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Brasigois Felício

POR EM 05/06/2009 ÀS 07:12 PM

A alma das ruas

publicado em

As ruas são seres vivos, escreveu o cronista e flaneur João do Rio: “Oh! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas covardes, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pingo de sangue... vede a rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras à mais leve sombra de perigo. Esse beco, inferno da posse, da vaidade, da inveja, tem a especialidade da bravata”. As ruas pensam, têm ideias, preconceitos, filosofia, religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livre-pensadoras, e até ruas ateias, despudoradas materialistas, completamente despidas de qualquer ranço de religiosidade. “Qual de vós já passou a noite em claro, ouvindo o segredo de cada rua”?

Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, os vícios e as ideias de cada bairro? A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias; há trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida, corrida – são ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem crescer, clamam e, em breve, são outros passos em nosso encalço. Outras se envolvem no mistério logo que as sombras descem sobre o Paço. Oh! Sim, as ruas têm alma. Vede a rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras  à mais leve sombra de perigo. Esse beco, inferno de pose, de vaidade, tem a especialidade da bravata”, revela o autor de “A alma Encantadora das ruas”.

Se é verdade que as ruas têm alma, coração e sentimentos, como as pessoas, e os demais animais, isentos da crueldade, (que é vício e traço dominante do bicho homem), as vias públicas também gozam, reprimem e são reprimidas e, quando ninguém observa, também gozam e excretam. As vias públicas têm seus momentos de anarquia e civismo, de coragem e covardia, de aberta prostibulência, ou disfarçado dandysmo. As ruas têm boa ou má fama, conforme o poder aquisitivo (ou de mando) que têm seus moradores. Ruas há que vão de retro, toda vez que veem o satanás; mas a maioria das ruas (centrais, ou as suburbanas metidas a besta), convidam o “coisa-ruim” para uma esbórnia em regra, onde tudo é permitido, até convidar a humanidade para o enterro de Deus.

Há as ruas de má fama, em que as madames deslumbradas e as mocinhas casadoiras trafegam fazendo muxoxo, ou fechando os olhos, para não serem contaminadas pelas doenças venéreas (que também podem ser aéreas): como vingança, as mulheres das “casas de luz vermelha” esgoelam, quase peladas: “nem te ligo, moça dadeira!”. Mas há também as largas avenidas cívicas, administrativas e bancárias, onde se fazem paradas (para nada); ruas em que militares e estudantes desfilam, demonstrando o seu garbo inútil e belo de “público externo”, de “eleitorado em geral”, e massa de manobra dos políticos profissionais.

Existem, sobretudo, as vielas do mal, e do medo, os becos dos desesperados, e dos demais aflitos, onde se faz um sexo apressado, e onde se compra droga a “preço de banana”, com o olhar postado na guarda municipal, que sempre é subornada para fingir que não vê o que é feito desde o sermão da montanha. No “curral das éguas”, lugar mal falado, onde eu, e os adolescentes de meus cinzentos tempos adolescentes conhecemos os primeiros alumbramentos, os coronéis mandavam no pedaço.

Tratavam suas mulheres com a mesma rédea curta com que tratam suas éguas e cavalos. Na ZBM da Campininha das Flores, a “zona do agrião”, onde se ia trocar o óleo, o que valia era a lei do trabuco. Maria Tomba Homem derrubava batalhões de garanhões, desafiando, em campo aberto, o poder fudectício de Joana Batalhão, a fodona dentre os puteiros da região. De um modo geral, as putas da ZBM Campineira – como de resto todas as putas terceiro-mundistas desta e de outras repúblicas bananeiras, são feias, desdentadas, grossas e mal-educadas. Afinal, para que um puta tem que ter nível superior, ser versada em Saussure, tirar de letra os lingüistas russos, e os estruturalistas pós - tudo? “Quem quer uma puta delicada?”, indagou Henry Miller, um catedrático na matéria: “Claude chegava a pedir que você virasse o rosto quando ela se agachava sobre o bidê. Tudo errado? Um homem quando ardendo de paixão, quer ver coisas, quer ver tudo, até mesmo elas verterem água”.
 


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POR EM 22/05/2009 ÀS 02:30 PM

A crise da escuta

publicado em

Fala-se muito pelas mídias na crise econômica na qual o mundo se acha mergulhado. Mas pouco se fala na crise de valores que talvez tenha levado a esta crise, fruto da ambição insensata por obter maiores lucros, mesmo ao custo de se viver na irrealidade de uma bolha especulativa que, formada à base das pirâmides da picaretagem rasteira, um dia haveria de estourar, porque tudo cai quando cresce ou sobe sem base. O publicitário Nizan Guanaes conta que viu sinais de uma quebradeira mundial quando, em excursão na Europa, viu um homem, em um restaurante, bebendo uma garrafa de champanhe no valor de 30 mil euros.

A crise real que se alastra pela humanidade não é só a de não haver mais dinheiro nem sentido para abonados milionários continuarem a comprar aquilo de que não precisam, cedendo à dissipação irresponsável e ao vício da ostentação e do desperdício. “Os desejos mudam, mas as necessidades não”, um sábio antigo já dizia. Dentre as necessidades básicas do ser humano estão o anseio de amar e ser amado, de ter paz e viver em felicidade. Ocorre, no entanto, que a inconsciência espiritual e a cegueira mental em que vive levam-no a tomar a direção contrária .

Há uma crise alarmante — a da escuta — e aqui não estou a falar das bisbilhotices, clandestinas ou autorizadas, da arapongagem oficial ou criminosa. Falo da  necessidade básica para cujo atendimento não basta ter uma conta bancária bem fornida e cartões de crédito sem limite. Estudos recentes indicam: 20% da população norte-americana  ressente-se, não da falta de poder financeiro para comprar bens essenciais ou supérfluos. Sofrem da falta de não ter ninguém com que possam conversar. O simples diálogo entre conhecidos e amigos, entre pessoas da família, passou a ser artigo de luxo — tão isoladas estão as pessoas, em seu mundo egocentrado e individualista. Vivemos em um vasto mercado onde tudo se compra e se vende, mesmo amor, compaixão, amizade e solidariedade.

A canção “Sinal fechado”, de Paulinho da Viola, foi símbolo vivo de silêncio forçado e da incomunicação dos anos da ditadura. “ — Me perdoe a pressa/ é a alma dos nossos negócios/ - não tem de que/ ”.  As ditaduras passaram, mas hoje a solidão que aponta é mais crucial do que nunca. No filme “Crocodilo Dundee” a mocinha loira diz ao cowboy australiano que em Nova Iorque, cidade onde vive, as pessoas quando têm angústia têm de pagar psiquiatras para falar do que as faz sofrer. Pior, têm de pagar por uma hora que tem cinqüenta minutos. Ao que o cowboy, irônico, pergunta: “E lá vocês não têm amigos?”.

Assim a humanidade escolhe viver entre “crimes, espaçonaves, guerrilhas”, em um cotidiano onde apenas a banalidade do mal é notícia — vivendo uma “vida de gado”, em um chão de violência, miséria e impunidade, onde o ser humano vai se tornando o animal mais perigoso — para as formas e fontes de vida de sua casa planetária – mais letal e o mais selvagem em relação a si próprio.
 
Em todo o mundo, o dom da escuta é cada vez menos exercido — e tende a ser esquecido, na sociedade de autistas normotizados em que vivemos. E “a solidão, essa pantera”, vem a ser companheira inseparável de ricos , pobres e remediados, incluídos ou excluídos de todas as nações da grande família humana — que no Brasil leis absurdas, na contramão da história, vão dividindo entre negros e brancos, com ou sem terra ou teto.

Adeus ao país cordial do jeitinho — agora o preconceito é instituído e oficializado em leis, pelas quais desiguais são tornados mais iguais do que os outros — o que dificulta ainda mais a escuta entre pessoas que, não importando a cor da pele ou a condição social, são irmãos, pois pertencem à mesma raça, e integram a vasta família humana. Mais pobreza do que viver em lugar onde é baixíssimo o índice de Desenvolvimento Humano, ou de termos pouco ou nenhum poder de compra: é não ter ninguém que nos ame, e queira nos escutar.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 10:35 PM

Bardos do nada

publicado em

Há poetinhas e poetastros que consideram criação literária o esvaziar da lata de lixo de suas mentes turbulentas e egóicas. De um vômito emocional contínuo fazem esgoto a céu aberto, e com sacrifício de muitas árvores – e pensam que são apreciados por todos. A ponto de não serem noticiadas as nonadas que fazem lhe soam como catástrofe, escandalosa injustiça, com dimensões de calamidade pública. Oh! Dor! Ó luta!” Se ao menos se contentassem em escutar os elogios de encomenda!

Estes vivem a louvar a si mesmos, em vitupério implacável, delirante e contumaz. Ezra Pound disse-o, em outros termos: “A mera anotação de uma dor de barriga e o esvaziar-se da lata de lixo não são suficientes. Qualquer idiota pode ser espontâneo”. Eu acrescento: a lata de lixo a que tantos poetastros e poetinhas de metrópole ou de província recorrem, tanto pode ser a memória quanto os autos da História – onde, em se tratando da condição humana, há mais coisas a deplorar do que a louvar.
     
Para Ezra Poud, um homem querendo escrever o melhor poema poderia fazê-lo em uma fazenda solitária. Em nosso país e em nossos dias, talvez o aprendiz de poeta tenha de viver em uma metrópole agitada e trepidante, correndo o risco de ser encontrado por uma bala perdida – onde em vez de escrever o poema da sua vida, possa ser levado a antecipar a hora da sua morte. Pois que cidades são como as palavras – as que mais nos fascinam, por serem desconhecidas, podem ser as mais perigosas. Ou, como nos ensinou o gramático Pedro Luft, de quem Lia ficou viúva: “As palavras são como as prostitutas. Não mexa com as desconhecidas, que elas são perigosas e traiçoeiras”. Ou, no dizer de Clarice Lispector: “Escrever é duro como lascar pedras”.

A ignorância natural não é irônica, não se oculta sob sarcasmos, nem é nefasta ou molesta como o é a ignorância cultivada das pessoas que se empavonam e se orgulham de serem cultas. Adornadas com o brilho de purpurina da cultura inútil, são homens e mulheres de segunda mão, e projetam-se como celebridades de verão na fogueira das vaidades.  A muitos destes, nada ilumina seu estro, a não ser a empáfia mumificada de serem incansáveis fazedores de versos – que têm como tema eterno seus detritos mentais.
     
 “A arte de nosso tempo espelha o vazio espiritual de seus artífices”. Assim escreveu o crítico literário Jonas Lopes, no artigo “A sagrada gramática da arte”, publicado no suplemento “Opção Cultural”. Concordo com a afirmação, em todos os termos. Pois é abissal o vazio da arte e da literatura que se produz e publica no Brasil – como de resto em todo o mundo chamado “culto” e “civilizado”.

A gramática expositiva do nada não pode ser arte e muito menos criação que valha a pena ser vivenciada. No máximo, tem surgido como besteirol de ocasião – como o é muita besteira premiada que por aí circula, bem criticada e aplaudida, que tem a mesma perenidade e verdade artística que pode ter o urinol de Duchamp. Teremos caído no absurdo, quando arte e artistas fizerem um pacto com o escândalo, o grotesco e o escárnio.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 07:07 PM

A mulher balzaquiana

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João do Rio, flaneur e cronista do Rio antigo, está na moda. E é para ficar triste? Absolutamente, não. Até porque, no gênero crônica, chegou a superar o bruxo Machado de Assis. Isto porque, no Rio de janeiro de seu tempo, viu tudo, observou tudo, anotou e comentou, com verve satírica e ironia mordaz. Sendo um bom burguês, endinheirado sempre, conviveu com o fogo; brincou no carnaval, subiu ao morro, viu a favela, esmiuçou o esgoto humano do mangue, documentou a miséria da prostituição, foi ao cais do porto, ver como fala e, sofre e sobrevive o povo.

Mas, sendo um bom burguês, também foi a Paris, tomar um banho de luz e de cultura eurocentrista, pelo que voltou metido a besta à tórrida umidade do Rio antigo, que de verdade neste tempo era uma cidade maravilhosa – sem ninguém a viver em polvorosa, temendo ser atingido por balas perdias de polícia ou de milícias.

A mulher de trinta anos – a balzaquiana clássica – foi assunto para sua verve implacável e ferina. E não era para menos – desde os tempos do velho e bom Balzac, o mistério da mulher madura permanece como enigma indecifrável, mesmo à análise mais perfunctória da sociologia de buteco. Pois é mais que certo: há quem prefira uma balzaquiana no jeito a um caminhão de ninfetas.

João do Rio, que não era chegado a balzaquianas nem a ninfetas (antes, preferia a companhia de efebos, saradões e saradinhos de seu tempo; pelo que sofreu atroz preconceito) foi o primeiro imortal da Academia Brasileira de Letras a envergar o faustoso e ridículo fardão – vestimenta tão atroz que fez José J. Veiga recusar-se a vesti-lo, nem enfrentando aguerrida campanha, ou a convite, se fosse o caso. Quanto ao cronista flaneur de que se fala neste texto, dado a escândalos, como Charles Baudelaire, seu precursor, morreu em um táxi, de enfarte, aos 40 anos.

Um cortejo de quase cem mil pessoas acompanhou seu enterro. Uma glória, para quem, naqueles austeros tempos, fazia observações insinuantes sobre os “Rapazes encantadores”. Para ele, uma guerra longa deixa de ser sensacional. Já pensaram em Machado de Assis, sisudo e compenetrado, gravatinha e camisolão como era, entrando em um prostíbulo, para conversar com mulheres de vida alegre e airada, representantes da mais antiga das profissões?

Já pensaram no Presidente da Academia, tomando rapé com os estivadores, tirando com eles um dedinho de prosa, no cais do abandono ou no morro da perdição? Pois João do Rio foi, viu e contou o que sentiu. Daí porque suas crônicas, escritas para ser efêmeras, tornaram-se perenes relatos de uma cidade que, mesmo sendo muito mais bucólica e maravilhosa do que é hoje, já tinha seus problemas. Por falar em academias (não de músculos, mas de letras), diga-se: desde os tempos do Bruxo Machado de Assis, tendem a darem couto e homizio a ex-reitores servidores de ditaduras, proprietários de bois, políticos, pessoas boas de bolso (isto é, milionárias) e a celebridades de verão. Isto quando não se comprazem em se tornarem loucademias de juristas.

Tudo em João do Rio me encanta, principalmente o seu humor. Vejo, nas “Crônicas Efêmeras”, coletânea recém lançada pela Ateliê Editorial, o fino lavor de sua prosa sarcástica: “A moral é uma qualidade que se exige nos outros.E é sempre uma covardia defensiva. Os elefantes não têm moral e são os animais mais honestos da criação. Mais irritante do que um socialista só burguês respeitável. O socialista arremete e deixa-se enganar. O burguês recua e engana os outros. Um é o assalto ao bem-estar, o outro é o eunuco do bem-estar. Ambos, porém, se confundem na incapacidade de compreender”.

Em “Reflexões para não serem lidas” ironiza o implacável e mordaz cronista de costumes: “Na sociedade contemporânea encontram-se reunidos quase sempre vários cavalheiros que se sustentam na vida com brilho sem renda e sem trabalho claro. Olham-se então como admirados de ainda não estarem na cadeia. Veneram-se, temem-se, invejam-se. No fundo, uma reunião de patifes é muito mais sincera”.
 
“Um homem de espírito, quando inicia uma paixão, já pensa seriamente no prazer de a terminar. Uma mulher, com espírito ou sem ele, antes, durante e depois só pensa em continuar. Desse grave desacordo de opiniões nascem às vezes as maiores tragédias e os maiores aborrecimentos. (...) Para o homem que sente, só uma coisa mais triste do que ter trinta anos: é ter quarenta. Aos cinqüenta começa a chegar a resignação que é a mineralização da alma. Para as mulheres, trinta anos condensam, englobam, arregimentam todos os desesperos e todas as coragens. Mesmo porque não há mulher que, confessadamente, tenha mais de vinte e nove...”.
 


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POR EM 01/05/2009 ÀS 01:48 PM

Convescotes de cascavéis

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Uma pessoa me pergunta: poeta, como é que um leitor pode se prevenir para não comprar gato por lebre, se indo à noite de autógrafos de um livro compra-o sem conhecer seu conteúdo? Respondo: é sempre um risco a correr, visto que não temos crítica prévia, não passando as notícias sobre lançamento de resenhas informativas, feitas a partir de dados fornecidos pelos autores.

Então, como se compra o produto às cegas, confiando-se apenas no re/nome do autor que lança mais uma ventania no vendaval de produções literárias, que o poetariado lança, a mão cheia, o jeito é conferir quando se chega em casa, e se desembrulha o imbróglio. Mas existem (e estes são os piores) os piolhos letrados, que vão aos coquetéis, como e bebem como se fossem pantagruéis, não compram nem lêem nossos livros, e se põem a dizer que são execráveis. 
 
Ocorre de ter o leitor surpresas desagradáveis, visto que certos autores fazem questão de piorar, à medida em que o tempo passa, presumindo-se que tenham adquirido maior experiência literária. É que alguns autores, acometidos de pós-modernices, tornam-se tão vanguardistas que se tornam não palatáveis, ou ilegíveis. E quanto mais papam prêmios, na praça associada, piores ficam.

Explico ao leitor curioso que o público presente aos lançamentos é constituído quase sempre de familiares, estóicos amigos e companheiros de escrevinhação, pressupondo-se, com isto, que têm a maior boa vontade em só ver qualidades nas obras que levam para casa, mesmo se tratando de abobrinhas intragáveis, ou de atletismos formais intragáveis.
 
É certo que aos lançamentos de livros também comparece a turma “do contra”, constituída pelos inimigos cordiais – gente que vai às noites de autógrafos para falar mal dos autores e de suas obras – as quais não leram, mas já detestam, com ódio furibundo, e convicção inabalável. Mas tudo fica na indústria do fuxico, circulando em tele-fonemas repletos de maldades sibilinas.

Estes que fazem malabares com palavras lançam uns contra os outros suas línguas ferinas, que são facas feridoras, no inferno civilizado da fogueira das vaidades. É certo que mesmo as badaladas “noites de autógrafos” d´antanho estão saindo da moda – dito de outro modo: para tais badalações literárias quase ninguém mais está dando bola.

A não ser familiares e pessoas do círculo de amizades, que comparecem a tais inaugurações por mero e sofrido cumprimento de obrigação, pouco se vê do que poderia chamar de “leitores”, na legítima acepção da palavra, isto é, pessoas interessadas em ler bons livros, porque se interessam por boa literatura, e não por serem amigos, colegas ou cupinchas dos escribas contumazes e incansáveis escrevinhadores.  Não raramente, colegas do poetariado comparecem para falar mal do livro que está a ser lançado, ainda que não o tenham lido. 

Nisto seguem a perfídia traiçoeira que é própria à sua natureza: desancam com sibilinos ou descarados imprompérios a obra que está a lançar o colega, enquanto se empanturram com a cerveja, o uísque e os salgadinhos que com sacrifício até de seus bacorinhos ele providenciou, para não deixar os convidados na secura. Pois é bem de nosso Boiás este costume de nada fazer na área cultural sem que (com ou sem patrocínio) seja oferecido aos convidados banquetes pantagruélicos. Tal é a força dos usos e costumes que ninguém se atreve a "lançar um livro" na praça em tardes ou manhãs de autógrafos em que leitores pegam o livro, cumprimentam o autor, e vão embora, como é de praxe nos grandes centros culturais, onde a cultura não é vista como símbolo de farta bebedeira e comilança.

Em fogos fátuos trocam autógrafos amenos, fingindo não serem hienas. Certos autores sofrem da fúria fescenina de fingir dores alheias, como se fossem carpideiras de mortes que não são suas. Não tendo sido jamais verdadeiros, não podem ser inteiros. A não ser quando manobram palavras como se fossem mísseis assassinos, vendo os signos como ninhos de cascavéis em que se transformaram, estes que se transformaram em per-versos menestréis.    Pois, como escreveu João Guimarães Rosa, há escritores que lemos para a literatura, e outros que lemos para a vida.

A maioria dos escribas dedica-se a fazer biscoitos, destinados a serem intragáveis, poucas horas depois de feitos, em vez de construir pirâmides, como só alguns o fazem. Isto defencia Guimarães Rosa, um dos poucos que ergueram ao menos uma pirânide (seu “Grande Sertão:Veredas”) destinado a vencer o “esquecimentol”, por séculos afora.

Eu acrescento: certos autores só insistem no ofício para passar raiva em seus eventuais leitores obrigatórios. Escrevendo e publicando às pencas, não dão tempo a seus estóicos leitores, arrebanhados a fórceps, à custa de um assédio obstinado e incessante, de digerir seus imbróglios, tendo que suportar outros, que não param de chegar.    
 


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POR EM 21/04/2009 ÀS 03:05 PM

A baixa sociedade

publicado em

Sempre achei que a imprensa falada, escrita, televisada e fuxicada comete solerte e insidioso crime contra as classes ditas  menos bafejadas pela sorte, que vem de ser  as tais “classes populares”, que o bico de tucano dos políticos populistas beija e balança, cínica e varonilmente, sempre que “vespram” as eleições. Os tais veículos nunca se dão à pachorra de conceder espaço à baixa sociedade, em coluna especializada. Por que a discriminação? Pobre também não faz festa de aniversário? Filha de Pedro pedreiro também não pode fazer debut? Pobre também bebe e come à larga, mesmo em tempos bicudos, ainda que seu passadio seja à base de abóbora de porco, quiabo e chuchu – tudo arrematado a preço de limpar banca, pois com a fome e a canícula não há banqueiro que agüente o tranco.

Diferente da escumalha do poviléu, ou do zé-povinho propriamente dito, os da alta estão sempre em alta, e não saem das colunas sociais, onde são chamados bem sucedidos, nascidos com o fiofó para a luz, e outras metáforas da saciologia jornalística do puxa-saquismo bem ou mal pago. Os tais que nasceram com o fiofó para a lua adornam o frontispício de suas donzelas casadoiras com tiaras de caríssimos diamantes. Não contentes, fazem que suas nubentes habitem mansões hollywoodianas, dotadas de zôo, heliporto, e salas de chá, de café e de chocolate. Pensando na injustiça histórica, cometida contra os lumpens periféricos, pensei que a Nega  Brechó, símbolo da mulher torcedora do glorioso Vila Nova Futebol Clube - tigrão temido -, bem que poderia ser a colunista da baixa sociedade. Ela possui todos os requisitos para ser a intérprete e o espelho fiel da movimentação social da vasta grei dos excluídos, nesta terra de bois, reitores e políticos, que tem na pecuária de Nova Vila a mais prestigiada e a mais famosa de suas festas. É de se estranhar que ninguém tenha se lembrado de convidar Nega Brechó para assumir o encargo.

Em tempos primevos os “repórteres sociais” das colunas da alta roda tinham as viagens ao hoje conflagrado balneário do Rio de Janeiro como suas notícias mais podres de chique. Quem viajava com a família para algum balneário do litoral de “Sum Paulo” era tida como gente de fino trato, podre de rica e da altíssima roda. Já as famílias apenas remediadas, a caminho de serem novos ricos, ou riquinhos emergentes, contentavam-se com notinhas intituladas de “drops”, informando que fariam uma viagem para a “Manchester goiana”, que vem de ser Anápolis.

Hoje rico noticia, sem jactância ou alarde, que vai a Miami, “névi iorque”, cruzeiros pela “Oropa, França e Bahia”, tours pelas ilhas gregas, e outras lordezas de igual ou maior quilate. Ao invés de noticiar façanhas econômicas deste naipe, a coluna da baixa sociedade daria, em primeira mão, furos provenientes de atléticos “esforços de reportagem”: O descuidista mão de vaca juntou os panos a macacada e foi tentar a sorte no Bairro Tiradentes V, onde otários e incautos ainda deixam sabão no coaradouro e seus baixeiros (leia-se: roupas)  no varal. Tudo para dar sopa e mamão com açúcar a malandro tala-larga’, e, de mamando a caducando, os novos e os antigos excluídos também querem, ainda que na base da mão grande, fazer parte do refinado rol dos incluídos. “Incluídos, venceremos!”, é o lema desta gentinha chinfrin.

Logo abaixo de foto estampando a descabelada e abibolada Maria Louca, socialata da periferia periférica do cinturão de miséria da city, teúda e manteúda de Zé Prequeté, pedreiro meia colher, que tira bicho do pé, pra comer com café. Maria Louca pirou, abibolou de vez: para festejar seu sexagésimo nono natalício mandou sacrificar, em holocausto, o  velho galo Biriteiro, bom de garganta e campeão na espora; por ser mais velho que a aniversariante o galo só serviu para caldo, manjar dos deuses, para amansar veneno de cachaça. Um regabofe à base de abóbora de porco,  maxixe, chuchu, Maria Isabel (arroz de puta pobre) macarrão com carne e farinha à vontade sacudiu os alicerces da barraca do Zé Capeta. Um forrobodó de levantar poeira agitou, a noite inteira, a zona do agrião.

Nunca se viu, em toda a região do Buraco da Bronca, tamanha fartura em matéria de buchada de bode – o prato de resistência do regabofe que, à guisa de sobremesa, serviu latadas de doce de leite com pau de mamão, canjicada e pé de moleque. Dúzias e grosas da generosa Chora Rita. Para os enólogos presentes foram servidos carotes do legítimo sangue de boi, da pior e mais desacreditada safra – sem falar que a velha cidra natalina fez as vezes do champanhe francês.

Tão opíparo banquete popularesco foi preparado pelo chef da goianidade, Orozimbo Patureba, especialista em rabada & cia. para matar a fome gargantuesca e pantagruélica do povo. Tudo de molde a fazer neguinho dispensar o hábito de comer camaleão e arrotar camarão. Tudo feito com rigorosa inspeção de controle de qualidade de Ritinha Peidorreira, cozinheira-chefe do restaurant Come Em Pé, glória lendária da culinária nordestinada ( à base de macaxeira, bucho de bode, baciada de macarrão, feijão e farinha a vontade). Não canso de repetir à saciedade: que papel feio, o desta imprensa, que nunca abriu espaço para a gentinha miúda da baixa sociedade.     


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POR EM 14/04/2009 ÀS 05:10 PM

Nosso corpo de dor

publicado em
Lya Luft tem razão quando diz que “A alma do outro é uma floresta escura”. Talvez também para o outro a nossa alma seja um inferno tenebroso e difícil de ser trilhado. Tanta escuridão nos caminhos faz com que os relacionamentos sejam fontes de ruído emocional e estresse. Mas não impede que sejam encontros de amorosidade e fraternura.  
 
Sabe-se que o animal humano é a maior fonte de estresse, medo e de perigo para si mesmo – com a tendência inevitável de mais pessoas viverem em grandes aglomerações urbanas, partilhando espaços apertados, aumenta a incidência de doenças nervosas, antigos transtornos psíquicos, que recebem novos nomes, e até conferem charme social a suas vítimas. É o corpo de dor da inapetência para a felicidade, transformado em sofrimento ambulatorial ou caseiro, como são milhares os casos.  
 
O corpo de dor das pessoas é tão tenso, vindo de antigas eras, de ódios e guerras travadas dentro do clã parental, que estar com elas é ser soterrados pelo estresse. Pois o sucesso que ostentam é o da vitória em serem mal sucedidas como pessoas. Só escondidas atrás de suas máscaras são palatáveis - sendo que algumas nem escondidas atrás de suas personas são suportáveis.
 
Conviver com nossa própria alma é muitas vezes um caminho tenebroso, que não se percorre sem medo e sem aflição. Mais terrível ainda é conviver com a alma de pessoas de quem gostamos, ou não. Saber que não sabemos de nada, ou que a mera informação vazia só ilumina a aparência das coisas e da vida, e não dá peso à inconsistência de existir, é tudo de que a pessoa precisa para aceitar o esplendor do Agora. Nesta humildade corajosa entra no aberto, e se põe a caminhar na lucidez de “sua nova vida perigosa”, no dizer vertiginoso de Clarice Lispector, a estranha.
 
Muita consideração ao que os outros dizem e pensam de nós nos mantém presos a lembranças amargas e emoções tóxicas de um círculo de sofrimento induzido. Felizes os que se permitem viajar pelas trilhas da vida com a leveza de quem se sabe passantes. Pois quem não se detém na memória da dor, e não gasta o seu tempo de viver no cultivo da agricultura do desencanto, não se torna agricultor de emoções venenosas.
 
Há pessoas cujo sucesso consiste em serem mal sucedidas – fazem de seu esplêndido fracasso um motivo para não saírem do palco das atrações lamentáveis, e estarem sempre na ribalta do fracasso em serem felizes. Devemos nos manter atentos, para não sucumbir ao fascínio de seu vazio abissal.  
 
Permanecer por muito tempo à orla do sofrimento cego pode nos cegar também. Assim como o lutar contra a inconsciência e o absurdo pode nos atrair para sua energia mortal e mortífera. O sofrimento cego (viciado em si mesmo) do corpo de dor da memória vive a drenar nossa energia. Ele nos parasita e nos paralisa, se entrarmos em sintonia com a fome do Alien interior, em que sua alma morta se transformou.  
 
Os doentes de alma e os áridos de espírito vivem a sugar a energia uns dos outros, sucumbindo à atração de seu próprio vazio abissal, que vem a ser tudo de que se alimentam, uma vez que não chegaram a cristalizar uma alma em si mesmos. Vivendo na periferia de seus interesses egóicos e mesquinhos, não conhecendo o amor, apenas o desejo de posse e a lascívia dos baixos instintos, não têm os sentidos abertos para o silêncio interior. Sua mente faz muito barulho, e assim os impede de acessar o dom criador que toda criatura traz em si.
 
Sendo vasta a incompletude e a solidão do Não-Ser em que vivem, vivem a promover e a celebrar os jogos de vaidades e as festas do ego, sendo os podres poderes do mundo aquilo que os atrai e interessa. Atrelados aos cavalos dos desejos, vivem à orla de si mesmos, só tendo olhos para ver os erros alheios, sendo completamente cegos para perceber os seus.
 
São tão pobres de mentes, em seu agarrar-se como náufragos à memória de seu corpo de dor, que aferram-se as ilusões vazias do que poderão ter no futuro, enquanto desprezam aquilo que têm. Se ao menos soubessem, como o sabia Nietzsche, que isto é mais difícil: “fechar por amor a mão aberta, e conservar o pudor ao dar”. 

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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:25 PM

O vício da paixão

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A paixão é um vício que nada tem de santo. Pessoas apaixonadas são perigosas. Perdem a tramontana por qualquer dê cá essa palha. Por nadica de nada, um olhar fora das grandes a que foram atiradas as vítimas de seu amor de escravidão, o apaixonado entra em crise de ciúme mortal e mortífero, e desanda a mandar sopapos e trovoadas nos ambientes pacatos. Pessoas assim transtornadas constituem perigo à sociedade, pois consideram-se proprietárias do corpo e alma das criaturas que dizem amar. 

Os gregos antigos eram prudentes quanto aos arrebatos passionais. Buscavam manterem-se distantes das turbulências das paixões. Quando atendiam ao império dos sentidos, trocavam-se fluidos no intercurso sexual, mas tendo o cuidado de não caírem de quatro nos arrebatos passionais. Mas há paixões e paixões, sendo que algumas são até bem cotadas, tidas como sendo inspiradas pelos deuses. A paixão pela arte e literatura, por exemplo, que faz tantos de seus corifeus endeusarem a si mesmos. 
 
Desconhecem o fato de que a arte, em si mesma, não tem maior valor que o de ser um narcótico suave, que nos ajuda a nos esquecer de nós, e dos problemas que nos afligem. Além de que, em inúmeros casos, serve de penico, vomitório ou catarse para neuroses, psicoses e outras fraturas psíquicas. Isto se dá quando, em vício apaixonado, artistas (ou simples loucos, que julgam sê-lo) a seu oficio se entregam com frenética e neurótica assiduidade. Não fosse cercada de glamour, a sua atividade, e não hesitariam em colocá-las em camisa de força, nas clínicas psiquiátricas mais acreditadas. 
 
Poetas existem que despejam de versos e livros sobre seu tempo e sua cidade, sendo incapazes de conceder aos outros e a si mesmos o benefício do silêncio criativo. Outros, políticos ou não, são bandas barulhentas, a arrotar esquerdismo infantil e populista, embora sejam bem burgueses, em seus prazeres mundanos, e até direitistas, fora das câmeras. Não conseguindo resistir à tentação da vaidade, não dão ao público estóico o alívio de sua ausência. No dizer de Freud, tais personalidades consideram a realidade sua única inimiga, e fonte de todo sofrimento. Ao ver na arte o canal de escape de suas aflições narcisistas, acabam por erigi-la em torre de ilusões. Assim se abstêm de viver sob o princípio da realidade.
 
Se tais personas transbordantes elegem o amor (e a sexualidade, um de seus canais) como o veículo maior de sua realização como seres humanos, o faz de modo tão radical, que passam de uma paixão a outra, tendo o cuidado de fazer com que sejam destrutivas, avassaladoras ou simplesmente ridículas. Isto porque não admitem solução de continuidade, melhor dizendo, não dão um refresco, em suas ardentes e barulhentas trombadas sentimentais e pulsões. São deste tipo as que colecionam desastres existenciais. 
 
Tais criaturas são muito bem quistas por cartomantes, pais de santos, terapeutas, psiquiatras e psicanalistas, sendo useiras e vezeiras em freqüentar bares acima e abaixo de qualquer suspeita... Além de suas trombadas emocionais as levam freqüentemente às clínicas ortopédicas e às oficinas de conserto de automóveis. Não que sejam propriamente amantes profissionais, pois que estes têm de ser frios e racionais, em seu suado ofício, e sim porque têm a paixão como um vício, violento e abrasador, do qual não conseguem e não desejam ver-se curadas. 
 
Mais perigoso, porém, do que viciado em paixão, é o neocínico, que jamais se apaixona, e faz alarde de sua frieza emocional de mármore feito humano - pois seu prazer e empenho é o usar as pessoas para seu gozo animalesco e despótico. O homem psiquicamente deformado e moralmente pervertido usa o sexo como vetor e canal para suas aberrações sádicas, em que realiza sua vontade de domínio e manipulação. 
 
Ele quer a posse, o aviltamento da pessoa com quem se relaciona, não o encontro humano, evolvido pelo afeto mútuo. Nada sabe nem quer saber da grande e milenar arte da sedução. O cinismo nele substitui o riso e a pura e jovial alegria. Luta para enriquecer e possuir coisas, não para desfrutá-las no convívio com bons amigos, mas para afirmar seu ego doentio e, com a força de seu dinheiro, poder submeter e corromper. 
 
O animal humano está buscando ter mais energia para destruir mais rapidamente os recursos da Vida. Quer ficar mais energizado para ser mais destrutivo do que tem sido. Em sua perfídia, usa até o pré-texto do seu amor de apego, para aliciar vítimas para a sua lascívia ou perfídia. Tais personas inviáveis, sendo doentes de alma e pervertidas de psique, só vêm as pessoas como instrumentos para a satisfação de seus desejos perversos. Incapazes de abrigar, em sua gélida sensibilidade, sentimentos como amizade ou amor, tornaram-se aleijões humanos, de alma prisioneira e sem vida. Em seu fingir serem capazes de sentir afeto, levam a dor e o sofrimento aos que as rodeiam.   
 

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POR EM 30/03/2009 ÀS 10:05 PM

Churrasco de criancinha

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É triste e trágico constatar que a tolerância zero em relação à injustiça e à violência de certos governos acaba revelando sua inabalável disposição para tolerar ( ou fingir não ver) os males que, em apoteóticas campanhas, prometeram combater. Seria esta frase um exercício de ironia ao estilo do implacável Swift? A resposta é não, por faltar a este escriba engenho e arte para imitar a grande arte do amargo mestre inglês. É feita de cortante sarcasmo e ironia a crônica em que, como forma de denunciar a miséria e a brutalidade do capitalismo nascente propõe dramaturgo que crianças sejam engordadas para serem vendidas nos açougues, como tenros e saborosos pedaços de carne, que seriam comprados pelos ricos, naturalmente. 

Tal se faria para impedir que as crianças pobres na Irlanda ficassem uma carga insuportável a seus pais, e para torná-las úteis ao público: considerando-se que a penúria crônica no interior da Irlanda está se agravando pelo nascimento de tantas e tantas crianças por ano; considerando-se que essas crianças não são utilizáveis na indústria nem na agricultura: “ uma criança de um ano constitui um alimento saboroso, de alto valor nutritivo, e bem digerível; os médicos mais avançados recomendam, embora só aos fregueses abastados, o uso de criança estofada, assada, cozida ou frita; serve-se também com fricassê ou ragu. O estabelecimento de matadouros para de crianças favoreceria a industrialização do país e a curto prazo a engorda promete circulação rápida do capital investido. 

Em sua feroz e cruel ironia desferida contra a ferocidade e a crueldade de um mundo em que os poderosos falam como deuses e agem como porcos, o dramaturgo lanceta o carnegão da hipocrisia social de seu tempo: “admito que as crianças, como alimento, serão um pouco caras; é claro que é comida só para latifundiários que, aliás, por terem comido os pais, têm direitos os mais legítimos pra comer também, os filhos. Para os camponeses pobres, os filhos tornam-se, desta maneira, propriedade que pode ser penhorada para pagar as dízimas ao latifundiário, mesmo que tudo possa ser seqüestrado pelo oficial de justiça. E nos anos por vir, diminuirá o desemprego. Penso apenas no bem-estar comum; pretendo aliviar a sorte dos pobres, sem esquecer o prazer dos ricos”.

Para Carpeaux, a ironia de Swift é resultado duma curiosidade de sadista, como de um anatomista que disseca as vísceras morais do corpo público, explicando a insuficiência dos órgãos pela corrupção total do organismo: “Existe entre nós uma classe de homens, formados na arte de provar, com verbalismos estupendos, que branco é preto e preto é branco, de modo que a cor do objeto depende do pagamento; afirmam que tudo o que já foi feito uma vez, por mais infame que seja, pode ser feito outra vez, e citam casos de precedência como autoridades, para justificar as opiniões mais injustas, que se chamam sentenças, quer dizer, opiniões arbitrárias de certa classe de advogados chamados juízes. Para não serem importunados nos seus negócios, esses homens inventaram uma língua, na qual se embrulham a ponto de não entender a si próprios; levam 30 anos para decidir se o terreno que os meus avós me legaram pertence a mim ou a um alheio que mora a trezentas milhas da cidade”.   

P.S. Qualquer semelhança com o Febeapá (Festival de Besteiras que se Abate sobre o País) de certas colendas autoridades da nossa justiça, em todos os níveis, não é mera coincidência. Como explicar que sentenças desencontradas sejam “exaradas” (argh!) por diferentes administradores da Justiça, a partir da mesma e igual realidade processual? Não contentes em agir como se estivessem a encenar o samba do crioulo doido, tais eminências pardas, do conforto refrigerado de seus gabinetes assistidos por exércitos de garçons, danam a travar duelos verbais entre si, em linguagem cifrada, cujo sentido só alcançam os que atuam na área. Também no que tange às políticas populistas eleitoreiras, em que o curral eleitoral é garantido a golpes de canetadas de neocínico oportunismo, o que dá pra rir dá pra chorar. Vivesse em nossos dias, o sarcástico e implacável Swift teria muitos motivos para escrever outros textos de feroz ironia, como este, em que recomenda que os ricos se empanturrem, em seus churrascos pantagruélicos, com a carne macia das criancinhas pobres. 
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 08:52 PM

A viagem de Eros

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As relações entre os dois professores super eméritos nunca passaram da cortesia civilizada com que profissionais se cumprimentam por trabalharem na mesma área. Os cumprimentos entre os dois, trocados nos corredores da colenda e provecta universidade, jamais passaram do cortês, formal e cerimonioso, mesmo estando ambos na faixa perigosa dos 50. “Como vai, professor doutor?” - Eu vou bem, professora doutora, e a senhora?”.Tudo entre eles fora obsequioso e até mesmo frio.

Certo dia ocorreu de terem de comparecer à capital federal, para missões a diferentes repartições do Ministério da Educação, três renomados e sisudos professores doutores, sendo dois do sexo feminino, e o outro pertencente ao assim chamado “sexo forte”. Por questão de economia, é claro, que os tempos já estavam bicudos, foram os três no mesmo veículo, oficial, negro, como as asas da graúna – conduzia o bólido semovente, é claro, o motorista funcionário da universidade.

A viagem de ida foi quase inteiramente muda – alguns ralos comentários sobre como o cerrado fica queimado, em época de seca, e de como renasce das cinzas, feito a Fênix, logo que caem as primeiras chuvas. Ia à frente do bólido semovente o motorista, uma professora, casada, e muito bem casada, como gostava de enfatizar, a todo e qualquer momento, indo no banco de trás o professor emérito, não se sabe se por seu senso de oportunidade política (leia-se: mau-caratismo & puxa-saquismo) ou se por seus duvidosos e questionados méritos. Quase nem se olharam, decerto pensando na gravidade dos assuntos que os levavam a representar suas instituições, na capital do poder.

De tardezinha, quando encontraram-se, no lugar previamente marcado (pois que cada um deles fora gestionar, peditorar & peticionar em repartições diferentes), limitaram-se a trocar comentários sobre a pontualidade com que compareceram ao local marcado para a volta. Ia o bólido semovente em sua marcha oficial, nem vagaroso nem rápido a ponto de ser flagrado por alguns dos inumeráveis pardais arrecadatícios, (olho eletrônico do Estado que pune $ vigia) colocados nas vias congestionadas do Detrito Fuderal, digo, Distrito Federal. Caía sobre o mundo um escurinho de cinema – só que não passava filme algum, apenas a paisagem rala do cerrado, no lusco-fusco da noite a engolfar com suas sombras as últimas luzes do dia.

Antes mesmo de saírem da malha urbana da capital o carro deu um solavanco, por culpa de um buraco no asfalto. A professora doutora assustou-se, roçando a mão na mão de seu colega, que empertigado estavam empertigado ficou; logo adiante, outro buraco, e outra expressão de sua  parte, de que sentia medo. Outro roçar de mãos. Nada a se estranhar, não há demérito em ter medo. A mão do magister dixt, que nunca foi boba, no que tange a assuntos de cochambração & amassos, ali ficou, como esquecida, esperando por outra investida.

Outra esfregação de mãos, como que não querida, mas era coincidência demais, e o professor meritório sacou o lance, morou na jogada, fez a leitura do significado e do significante - apertou os dedos da eminente colega entre os seus... o que deu início ao que sucedeu, de lascivo contato imediato de primeiro grau, que eu não relato neste espaço, por não ser o local apropriado, e também porque não posso perder o emprego.

Vieram as duas eminências acadêmicas perpetrando o que vocês quiserem ou puderem quiserem imaginar, e o que sempre vem de suceder entre um homem e uma mulher, quando o capeta põe os chifres para fora, ou quando Cupido dispara a sua flecha. Vá alguém tentar entender as profundezas da mente humana! A viagem meritória acabou no horário previsto, uma vez que a viagem seguiu, monótona e sem imprevistos (ao menos para motorista e a eminência que ia na frente).

O eminente professor-doutor, por motivos óbvios, desembarcou meio sem jeito, e foi providencial que tivesse consigo a sua indefectível pasta preta. Despediram-se os passageiros com formalidade acadêmica, na condição de colegas de profissão, aliviados pela consciência do dever cumprido. A flechada de Cupido (ou de Eros) ficou por ali mesmo, uma vez que os dois ardentes passageiros do banco de trás continuaram a se tratar com a mesma distante formalidade e cerimônia doutoral, quando se viam, nos corredores do sagrado templo do saber.    


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