarde, mas o dom de sermos capazes antes de ingressar na mocidade.
           
Assim, quando mais tarde nos procure a morte, "angústia de quem vive" (evoé, poetinha Vinícius!), já chegou muito antes, na insana ciranda de quem não soube amar tudo o que vive, nem sabe ser amável em relação a si mesmo.

P.S. Enquanto espero que lavem meu carro, escuto um dos flanelinhas dizer: "Fulano está com os dias contados". Deu-me vontade de perguntar: Mas quem não está? Quem pode dizer que tem a seu dispor dias infindáveis? Contados são os dias de todo vivente. Nós é que não podemos ou não queremos saber.  

leia mais...
POR EM 07/06/2008 ÀS 11:26 AM

Doença e literatura

publicado em

Imortais clássicos da literatura tiveram como inspiração a doença (sentida ou imaginada) por seus autores. Alguns exemplos tornaram-se célebres, juntamente com as obras que inspiraram: Marcel Proust e sua obsessiva busca do tempo perdido talvez só tenham existido e sobrevivido à pátina do tempo pela reclusão a que o escritor foi obrigado, tendo em vista a fragilidade de sua saúde.

Antes, quando a tinha em perfeito estado, fora cronista social de jornal - uma pessoa dedicada a registrar os movimentos da frivolidade social. Como pode então se tornar um grande alquimista do verbo, dedicando-se a um projeto tão ambicioso quanto o foi a construção da verdadeira catedral literária que são os volumes da Busca do Tempo Perdido? Dostoiévsky criou um personagem epiléptico, para falar da epilepsia de que sofria.
           
Outras obras tiveram a doença como fonte de inspiração. A montanha mágica, de Thomas Mann, é a metáfora da degeneração moral da civilização (ou da condição humana) da qual não se pode escapar, uma vez tendo sido alcançado. No caso, foi o personagem que, inconscientemente, a buscou. A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstoi, não obstante ser uma novela curta, é um mais belos textos já produzidos por um ser humano, em relação ao tema.

Nela, com notável sensibilidade, o genial escritor russo focaliza o tema da morte, e a alegria que ela pode trazer aos que se despedem deste mundo, pela compreensão do sofrimento dos vivos, e pela piedade que devem merecer: "O monstruoso, o horrendo ato da morte - bem o via - era por todos rebaixado ao nível de um incidente fortuito, desagradável, quase inconveniente (mais ou menos como se trata alguém que entrasse numa sala, tresandando a catinga), e tudo era praticado em nome daquela decência que ele tanto defendera durante toda a vida". (...) A falsidade à sua volta e dentro dele envenenou mais do que nunca seus derradeiros dias".

Eis como Virginia Woolf, uma autora atormentada por seu precário estado de saúde (inclusive mental, já que tinha espasmos de esquizofrenia, e tendo morrido por suicídio) escreveu: "Quão comum é a doença, e quão tremenda é a transformação espiritual que ela produz; quão assombrosos, quando das luzes da saúde baixam, os países ignotos que são expostos". Oran, no romance A peste, de Albert Camus, é o reino onde a morte coletiva se instalava, na forma de uma terrível doença contagiosa, transmitida por ratos. Uma vez conhecida a tragédia em que mergulhou a cidade, nela ninguém entrava, e dela ninguém podia sair. Camus nos mostra a morte em sua forma absurda e asquerosa, que se tenta ainda mais indigna para quem dela tenta escapar, pois assim terá uma morte covarde.

Em seus livros A doença como metáfora (Cia. Das Letras) e Aids e suas Metáforas (Livro de Bolso) Susan Sontag lança luzes de compreensão deste tema sombrio, que poucos autores enfrentam com lucidez. O câncer seria provocado por uma constante repressão sexual-passional: raiva). No caso da Aids, para Sontag, "A vergonha está associada à atribuição de culpa. A doença passa a pertencer a uma comunidade de parias!.

O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto foi um atormentado por incessante dor de cabeça, a ponto de considerar a aspirina como "o mais prático dos sóis" Ele, que não só inventou uma poesia seca e mineral, como também criou uma atitude poética, tinha pavor da morte. Cego, no final de sua vida, desabafou: "Ficar cego foi um castigo que Deus me deu. Pois minha vida foi sempre ver". O tema é vasto, e merece aprofundamento. Fiquemos por aqui, com uma frase de Godeck, contemporâneo de Freud: "A doença é uma obra de arte - a única que o ser humano pode criar, em sua alienação". 

leia mais...
POR EM 20/05/2008 ÀS 09:54 PM

Outra maneira de amar

publicado em

“Qualquer maneira de amar/vale a pena/qualquer maneira de amor/valerá/”.
(MPB). Fala-se muito em amor, mas pouco se sabe o que de verdade é amar. Dá-se muito valor ao amor romântico, entre casais, mas sabemos que essa maneira de amar é quase sempre de uma solidão agressiva e hipócrita, uma vez que se fundamenta nos costumes do uso e da posse. Qualquer maneira de amar vale a pena se é amor de verdade o que entra em cena. 
        
O amor verdadeiro é sem motivo e sem escolha. Quem ama por ofício tem que ter um amor vastíssimo. E jamais se empobrece. Quanto mais dá de si, mais fica rico. Dá de sua bem-aventurança sem pensar
em reciprocidade. Assim como o sol não escolhe amigo ou inimigo para conceder sua luz e calor. Coisa mais incorreta e comum é dizer que alguém fez ou vai fazer amor. O amor não é para fazer, é para assumir e exercer. Assim falou Marcos Fayad, em artigo publicado em O Popular: “Nós não fazemos amor. O amor é que nos fez a todos”. Surfando na onda do amor geral, perpetro o intertexto: Sendo o Amor perfeito, a todos nos faz, e nos tem feito. Todo o problema consiste em que confundimos com amor os relacionamentos utilitaristas de consumo compulsivo de corpos e pessoas.
         
O amor centrado no ego/ismo é o que vemos campear entre as pessoas. Vivendo somente em função de si mesma, uma pessoa tende a pensar que é o centro do universo. A doença dos relacionamentos vem de que convivemos não com as pessoas, mas com as imagens que fazemos delas, e dos interesses que nos levam a buscar aproximação – o mesmo acontecendo com elas em relação a nós. Assim, imagens convivem com imagens, interesses dialogam com interesses; raramente entram em cena as pessoas em carne, osso, mente e alma. Relacionamentos utilitaristas levam as pessoas a usarem umas às outras, tendo em vista a satisfação de seus desejos. Por uma baixela de prata muitos dão a alma de bandeja. Outros vão parar nas baixadas do nada.
 
        
Sempre há um porquê no conviver – eis a falácia erigida em farsa patética e trágica de nosso amor carcerário. Para Jidhu Krishnamurt, o verdadeiro amor é sem motivo e sem escolha. Se um homem tem um motivo para amar uma mulher (ou vice-versa) em verdade não a ama. Ama o motivo que o faz pensar que a ama. Se o amor necessitar de uma razão para existir, só existirá nesta razão. Ser feliz é não precisar de razão para sê-lo. Gonzaguinha nos diz: “Viver é não ter a vergonha/de ser feliz/ cantar a beleza de ser/um eterno aprendiz/”.  
 
        
O amor como o conhecemos é maculado pelo ego, diz o advogado Marcos Rezende, no programa Diálogos sobre Krishnamurt, da União Planetária. O amor mais cantado em prosa e verso vem contaminado pelo egoísmo. Pois o buraco da satisfação não tem fundo. Quanto mais é preenchido, mais escancara sua bocarra. É como beber água salgada. Não sacia a sede, só aumenta sua necessidade. O amor que não é benigno vem das artes de Malazarte da raça dos Morcenigo. Disfarçando ser amável, vem a ser nosso maior inimigo. Sendo o amor invejoso, subjuga o ser querido e faz do “lar doce lar” um cárcere enfeitado. Sendo o amor leviano, torna-se fantasma e des-graça, com o passar dos anos. 
 

Trevoso e sinistro, é o som que emitem os seus sombrios abismos. Se o amador só busca a satisfação de seu interesse, ai de quem cair em suas redes. Pois demuda em ódio vivo o afeto infectado de apego. Andando de mãos dadas com a hostilidade e a injustiça, atiça as feras da ira, quando não vê saciada a sua fome por devorar vidas. Assim é e age o des/amor que não suporta não ser satisfeito na paixão cega de seu apego. O amor que conhecemos funciona como veneno. Quando você pensa que está amando uma pessoa, é o seu pensamento que está a pensar que a ama, e não você mesmo. 

Nos sofrimentos das paixões tresloucadas, ou no sereno amar não correspondido, o que importa é não perder a expectativa do que pode vir de bom ou de ruim, e guardar o que tenha sido bom de todo que passou por nossa vida. Aceitar que tenha acabado o que acabou, dá uma paz que não acaba. Saber dimensionar nossas perdas nos faz compreender que nem tudo o que foi perdido é perda. Aceitar que o amor que acabou tenha acabado é saber que, não sendo infinito, teria mesmo que acabar um dia. Isto nos livra de viver o resto de nossas vidas paralisados na morte.
 
                  
                            Ninguém me ama em Mianmar
 
                            Ninguém ama Mianmar
                            daí que ninguém lembrou de alertar
                            que um ciclone mortal e mortífero ia passar
 
                            Talvez eu fosse viver por lá
                            se alguém me amasse em Mianmar
                            Se alguém por amar o amor
 
                            viesse a mim, e se amor me dessem
                            em Mianmar, eu aprenderia a amar
                            e assim poderia saber
                            o que é libertar.     
 
 
P.S. Deve existir um lugar onde a justiça enxerga. 

leia mais...
POR EM 18/05/2008 ÀS 03:24 PM

Assim acaba o mundo

publicado em

 

"O homem é um ser perturbado que perturba a natureza, tentando moldar as formas de vida à sua própria forma". (Miguel Angel Batet, teósofo e bispo da Igreja Católica Liberal). O que é o sentido da vida? O que estamos fazendo com nossa vida e nossos corpos, neste planeta que transformamos em uma casa em chamas? Quando as catástrofes climáticas tornarem infernal a vida em vastas regiões da terra, de nada adiantará bater às portas das Nações Unidas, e entrar com uma reclamação formal.
           
Lord Tenyson teria dito: “Calemos o grito do progresso”. Já naqueles tempos inocentes, ele previa o custo sombrio de tal berro retumbante. Se, na sua época seu anseio era urgente, hoje é de urgência urgentíssima, uma vez que nossa casa planetária arde, em chamas. É mais que sabida nossa capacidade de produzir desastres em escala planetária. O celerado animal humano, possuído pelo ego lógico cartesiano, tornou-se capaz de destruir sistemas ambientais inteiros, para aumentar seus lucros, mesmo ao custo de guerras insanas, para vender suas armas.

Pode ser chamado inteligente o animal que incendeia a sua casa (a única em que pode morar?). Quem sabe, depois de destruí-la completamente, vá pensar em morar em Marte, Vênus ou Saturno – o planeta que devora seus filhos, ao contrário da Mãe Gaia, que os alimenta.  "O conflito do indivíduo é o conflito do mundo". Assim falou J. Krishnamurt, um dos profetas da Nova Era. Para ele, somos a vida do mundo, e o que separa uma existência de outra são formas, apenas. A Vida, assim como o mundo, é uma só. Espaço é onde se encontram as formas de vida - e onde elas podem se desenvolver.
           
A destruição dos recursos naturais da terra parte do ego econômico. Assim, só o ego ecológico poderá deter a marcha da destruição, ao construir um mundo em que o lucro não será colocado acima de todas as coisas – incluindo o preço da destruição e predação dos sistemas de vida. Lester Brow reflete sobre isto em seu livro “Ecoeconomia”: Talvez não exista um desafio tão essencial à sobrevivência da vida como esse, a que os economistas são chamados. O psicólogo Marco Aurélio Bilibio enfatiza, em palestra no canal televisivo União Planetária: “O ego lógico é o responsável pela insana marcha da destruição que ameaça a sobrevivência dos sistemas de vida do planeta terra.

Para Lester Brow, as teorias econômicas não se preocupam em deter a extinção veloz de inúmeras espécies animais de nossa casa planetária. Uma economia assim tão predatória caminha para sua própria destruição, junto aos sistemas de vida que agride. Se houve, antes, uma evolução com grande custo de vidas (o paradigma do progresso a qualquer preço) é preciso que se faça um esforço coletivo inverso, no sentido da compreensão e aplicação de um novo paradigma: o da economia que inclui a preocupação com a defesa da vida onde e como ela se manifeste.
 
É preciso ampliar a sensibilidade, de forma a sentir a Vida como sendo única, e o mundo como um só: o mundo que somos, e aquele em que podemos nos tornar. Então, não nos sentiremos como eus separados, mas como quem se acha dentro de um cálice, que transborda. O mundo, então, não mais existirá como limite de um eu. Veremos a vida como perpétuo movimento, desde o invisível átomo, aos grandes corpos celestes. Tudo isto é a vida. Nada mais do que isto. Tudo o mais é mera ilusão. "No universo, o movimento é o dado essencial - a base de toda transformação". (Paul Klee)
 
A paz do mundo depende da paz que exista em cada indivíduo. O conflito em que se debate o mundo é reflexo do conflito das pessoas, que vivem em guerra dentro de si mesmas. Os conflitos étnicos e religiosos, que resultam em guerras fratricidas, são o resultado de sua fragmentação emocional, e da infelicidade que vive a construir em si, de forma a torná-la contagiosa.
 
O que toma de assalto como violência e desolação a solidão do mundo e o coloca em permanente luto, é resultado de suas crenças doentias. Não é só a pecúnia o seu pecado - é o ato falhado com que a humana criatura passa ao largo de sua existência. Como poderia viver em um mundo de paz quem alimenta guerras fratricidas dentro de si mesmo?
 
Assim acaba o mundo, assim acaba o mundo - não como um gemido em um cortejo de absurdos, mas com a revelação da falácia das ilusões. E o que assim acaba é como bolha de sabão a se perder no infinito nada de onde tudo nasce.

leia mais...
POR EM 12/05/2008 ÀS 09:12 PM

A invenção da memória

publicado em

   

A memória do tempo relaciona-se com o que estão dentro do que pode ser conhecido ou lembrado pela mente. Não pode abarcar o tempo intemporal, que transcende tempo e espaço - lugares ilusórios, em que pode transitar a memória. Ainda que a memória seja redutível ao tempo, o tempo não pode ser circunscrito à memória. Pois há um tempo total, que transcende todas as idades: o tempo da eternidade.

Não sabemos esquecer os bons e maus momentos que vivemos. Insistimos em carregar esta bagagem pesada e inútil, como fluxos de memória que nos ferem como facas, produzindo angústia e sofrimento. Tudo por não saber a paisagem da vida é sempre jovem, em micro-átomos de segundos se renova. Tudo muda todo o tempo, só não muda a mudança infinita. Mas insistimos em respirar o mofo do conhecido. É que sofremos do vício de viver a fuçar e refocilar no baú da memória. Não há o que não mude eternamente na paisagem da vida. Não há vida que não morra, nem há morte que não esteja sempre viva. Não há paisagem que não mude, nem passageiros ou viagens: só permanece a infinita viagem da Vida.   
         
Destinos se cruzam nos aeroportos, sem que se conheçam uns aos outros, ou a si mesmos. Fernando Pessoa nos diz: "Para viajar, basta existir. Vou de dia para dia, de estação para estação, no comboio de meu corpo, ou de meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos sempre iguais e sempre diferentes como, afinal, as paisagens são. A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos".
 
A memória é o inferno vivido agora. E a ele nos condenamos. Com a memória criamos tempo na mente. Então passamos a navegar em suas turbulências vazias. A mente comum não pode conter a supermente, a que vive além da memória ou da inteligência racional de que o ser humano é dotado. A mente total, unificada com o silêncio criador do Absoluto, transcende os limites do Ser que pode ser. É uma vastidão não nascida, que não pode morrer.
 
Não existe fantasma que venha do passado. O fantasma é o passado. O tempo, assim  como a vida, é uma nave em eterna viagem: "Não apita na curva/não para no porto/não espera ninguém/". Paul Auster, em seu romance A invenção da solidão, cita Santo Agostinho: "A mente é estreita demais para conter a si mesma inteiramente. Mas onde está essa mente que não está contida nela mesma? Estará em algum ponto fora dela, e não em seu interior? De que modo, portanto, ela pode ser uma mente, se não está contida nela?".      
  
Em certo instante, diz S. um dos personagens de A invenção da solidão - um compositor banido do cenário musical da França, acusado de colaborar com os nazistas, por permitir a execução de uma peça de sua autoria, durante a ocupação: "Tudo é milagroso. Nunca houve uma época mais maravilhosa do que esta". Isto, apesar de sobreviver em um quartinho miserável, passando fome e frio, escondido atrás da máscara da excentricidade, que lhe permitia ser outro em si mesmo. S. ocupava-se, obsessivamente, em escrever uma sinfonia cuja execução duraria doze dias e noites seguidas.

Em seu fracasso sem esperança ele descansava no milagre de estar vivo. Não se importava com o fato de, sendo um artista, viver como um artista mendigo; Na insustentável leveza de Ser, equilibrava-se na corda bamba, entre a certeza do fracasso e o milagre inerente ao próprio simples fato de existir.  Talvez por saber que - maravilhosa ou miserável - a única época que pode ser impregnada pelo milagre da Vida é o eterno agora.

leia mais...
POR EM 23/04/2008 ÀS 08:35 AM

O grito de Nietsche

publicado em

Carreira vai, carreira vem... Quantos se dão bem nas carreiras, embora sejam uns quartas-feiras... Outros vivem às carreiras, a driblar a lei e a polícia, por terem feito bandalheiras. De repente, não mais que de repente, tendo se formado em Direito, por absoluta falta de opção a que, por mérito se habilitasse (já que não tem padrinhos importantes) Simplício entrou, por concurso, para a Policia Civil. Mesmo sabendo que neste ofício de viver a arapongar malfeitos alheios, viveria jodido pero contente, a refocilar no excremento da miséria humana.
 
Quanto ao curso, que o chateou na sua parte prática - a do carrascal das leis e prolegômenos propiciadores da Justiça sem Direito, ou de Direito sem Justiça, propiciou, no início ( dito básico) poder de-morar na filosofia, a parte não árida e até mesmo inspiradora a dar boas vindas (e falsas boas notícias) aos futuros operadores da ciência de querelar em torno de perlengas, destemperos e desinteligências do animal humano, sempre em guerra com os outros, assim como de si mesmo é o maior inimigo: o mais perigoso animal a ser temido.
     
Pacifista e incapaz de machucar uma mosca, cedo deu adeus às ilusões de que é possível ser filósofo e poeta exercendo o difícil ofício de pedir deferimento a juiz togado peticionando para dirimir e solucionar demandas em torno do ego/ismo humano, sempre às voltas com lides ligadas a posse , uso e usufruto de pessoas, corpos humanos, alentados ou miseráveis patrimônios.
     
De todos os colegas de turma fora, sem dúvida, o mais "avoado", ou "lunático", no sentido de estar sempre a ler e comentar obras da filosofia clássica ocidental - partindo de Pitágoras, Demócrito, Heráclito, passando por Platão, Sócrates (com suas idéias sobre a construção da sociedade perfeita a partir do cidadão perfeito), e chegando até os aforismos de Nietsche, os que mais falaram alto à sua sensibilidade. Não saia de sua boca a sabedoria pré-socrática de Demócrito: Por convenção é o quente, por convenção é o frio. Mas, na realidade, só existem os átomos e o vazio... na verdade, nada compreendemos, pois a realidade jaz no que é profundo". Riam dele e de Demócrito os levianos e os superficiais da Faculdade, que eram quase todos.
        
Todos, ao vê-lo comentar as frases cortantes de "Ecce Homo", ou de "Assim falava Zaratustra", ou da filosofia socrática, comentavam, á boca pequena: "Só sei que este caboclo, se ainda não pirou, cedo ou tarde vai surtar, e feio". Ele mesmo chegou a escutar rumores neste sentido, mas não ligava, atribuindo o fato ao preconceito que os ignaros dedicam a quem, mais minimamente, dedique-se a cultivar um pensamento menos ligado ás rasuras do individualismo estreito, tão somente afeito a assuntos prosaicos, de satisfação dos desejos de consumo, à orla do que de verdade importa na existência humana: o contato com a essência, o Eu Verdadeiro, que não se realiza no que é vazio ou efêmero.
        
Uma tal criatura não teria o menor futuro como operador do direito - eis o que diziam os seus colegas pragmáticos - pensamento compartilhado também pelos professores, muitos dos quais haviam atingido os mais altos postos nas várias carreiras jurídicas, sendo juizes, ou até desembargadores, todos de "caráter impoluto e sem jaça", como dizem uns dos outros (sem ter a menor fé na verdade do que falam): vivendo, não obstante a pompa e a circunstância da pose flatulenta de eminências, vidinhas sofridas e estressadas, pois que obrigados a trabalhar como mouros, para dar conta da mordomia em que viviam parentes e aderentes agregados ao seus muitos salários.
          
Futuro ele não teve mesmo, uma vez que, desacorçoado de tanto levar pau em concursos para delegado, promotor, juiz de Direito, e o escambau, acabou por não se dar mal em um concurso para agente de polícia. Coisa muito menor do que suas ambições haviam aspirado, mas fazer o que? As contas chegando, encavaladas, a família cobrando com ferocidade, a acusá-lo de ser um eterno desempregado crônico, concurseiro contumaz (e mal sucedido em todos, andava com a auto-estima mais por baixo do que girabrequim de sapo).
        
Quem não tem cão, caça com gato, Já que o destino lhe foi infausto, e não lhe permitiu dar o grito de Nietsche nas altas esferas da magistratura, seria apenas mais um barnabé juramentado, a gemer e lamuriar-se, ganhando mal pra cachorro, e comendo o pão que o diabo enjeitou, no vil ofício de investigar sem punir pequenos ou horríveis crimes perpetrados por cidadãos acima e abaixo de qualquer suspeita. Ser araponga do governo pareceu-lhe um destino bem inferior àquele que almejara, em seus esforços por aprender, de modo maximizado, os altos e relevantes preceitos filosóficos da ciência do Direito.
        
Que animal mais insensato e voraz é o Homem: sempre a pensar que ser feliz é conseguir coisas. Sempre a desejar chegar em outro lugar. Nunca contente em ser o que é, e em estar onde está. Sempre a fazer uma coisa para alcançar outra. Que, quando é atingida, revela não ser a coisa ambicionada. Sempre a querer encontrar o futuro naquela parte do passado (ou da ilusão da memória) em que pensa ter sido feliz. Sem ao menos poder deter o tempo do relógio, ainda quer rebobinar o filme do infinito - que só pode ser visto no presente ativo, de quando estamos verdadeiramente vivos!
        
Quantos não vivem a sonhar delícias, e têm visões do paraíso em que viverão, quando se formarem, quando passarem naquele concurso, ou quando ficarem podres de ricos? No mais das vezes, as pessoas colocam pedras, verdadeiras pedreiras, entre o momento de viver (o eterno presente) e a vida que idealizam em sonhos! Quando estão prestes a atingir aquilo a que aspiram, tomam outro desvio. E o fazem por terem medo de serem felizes, ou porque lhes falta a paixão de viver o sonho que vivem a idealizar. Tudo isto Simplício pensava, enquanto devorava como traça o pensamento profético de Zaratustra, que lhe ardia nas veias como um fogo vivo. 
 
O comportamento de Simplício no trabalho, ou no convívio com os colegas, era visto como estranho, próprio de pessoa que se sente inadequada, ou deslocada do ambiente e do círculo em que vive. Isto não obstante o esforço que fazia no sentido de fazer tudo igual ao que os colegas faziam, sendo uma peça anônima e invisível de uma engrenagem gigantesca, da qual não tinha compreensão nem domínio - e que, por sua vez, não estava nem aí para ele, e suas idéias contaminadas por abstratas lucubrações filosóficas, resquícios de embolorados humanismos de fundo ao mesmo tempo marxista e existencialista. 
 
Seus discursos sobre a prática social do humanismo integral, em todos os âmbitos da sociedade caíram por terra (ou mostraram ser apenas discursos de lunático) quando certo dia, em uma operação de rotina, ele discutiu com um cidadão, mero passante, passando a agredi-lo ferozmente, a poder de cassetete e cabo de revólver - um em cada mão, a desferir golpes violentos contra a vítima indefesa e inocente de qualquer culpa. Detido, foi difícil segurá-lo, já que espumava pela boca, em espasmos de loucura, talvez como Nietsche, seu ídolo, deu adeus à lucidez, entrando em loucura total, ao ver um homem espancar violentamente o cavalo atrelado a uma carroça.
        
"O guarda civil não quer/a roupa no quarador/". Sempre há um dia em que o guarda dá o grito de Nietsche. Em um dia ensolarado, bem na "hora espandongada do almoço", Simplício deu o seu grito primal, quem sabe se em situação-limite! Berro insano, seguido de um acesso de violência tamanha, de inesperada selvageria, que até hoje ressoa, entre seus colegas de trabalho, ou talvez dentro dele mesmo, que desde então de uma vez por todas endoidou - afastado do "poder de polícia", expropriado de sua arma e distintivo, hoje vive meio que no vazio de não saber para que veio ao mundo - teria vindo para tornar-se um burocrata do aparelho estatal, como veio a se tornar, ou, sendo corda no abismo, não conseguiu ultrapassar o abismo que separa o homem do Super-Homem? Ninguém poderia afirmar com autoridade... nem mesmo os psiquiatras que o tratam, precisando talvez eles próprios de um "sossega leão" ou de uma reforçada camisa de força...

 

leia mais...
‹ Primeiro  < 4 5 6 7 8 9 > 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio