Desenho de  Wendy MacNaughton
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Brasigois Felício

POR EM 16/03/2009 ÀS 04:59 PM

A poesia não salva ninguém

publicado em

“Eu não deveria te dizer, / mas esta lua, este conhaque / deixam gente comovido como o Diabo”. Carlos Drumond de Andrade, o anjo gauche, escreveu isto por saber que os anjos são impassíveis às nossas angústias, e só o Diabo pode se comover. Inútil nos fiar no poder que as palavras, em estado de poesia, possam ter. Pois segundo Luis Costa Lima, “A poesia não salva ninguém. Ao contrário, nos deixa tortos, em nossos cantos”. Em meio à fumaça e ao furor das máquinas, Drummond fez a poesia da blague e do humor negro, assumidamente anti-convencional, sendo ele próprio, como pessoa, convencional e conservador, em todos os termos de tudo. Sem saber, ou de caso pensado, passou a ser uma pedra no sapato dos anjos perfeitos. 

O poeta itabirano assume mergulhar nas inquietudes do Eu, não para tentar entendê-lo, mas para exercê-lo. Não se refugia no reino das palavras para se afastar do conflito, mas para torná-lo criativo. Em Minas, de uma roda de mentes brilhantes, o que mais reluziu, como perfeito diamante, foi o anjo torto — o mais namorador, e o menos bem informado dos intelectuais de sua geração. Estranha ironia, a confirmar que nem sempre os mais eruditos são iluminados pelo dom da criação. Dentre os anjos conformados, o poeta é o anjo bêbado, que desafina no coro dos contentes: “Tudo é aparência,/tudo é espuma. / Muito poucas coisas são importantes na vida/”.

Uma voz silenciosa, surgindo das áspedras montanhas de Minas, parecia dizer ao magro vate, em seu espanto perante a máquina do mundo: “O amor no escuro, ou no claro, é sempre triste, meu filho Carlos”. Não desejando ser poeta de um mundo caduco, Drummond também não quis cantar o mundo futuro. Em sua angústia criativa, a ele só interessava a matéria do presente. O tempo foi a sua matéria. O tempo presente. A vida presente: “Chega um tempo em que a vida é uma ordem / a vida, apenas / sem mistificação / ”.

Depois, da descrença niilista, passa ao instante de participação na marcha do existir. É quando descobre que a flor pode furar o asfalto, “vencer a dor, o medo, o nojo e o ódio”. Então, “no auge de um porre de esperança”, segundo Leandro Konder, ingressa na militância comunista, e não se adapta à rigidez da burocracia partidária. Ao brigar pela posse de um livro de atas, o poeta rompe com o partido. Mais tarde, procurado por uma militante, que pedia-lhe para assinar um manifesto pela paz, encabeçado pelo Partidão, recusa-se a fazê-lo. Diante da insistência, e da insinuação de que ele seria pela guerra, ele perde a placidez: “Sou sim, minha filha! Sou contra a paz e pela guerra!”.
 
“Foi preciso que um poeta mineiro, não dos maiores, mas entre os mais galhofeiros”, visse na alegria triste de Carlitos a sua própria tristeza de nunca ter encontrado a criança que foi. E assim se viu seguindo de mãos pensas, neste mundo habitado de dor e desesperança. Que outro poeta, senão este, que procurava elidir o peso da gravidade de existir poderia invocar uma namorada que morreu de apendicite? A morte, em sua forma bem banal, vem ressaltar o destrambelho das paixões do desenfreio. O que difere da morte madrugadeira, do entregador de leite: “A noite geral prossegue / mas a manhã custa a chegar / ”. Mesmo numa aurora de espanto e sangue inocente, em que, muitas vezes, a viaja.

Tendo sido a palavra seu exílio voluntário, foi sob o signo de seu mistério que vislumbrou o sentido possível do mundo. Se tudo nesta vida são meras miragens, amores que nos ferem “sete vezes por dia, em sete vidas de ouro”, são só imagens do sonho humano o jogo da poesia. Deu-se, então, que no entardecer de sua existência, em pleno crepusculário dos oitent´anos, o poeta recolheu-se em si mesmo. E, tal como Raduan Nassar, fez um acordo com o mundo. Em troca de seu barulho, deu-lhe o seu silêncio. 
 
Dois poetas perdidos na noite selvagem da cidade           

Sobre poder a poesia salvar ou destruir alguém, levando a indagação à vida e morte do poeta Pio Vargas, poder-se ia indagar: foi a poesia que o perdeu de si, ou foi nela que encontrou seu verdadeiro rosto criativo, aquele justificou sua passagem por este mundo / Foi a vertigem de se saber tão frágil e poderoso que o fez atirar-se, como um desesperado, ao vício em drogas pesadas? No desejo de sentir uma vida vertiginosa e intensa, que talvez o fizesse esquecer ou deslembrar memórias que o machucavam, de certo modo seguiu o exemplo de Leminski, seu ícone poético — pois que o poeta curitibano também buscou a morte, de modo igualmente desesperado, só que mais lento.
 
Com relação a Pio Vargas, pode-se dizer, com algum grau de possível certeza, que a poesia o salvou, em vez de perdê-lo. Pois foi no seu exercício que se descobriu e se fez um ser crítico-criativo, ocupando um espaço de participação cultural que de outro modo talvez não lhe fosse possível, dada sua origem humilde. Sendo a poesia a prima pobre das artes, em compensação, constitui-se na porta eleita, por onde entram as criaturas beira-abismo, os desesperados de todos os naipes, os que, tendo nascido ou vivido no inferno, deram adeus a toda esperança. 

Na cidade interiorana em que nasceu sua existência quase não seria notada. Na metrópole, circulava, em solitária manquidão, como um Byron  despossuído de glórias guerreiras, desafinando no coro dos contentes, com sua poesia cortante como navalha, corrosiva como ácido muriático. Com a poesia ele se fez alguém com voz própria. Um anjo torto e manco, é verdade, com verbo ferido e feridor, de ironia cortante, e uma rebeldia domada pelo emprego público essencial à sobrevivência. Interessante notar que a existência intensa e efêmera de Pio Vargas guarda evidente paralelo com a de Tagore Biram, outro anjo gauche, desses que não sabem viver nem morrer devagar.

Que suas mortes tenham sido mais tristes e inglórias do que suas vidas, não deixa de ser um fato trágico, a confirmar o que escreveu Luiz Costa Lima, sobre o desamparo dos poetas, perante uma sociedade que a tudo perdoa, menos o fracasso econômico-social. Neste sentido, pode-se dizer que tanto Pio Vargas quanto Tagore Biram viveram e morreram como “um miúra ensanguentado”, como escreveu a ensaísta e poetisa Darcy França Denófrio, em seu livro “Hidrografia Lírica de Goiás II”. 

O primeiro sucumbiu a uma morte anunciada e previsível — uma overdose da qual ele sabia que não sobreviveria. Quanto a Tagore, morreu no Chile, em Thomé, uma cidadezinha chilena, praiana — provavelmente também de overdose, só que de vinho. De certo modo, eles seguiram o conselho dado pelo bardo Charles Baudelaire: “Embriagai-vos sempre, de vinho ou de virtude, mas embriagai-vos sempre!”.

Tanto um quanto o outro, pela irreverência, incomformismo e alta voltagem poética, sabiam talvez que não teriam tempo para envelhecer, e declinar ou renunciar à intensidade do fogo prometéico em que se consumiram. Ao contrário, sedimentaram em solidão e rebeldia a anatomia de suas palavras e gestos, podendo fazer coro a Mário Quintana (outro anjo bêbado), quando escreveu: “Aos que atravancam meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. 

Pois que, em seu abandono existencial, meio que meninos de rua, colocados em situação de desamparo, ou de desespero niilista, preferiram nadar na contra corrente, despedaçando nas torrentes da vertigem, a apodrecer no pântano do medo e da mesmice. E como ficou chato (e inútil) ser moderno, preferiram ser eternos. Ao menos ausentaram-se, ainda em tempo, desta pátria brazilis batuqueira e useira e vezeira em consumir o big-besteirol dos Big-Brothers — o Brasil das Brundangas (evoé, pingente Lima Barreto!) onde triunfam, por todos os cantos, as escoras das escórias, e cornucópias de canalhas aboletados em intermináveis mandatos...  
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 10:40 PM

Abraçados à infâmia

publicado em

O ser humano não é um caniço pensante, como o definiu Kant. É uma errata ambulante, alguém que deveria se desculpar o tempo todo com a Vida, por lhe provocar tantas feridas, em tantas trombadas de desmantelo onipresente. Isto porque pensa erroneamente, e assim se condena a uma ciranda de erros, da qual jamais se desliga, por estar viciado à sua errância interminável. 

Por ser o erro primário a base sobre a qual constrói com areia o edifício de seu existir, difícil garantir que sobreviva aos vendavais inevitáveis. Sendo um ser do erro compulsivo e auto-reprodutivo, não acerta porque sempre erra, ou erra por não saber o caminho do acerto? Mesmo levando uma vida infame e hedionda, procura manter uma aparência de respeitabilidade. Quer ser respeitável celebridade até no crime e na infâmia, passando pela contravenção social e moral – rejeita a idéia de ser um qualquer bandido comum. E assim vem sustentando a arquitetura de sua longa miséria.
 
Este ser corrompido e corruptor poderia ser salvo pela arte, se tivesse mantido ao menos resquícios de sensibilidade. No dizer do poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta – então, até a própria vida tem que ser reinventada. Mas só pode fazer isto alguém que esteja de fato vivo, e não tenha sido reduzido a cadáver adiado, besta sadia ou doente, que procria. Uma pessoa não totalmente anulada em sua vida interior poderia, com a arte, e quem sabe com o humanismo e a espiritualidade, encontrar um sentido da vida. 

Assim poderia ir além dos interesses egoístas, autocentrados e mesquinhos da busca frenética por mais sucesso, poder e dinheiro. Pertencem a esta grei os que, nos parlamentos, para não ferir o decoro, ostentam total indecorosidade, ostensiva e contumaz, ao se dirigem a colegas de quadrilha, falam como um Marco Antônio ao contrário: “Vossa excelência é um canalha”. Ou então “Peço licença a vossa excelência para subir à tribuna, não para honrá-lo, mas para defenestrá-lo”.  O psicanalista Norberto Keppe nos adverte para o fato de que a pessoas de consciência invertida tendem a só ter pensamentos negativos,, de qualidade semelhante à sua consciência: “É natural e inevitável que a pessoa de consciência invertida escolha o mal, para si mesma e para os outros.

Ao contrário, porém, de usar o poder da vontade para nos libertarmos das emoções tóxicas, e pensamentos repulsivos, que nos empurram para a inveja e a maldade, canalizamos a energia para fortalecer todo este lixo mental. O resultado é nos mantermos afastados a beleza, do Amor e da bondade e compaixão para com todos os seres vivos. A decadência em que mergulhou nossa sociedade é resultado da escolha que fez, de usar a liberdade para agredir a natureza, poluir as fontes de vida, e promover a morte e a destruição. “Assim, por sua própria escolha, o ser humano transformou a si mesmo em um demônio anti-vida”, enfatiza Norberto Keppe, clínico psicanalista formado na escola de Viena, onde Freud e Jung pontificaram.

Norberto Keppe vem nos ensinar, em sua trilogia analítica: a resistência que o Homem tem aceitar a morte vem de sua hostilidade em relação à própria vida. Ele rejeita a transformação porque se acomodou na estagnação. Escolheu viver no pântano da morte, em vez de navegar nos rios da Vida. A ironia reside em que, sendo uma criatura pérfida e perversa, voltada para a destruição de tudo o que vive, não quer que a morte exista, e contra ela se rebela. Em sua inveja de Deus, o ser humano encarna o Diabo em si, e ataca tudo o que é divino. 

O triunfo da vontade corrompida pelo egoísmo e a perversidade é o poder com que investe contra as fontes de vida. E quanto mais se submete ao domínio de sua vontade invertida, mais avilta a Consciência, e mergulha no inferno em vida. Uma vez corrompido, estende a corrupção a todo o corpo social em que vive. Daí poder-se dizer que a decadência da sociedade é o resultado de sua própria decadência como pessoa. Como pode uma sociedade dar certo, se a sua célula essencial (a única dotada de razão, emoções e sentimentos) vive em oposição a si mesmo, em um impulso auto-destrutivo totalmente irracional? 

Desconfiar de nós mesmos, colocar nossas vontades em quarentena, ou em observação atenta, é o passo necessário, para avaliarmos até que ponto se tornou degenerada a nossa consciência. Um critério seguro é cada um perguntar a si mesmo (e responder com honestidade): aquilo em que mais eu me empenho é sempre contaminado pelo desejo egoístico de satisfação pessoal? Se for, a vontade nascida deste querer ambicioso não é fruto de uma consciência sadia. Então, para re-tomar o caminho saudável da vida natural, devemos ter controle sobre nossos desejos, a fim de que o poder da vontade não seja, por nosso intermédio, uma força maléfica e destrutiva. 

Essencial é sair da ética passiva, meramente retórica, tão presente no discurso dos políticos e pregadores religiosos (profissionais da fé). Pois a ética só é verdadeira e transformadora quando se manifesta como ação em si mesma, desapegada de seus resultados, totalmente renunciante a receber encômios, comissões ou aplausos de vassalos ou de admiradores assalariados. A consciência de ser o que (ou quem somos) naquilo que fazemos (não somente no que falamos), é o passo essencial a ser dado, para uma verdadeira mudança na qualidade de Ser. 

P.S. Krisnhamurt, sábio indiano, falava, em palestra, sobre a necessidade de o ser humano mudar o mundo a partir da mudança de si mesmo. Alguém da platéia pede a palavra e diz: “Mas se eu tiver que viver assim em morrerei!”. A resposta de K. foi cortante como navalha: “Pois então morra”. Só as criaturas dispostas a morrer em sua mudança podem mudar o mundo em que vivem. No caso, o sábio conclamou a que morresse a consciência invertida, uma doença de alma, que não quer morrer. Pois nada tem mais vontade e força de viver do que o mal, e a destruição de que ele é capaz. Por isto é  tão difícil abrir mão de viver na errância, na maldade e na corrupção... 
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:45 PM

Dizem que sou louco

publicado em

“Ganhei, perdi meu dia”. O não ser em nós é que dá cria, quando ganhamos, perdendo o dia. Fernando Pessoa disse-o de outro jeito: “Então, se a razão é mentira e hipocrisia, por que não seria a loucura verdade e pureza?”. A fria razão, e a implacável lógica são a fortaleza em que se escudam os psicopatas (aí se incluindo os doentes mentais da política, para quem o poder é tudo). Sabe-se que os psicopatas são destituídos de emoção. Uma sociedade normótica e tecnotrágica, centrada em valores equivocados, só reconhece como bem sucedidas as pessoas “bem de vida”, isto é, as que se acham endinheiradas, ou são celebridades de verão.

Uma sociedade assim, hierarquizada materialista e utilitarista, descarta tudo o que não pode ser usado para fins egotistas e consumistas. Assim, confina e discrimina criaturas que, tendo vida interior, vivem sob o primado de emoções e sentimentos positivos, pelos quais se guiam. Em tempos como o atual, criaturas assim são vistas como pessoas de inutilidade pública, abaixo de qualquer suspeita, sem utilidade prática; ou são vistos tidos como românticos, idealistas, sonhadores ou ingênuos. Deles se diz coisas do arco da velha, por gente que vive a beirar abismos, a semear à sua volta o caos e a desarmonia – que são o seu estilo de vida. 

A canção do conjunto Os mutantes é um registro lindamente lúcido da reação à normose coletiva que a todos intenta enquadrar à mediocridade e à hipocrisia: Dizem que sou louco/por eu ser assim/mas louco é quem me diz/que não é feliz/não é feliz/Eu juro que e melhor/não ser um normal/eu posso pensar/que Deus sou eu”. Tem sido assim, desde que a dita “civilização burguesa” decretou o fim da era da inocência: os honestos são colocados no ridículo, chamados de inapetentes para com a vida prática – um estorvo na vida airada dos gatunos e larápios “bem sucedidos na vida”. 

Os inocentes (incapazes de fazer ou de se defender de maldades) são chamados de ingênuos ou parvos – e quem os diz assim são as aves de rapina da sagacidade ladravaz e rapace, as almas vorazes, as mentes dementes, que fazem da astúcia e da perversidade toda a razão da sua vida. Uma sociedade se torna tecnotrágica quando é governada por essa visão distorcida do que é “vencer na vida” e do que é “ser feliz”. Artistas, poetas, filósofos, daqueles antigos, verdadeiras antenas da raça, abridores de caminhos, não são como muitos, ou a maioria de hoje, cavadores de fama postiça, que em nada se distinguem das celebridades de um dia. Assim caminha a humanidade, em ufana vaidade, na direção do abismo e do desastre final. 

O artista da fome 

No Brasil, os artistas estão mal acostumados a serem artistas da fome. E a maioria se contenta em mal fazer para o sustento da arte que fazem. Assim, agem como uma fábrica que só trabalha para fornecer energia para seu próprio funcionamento. Nada produzem de útil a outros – nem a seus donos. Como eternos artistas da fome, ou o comedor de gillete, eternizado na pobreza crônica e na sátira do comediante Ary Toledo, pedem aos passantes o favor de se exibirem com seus malabares – em verso e prosa, muitas vezes canonicamente canhestros, ou simplesmente grotescos, como as mentes pobres a que recorrem.

Mas desde sempre chega o tempo da decadência, em que, nem pagando, serão ouvidos, lidos ou vistos. Assim como o circo tem de mudar seus mambembes, logo será chegada a hora de serem apenas tolerados como lamentáveis figuras do passado. Kafka refletiu sobre isto, com seu artista da fome, e outros ficcionistas o fizeram, fazendo arte a partir das verdades da vida. É então que chega a fase das homenagens, para alguns, tidos e havidos como acima de qualquer suspeita. Jamais incomodaram o sistema. Para alguns, que são cadáveres enquanto vivos, as glórias chegam tarde, pois que se tornaram póstumos antes de terem morrido. Uns já estão com o pé na cova, ainda que entregues a ferrenhas lutas por cadeiras de imortais – outros, já com o mal de Alzheimer, já nem se lembram quem são.            

Outros, soterrados pelo esquecimento, não deixam a mínima lembrança de terem existido, ou de terem contribuído para a melhoria do tempo e da sociedade em que viveram – ainda que o tempo todo se pavoneassem de duvidosa e risível imortalidade. Simplesmente passaram, como tudo passa. Por efêmeros instantes, refulgiram como fogos-fátuos, sem fazer diferença no mar de mediocridade do tempo dos homens sem rosto. Pessoas existem que estalam como raios, e deixam em chamas tudo o que tocam. Fazem questão de viver em eterno suplício de não caber em si mesmos. São desta grei as que vivem a convidar a praça associada para o enterro de Deus, e os que desmancham rodas de bêbados. 

Muitos destes, sendo artistas, deixam-se tanger e subjugar por harpias e moiras domésticas. Tais criaturas Mefisto-félicas não se deixariam tanger para o matadouro do dia, se conhecessem, e se colocassem a seu favor, a energia criadora que têm. Pensando que são gigantes, como podem se deixar dominar como vermes ou formigas? Como podem ser tão medíocres na vida, se representam o papel de serem artistas? Se são artífices do Verbo, como podem vender tão barato os signos da vida e, pior ainda, abastardá-los, como quem atira pérolas aos porcos?
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:38 PM

Tempo e memória

publicado em

“Porque o tempo é uma invenção da morte/ não o conhece a vida/ a verdadeira/ em que basta um minuto de poesia/ para nos dar a vida inteira”. (Mário Quintana). O tempo é o maior dos mistérios desta vida. É Cronos a comer os seus filhos. Dele muito se fala sem saber o que de fato é. Conceitualmente, tempo é a medida do movimento no espaço. Dele raramente se fala como sendo filho ou pai da memória. Os Upanixades, Helena Blavatsky, Bérgson, Hegel, Marcel Proust, memorialistas como Pedro Nava, cientistas, filósofos. O tempo é a matéria dos poetas. E não só o tempo da vida presente  – nunca se parou de falar sobre o tempo e a natureza da memória. E não se falou tudo. 

O que fez Marcel Proust, ao concluir sua busca do tempo perdido? Colocar mais tempo na mente. Na dele e na caraminhola dos que leem os cartapácios de sua catedral de palavras. Tanto assim que morreu de overdose, ou de tanto não transar com Albertine, que talvez tenha sido ele próprio. O filme “O Curioso Caso de Benjamin Button” levanta reflexões sobre a inexorabilidade do tempo que passa, a consumir nossas vidas. O mais difícil, nos trabalhos e nos dias (evoé, Hesíodo!), é conquistar o presente que se tem. No mais das vezes, por pura inconsciência e mecanicidade de nossa existência, o presente não é desfrutado nem vivido pela pessoa que o tem.

Pois estamos sempre no futuro ou no passado, a imaginar quimeras, projetar situações ideais de vida, em nossa insatisfação constante. Saber gastar o tempo que se tem é uma forma sábia de não ser perdulário com um valor que, uma vez desperdiçado, não pode ser recuperado. Gastar o tempo com sabedoria é ganhá-lo, impedir que se perca inutilmente. O caminho sábio é preenchê-lo com o ócio criativo. O mitólogo Viktor D. Salis enfatiza: “gastar tempo não gera lucro, mas é a única forma de podermos instalar uma busca criadora em nós e nos outros, em que é possível a criação e a reconstrução”.    

Helena Blavatsky, no capítulo Cosmogênese, de sua monumental “A Doutrina Secreta”, assim leu nas Estâncias de Dzian, sobre a noite do universo: “O Pai Eterno envolto em suas roupas sempre invisíveis, repousou mais uma vez durante sete eternidades. Não existia o tempo, que dormia no seio infinito da duração. Não existiam seres universais, porque não existiam seres celestiais para contê-la”. Desçamos, porém, ao nosso planeta azul devastado pelo Homo Sapiens – fiquemos na dimensão da realidade onde o tempo pode ser percebido.

Só há tempo onde há espaço e movimento. Mas há o tempo psicológico que se manifesta na mente, como pensamentos, sensações, emoções como medo, ansiedade, expectativa, irritação.  Assim, o tempo pode ser dilatado ou abreviado, sendo a situação em que vivemos agradável ou desagradável. Aumenta ou diminui a depender do modo como é sentido. Em uma situação agradável e prazerosa, o tempo passa sem ser percebido. Horas parecem ter sido minutos. Mas em situações de estresse e sofrimento, dá-se o contrário: minutos são horas, horas parecem ter sido meses ou anos.

Ho Chi Min, líder revolucionário do Vietnã do Norte, foi aprisionado durante quase vinte anos. Um repórter perguntou como sentiu o tempo estando prisioneiro, e ele respondeu: “Quando se está na prisão o tempo é sempre longo”. Outros, vítimas do matrimônio monogâmico compulsivo, podem dizer: “Quando se está casado o tempo é sempre longo”. 
 
A qualidade do tempo pode ser controlada, se nos mantivermos presentes quando coisas agradáveis ou desagradáveis nos acontecem. A quantidade de energia psíquica muda, a depender do modo como reagimos perante os fatos da vida. G. Gurdjieff. psicólogo russo, assinala: “Tente controlar sua reação ante alguma coisa ou pessoa que o irrita. Se quiser, conseguirá”.

O tempo da pessoa que, em uma pessoa, em uma fila de banco, põe-se a meditar, em serenidade mental, é diferente daquele que soterra e exaspera a mente estressada e irritada. Todos já tivemos experiências comprovadoras disto. Gestos ou falas de irritação contra a demora no andamento na fila, ou críticas ao desempenho dos caixas, por exemplo, são contagiosos, colocam as pessoas à volta na mesma disposição mental.

O tempo então torna-se mais “demoroso” e aflitivo, pois foi contaminado pelo crescimento da energia emocional de irritação. Esta se reproduz como onda, atinge pessoas sem que elas percebam – então, por puro automatismo, se põem a reclamar e a xingar, do mesmo modo que o irritador iniciador da contenda.
 
Vemos, assim, que, além do tempo cronológico, contido em cronos, ou no coração dos relógios, existe um tempo sobre o qual temos pouco controle: o tempo psicológico, que funciona com base em energia mental. A saída, em situações em que podemos ser arrastados pela energia mental coletiva de irritação e raiva, é nos manter tranqüilos, pensando em algo agradável, visualizando paisagens belas, ou mesmo apenas observando, sem julgar, o turbilhão dos pensamentos compulsivos. Assim esvaziamos a sua energia, e logo estamos serenos. Assim como a irritação é contagiosa, também o é a serenidade – o estressado estressante , em face de um comportamento gentil e amável, pode ficar constrangido e se dar conta de seu descontrole.
 
Conceder ou se permitir intervalos na falação mecânica e compulsiva também possibilita economizar energia psíquica, abrindo clareiras no turbilhão mental, de modo a desfrutarmos de paz e serenidade, em momentos em que isto parece difícil ou impossível. Nada é mais irritante do que uma falação incessante. Pois é sabido pelos que exercitam tal poder: o silêncio, assim como o tempo, pode ser qualificado. Fere mais do que todos os gritos, o silêncio ou o não-dito entre casais conflituosos, em permanente guerra conjugal. 

A qualidade do tempo no qual decorre nossa existência depende de circunstâncias, das pessoas que nos cercam, mas não só delas. Depende fundamentalmente de nós mesmos, uma vez que podemos não ser escravos das pessoas, reagindo como elas querem que o façamos. P.D. Ouspensky, físico russo, seguidor de Gurdjieff, explica: a energia das pedras de uma igreja não é a mesma que vibra nas pedras de uma prisão, ou a que existe nas paredes de um prostíbulo. Um homem que vai de manhã para o seu trabalho, está a gastar muito menos energia do que outro que brigou com o vizinho e vai à Delegacia denunciá-lo. 

Assim, convenhamos: difere em qualidade o silêncio a mente de uma pessoa que meditar, em oração pelo bem da humanidade, e a do criminoso ocasional ou contumaz, que está a planejar um assassinato. É um silêncio amoroso e atento, e a sabedoria que alcança vem das viagens que faz no desconhecido. O silêncio da mente meditativa vem do olhar profundo da pessoa que se faz presente no que faz e onde está – não é o silêncio turbulento de quem se deixa estagnar no pântano enganoso da memória.


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POR EM 02/02/2009 ÀS 09:19 PM

O perfume da memória e o ocaso da crítica

publicado em


Nos arrebaldes do Plano Piloto, em Taguatinga, Cidade Satélite, ainda moça brejeira e empoeirada, a mulher pública convida o poeta a fazer amor em um prostíbulo disfarçado em hotel. O literato e jornalista, recém-chegado, com a mala de papelão repleta de clássicos da literatura, tinha outra espécie de amor para dar, embora crendo, como na canção da MPB, que “toda maneira de amor vale a pena/toda maneira de amor valerá”. Assim, dispensou o “favor” amoroso, e agradece, pois vai de encontro a um amor mais geral. Assim proclama seu amor impessoal a seu tempo e à cidade que o acolhia, em seus primeiros vagidos. Saltando uma poça de lama, o poeta seguiu em frente, com suas esperanças e sonhos.

Foi ali o primeiro lugar onde morou, em sua diáspora rumo ao futuro literário. Sonhos que andou cultivando em pastoreio de nuvens, e na leitura dos clássicos, em sua pacata Silvânia. Lugar de sua família, onde aprendeu, com Carlos Drummond de Andrade, ser preciso “tecer um canto/que faço acordar os homens/e adormecer as crianças/”. Queria ter um caso de amor não com uma pessoa, mas com a humanidade (a sua e a de todas as pessoas). O poeta tinha um sonho, e precisava conquistar seu espaço de viver na cidade para onde chegavam brasileiros vindos de todos os lugares.

“Há beleza e dignidade até mesmo nas pequenas redes de hotéis camuflados em prostíbulos”. Assim escreve Salomão Sousa, no belo  texto de abertura de seu livro “Momento crítico”. Poderíamos acrescentar que também há beleza nas áridas paisagens do nordeste semi-árido, onde sobrevive, em miséria social, um povo aguerrido e bravo (como o viu Euclides de Cunha).

Povo sofrido, mas não miserável. E também beleza há na Amazônia, no dito “inferno verde”, e não apenas na via Ápia, como afirmou Joaquim Nabuco, praticando uma diplomacia às avessas, uma vez sabendo-se ser missão dos embaixadores e diplomatas em geral “mentirem honestamente em favor de seus países”, como ironizou Roberto Campos. No caso, Joaquim Nabuco mentiu desonestamente em desfavor do Brasil e de seu povo, que pagavam sua viagem de turismo diplomático. 

Esta é uma das observações de fina ironia, que Salomão Sousa se permitiu fazer, em variados textos desta reunião de seu “Momento Crítico”, em que lemos crônicas de cunho ensaístico, e ensaios vazados em linguagem leve de cronista. Refere-se também o autor a Edgar Morin, que em recomendações para uma prática da educação contemporânea nos dia que a mesma deve fundar-se em quatro pilares: aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer. S.S. assinala, no ensaio “É hora de detonar o egocentrismo”; “O indivíduo, ao pregar excessivamente a importância do Só Eu, contaminou a cultura como obrigação de seguir a política de incentivo ao egocentrismo.

Torqueville, clássico pensador da Democracia já nos dizia, há 170 anos: “Existe um amor à pátria que tem a sua fonte única naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível, que liga o coração do Homem ao lar em que nasceu. Confunde-se este sentimento com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembrança do passado. Aqueles que o experimentam estimam o seu país com o amor que tem pela casa paterna”.

Talvez tenha faltado  amor à pátria ao senhor Joaquim Nabuco, ao valorizar de modo tão enfático a importância universal da Via Ápia, em detrimento das paisagens de sua pátria – coisa que Vinicius de Moraes fez ao contrário, e de modo magistral, em seu belo poema Saudades da minha Pátria.

Quase na mesma linha de Torqueville vai Salomão Sousa, no texto de abertura de seu livro, em que evoca a perdida sensibilidade das pessoas (dos jovens em particular) em relação às flores, e às sensações físicas e emocionais que provocam – sensações que ainda vibram em sua memória, quando se põe a recordar passagens de sua infância e juventude, em Silvânia, cidade onde nasceu: “Quem não adquire memória pessoal das flores não estabelece liames para a compreensão da beleza e sua ligação com a cadeia evolutiva da vida. As flores existem para a sua ligação com a cadeia evolutiva da vida. As flores existem para que a harmonia se construa”.

Eu acrescento: e também para que não nos falte, em nossa trajetória existencial, o esplendor de reverdecer no verde, no deslumbrar-se ante a beleza de dos bichos e plantas, nos cantos de muros de mundo, e nos quintais da fraternura e da inocência: “Ao nos aproximarmos para apanhar água, víamos, do outro lado da bica, a moita de açucenas e corolas vermelhas, com os milhares de pistilos atraindo os marimbondos e as abelhas arapuás. (...) As açucenas ainda alimentam as lembranças, numa manhã sem mãe e sem mulher alguma outra mulher que, durante as viagens, engrandeça  o dia com os nomes de flores, ou com centenas de pistilos novos que possam animar a vida”.  
 
Há muito a ler e a admirar, a deleitar mesmo, nesta coletânea de textos críticos do poeta e jornalista Salomão Sousa, que há anos reside e trabalha em Brasília. Ali, mesmo tendo que despedaçar as pedras do caminho, ocupou espaços na poesia e na crítica, agradando a muitos, e desgostando a uns poucos, com o ferrão de seu chuço de menino carreiro que foi, sem ter sido.

Grande parte de seus textos reporta-se a livros, personalidades culturais da capital federal – mas não faltam reflexões interessantes sobre a poesia goiana, ou ponderações de grande profundidade e perspicácia, como no longo texto intitulado “Reflexões desconexas sobre comportamento cultural”. Neste texto Salomão Sousa atira em muitas direções, focando os caminhos da poesia brasileira, ou sobre a própria crítica, que deixou de ser um caso para entrar em ocaso. Tão invisível em sua precária existência, que sequer chegou a ser caso de polícia.
 
Tal ocaso ocorre em face da moderna decadência cultural por que passamos, nesta era cibernética em que tudo é virtual, em segundos se esfuma no ar da evanescente e arrogante modernidade, muitas vezes vazia e sem caminhos. Salomão discute longamente causas e coisas do boom da poesia brasileira, a partir de 1997, passando pela fase em que “ o poema passou a representar respiração apenas para o poeta”. Passa Salomão Sousa à crítica da crítica: “O crítico não quer mais valorizar a obra que está sob seu foco, mas sim aniquilá-la, esquecendo-se que o ato de criticar é paralelo ao de criar”.    


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POR EM 26/01/2009 ÀS 02:20 PM

O show de Truman

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Estamos vivendo um grande e estranho mundo mais parecido com um reality show, em que todos são protagonistas, atores e atrizes, embora pensem que são partes do mundo real. Não há muita realidade no cenário cotidiano que encenamos, na condição de criaturas inconscientes do que fazem e falam – como no filme “O show de Truman”, em que o personagem Carrey, simpático vendedor de seguros, de repente descobre a fraude existencial que o envolve. 
 
O pesadelo é descobrir que o “O show de Truman” é a realidade em que vivemos. Somos personagens de um gigantesco espetáculo, representado pela sociedade dos mortos vivos, em que as pessoas se alimentam de ilusões, substituídas tão logo sejam esvaziadas de sua energia. De repente, pessoas percebem que fazem parte de engrenagens de uma máquina de moer e gastar gente, consumida na medida em que consome, devorada enquanto come, devassada em sua intimidade enquanto vai de voyeur.  
 
Vivendo como zumbis, tangidos como gado sendo tocado para o matadouro, a massa informe vive segundo os ditames de invisíveis diretores de cena, que por sua vez são dirigidos por outros, mais diabólicos do que eles próprios. Há toda uma teia de domínio e sujeição de corações e mentes, a partir das mensagens publicitárias, que não excluem nem o inconsciente, conclamando as pessoas a adquirir, comprar coisas, para conquistarem a felicidade.
 
Outros, desde a juventude, entram na competição por um “lugar ao sol” no mercado profissional. Tornam-se obsessivos e estressados prestadores de concursos – e nisto gastam todos seus recursos, os seus e os da família. Vá lá que alguns dentre milhares logram obter sucesso, e ocupar os cargos almejados. Muitos porém logo se desencantam e se frustram, estendem outros tentáculos de desejos, vão à cata do que pensam ser a carreira dos sonhos. Outros, insatisfeitos com o salário, vão em busca de dar upgrade em suas carreiras. 
 
Muitos entram em desespero pelo fracasso repetido e anunciado, outros ficam angustiados pelas pressões com que se deparam, ao lograr obter sucesso. Preso por ter cão, preso por não ter cão. O sucesso e o fracasso são corridas sem ponto de chegada – sempre há mais disto ou daquilo, para ter e querer.
 
Casos de gente que se mata (de uma vez ou lentamente) não são raros. Ocorrem principalmente entre “celebridades” do mundo dos negócios, da política e do show-bis. Suas mortes provocam espanto e escândalo, visto revelarem ao vulgo uma infelicidade crônica tida por improvável, visto que as personas milionárias e famosas tinham tudo o que uma pessoa pode querer na vida.
 
João Pereira Coutinho, em artigo para a “Folha”, cita Toby Young: “A era meritocrática foi enterrada. Depois do berço e do mérito, chegamos à era da celebridade. Podemos nascer no berço certo. Podemos até subir a escada social com nossos próprios pulsos, provando o nosso valor intrínseco. 
 
Mas se não somos famosos, ou seja, se não alimentamos o voyeurismo coletivo em que vivemos, não somos rigorosamente nada”. Por isto, muitos estão desistindo de continuar no show. Pedem para sair do filme, como um cidadão norte-americano – adentrou uma repartição do governo e, de joelhos, implorou para que desligassem as câmeras e terminassem o programa. 
 
Um corretor da Bovespa foi mais abrupto. Depois de retornar das férias, em pleno pregão, em dia frenético, de muitas perdas & danos, sacou do revólver e atirou em seu peito. Diria uma antiga canção da MPB: “Pois é... pra que/um rapaz tão moço/No fim do mundo/tem um tesouro/quem for primeiro/carrega o ouro/a vida passa/no meu cigarro/quem tem mais pressa/que arranje um carro/pra andar ligeiro/sem ter porque/sem ter pra onde/pois é... pra que!/.  
 
Marolinhas e marolagens à parte, a tsunami ou bolha da especulação financeira chegou no paraíso tropical, onde o show da vida não para de filmar os dias de fúria e de ataque de nervos de quem perdeu fortunas no cassino da especulação, e de quem perdeu emprego e renda como resultado da cobiça especulativa. Enquanto isto, médicos doentes tratam da saúde que as pessoas tudo fizeram para perder. Por toda parte segue a navegar, em mar revolto, a nau dos insensatos.
 
João Pereira Coutinho enfatiza: “Vivemos em sociedades mediatizadas e massificadas. E numa sociedade mediatizada e massificada, é o anonimato, e não a pobreza e a incompetência que pesam profundamente sobre a espécie. Não é de admirar, por isto, que uma parte crescente de seres humanos se sinta cansada do circo instalado. Se sinta cansada, enfim, de um mundo de celebridades ocas, que na verdade parece um reality show permanente. Eles imploram para sair do espetáculo, na impossibilidade de o derrotarem”.
           
Recusando-se a participar do mediatizado reality show, preferiram, os delicados, sair à francesa. Mas não lhes foi permitido e menos ainda podem apelar para a morte como saída fatídica. Têm de continuar no show, em que são expectadores e atores, a representar o papel que lhes é imposto pela sociedade dos mortos vivos. A parte que lhes cabe é cumprir o script à risca, pois o show cosmodemoníaco não pode parar.  

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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:34 PM

O planeta Lutz

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José A. Lutzenberger, cientista-ecólogo, profeta e poeta do viver - foi um dos primeiros, dentre os brasileiros a denunciar a devastação ecocida do planeta azul, tenha sido pura luz, nesta nave planetária, a orbitar sistema vivo que órbita a estrela sol. Ele esteve entre os pioneiros cientistas que a viram como o sistema vivo que é.

Tendo iniciado sua carreira como executivo de multinacional produtora e espalhadora de venenos agrícolas, mudou de lado, ao perceber que trabalhava contra o ser humano e pela destruição dos sistemas da Vida. De modo incansável, corajoso e profético, ele apontou para a fragilidade deste sistema capaz de reconstruir a si mesmo, se não for inteiramente destruído pelo Homo Sapiens.
           
Michel Foucoult assegurou que o Homem, tal como é e como se vê, é bem recente, datando de algumas centenas de anos - antes, por não se saber existente, era apenas um ente - não havia iniciado ainda a construção do Ser.

É terrível constatar que, mesmo existindo como Ser há tão pouco tempo, esta criatura, a única auto-consciente, tenha sido capaz de tamanha destruição, contra si mesma e contra a natureza de que é parte, e de onde tira o seu sustento. Mas há quem se afine com idéias de filósofos medievais, para os quais, grosso modo, a hominidade existe apenas como conceito, em nossos intelectos.

Na versão mais radical, de Ockam (1285-1347) conhecida como nominalismo, as idéias gerais não existem, são apenas nomes, ruídos que aplicamos a coisas reais, para designar semelhanças. A se acreditar nisto, talvez seja lícito pensar que em verdade "só existe a Vida - a menor dentro da maior, e todas dentro do Espírito Divino", segundo Edgar Alan Poe.

Lutzenberger partilharia com o etílico-sombrio poeta norte-americano esta visão da unicidade da Vida, percepção que defendeu e vivenciou, como arauto da Nova Era. Alguém com lucidez profética, capaz de perceber que "Ciência é a contemplação da beleza divina do universo. É um diálogo límpido e não destrutivo com tudo o que vive".

Como Albert Einstein, sabia José Antônio Lutz: "Toda vida é sagrada, inclusive aquela que perante o Homem parece inferior a si próprio".  A coragem com que denunciava a desumanidade e irracionalidade do mercado e da tecnologia fizeram com que fosse muito breve sua estada como Ministro do Meio Ambiente de Fernando Collor - a quem devolveu o cargo, com a dignidade e desapego que lhe eram inerentes, ao perceber que não teria apoio para fazer as mudanças necessárias no setor.

Para ele, um cientista capaz de emocionar e emocionar-se, a natureza nunca é obstáculo, mas solução: "A sociedade do desperdício não é sustentável, não pode sobreviver. Quanto mais PNB (Produto Nacional Bruto) mais exploração das fontes de vida, e mais desastres ambientais. Ele formulou uma imagem precisa, a denunciar a insensatez de tal modo de viver
 
O modo como devastamos os sistemas vivos dos quais dependemos para viver pode ser comparado à insanidade de uma pessoa que vai ao seu banco, pega todo seu dinheiro e o gasta irresponsavelmente, e acha que ficou mais rica com isto. "Beleza, harmonia e felicidade não se avalia com a medida do dinheiro. Estão longe de ser colocados como valores no mercado de futuros e de juros dos cassinos financeiros internacionais.

O Deus mercado é cego às verdadeiras necessidades da espécie humana. A dimensão de sua realização é a obtenção do lucro a qualquer custo. As gerações futuras não são objeto de sua preocupação". Ao mercado só interessa o que alimenta sua cupidez e usura. O Collor dos "negócios especiais" de PC Farias  reclamou, certa vez, de seu ministro: não entendia sua linguagem. De fato, não poderia mesmo entendê-la, o ambientalista reconhecido internacionalmente era um corpo estranho em sua equipe de aloprados criadores de neologismos "imexíveis" e de expropriação inédita na História.   

Para Lutzenberger, a globalização que nos impingiram os centros mundiais do poder (e da nova ordem mundial do Deus mercado) é a de fazer com que os pobres produzam e vivam com a mesma irresponsabilidade ambiental com que o fazem os ricos. Os pobres abriram mão do estilo de vida simples e harmonioso em relação à natureza, e passaram a ser tão consumistas e predadores quanto aqueles que historicamente colocaram no altar de sua adoração o consumir coisas, pessoas, produtos e ilusões, tornando-se elas mesmas coisas e produtos de consumo.

O resultado é o terem os agricultores tradicionais se rendido à tecnologia, a ponto de serem hoje apenas chofer de tratores e aplicadores de venenos químicos. Os médios e grandes produtores de soja que foram iludidos pela propaganda da Monsanto, que vende as estéreis sementes transgênicas de soja como solução para a excessiva aplicação de defensivos, hoje constatam que precisam aplica-los em quantidade ainda maior do que antes.

Tornaram-se escravos de uma multinacional, uma vez que todo ano têm de comprar novas sementes e insumos, sempre do mesmo amo tecnológico, a que ficaram atrelados, devendo remeter fielmente os royalts da servidão a que se submeteram. Afinal, a indústria que conta/conta/mina a nação".  

Em sua ganância por mais lucros, a tecnologia chegou ao ponto de produzir sementes sem poder de auto-geração, com risco de contaminar lavouras não transgênicas, o que pode levar o planeta Gaia à total esterilidade agrícola. Aos agricultores, todos os custos e lucros. Às indústrias de sementes e pesticidas, todos os lucros.  

Lutz certa vez denunciou, em palestra, a voracidade com que o ser tecnológico fura buracos na terra, em busca de petróleo, ou a devastar florestas e o cerrado, para obter carvão industrial, em vez de explorar outras fontes de energia, como a do sol, do mar e dos ventos. "O petróleo não está na terra para que o tiremos de lá, para nossas orgias energéticas, mas para que a vida possa continuar"  em si mesma, e não para a orgia do consumo de nossa civilização industrial global, que se tornou insustentável, a ponto de precisar de seis planetas iguais à terra, caso todos os povos fossem consumir nos mesmos padrões do europeu e norte-americano.

No sítio Rincão Gaia, seu corpo enrolado em pano de algodão, foi colocado diretamente em um buraco feito na terra, como ele queria. Assim pode voltar rapidamente ao seio do organismo Gaia, de onde veio. No momento da entrega de seu corpo à terra, caiu uma tempestade violenta, tornando mágico o momento para cerca de 200 pessoas presentes.

Era a natureza se manifestando, para receber o velho Lutz. Assim como também em forte chuva saudou a passagem do espírito de Mozart, que em seu leito de enfermo ainda há pouco compusera para si mesmo um réquiem imortal. Assim como de um modo ou outro os elementos saúdam e agradecem a vida fecunda e dinâmica dos grandes seres que vêm para melhorar este hotel do tempo.

À sombra de um umbuzeiro, árvore símbolo da resistência da vida, que mesmo ferida refaz a si mesma, ainda reverbera sua energia solidária e fraterna do gaúcho, de família alemã, que assim viveu e trabalhou - para que a vida possa continuar.    


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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:51 PM

Memórias de um Vampiro

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Há uma solidão dos criminosos e assassinos, que pode ser a mesma de artistas e intelectuais. Daí existirem, na realidade como na arte, pessoas que cometem crimes bárbaros, como atos de terrorismo, seqüestro, tortura e morte de pessoas, em nome de Deus, da pátria, da liberdade. Outros fazem porque sofrem a terrível solidão de não serem ou de não se sentirem amados
 
                 
O personagem do romance A Confissão, de Flavio Carneiro, lembra em muito Raskolnikov, personagem de Crime e Castigo, bem como o narrador de Memórias de Um Homem do Subsolo, de F. Dostoiévski. Como Raskolnikov, o estudante assassino de Crime e Castigo, o personagem de A Confissão parece sofrer de um “excesso de consciência”, se é que a consciência possa ser excessiva. Mas sabemos: crimes coletivos como guerras de extermínio, holocausto e genocídio são cometidos em nome da boa consciência.
                       
O personagem sem nome de Flavio Carneiro é um homem do subsolo (embora seja adepto de freqüentar bibliotecas, mas por motivos pouco nobres). É um vampiro em busca de do sentido da vida através da subjugação e exercício de poder como instrumentos de prazer. Como Raskolnikov, e alguém que, em nome da sobrevivência dele mesmo, se coloca acima da moral e das leis. Os dois surgem como grandes ressentidos sociais. São protótipos da criatura humana que não consegue nem quer fazer nada, mas nutre ódio mortal pelos que fazem e conseguem atingir seus objetivos.
                       
Raskolnikov comete duplo assassinato. O personagem sem nome de Flavio perpetra um seqüestro. Sua narração é labiríntica, em que o aparente desfecho é abertura para outra história de um outsider (estrangeiro em si mesmo) buscando entender ou justificar seu ato criminoso.  Se Raskolnikov, dilacerado por idéias e ideais de viver em uma sociedade perfeita, de onde os fracos e os incapazes são alijados (vistos como aleijados), o personagem de Flavio vive de livros, ou melhor, de roubá-los. Ou seja: freqüenta bibliotecas não para enriquecer os miolos, mas para tirar a Biafra da barriga. Vende o miolo dos livros (com capa e tudo) para comprar o miolo do pão. Sua história configura a metáfora da violência gratuita como expressão de ressentimento social.  
                       
O homem do subsolo pode ser o ressentido impotente, que em seu diário, faz um relato de seu ódio e fracasso. O homem que seqüestra a madame para obrigá-la a escutar a história de sua vida, feita só de miséria, não quer apenas falar de si. Antes, deseja que ela também fale. Só assim pode ser espelho através do qual ele mesmo pode se ver. À vítima cabe dar uma escuta forçada ou constrangida, porque não escolhida. O seqüestrador quer mostrar à mulher que tem um Si-Mesmo, é uma pessoa, não um fantasma humano, rato famélico, que tem de fuçar lixeiras para não morrer de fome. Ou que, para almoçar, tem que vender algum livro que roubou no dia anterior, ou no mesmo dia. O faminto fanático por cardápios de restaurantes e nucas de mulheres. O medo que sente da vida é o medo que impõe às suas vítimas.
                       
Em uma alquimia delituosa, faz a arte da literatura se transformar em comida de sobrevivência. Muitos escritores também tiveram que passar por isto: vender o miolo da cabeça para roubar o miolo do pão. Lima Barreto passou fome. Em seu diário íntimo, registra: “Uma semana sem comer carne. Hoje comi uma empadinha. Que felicidade!”. Como Julien Sorel, o seqüestrador de A Confissão é o homem desafortunado e infeliz, em guerra com a sociedade. Raskolnikov mata a velha agiota e sua empregada em nome do ideal de uma sociedade culta e socialista. O personagem de A Confissão seqüestra para ser escutado. Ele comete o crime julgando-se com todo o direito de perpetrá-lo, uma vez que vive em uma sociedade que tudo perdoa, menos o fracasso.
                        
A fala-monólogo de A Confissão busca colocar no mesmo balaio a culpa de vítimas e perpetradores, uma vez que tudo está conectado, tudo vive em relação, como o personagem mesmo alega, na tentativa de explicar ou defender o seu ato. Sua vida e suas idéias guardam estreita relação com o
flaneur de Baudelaire – para não falar com o homem do subterrâneo, de Dostoiévski: “Andar a esmo pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria, eu me sentia bem ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes, às vezes pelo simples prazer físico de andar até os músculos doerem...”.
                       
“ (...) meu prazer maior, no entanto, ainda não disse, era ler cardápios de restaurantes”. Isto faz lembrar a crônica “Os olhos dos pobres”, de Charles Baudelaire, em seu
Pequenos Poemas em Prosa. Nela vemos que os olhos dos pobres, postos nos que comem, fazem com que estes, comensais, se sintam em profunda culpa, e até percam o apetite. São olhos acusadores. Em A Confissão, temos a gentileza de um seqüestrador que é ladrão e leitor de livros. Em solidão e miséria na cidade grande, comete um crime para ter um ouvido à mercê de sua fala caudalosa. Alguém por quem se apaixonou, não pela beleza, mas pelo refinamento social.
                       
Este é um criminoso que se permite querer ter modos e sentimentos delicados. Preocupa-se com a dor que deve estar sentindo o marido da mulher que seqüestrou. Afinal, ela tem família, filhos. Ele, o seqüestrador, tem palavras de alguém de gosto refinado – ao menos até a transformação que o levou a cometer o seqüestro: o momento epifânico em que se soube capaz de degustar um bom vinho, sentindo sua qualidade no paladar que ele achava que não possuía. Delicado, porém precavido: toma todos os cuidados para que sua vítima não possa fugir. Elas, em vez de se debaterem ou buscar uma fuga, ou ao menos gritar por socorro, parecem sucumbir à sua lábia, talvez possuídas pela síndrome de Estocolmo.
                       
Ele é um vampiro de sensações, emoções e sentimentos, e não quer apenas falar – também quer escutar sua vítima. Em sua fala, o homem fala do prazer que tem em estar em uma sala de cinema, como que devolvido ao útero, à proteção da caverna. Relata o horror que sente, terminada a sessão, em sair de novo à realidade, tendo de “conviver com gente de verdade, com carros, ruas desertas, mansões, madrugada, seqüestros”. Mesmo sendo uma pessoa que não vende seu tempo para ninguém, já que é desempregado crônico e opcional, não quer perder tempo... sabe o valor do tempo. E quem conhece o valor do tempo também sabe o valor do silêncio.
                       
O faminto vê como carrasco o churrasqueiro, a brandir seu enorme espeto de carnes sanguinolentas. Ver isto lhe dói como um soco no estômago. Como no poema “As bocas do tempo”, de
Brasigóis Felício: “Cronos nos come em tudo o que comemos/ comemos tempo a role/ com farinha e azeite dendê/ em tempo de roer e de ser corroídos/ o consumidor é consumido/ Quando a barriga ronca, e dana a gemer/ é Cronos querendo comer/ Comer carnes e legumes/ devorar usos e costumes. / Comemos porque sofremos/ou quando estamos infelizes/ Afinal, é preciso arrancar da precisão/a Biafra de não nos sentirmos vivos ”.
                       
O personagem fala de sua ojeriza ao trabalho. Define o fato como opção filosófica. Ele vê com desprezo as pessoas que vendem as horas de seu tempo para ganhar dinheiro. Ele mesmo só faz isto quando está nas últimas. Prefere viver de bicos, como quem aceita e prefere existir em eterno risco. Em verdade, — defende-se — tinha uma certa ética em seu “trabalho”. Não se considera um ladrão, no sentido comum da palavra, mas apenas alguém que, em nome da extrema necessidade, contribui para que os livros mudem de endereço. O que pode ser uma vantagem para eles, os livros, pois que, sendo postos a circular, podem encontrar novos leitores, indo parar em sebos nauseabundos. Só assim podem sair da solidão das bibliotecas de luxo, onde ninguém vai.
                       
Meticuloso, em seu ofício, o personagem mantinha uma caderneta, onde anotava os lugares de onde surrupiava os exemplares – assim fazendo certa justiça em seu ofício de transferidor de livros. A tristeza que sentiu ao constatar que não era um somellier, um enólogo, capaz de reconhecer a cepa de um vinho, saber até mesmo ano de safra e o lugar e temperatura onde foi colhido. Como
Lima Barreto, que em sua fome crônica, enfrentando o preconceito, certo dia desabafou: “É triste não ser branco!”, ele também poderia ter dito: “É triste não ter bom gosto!”.  Naquela noite, diz à seqüestrada “tive a constatação cruel, de que não tinha paladar, de que estava fadado a gostar para sempre de vinhos vagabundos, servidos em canecas engorduradas. Por isto bebia com raiva”. Como certos ricos que, por mais dinheiro que juntem, jamais terão refinamento e classe – ao dirigir seus automóveis de luxo, sempre serão vistos como motoristas.
                       
Agnes, aficcionada pelo vampirismo, entrega-se a ele, mesmo sabendo que será a próxima vítima. Assim se faz cúmplice do homicídio que irá sofrer. Do ressentimento como motivação de atos criminosos: Fala o seqüestrador: “Desnecessário dizer que nutria uma profunda, total, insuportável inveja de quem tinha aquilo que eu jamais conseguiria ter... invejava com todas as minhas forças as pessoas que sabiam saborear vinhos finos...”. Vemos, aí, o fator inveja como gerador de feroz ressentimento (pg.9). Logo adiante, á pg. 18, de novo a coincidência com o conteúdo da crônica “Os olhos dos pobres”, de Baudelaire. O personagem se vê de fora do restaurante, vendo os felizes apaniguados da sorte, a se empanturrarem, lá dentro, sob o conforto do ar refrigerado.
                       
É mais que sabido: os olhos dos ricos são seletivos, fazem de tudo para não enxergar o mundo deplorável dos sem-tudo. Passam por eles e não vêem, quando são abordados, nos semáforos, fecham os vidros, negam até responder aos pedidos, é como se fossem invisíveis as pessoas que as abordam. E são, mesmo. Como ficou provado em uma tese de doutorado, sobre a invisibilidade das pessoas que desempenham trabalhos humildes. Um servidor de uma universidade, conhecido por todos, fez uma experiência.

Passou a circular pelos corredores da instituição com uniforme de zelador. Embora muito conhecido como varredor de lixo nunca mais foi visto. Tornou-se invisível: “Nós nos olhamos por segundos, segundos apenas, e a senhora certamente não reparou no meu olhar de súplica, certamente nem notou, olhou simplesmente como se olha uma mancha na parede, um gato na calçada, uma bicicleta atravessando a rua, e depois esquece que viu a rachadura, a bicicleta, voltando a fazer o que fazia antes, sem se lembrar de nenhum registro do que viu”.
                       
O narrador/personagem quer, através dos menores gestos, adentrar o pensamento e sentimentos da mulher que mantém prisioneira. Vive no engano de pensar que o pensamento é o único instrumento capaz de veicular a verdade: “Eu queria saber o que a senhora estava pensando naquele momento ou, mais ainda, o que estava sentindo depois de ter depositado o copo sobre a mesa, de ter bebido o vinho; eu queria muito uma coisa, a senhora já quis muito uma coisa, muito mesmo, uma coisa?”. Eis um trecho de sua fala a revelar o quanto é impositiva a ditadura do querer, e o sofrimento inútil do querer muito, do muito desejar ter ou realizar alguma coisa: a decepção, quando a coisa chega, (ou se nem chega|) é inevitável. Assim como no mito da medusa, assim que um desejo é alcançado, logo outro se levanta, coercitivo, ditatorial... 
                       
Nas frases seguintes, novamente a questão do tempo é colocada – sua efemeridade e urgência, uma vez sabendo que o tempo nos salva ou nos mata: “Então vai me compreender, eu queria muito uma coisa, e logo a senhora desviou o seu olhar e voltou a segurar a taça, e a levou outra vez aos lábios, bebendo no máximo um gole de vinho, sem pressa, lentamente, como se o tempo não fosse precioso, como se nem existisse o tempo. Neste momento falei baixinho: me ensina, por favor!”.

Aí vai colocada a solidão e a exclusão dos estrangeiros, dos exilados de sua pátria e da felicidade, bem como a dos miseráveis, que têm de se contentar com a humildade de tirar retratos ao lado dos políticos. Como nos diz o poeta
José Godoy Garcia: “A humildade da prostituta que vai ao cinema, senta-se ao lado da mocinha, e se sente imunda”. Ou, tamanha é a solidão humana, que vem nos dizer o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Chega um tempo em que não se diz mais/ meu Deus/ tempo de absoluta depuração./ Chega um tempo em que não se diz mais: meu amor/ porque o amor resultou inútil./ E os olhos não choram/ as mãos tecem apenas o rude trabalho/ o coração está seco”.
                       
Vemos, à página 20 de A Confissão, espécie de epifania a brotar da mente do personagem, em prece-pedido para ser ensinado a ter classe. Mas é uma prece tímida, envergonhada, uma vez que confessa à mulher seqüestrada: “Ninguém ouviu, mas nem por isto deixou de ser uma prece, que nunca mais repeti, em momento algum, para ninguém, nem para mim, foi só aquela vez”. A fala agônica, quase sem respiro, como de alguém tem de desabafar, e o faz com agonia, temendo nunca mais ser capaz de fazê-lo. Neste momento epifânico da prosa do personagem de Flavio Carneiro vemos a raiva reprimida do ressentido social a transformar-se em êxtase e submissão à elegância e classe da mulher. Em ato falho, aponta para o ressentimento que nega, pois o vê como um sentimento inferior: “Não, foi simplesmente uma verdade que atravessou o meu futuro”.
                       
Sim, não há como negar: há verdades e revelações que atravessam o futuro, podendo inclusive transformar nossa compreensão do passado. E a verdade que atravessou o futuro do personagem, a partir de seu presente conflitado, é esta: “Um dia vou matar essa mulher”. Aqui vemos respingos de um niilista, um revoltado, excluído social, do tipo Raskolnikov – assassino real ou em potencial, capaz de racionalizar, e até de tornar romântico e libertário o seu gesto insano. Gesto desesperado e visceral, de alguém que se acha com direito a aprisionar ou matar pessoas que considere inúteis ou imprestáveis à sociedade. Seqüestrar e matar, em nome de um ideal, uma crença, uma paixão – eis o direito que a si mesmo concede o revoltado, o fanático, o revolucionário radical.
                       
Em lugar da raiva, a idolatria, a revelar o quanto as emoções podem misturar-se, serem filhas e irmãs umas das outras. Não há nada mais perto do amor de apego, do amor equivocado, do que o ódio. “Quem sou eu para me julgar:” – eis a pergunta que se faz o seqüestrador, que assim se coloca acima de todo julgamento – acima das leis, portanto. Em sua visão, se ninguém pode julgar ninguém, todo ato é lícito, por mais bárbaro ou insano que seja. Um sentimento de solidão ou onipotência a ecoar a frase impactante deNietzsche: “Depois que Deus morreu tudo é permitido!”. 
                       
O outsider cujo prazer é confessar-se e falar de seu vício apropria-se das emoções e sensações de suas vítimas. Em sua inconsistência de Ser, julga poder tornar-se inteiro (ou ele-mesmo) apropriando-se do requinte e do refinamento das mulheres que aprisiona em sua teia. A fala do seqüestrador é um elogio ao poder das sensações (sensacionismo). Exalta momentos de sensação pura: “Então precisava ser algo muito importante o que me fazia apagar do pensamento todas essas coisas desagradáveis, para dizer o mínimo, e eu não queria admitir que esse algo eram dois centímetros de uma mulher que eu jamais vira antes”. Para o fetichista, ou o sensacionista, a coisa, objeto ou corpo que move e alucina e move o seu desejo até a loucura é a coisa mais importante deste mundo. Nada pode superar o frenesi que tal visão (ou alucinação) provoca: “Aqueles dois centímetros”, para o fetichista, podem se tornar mais vastos que toda a Cordilheira dos Andes, ou ser mais alto do que os Himalaias, mais extensa do que os Canyons dos Estados Unidos...
                       
Na página 22: “Sua naturalidade me comoveu; me comoveu tanto que cheguei a sentir uma ternura imensa, como nunca sentira antes”. A ternura antes da violência... estranha mistura, a lembrar, de maneira invertida, os versos de
Mario Faustino: “Não conseguiu firmar o nobre pacto/entre a dor do mundo e a alma pura/tanta violência, mas tanta ternura/”. A questão trágica, em que se debate o nosso tempo trágico e tecnocrático é a reprodução endêmica da violência, sem um mínimo de ternura que venha a tornar humanas as cidades, suas casas e ruas.
                       
“Talvez o ato de escovar os dentes me desse a ilusão de ter jantado” (pg. 24). Imagem que remete a lembrança à imagem de Carlitos, em um filme de Chaplin: lambendo os cadarços e os pregos de uma bota, como se fossem espinhas de peixe. No mesmo filme, ele, o eterno gauche, imagina uma gigantesca galinha, que ele e o outro faminto tentam agarrar em vão. Também em A Confissão, temos a cena patética doauto-engano: mas o escovar os dentes (com muita pasta) para anestesiar o estômago, e ter a ilusão de ter jantado, não abafa nem esconde os roncos da Biafra da barriga vazia de pão e de esperança.
                       
É certo que neste mundo cão, em que o homem se transformou em lobo do próprio homem, como em uma fotografia famosa, de um abutre a esperar que um menino africano morra, para fazer dele seu almoço, os humanos não têm a mesma consideração: não esperam que as pessoas morram, para começar a devorá-las. Hoje se tornou ato totalmente normal, comer pessoas vivas, com vísceras e tripas (ou dividi-las em muitos pedaços,
como o assassino esquartejador Mohammed de Goiânia). Não antes de devorar suas almas, que são a primeira vitalidade a ser consumida. O “não gostar de viajar de graça”, aludido á pg. 24, sinaliza o outsider (estrangeiro em sua casa ou pátria), a tentar preservar um mínimo de dignidade e auto-estima.
                       
Nos começos do capítulo o protagonista se revela flaneur, dandi sem dinheiro, sem lenço e sem documento: “o sol nas bancas de revistas/ me enche de alegria e preguiça/ quem lê tanta notícia.../”. Assim vai o flaneur, pelas ruas da cidade, “nada no bolso ou nas mãos”, como na canção de Caetano Veloso. “Andar à toa pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria. Eu me sentia bem, ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes.../”. O simples prazer mental e físico de andar pelas ruas até os músculos doerem é atitude típica do flaneur, vagamundo requintado e pobre, nas ruas trepidantes da metrópole. 

E enquanto anda, vai sabendo de notícias repetidas, a lembrar a vertigem e o absurdo de um mundo que se despedaça. De fato, há notícias demais na aldeia global, vidas de todas as mídias, e todas parecidas ou repetidas. Assim, se uma pessoa quiser economizar tempo, basta saber de uma para ver que já sabe de todas. Segue o protagonista: “Depois de chegar no meu quarto, na pensão, tirar a calça e sapatos no chão, colocar os pés para cima, encostados na parede, e ficar deitado, olhando o teto, sem fazer nada, sentindo o pequeno conforto de estar vivo”. Aqui temos o vivente urbanóide que se contenta com o mínimo essencial á sobrevivência. Sendo um misantropo ou AS (anti-social), diz que evitava as pessoas, como se fosse um bicho do mato. Em sua busca para recuperar um tempo que não foi vivido (portanto, não pode ser perdido) ele segue nos trilhos do conhecido – como todas as outras pessoas, faz um esforço inútil e absurdo, como o cachorro a tentar abocanhar o próprio rabo.

Ele sabe, no entanto, que “As coisas estão interligadas, sabemos disto, não sabemos?” (Pg. 36). Assim, só revendo o antes do antes podemos reconhecer o que veio depois, mas que veio de muita coisa mais – que o devir, quando vem, já é presente, e não mais mera miragem da mente. Estranha teoria do seqüestrador: “Se alguém morre, todos, os vivos, e os que já morreram, têm uma parcela de culpa naquela morte”. E como, em seu entender, todos são culpados por tudo de ruim que acontece no mundo, não há inocência em nenhuma parte da terra habitada pelo Homem. Com este raciocínio, o seqüestrador transfere à mulher a culpa pelo crime de que é vítima.

Em sua autodefesa, alega não existirem motivos para o temerem, como se diz que devemos temer o Homem de um livro só. Ele é homem de muitos livros, portanto, tão inocente e sem periculosidade quanto as pessoas de livro nenhum. Pois se o perigo destes é a ignorância, perigosos, de fato, são os que se tornam fanáticos do único livro que adoram! Ele, no entanto, diz pertencer a outra galeria: a do homem de muitos livros, mas estes não o pertencem, nem por eles é pertencido. Sua relação com os livros que rouba é de total desapego, pois sabe que “o futuro é só desvios”. Ele parece saber do princípio da incerteza – talvez tenha lido um aforismo de Heráclito, para quem nesta vida tudo muda, só a mudança não muda.

Mede o valor de um livro que rouba pelo número de refeições (ou dias de aluguel) que pode pagar. E parece não estar distante de preocupações éticas: roubar dinheiro que está dentro de um livro raro é pior do que roubar o próprio livro, deixando o dinheiro dentro de uma obra medíocre? Ao menos este seria um roubo ético, e culturalmente correto... em sinal de reverência e respeito à literatura é que o fez hesitar em roubar não só o dinheiro, mas também o livro raro, em que estava escondido. O personagem adota a estratégia do pânico: imaginar o pior que lhe aconteceria o que de pior pode acontecer a uma pessoa – assim, se escapasse do que imaginara, já estaria no lucro.

Em seguida, fala dos medos mais comuns, reais ou imaginados, que a mente humana cria, em seu vício de construir o inferno interior em que quase todos vivem. A transformação crucial por que passa dá-se quando sente a alegria de se descobrir um ser dotado de paladar capaz de sentir o valor das comidas e bebidas requintadas. O êxtase de ter dinheiro no bolso, (coisa que não sentem os que sempre o têm com fartura – Pg. 51): “Era como se eu tivesse deixado a lata de lixo de um passado que de modo algum me agradava, como se a pensão, a fome, o dono do sebo, o velho meu vizinho e todas as aporrinhações do mundo fizessem agora parte da vida de outra pessoa”. 

Mais adiante, intrigado sobre a circunstância misteriosa da morte de Emma, admite ter consigo uma força mortal e mortífera, que leva as pessoas à morte, tão logo tenham com ele uma relação íntima: “Mas, raciocine comigo: se Agnes sabia de tudo, sabia também que ter uma relação sexual comigo significava a sua morte”. Aqui fala o que se sabe vampiro da energia anímica das pessoas com quem se relaciona: “(...) não sabia o que havia acontecido entre mim e Emma, de onde viera aquela minha capacidade, vá lá, de sugar de uma mulher o que ela possuía de mais valioso para mim”. Vampiro consciente de sua força destrutiva, suga das mulheres por quem se apaixona, suga o que há de mais precioso para si: a energia da vida, que no entanto não sabe cultivar nem conservar.  

Seu engano é supor que possa se encontrar a partir de seu desencontro essencial. Não alcançará a unidade por meio da fragmentação de sua mente atormentada. Sendo interiormente um tumulto incoerente, não reidrata sua alma mumificada ao vampirizar suas vítimas. A morte que a que as destina não lhe devolve a vida que já não vibra em si. No final de seu longo monólogo o outsider (estrangeiro em si mesmo) desiste de ser ou parecer herói. Percebe a inutilidade e mesmo a impossibilidade disto. Volta a aceitar-se como homem comum e sem hábitos requintados. O que equivale a dizer que renuncia a idealizar e romantizar a vida, até as raias do delírio e da loucura. Renuncia à ansiedade que o fazia querer alguém que não ele mesmo. Ao fazê-lo, renuncia também ao medo, que sabe ser o caos em si – inferno atualizado. Como o Coringa, do filme Batman, poderia dizer: “O que não nos mata nos torna estranhos”. 


 

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POR EM 01/12/2008 ÀS 07:10 PM

Nossos demônios no escaninho

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"Na verdade, a única coisa errada com o mundo é o Homem". (C.G. Jung). Difícil apontar o que no ser humano mais o aniquila: se o seu medo da morte, ou o seu medo da vida. Do mesmo modo, não é fácil saber qual dos dois movimentos é o mais destrutivo. O que deixa as pessoas tão cheias de medo são os monstros que elas próprias inventam, sustentam e depois rejeitam, como se nada tivessem a ver com  elas. Quanto mais negam, rejeitam e projetam os demônios de sua invenção, mais terrível será o inferno em que vivem - e mais em personas pérfidas e sinistras se tornarão.  

A projeção da sombra (o atribuir a outrem sentimentos e emoções desagradáveis ou inferiores, que nos pertencem) é o recurso do método adotado de modo automático, por todos os povos ditos civilizados. C.G. Jung considera ser natural que a pessoa queira se libertar dessa inferioridade: ela quer saltar sobre a própria sombra. "A maneira mais direta de fazê-lo é colocar tudo o que seja escuro, inferior e palpável nos outros".
          
A sombra que rejeitamos em nós é projetada na direção de pessoas, grupos étnicos e religiosos, ideologias e preferências sexuais. A negação da sombra assinala o limite máximo de realidade que podemos suportar. Para T.S. Eliot, insuspeito poeta, "A humanidade não agüenta muita realidade". Dito de outro modo: a mente humana não suporta encarar a sua própria sombra. E, à medida em que a nega, mais a fortalece. Ao trancar seus monstros interiores no escaninho, transforma-os em Franksteins terríveis e mortíferos.

Wilhelm Reich pergunta por que quase ninguém conhece os nomes dos verdadeiros benfeitores da humanidade, enquanto "qualquer criança conhece os nomes dos generais e da praga política". Para ele, a resposta para a questão de haverem mais estátuas em homenagem a heróis guerreiros do que para lembrar os feitos dos heróis da paz está em que "As ciências da natureza estão constantemente introduzindo na consciência do homem que ele é, fundamentalmente, um verme no universo. O arauto da praga política está constantemente repisando o fato de que o homem não é um animal, mas sim um "zoom politikon", ou seja, um não-animal, um defensor dos valores, um ser moral.
           
"Ah! Quantos males foram perpetrados pela filosofia platônica do Estado! Está bastante claro o motivo pelo qual o Homem se interessa mais pelos políticos do que pelos cientistas da natureza: o homem não quer que lhe recordem o fato de que ele é, fundamentalmente, um animal sexual. Ele não quer ser um animal", assinala W. Reich. O recurso automático de quem não quer assumir sua sombra é projetá-la sobres outros - reforcemos tal verdade. Daí o perigo que representam os puritanos e os moralistas fanáticos. Quanto mais reprimidos, mais devassos e cínicos se tornam.

O bode expiatório é a encarnação da estratégia humana de projeção da inferioridade ou fissura psíquica ou moral que não quer admitir em si mesmo. Nós projetamos para que outros sejam responsabilizados por nossos pensamentos perversos, transformados em atos amorais e hediondos. Assim, quando um bandido ou criminoso é apanhado pela polícia, muitos respiram, aliviados pelo fato de que escaparam por enquanto.

O analista junguiano Edward C. Whitmont enfatiza que, se quisermos enfrentar o desafio do mal no mundo, precisamos assumir nossas responsabilidades em termos individuais: "Precisamos reconhecer a objetividade arquetípica do mal  como um aspecto terrível, dotado de força sagrada, que inclui a destruição e o apodrecimento, e não só o crescimento e a maturação. Então poderemos nos relacionar com nossos semelhantes como vítimas, tanto quanto nós, e não como nossos bodes expiatórios".
          
O bode expiatório existe (ou é criado) para que possa expiar as culpas e pecados da sociedade, de uma pessoa que se oculta, ou de nós próprios. Assim, o outro será sempre o culpado por tudo de ruim e nefasto que nos acontece. Exemplo simbólico de tal mecanismo infantil (presente até mesmo entre crianças) é a folclórica malhação do Judas. Erich Neumann sintetizou a visão junguiana da sombra que negamos: "A sombra é o outro lado. É a expressão da minha própria imperfeição e da minha natureza terrena: o negativo que é incompatível com os valores absolutos, ou seja, o horror da passagem da vida e do conhecimento da morte".

Enquanto existir alguém que possa ser culpado pelos pecados da tribo ou de um indivíduo, é certo que não faltarão escribas e fariseus, sepulcros caiados da hipocrisia religiosa, a apontar o dedo acusatório. Assim o pecador que se esconde de sua sombra estará a salvo. No mais das vezes, os que acusam e inventam culpados para as desgraças coletivas ou individuais estão a ocupar altos cargos na política, tornando-se senhores das guerras (vide o patético terrorista de Estado, senhor da guerra e da morte chamado Bush). 


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POR EM 24/11/2008 ÀS 09:53 PM

Itinerário da cegueira

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Há uma cegueira que enxerga. Oftalmo nenhum pode curá-la, pois tal enfermidade é de natureza psíquica. E cresce em proporções de pandemia. Por vezes assume a forma de consumismo compulsivo, voragem famélica pantagruélica que leva ao impulso ceco de comprar, adquirir, acumular tudo: coisas de que não se precisa, personas/pessoas para consumo rápido e descarte idem. Criaturas humanas acometidas por tal deformação adquirida (com o tempo torna-se congênita, e assim as novas gerações já nascem cronicamente inviáveis.  

Tal como no ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a cegueira branca que enxerga é coletiva, com imenso poder de contágio: leva suas vítimas a se arrostarem como vencedores e bem sucedidos, sendo em verdade vencidos, por conseguirem a façanha de viver de modo contrário às leis naturais. Assim, de tanto viver contra o princípio da realidade, tornam-se personas o tempo todo mascaradas, assumindo a couraça muscular do caráter, que as transforma em pessoas irreais.    

"Tudo é uma ponta do mistério. Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo". (João Guimarães Rosa). Manoel Trás-os-montes, amanheceu vendo tudo noturno, como é da lei de quem, habituado a enxergar no escuro, amanhece vendo o nada - o mar leitoso, de infernal brancura, o que é diferente da cegueira que costumam ter os outros cegos da cidade - os que têm vistas capazes de ver tudo, mas não percebem sequer um lampejo do que vem de ser a real verdade da vida.  

Cego entre cegos, no átimo de um instante fugaz passou a ser discriminado, por estar mais cego do que os outros cegos (que são todos) da cidade. Cego total, imensamente imerso nas trevas, podia enxergar a matéria da memória, ou o que sua imaginação, a vida anterior, e o rio de pensamentos lhe sugeriam, ao passo que os cegos condutores de cegos, apopléticos de tanto ter e buscar o Ter e o poder a qualquer custo, são a própria escuridão da alma, exilada de seu centro.
            
Como vive um cego, a não ser tentando segurar o vácuo do nada escuro e insondável, em que se encontra exilado? O que é um espelho, senão a superfície mágica, a refletir a face visível da irrealidade? Quem É, e com que nome pode ser chamado Aquele que ama sem apego, e não conhece o sentimento do medo? Quem é o monstro que encaramos no espelho, às horas mortas da noite, quando ronda a sombra insone da nossa alma? Quando alguém morria, nossos antigos viravam os espelhos contra a parede, por entender que através deles o tempo muda de direção e velocidade. Ou talvez porque os espelhos sejam torres do silêncio, e através deles podemos acessar eternidades.
 
O tempo, em muitos trechos, é sempre tranquilo, escreveu Guimarães Rosa. E eu acrescento: nós é que nos agitamos, feito palhaços tragicômicos. Por nove meses, no cosmo do corpo, viajamos, como argonautas do nada. Vagindo e chorando chegamos ao porto da vida, como sabendo os sofrimentos que nos esperam, neste palco de tolos.  Mais mascarado que um farricoco é quem se finge de vivo, estando morto. Superou os limites do homem não quem desconheceu o sentimento do medo, mas quem o enfrentou, e o venceu.   
 
"Não podemos viver sem sermos maus. A maldade é o pólo oposto da bondade. Uma não pode existir sem que a outra existe. Somos bons porque somos maus. Se os bons são vítimas inermes da maldade, não é porque a bondade não tem potência. O mal sempre triunfa onde os bons não aprendem a ser astutos como as serpentes. "Como Satã antes da Queda, os que são maus por natureza aprenderam a odiar a própria natureza da bondade". (Josephine Hart).  
                                                           
 


                                 

Não sei dizer de qual fraqueza veio nascer minha maldade. Em que flanco do Ser fui tão ferido que me vi fadado a viver armado, em meio ao medo de invisíveis perigos? Bem sei que minha maldade existe, e me acompanha como sombra, ou lençol de escuridão acesa. Em perpetrar pequenas maldades, nos fazemos operários das sombras do mal. E o fazemos fingindo inocência, mas com astúcia de peçonhentas serpentes. E assim vamos sugando as almas de quem se entrega à nossa velha avidez.  

Não é meu intento garatujar, nestes cadernos mofados, uma teoria da maldade. Talvez só consiga, em nesgas de nuvens de amargas ou picarescas lembranças, provar a mim mesmo que, em perfídias cotidianas no seio imaculado da as(n)grada família, fazemos acordos secretos com os demônios, que em sua escuridão de ser, oram por nós, e nos vigiam, para que não venhamos a nos perder nos caminhos da hipocrisia sacripanta.

Todos vivemos, trabalhamos, fazemos sexo, vamos aos templos, às convenções de caridade, buscamos os bares e estádios, para esquecer ou nos dis-trair da infelicidade crônica - e sempre estamos usando nossas máscaras cotidianas. Vivemos em sociedades de mascarados, somos atores de uma tragicomédia bufa em que todos desempenham seus papéis. No palco de todos da vida passamos os dias a oprimir e sufocar uns aos outros, a pretexto de amá-los e protegê-los.  

De todas as solidões que nos angustiam, a mais terrível é a sensação de não pertencimento, ou a certeza de que não pertencemos a ninguém, e pior ainda: não pertencemos a nós mesmos. Tal exílio é sem retorno. E dói, como ferida viva, ou como um dente cujo nervo se encontra exposto. Clarice Lispector foi uma dessas criaturas exiladas desde a infância, em sua própria solidão. Era misteriosa e simples, como as coisas essenciais.

Dizia que somos todos mascarados. E a máscara que usamos é o disfarce da imagem auto-idealizada, que construímos como forma de evitar a infelicidade. Não há como separar a máscara que escolhemos usar, como estratégia de sobrevivência, e o Eu Idealizado - eles são uma só e a mesma coisa,  destinada a fingir que somos o que não chegamos a ser. Mas esqueci de acrescentar que não é fácil escolher as máscaras que usamos, e os papéis que desempenhamos.  

Quase sempre permitimos que outros façam isto por nós, e assim fazendo moldem o nosso rosto para o mundo. Clarice Lispector reconhecia: "Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa É".  

Viver usando máscaras destrói a uns, enquanto a outros propicia sucesso nos negócios, no amor, na vida em família e em sociedade. Conta-se que certo dia o rosto de um rapaz deu defeito, e ele levou na oficina mecânica, para consertar. Para não sair pelas ruas sem cabeça, o homem deu-lhe uma máscara. A partir disto, sua vida foi um sucesso. Recebeu e aceitou propostas milionárias, foi eleito senador, ganhou muito dinheiro, passou a atrair as mais belas beldades, sempre desfrutando de alto conceito e prestígio "na melhor sociedade". Passado o tempo estipulado, recebeu o telefonema do mecânico, que o concitou a ir buscar seu rosto verdadeiro, devolvendo a máscara que estava a suar. Negativo. O homem bem sucedido preferiu passar o resto de sua vida como um sucesso mascarado.           

Em que profundezas da noite da alma nasceram, no tempo dos assassinos, os demônios da maldade? Em que insondáveis sofrimentos vão buscar sua crueldade os assassinos da inocência? "Não temais o mal". Assim falou Quem nos ensinou o Amor.  Mas como não temer a sombra da maldade, a crescer como praga em nossa natureza infernal? P.S. A pior cegueira é aquela, branca e estranha, que nem José Saramago viu, em seu ensaio sobre a ilucidez de Ser que se abate sobre uma cidade: a que faz as pessoas enxergarem sem ver. A mesma de que ele demonstra padecer, em seu esquerdismo infantil, que o faz ver o paraíso perdido em seu ideal dogmático de sociedade perfeita, que para ele é o comunismo que vê no indivíduo e na diferença inimigos a serem assassinados.


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