Desenho de  Wendy MacNaughton
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Brasigois Felício

POR EM 24/03/2010 ÀS 10:26 AM

O ‘animau cinistro’ de Aristóteles

publicado em

O Homem (ser humano) que pensa, e quer viver de acordo com seu pensamento, não pode senão querer retirar-se da tempestade de absurdos que alastra-se como praga pelo mundo. Cada tempo tem sua cegueira, seu museu de obscuridades. Na bíblia a mulher é denunciada como cúmplice de Satanás — e por isso tem que sofrer e ser explorada e oprimida, diz a escritora Rose Marie Muraro. 

Mas vendo a coisa por outro prisma, sabe-se que o mundo só terá jeito quando (e se) mudarmos o nosso jeito de funcionar no mundo e em nós mesmos. Pois terá de começar por nós mesmos a mudança que nele pretendermos fazer. Até porque todo descalabro e todo absurdo que vemos grassar em toda parte vem da inversão de consciência, da qual nascem as patologias pessoais, umbilicalmente ligadas à patologia de uma sociedade doente, e que vai se tornando cronicamente inviável, pelo Homo Sapiens, que transformou a si próprio em Homo Demens. 

Palavras servem para definir, aclarar, mas são utilizadas muitas vezes para mentir, mistificar, ocultar, falsear. Assim são torcidas e re-torcidas, de modo inconsciente, ou por automático ato falho. Palavras são usadas para mentir ou matar em nome de Deus, da Liberdade ou da Pátria. Aquele que mata invocando as razões e motivos sublimes de sua religião ou ideologia classificam o morticínio coletivo por atos de terrorismo como justiçamento, e não como genocídio. Mesmo que não conheçam as vítimas inocentes de seu ato insano e selvagem. O mal está em não reconhecer o próprio mal que se pratica.   


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POR EM 05/03/2010 ÀS 07:01 PM

Secretários do entorno

publicado em

É estranho e lastimável o poder que um político no poder tem sobre os cidadãos que o elegeram: quando concentra grande poder em suas mãos (ou quase todo poder de mando existente), torna-se um autocrata esclarecido, isto quando não é da espécie dos autocratas ignorantes — e são desta grei os mais autoritários, e os que se mostram mais auto-suficientes. 

Uma vez entronizados no poder, e tendo em mãos a caneta que nomeia e demite, manda estiar ou chover, não raras vezes sucumbem à tentação de concentrarem em sua vontade os três poderes da República. Alguns (os mais perversos e doentios) demonstram sentir prazer em humilhar pessoas que as procuram, pedindo coisas, muitas vezes justas e merecidas, cujo atendimento seria natural de se esperar ou se exigir de uma autoridade pública. 

Fazem pessoas sérias e honestas esperar horas a fio, nas ante-salas dos gabinetes, sabendo de antemão que não as receberão. Mas ainda assim fazem-nas esperar, sem tirar a esperança, em um jogo sádico, de gato e rato, como a dizer quem está no comando, e quem está no papel de solicitante.  É a inflação do ego, a que vocacionados para o despotismo sucumbem, possuídos pela certeza de serem deuses encarnados, que vieram a este mundo para tanger as massas com a mesma autoridade com que o vaqueiro conduz o seu gado até o matadouro do sacrifício ao lucro. 


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POR EM 17/02/2010 ÀS 03:02 PM

A vida são muitos dias

publicado em

Quem teve sua existência levada pela senda do desespero, mas não perdeu de vista a esperança, conseguiu o milagre de confundir sua vida com a poesia. Na lucidez do compromisso de querer ser feliz, rompeu o casco espesso de chumbo da solidão e viu o rosto de Deus no oceano da solidariedade. Sendo o passado e o futuro ilusões da mente, só o instante que passa — só o presente é realidade, e só poderemos ser felizes nos momentos em que nos sentimos dadivosos e receptivos, alegres e confiantes.

Toda cegueira e limitação consiste em só colocarmos em ação a parte pequena que temos dentro de nós. Ao conseguir colocar para agir a nossa parte divina, veríamos as coisas tais como são, isto é, infinitas. “A vida são muitos dias”, escreveu o poeta T.S. Eliot. Quando se deparar com um problema que o angustie e deprima, pense como lhe parecerá pequeno daqui a dez anos. Tudo passa, como passam as águas e o vento. Daqui a dez anos os problemas serão outros, e nós também. Sobre o projeto de grandeza ou pequenez que cada um pode levantar e executar, a partir de seu sol interior, assim falou Confúcio: “Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é grande serão grandes homens. Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é pequena se tornarão pequenos homens”.  No princípio tudo era oculto. Mas para que existe o oculto, senão para ser revelado? Os homens primitivos tinham a graça de contar com os símbolos, para decifrar os enigmas do universo, e os mistérios da natureza.


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POR EM 02/01/2010 ÀS 10:31 AM

Natureza em fúria

publicado em

Deus fez o mundo em seis dias, e tudo o que nele existe, diz a metáfora do texto bíblico, no qual se apóiam os criacionistas.  Mas as ruas e estradas, com seus desastres e acidentes, deixou por conta do Homo Sapiens, o mais inteligente dentre os terráqueos. A sequência de catástrofes naturais, de calamidades do clima, que devastam quase o Brasil inteiro, nesta estação de chuvas, chega a parecer cruel, com ricos e pobres, flagelados e abonados — os muito pobres, atirados aos cinturões de miséria, nos baixios dos rios, nos fundos de vale, são os que mais sofrem. Todo ano têm suas casas tomadas pelas águas de rios que sobem demais, depois que caem as chuvaradas. E perdem tudo o que têm — o de comer e o de deitar, os alimentos do sobreviver, os eletrodomésticos, comprados à custa de sacrifícios imensos. Famílias inteiras (ou parte delas) é soterrada por pedras e barrancos que descem, em períodos de intensa chuvarada. É de partir o coração ver o choro dos sobreviventes e das equipes de salvamento, que na maioria das vezes nada mais conseguem salvar, a não ser resgatar os corpos que não ficam sob toneladas de lama. O Rio de Janeiro, que não é só a zona sul da orla marítima, onde se localizam os hotéis de luxo, foi particularmente atingido neste final de ano, na baixada fluminense, cujas populações ribeirinhas ficaram debaixo d água. Triste espetáculo de morte e destruição. Uma pousada em local distante, na Praia Grande, foi soterrada pela encosta sob a qual foi edificada, espremida entre o morro arborizado e a pequena faixa de praia. Cenário paradisíaco para se viver em tempo de seca, mas ambiente perigoso, em estação de chuvas a cair em bátegas insistentes. 


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POR EM 29/12/2009 ÀS 09:50 PM

A montanha mágica

publicado em

Revista BulaNinguém será o mesmo, depois de vertiginosa temporada nas vastas altitudes literárias de  “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, em que gerações nascem, vivem e morrem, sempre a indagar sobre o sentido da história e a lógica absurda do tempo; após viajar léguas de beleza e pura magia poética, ou de maravilhar-me com a iluminada escuridão do rosto sertanejo de Deus e do Demônio, nas páginas imortais do “Grande Sertão:Veredas”, de João Guimarães Rosa, o sentimento que nos possui é o do deslumbramento abissal, de par com o desconforto e o desânimo. Depois de saber que tais personalidades dos cumes literários legaram à humanidade suas obras de transcendente e imortal beleza e expressividade, a pergunta que nos ocorre é: que sentido pode haver, em continuar a escrever toscas palavras, inspiradas em nonadas? De que adianta continuar a fazer biscoitos, enquanto eles ergueram pirâmides?

Que insensatez e que inútil vanidade é continuar a escrever e publicar livros a mão cheia, depois que um bardo divino, tão vasto e  tão maior do que ele mesmo, que não sabia dizer quem era, mesmo sendo William Shakespeare? Escrever poeminhas de pé quebrado, depois que o iluminado bardo escreveu seus imortais sonetos seria como acrescentar um tijolinho mal queimado sobre a muralha da China. Mesmo sabendo de tudo isto, e mesmo que tal consciência seja esmagadora à nossa presunção e vaidade de que o que fazemos constitui algo essencial ao nosso tempo, continuamos a escrever e a publicar, livro após livro; e o fazemos talvez com a irreverência de um Bertolt Brecht, ao escrever: “Eu sei que existe gente com fome e sede, mas mesmo assim eu como e bebo”.


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POR EM 16/12/2009 ÀS 07:15 PM

Lacaios de Lacan

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Lacan“O ser humano não é o que fala, mas o que faz”. (Noam Chomsky). De tanto ver alastrar a ilucidez em pessoas que se dizem lacaniamente corretas, estruturadas e estruturantes em significado e significante (mas que ninguém pode aceitar, ou compreende, em sua incoerência ou incompetência de viver) ando desconfiado de que não sou nem serei jamais um servil, servidor, pagante ou assalariado lacaio de Lacan. Certo, o mestre do estruturalismo psicanalítico não irá virar na tumba por causa disto, mas é como sinto a linguagem e a filosofia da coisa; assim, reservo-me o direito de dizê-lo.  

Nem toda verdade está contida na linguagem escrita ou falada, como asseguram os doutores papo-cabeça, como Saussure e Roman Jakobson, dentre outros corifeus do estruturalismo. Os filósofos utilizam a linguagem para construir jogos de pensamentos, admitiu Saussure — e isto, se não vem configurar a filosofia da miséria, certamente estrutura a miséria (ou a manipulação) da filosofia — entrando nesta conta, como quem não quer nada, uma senhora namoradeira, que vem a ser a psicanálise.  Eis senão quando, na condição de escritor analfabeto em tais platitudes acadêmicas, eu me reservo ao direito de esgrimir frases de efeito, que pode não surtir efeito algum, sendo só biscoitos da tarde, em vez das pirâmides que João Guimarães Rosa nos mandou erguer, como se querer fosse poder. Não havendo talento, engenho e arte, conseguir quem há de? Não sei quem escreveu isto, mas concordo, in totum: “Não há nada mais convincente do que uma pessoa agindo de acordo com a sua consciência”. E mais isto: “Não é o que você fala que importa, e sim como você vive”.  


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POR EM 09/12/2009 ÀS 10:55 AM

Grandeza e miséria do jornal

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Grandeza e miséria do jornalHá no romance “Ilusões Perdidas”, de Balzac, situações que parecem ter sido inspiradas em nossa época. O jornalismo é a porta pela qual o personagem de Ilusões perdidas entra para o hospital das letras, em busca de glória e dinheiro. Entre nós, não faltou exemplos de literatos de nomeada que exerceram atividade jornalística, seja no batente duro das redações, ou na moleza de serem cronistas do cotidiano — a ponto de terem cunhado o bordão: “O jornalismo é a lata de lixo do literato frustrado”. Sejamos justos: nem todo jornal é lata de lixo, e nem todo literato que nele trabalhou ou trabalha é frustrado. Muitos se tornaram celebridades, a começar de Machado de Assis. 

Mas falo aqui não do jornalismo literário, onde não estão presentes as injunções e pressões “alienígenas”, vindas de fontes dignas, digo, detentoras do crédito e do vil metal, que atingem o noticiário político. Assim como nos tempos de Balzac, pior talvez em nossos tempos neocínicos, onde há formas de pressão inexistentes na Europa romântica. Com pequenas mudanças, vemos que as eras se repetem, não só nas modas, como também nos costumes. “Essa gente bebe copázios em maior número do que os livros que vende”. Não faltam no livro alusões à intemperança etílica dos escritores e artistas em geral. O que reverbera a sátira de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, à irresponsabilidade crônica do poetariado de todos os tempos: um bando de bardos (desempregados crônicos dos lumpen das letras) entra em um bar, come, bebe, toca piano com os pés e sai sem pagar, dando-se ao luxo de ameaçar o bodegueiro de denunciá-lo na gazeta  periférica em que escrevem suas lamúrias & louvaminhas. 


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POR EM 01/12/2009 ÀS 09:47 AM

Cidades da solidão

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Edifício Master“Há cidades que a gente jamais visita, exceto em momentos de desespero”. (Henry Miller). Toda janela é indiscreta, e olha para a vizinha com secreta inveja, mórbida ou lasciva curiosidade. Que sofrimento abrigará a outra, metida a besta, que ela não conheça? Toda cidade é frenética, para quem entra feito sonâmbulo na vertigem de seu ritmo intenso. Os prédios da selva de pedra olham-se uns aos outros com remorso e compaixão. Todo prédio, milionário, remediado ou paupérrimo, é monstruoso, quando visto pelos olhos do medo.  Os que são habitados pelos tristes e infelizes das cidades sofrem de secreta solidão, e são vistos com desprezo pelos prédios elegantes. Prédios como o Master e o Irajá, no Rio de Janeiro, têm vergonha de si mesmos, e guardam, em torturado silêncio, palavras de compaixão, que jamais dirão uns aos outros.
           
No Edifício Master mora um ator cuja carreira foi encerrada por uma cena desastrada. Ao fazer uma cena em que morria depois de levar um tiro a queima roupa, na cabeça, por excesso de estampido, ficou surdo, na hora. Acabou ali sua carreira de 69 filmes feitos. Hoje só tem recordações de glória extinta e esquecida. Lá tem um senhor solitário que cantou com Frank Sinatra, e há 60 anos, todos os sábados, às 10 da manhã, coloca em último volume “my way”, e conta com o grande astro, sendo coberto de aplausos pelos vizinhos de plantão.


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POR EM 24/11/2009 ÀS 04:15 PM

A hora dos bárbaros

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A hora dos bárbarosA hora das hordas começa quando a barbárie avança, a afogar a inocência, e a assassinar toda a esperança. Parece ser este mundo em que vivemos – um mundo selvagem e sem freios, alucinado e hostil à amorosidade  presente na energia da vida. É a conclusão fatídica a que se pode chegar, quando vemos o crime organizado, dentro e fora dos presídios, a cometer assassinatos covardes de policiais, civis e militares, ordenando que se incendeiem ônibus lotados de pessoas inocentes.

O fato nos faz lembrar o poema atribuído a Maiakóvski: “No primeiro dia, eles invadem nosso jardim, e destroem nossas flores. E não dizemos nada. No segundo dia, eles invadem nossa sala, e matam nosso cão. E não dizemos nada. E como não dissemos nada, arrancam nosso coração pela boca. E como não dissemos nada, já não podemos dizer nada”. O avanço da audácia e monstruosidade das hordas de bárbaros, nascidas do seio varonil de nosso amável e jeitoso povo brasileiro, parece indicar que estamos em face da banalidade do mal. Como nos trágicos tempos do Holocausto nazista. “E como não dissemos nada, já não podemos dizer nada”.


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POR EM 26/09/2009 ÀS 09:46 AM

Tesoureiros de Deus

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“Pequenas igrejas, grandes negócios”. Mais verdadeiro do que este brocardo, no alvoroçar da safra de empresas que vendem a peso de ouro a promessa de salvação, só inventando outro. As empresas da fé começam com pequenas portinholas — e de tanto vender prosperidade líquida e certa, em fogueiras que se dizem santas, logo estão bombando, obrando em dinheiros sem conta, a espalhar filiais por toda parte, inclusive nas estranjas, tais como oligopólios ou multinacionais, presentes onde hajam consumidores para seus produtos. No caso, o produto mais procurado, que não tem prazo de validade, nem necessita ser licenciado pela vigilância sanitária, é a salvação eterna. 
 
Nada a espantar se o milionário negócio da fé ampliar-se e repartir-se em nichos de mercado, chamados de filés, por garantirem lucro em cascatas, visto ser cativa a freguesia, constituída de inquilinos com cadeiras cativas no céu. E neste nicho empresarial a educação vem na ponta, visto ser necessidade essencial, sem a qual a sociedade entra em estagnação de pântano.

Caminhava por uma avenida nas imediações do Parque Vaca Brava, em Goiânia, em priscas eras espessa mata nativa, constituindo-se em paradisíaca da verdolenga Goiânia. No lugar onde se erguiam grandes e frondosas árvores, até com pequizeiros, remanescentes do bioma campo, um dos braços do cerrado, só desolação de grandes raízes arrancadas, voltadas para o sol. Onde só o verde havia, só aridez ficou.

Por lá, nos idos da minha infância, deambulei, com meus espantos, nirvanado bucolismo, mais parecendo a paisagem um paraíso terrestre. Da Campininha das flores até o alto Macambira (hoje chamado de Setor Pedro Ludovico, pelos esnobes, que rejeitam a denominação que lembra a pobreza a população pobre, a que chegou em tempos de vacas magras, tendo que andar léguas, para acessar um manancial, ou furar poços, para acessar o bem essencial da água. 

Nisto vi um homem, ao lado de uma dessas camionetes que falam línguas estrangeiras, e proferem sermões. Era um biliardário tesoureiro de Deus. Sua igreja tem filiais até nos States. Anda cercado de seguranças, anda em Mercedes blindada, e tem votos e dinheiro grosso para eleger parentes e aderentes a qualquer posto de mando. E nisto já em mandando bala, com gosto de pré-sal antecipado. Engomado e engravatado, falava ao celular, cercado de placas de propaganda da nova instituição de ensino que ali será erguida, sob os auspícios da próspera empresa religiosa que preside, em fausto de executivo do Banco Lehman Brothers antes de trabalhar contra si próprio, em bamburro ao contrário.

Mais à frente, em toda a avenida, só o que vi foram empreendimentos educacionais milionários, todos dizendo-se detentores da chave capaz de abrir as portas do céu. Tanto assim que em letreiros faustosos garganteiam deter o sistema pedagógico que educa para a salvação eterna — e o sucesso financeiro aqui na terra. Pois não há nada mais rentável do que o negócio da fé: seus tentáculos estendem-se a quase todos os setores da economia — desde o filão das confecções de vestuário adequado aos modelitos, até a milionária indústria de shows e gravações de discos qualificados como pertencentes ao rico filão dos Gospel.


Pensei então, com meus comigos: que tipo de cidadão ou ser humano pode ser formado a partir da concepção e ensino de que, a partir das crenças que professam, pessoas podem ser chamadas de irmãos e irmãs, e as outras, que não falam pelos mesmos dogmas da cartilha bíblica são tidas como inimigas, ou ímpias?

Vendo aquela engomada figura, de terno mais preto do que as asas da graúna, mais parecido com um corretor da Bolsa de Valores de Nova York do que com a despojada figura de Jesus de Nazaré, em cujo nome investe e lucra, sem ser flagelado pelas tropas de fiscais do governo, (sendo o seu próspero negócio livre de taxas e impostos) fui andando, tristonho, vendo as últimas chácaras sendo derrubadas para o erguimento de prédios de apartamentos, de alto luxo, paraísos de vidro, aço e granito.

Mais à frente, onde se via vetusto sobrado colonial, destes que ostentam uma história, e um rosto arquitetônico, só chão batido. Onde frondosas árvores se erguiam, só guindastes e bate-estacas batendo, a abrir buracos na terra: logo ali se erguerá mais uma caixa de morar. Ocorreu-me então este pensamentar: Mesmo seres da insustentabilidade: vivendo em desinteligência com a realidade, e ainda queremos ser donos da verdade!  
 


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