POR BRASIGOIS FELÍCIO
EM 04/07/2008 ÀS 09:56 AM
Cidade das ilusões
publicado em arquivo
A Sociedade dos Refratários Vivos renasce sempre que impera a Idade Negra, em que já não há valores a serem preservados. Os Refratários tornam-se suspeitos e são considerados perigosos por serem diferentes. “Ser diferente é ser suspeito, sem risco à segurança, uma ameaça ao Status Quo...”.
Uma vez tendo voltado o tempo (como sempre volta) em que a criatura humana corre grande perigo, por ser sábia, e aprender a discernir o real do falso, o fugaz do permanente, na alquimia interior de “saber separar a erudição da cabeça da sabedoria da alma”, triunfaram os eruditos e os seres hiper-informados, e o retorno deste tempo de cybernautas do nada representou o triunfo do homem cérebro, arauto do absurdo e pregoeiro do nada.
Não tendo aprendido a ver os deuses em tudo, o tempo dos homens sem rosto obstinou-se em só ver significado nos ícones midiáticos do verão (insetos de um dia) aclamados como divindades humanas num dia, e relegados ao esquecimento, no outro. Pertencer à sociedade secreta dos refratários vivos passou a ser a única e desesperada forma de escapar ao ódio ao vivo, que move a mente dos puritanos, sempre a proferir solenes discursos pelo retorno à rígida moralidade dos antigos, enquanto deleitam-se (e acumulam fortunas) em azeitar as engrenagens da milionária indústria da pornografia.
Insetos de um dia, aos moinhos de Deus os mortos vivos cobram que o Creador de tudo moa os dias em esplêndida pureza, na dimensão do tempo que conhecem. Insanos e cegos, não querem ver lampejos da eternidade em tudo o que existe, pois não sabem que tudo decorre do mundo das causas, e tudo o que acontece hoje é porque já aconteceu antes. O “Jardim das sensações” nos ilude com suas imagens e ícones, mas não nos acena com as grandes palavras dos eternos mestres de sabedoria, daí porque chegamos, como nos diz Philippe Sollers, escritor francês, e membro sem honorários da Sociedade dos Refratários Vivos, à irônica e trágica circunstância em que “os mortos – os que chamamos mortos – se dirigem a nós de maneira realmente nova. Nós os conhecemos mal, pensamos que são coisas do passado, Mas não, o passado está aqui. Talvez pela primeira vez possamos ouvir de muito perto o que foi dito através dos séculos. Você abre a Bíblia, os Upanixades, você abre o arquivo, mas não para recopiar e sim para que eles falem a você pessoalmente. À medida em que a memória é destruída, que o cálculo se intensifica, o lucro e a mercadoria reinam, e a soberania da técnica é total e totalizante”.
Em entrevista concedida ao Suplemento Mais! da Folha de São Paulo, Phillipe Sollers menciona o crítico italiano Roberto Calasso, que em seu livro “A literatura e os deuses”, diz que não é mais preciso procurar os deuses no cosmo, porque eles estão na linguagem, se refugiaram ali. “para saber escrever, é preciso saber ler. Por isso há cada vez menos bons escritores, porque ninguém mais sabe ler. Mas, para saber ler, é preciso saber viver. Viver a verdadeira vida é vivê-la lendo e dizendo. Fazer verdadeiramente o amor é dize-lo também. (...)
Você tem, de um lado, a linguagem convencional, institucional, recalcada, ou a linguagem da violência e da pornografia. Uma e outra, porém, se dão as mãos hoje, como se vê muito bem nos Estados Unidos, um país extraordinariamente puritano e ao mesmo tempo capaz de uma grande mise-em-scène pornográfica. No século 19, o sexo era o diabo, a blasfêmia. Hoje, o sexo é uma mercadoria como qualquer outra. Evidentemente, o mercado reduz isso a um mínimo de significação, com uma certa brutalidade e violências, para realizar a circulação mercantil. E um mínimo de palavras também. Por isso os filmes pornográficos têm a prevalência da imagem e uma linguagem próxima da afasia ou da idiotia. Eu gostaria de fazer um filme pornográfico com a “Ética”, de Spinoza, mas ninguém me daria um euro ou um dólar por isso. Seria, contudo, algo muito belo”.
Em todos os tempos o mistério da morte foi objeto da angústia e devaneios de vivos e mortos vivos. A Sociedade dos Refratários vivos coloca em evidência, em suas meditações (silenciosas, como deve ser toda meditação, sob pena de transformar-se em agitação) o tema do mistério da vida. Qual dos dois mistérios seria primordial, e o mais crucial? O mistério da Vida, ou o enigma da morte? Quem nasceu e quem deve morrer primeiro? O mistério da vida e da morte talvez se restrinja ao fato de não serem misteriosos. Quem sabe se não pertencem a uma só e mesma realidade?
Talvez por serem as coisas findas, muito mais que lindas, as que permanecem, como intuiu Carlos Drummond de Andrade, um milenar decano itabirano da Sociedade dos Refratários Vivos, alguns dentre os mortos vivos ainda suspirem por uma vida nova. Mas o novo entardece na ferrugem do outono, e o que floresceu no instante resplandece em rosa alquimia interior de insondável momento.
Isto sucede em meditações silenciosas, em que os refratários vivos, temendo ser descobertos, em sua vigilância de Ser, estudam com humildade a Doutrina do Coração. Enquanto isto, a leste do Éden, no deserto humano da intolerância, desde Rute e Sara, a ciranda da insanidade prossegue, e no milenar ódio ao vivo, que nos movem, não aceitamos a Eudade do Outro. Isto acontece não porque deuses com nomes diferentes não se comuniquem, pois o Um não escolhe nem exclui, e menos ainda negaria aos vivos o direito à leveza e à inocente alegria. Pois quando cada ser se refugia no cárcere de sua pobre ou bela metáfora, diz: “Sou o escolhido! Deus está só comigo!”.
Tornados estrangeiros na pátria de seu corpo, os homens sem rosto fazem de seu semelhante seu escravo servidor, tecendo, no tecido da sociedade, um retrato hediondo. E assim procedendo, fazem de si mesmos eternos Sísifos, condenados ao eterno recomeço de viver exilados de si mesmos. A hediondez (ou, se quiserem, a estranheza ou a anulação do Ser) tornou-se visível, como enfatiza o refratário Sollers. “quando a linguagem foi reduzida à comunicação, ao cálculo, para dizer o instantâneo que favoreça as trocas comerciais.
Por que alguém reivindicaria sua experiência do mundo? Não se tem tempo. Passamos pelas coisas muito apressadamente ou de maneira, de maneira turística, ou de modo cansado e barulhento... os diferentes totalitarismos do século 20 decretaram que a vida humana é supérflua.” Por quais motivos teria a comunidade de sábios, sido colocado como abaixo de todas as suspeitas, e alvo preferencial tanto dos néscios da mass-média, como por parte dos eruditos das academias? Por que os refratários à anulação e à hediondez do ser tiveram que optar por usar máscaras, para poder sair às ruas, vivendo disfarçados, enquanto trabalham, passeiam, estudam e vivem seu cotidiano, igual em tudo ao de todas as demais pessoas?
Talvez isto tenha acontecido porque a raça dos Morcenigo, em seu selvagem e incessante ódio ao vivo, sempre perseguiu e matou os que vieram ao mundo com a missão de trazer à humanidade as eternas verdades, assim tornando possível que vivam uma vida nova. Basta olhar para trás, na pátina dos dias, e ver o que sucedeu aos que chegaram para dizer a seu tempo as grandes palavras: Galileu Galilei, Giordano, Bruno, Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Helena Blavastki, pagaram com a vida, ou sofreram perseguições mesquinhas e furiosas, por terem sido arautos de mensagens transformadoras, capazes de produzir no ser a metanóia, a alquimia interior que nele revele os deuses em que pode se transformar. Talvez isto sempre tenha acontecido, ao longo dos milênios da trágica e bela história da raça humana, e temendo serem vítimas dos mesmos atrozes sofrimentos e perseguições que sofreram os mensageiros e defensores da Vida, os refratários tiveram que aprender a não se deixar identificar: “Eles são incrédulos, subversivos ou suspeitos, pois se deslocaram do barulho, não cederam a seu desejo pessoal, no desejo de ir mais longe no conhecimento de seu desejo”.
Há uma cidade de sonhos, onde todos vivem em busca de ilusões. Ninguém se aceita como é. Há uma obsessão permanente da busca do corpo e rosto perfeitos: a perfeita beleza plastificada em que não pode ser visto nenhum defeito. E tal obsessão passou a ser o motivo de viver de homens e mulheres de todas as idades, não excluindo ai o universo das crianças e adolescentes. Com as pessoas não aceitando os rostos e corpos que têm, a indústria mais próspera do tempo e das cidades passou a ser a das academias de ginástica, de emagrecimento, as casas especializadas em vender produtos de beleza, as clínicas de cirurgia plástica... as casas para doentes nervosos.
Sem contar que proliferou como praga, nos centros mais adiantados, a milionária indústria da pornografia e da prostituição, para atender à compulsão por sexo, que invadiu corações e mentes, fazendo com que homens e mulheres tivessem que ter um falo ou uma vagina na cabeça, como se tê-los significasse, por si, uma promessa de certa e maravilhosa satisfação. Os sex-shop, as ofertas de corpos pelos anúncios classificados, em todas as mídias, as casas de strip-tease e de sexo ao vivo, cubículos de onde se pratica o velho voyeurismo...
Na cidade das ilusões os concertos musicais são anunciados como espetaculares, mas os regentes, vindos dos grandes centros de música erudita do mundo, não têm instrumentos e instrumentistas que possam seguir sua regência: o que regem os grandes maestros é tão somente uma monótona e interminável gravação. Ninguém poderia imaginar que a Sociedade dos Compulsivos Anônimos se transformaria na instituição pública mais poderosa e crescente dentre quantas entidades de perdidos, vazios e desesperados haviam na cidade das ilusões.
As pessoas, escravas de seus impulsos e compulsões, organizavam-se em agrupamentos conforme a natureza da doença de alma e de espírito de seus integrantes. Haviam os compulsivos viciados em ginástica, álcool, drogas, sexo, compras, comida, e tudo o que representa gratificação corporal, estímulo sensorial, sem nada a ver coma inteligência, a espiritualidade, o discernimento e o altruísmo. Como sempre acontece quando se fortalece o império da Idade Negra, desaparece o culto aos valores do humanismo, passando a ser tidos como cidadãos suspeitos os que existem em valoriza-los. Em tempos assim perde-se a consciência de que uma dose diária de Platão torna dispensável a overdose cavalar de Prozac.
Os Compulsivos Anônimos não conseguem se sentir bem estando em sua própria companhia. E quando renunciam a uma compulsão é porque já se escravizaram a outra. O compulsivo do tipo prevenido não quer expor-se a riscos no sexo real, corpo a corpo. Prefere ser Voyeur de dança erótica, em estreita cabine, onde com moedinhas vai tendo sua cota de prazer psicológico. Haja moedas para satisfazer a sua ânsia de ver e o seu medo de viver o real. Estranho animal é o homem! Com tantas possibilidades de encontrar um parceiro de devaneio, e prefere o amor virtual, o sexo pago à vista, ou no cheque pré, da solidão profissional. Que misteriosa criatura é esta, que podendo ser feliz, tendo a si mesma e outro como parceiro de alumbramento, prefere deixar morrer no esquecimento a parte do ser que é imortal.
Quando a Idade Negra a tudo cobre, com seu luto indescritível, a sociedade vê-se acometida pela deslembrança de curar o desequilíbrio da alma, a única alternativa capaz de libertar o Ser da insustentabilidade de sua falsa complexidade, que as torna escravas de suas compulsões. Ser mais Heráclito, sua profunda intuição, e menos Aristóteles poderia ser a solução, mas o mundo caduco e em processo de autodestruição preferiu ficar com o racionalismo reducionista e mecanicista da mecânica mental da ciência pura.
Toda cidade tem uma identidade, como as pessoas têm um rosto. Uma cidade que perde a sua alma já não pode ser vista no espelho de sua história. Fica igual às outras, que também perderam suas fisionomias, e no processo de inchaço, a que chamam de crescimento, viraram mistura de aço, vidro e argamassa, sem sonho algum que reflita as esperanças de seus fundadores; sem esperança que alimente os caminhos do futuro.
A miséria dentro das cidades é criada pelo próprio poder, que transforma palácios em bunkers, como se estivéssemos em guerra; e estamos, mesmo, mas é uma guerra civil não declarada; é um conflito em que todos perdem, uns mais, outros menos, mas todos perdem.
Uma cidade adoce quando perde o seu espírito; a partir daí não cresce, incha; não gera, degenera. Não expande, implode. E quando morrem todos os que deram vida a seu espírito, fica apenas o tumulto de um mundo insano e absurdo, a espalhar o medo e a violência, no úbere da urbe.
leia mais...





