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POR EM 15/04/2008 ÀS 03:59 PM

Trânsito: os senhores da guerra

publicado em

 

A questão do trânsito é um problema grave em qualquer lugar do mundo. Mas no Brasil este limite já foi superado há muito tempo, e a questão de grave passou a vergonhosa, acintosa, de toda inaceitável.
 
No Brasil, o número oficial de mortos vítimas de acidentes de trânsito gravita em torno de 35.000 por ano. Mas todos sabem que é um número de mentirinha, daqueles para inglês ver, para dar lustre aos relatórios gerenciais. Um dado para escamotear a escandalosa incompetência e inoperância das autoridades responsáveis pelo setor.
 
E como é repugnante ver uma autoridade do trânsito falando sobre o assunto. Estão onipresentes, em todos os lugares, em todos os momentos. Adoram luzes, holofotes, se necessário vãos às vias de fato em busca de um banquinho para discursar. Passam-se por sumidades, doutores e especialistas no assunto, municiam-se de dados e estatísticas, carregam sempre sob os braços pastas e relatórios para emprestar confiabilidade às suas intervenções, assumem ar professoral, estampam na face uma expressão sebastianista, e arrotam projetos, e propostas, e ações, e iniciativas, e parcerias, e convênios... E a população, completamente abandonada, continua exposta à sangrenta guerra civil imposta pela violência que explode em nossas cidades e estradas.
 
Leonel Brizola costumava fazer chacota dos dados e estatística do país. Contava, lá à sua peculiar maneira, que o cidadão havia morrido numa lagoa cuja profundidade média não passava de um palmo. Para o bom entendedor, meia palavra basta. Os dados e informações estatísticas no Brasil sempre foram conformados aos interesses de ocasião. Por isto podem nos conduzir a um universo de oportunidades, à um precipício de ameaças ou, simplesmente, a lugar algum. Infelizmente, o precipício de ameaças tem sido nosso lugar comum.
 
Trinta e cinco mil brasileiros mortos por acidentes de trânsito no Brasil? Nem mesmo o governo acredita nesses números. Pura maquiagem, fantasia, artifício para mascarar a chacina que diuturnamente aniquila o país, avermelhando nossas vias, estradas e avenidas com o sangue de inocentes. A patifaria e canalhice das autoridades é tamanha que desenvolveram um conjunto de estratégias para manter o teatrinho, para manter inalterável o status quo, de modo que continuem mantendo seus empreguinhos de luxo... Às custas do suplício das famílias brasileiras e das perdas econômicas da nação. 
 
As estratégias para manter a ópera bufa das estatísticas oficiais sobre o trânsito parecem ter sido orquestradas no quadrante mais profundo do Tártaro. O roteiro é bizarro e demoníaco: a demora proposital para proceder a compilação dos dados; a forma (orquestrada) de notificação; estados e municípios mantendo metodologias e procedimentos diferentes; o fato do indicador se restringir tão somente aos que perdem a vida no local do acidente, não havendo (providencialmente) acompanhamento para verificar os óbitos ocorridos depois, no hospital ou em casa, em decorrência do desastre ou sinistro. O procedimento é tão vigarista que, ainda que a vítima venha a óbito dentro da ambulância, já a caminho do hospital, ela não será contabilizada.
 
Por conta destes disparates, não são poucos os que acreditam que o número de mortos no Brasil vítimas de acidentes de trânsito supere a casa dos 60.000.  
 
É um número vergonhoso, que remete o Brasil a uma verdadeira guerra civil, uma hecatombe sem precedentes.
 
Em 15 anos de guerra, os Estados Unidos lançaram sobre o Vietnã mais toneladas de bombas que as lançadas em todo o decorrer da 2ª Guerra mundial. Além dos armamentos convencionais, os EUA experimentaram armas químicas e biológicas, destruíram quase 70% de todos as vilas e cidades do norte e gastaram, no conflito, mais de 150 bilhões de dólares. Em 15 anos de guerra intensa, o número de americanos mortos foi de 58.193. Menos dos que morrem, no Brasil, por ano, em acidentes de trânsito.  
 
Já na Guerra do Iraque, em cinco anos de conflito, completados em 23 de março, o número de soldados americanos mortos não chegou aos 4.000. Portanto, cinco anos de guerra e 4.000 soldados mortos. No Brasil, a cada ano de guerra civil, a cada ano da insana tragédia do trânsito, 35.000 mortos (segundo dados oficiais); em torno de 60.000, segundo os estudiosos e especialistas “não dependentes” do governo seja pelo emprego que (neste caso) amesquinha, seja pelos interesses que avilta.
 
A guerra que envergonha e humilha o Brasil é uma guerra orquestrada por patifes, promovida por patifes, mantida por patifes. De seus gabinetes refrigerados assistem, sonolentos, impávidos e indiferentes, à hecatombe que martiriza nossas famílias, que ceifa nossos entes mais queridos.
 
Aqui talvez valha a antiga expressão latina “quidquid delirant reges, plectuntur Achivi” - quando os reis deliram, os gregos são açoitados. O povo pagando pelos desvarios dos governantes, dos executivos, dos burocratas, dos que têm algum tipo de autoridade institucional sobre o trânsito. São os deuses da morte, os senhores da hedionda guerra civil brasileira.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 10:54 AM

Uma oração para canalhas

publicado em

 

Quem suportaria de forma impassível ou indiferente às barbáries perpetradas por Silvia Calabresi et alli? Por muito tempo manteve crianças num cárcere hediondo, mas agora começa a provar do próprio veneno. No poema uma constatação: o sol sempre brilhará para todos, apesar das canalhas e patifes: 
 
Quantas Calabresis não se encontram escondidas, disfarçadas, infiltradas, dissimuladas, em nossos lares e corações?
Vês, na obra de Goya, Saturno devorando o próprio filho?
Simulas indignação, desprezo, repulsa?
Como não tivesses incrustadas nos recônditos de tu’alma as palavras de Machado:
“O cinismo é a sinceridade dos patifes”.
Extorques e acusas o outro... Cretina!
Roubas e o ladrão é o outro... Mesquinha!
Corrompes e quem é canalha senão o outro? Torpe e soturna!
Liquidas, exterminas, assassinas e eis que sentencias o outro.
Urdes, engendras e conspiras contra a pátria e o outro é o traidor.
Em que te diferes de Saturno?
Não és tu a insana canibal a acusar o outro de sê-lo?
Quantos filhos devoraste impiedosamente enquanto acusavas o outro
do infanticídio, do aborto?
Em que te diferes de Saturno, mulher?
Não és tu que corrompes de maneira vil e torpe a verdade e cultuas satanicamente
a mentira, ao tempo em que propagas ao mundo que corrupto e mentiroso é o outro?
Não cultuaste tão diligentemente a Cannabis sativa – a que apelidaras “doce marijuana” – para agora avançares sobre o outro acusando-o de viciado, peçonhento, maconheiro?
Devoras o fruto de teu ventre e acusas Saturno?
Promoves a intriga e apontas o dedo para o primeiro que vislumbras?
Ensinas a covardia e abusas da mais tenra e amada criança ¬–
e quem assediou acabou de fugir?
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos –
e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro?
Tua fantasia doce, angelical, cândida e inofensiva – tecida para embair o mundo –
desmoronou... e vestes ‘coitadinha’, calças ‘sofridinha’, maquilas ‘vitimismo’.
Já não podes posar de cavaleira impoluta.
Praticas aos olhos do mundo o adultério –
e, doidivanas, acusas todos os homens de cometê-lo?
Jamais relutaste em atirar a primeira, a segunda e a terceira pedra.
Jamais renunciaste às tuas prioridades absolutas:
Tu sempre em primeiro lugar
Tu sempre em segundo lugar
Tu sempre em terceiro lugar
És Judas, o Iscariotes, e te queres Santa Joana d’Arc.
És Joaquim Silvério dos Reis, o coronel venal, e te queres Tiradentes.
És Calabar e te queres Maria Quitéria.
“Acuse-os sempre de fazer o que você faz” é teu lema, teu jargão, teu valor mais
nobre e soberano.
Não, mulher, tu não consegues mais surpreender qualquer homem de bem.
Como não recordar Nietzsche: “Todo homem vai se tornando aquilo que é”?
E Terêncio: “Sou homem. Nada do que é humano me é estranho”?
Não declares que no mundo só existem traficantes, suicidas e latrocidas
por teres reduzido teu universo a uma sórdida, nefasta e insalubre masmorra.
Não declares o fim da bondade, da humildade e do altruísmo
porque integras a súcia, a récua, a farândola, a caterva das máfias e quadrilhas dos malfeitores lobos do homem...
Lobos ferozes e insanos em pele de cordeiro.
Queres conduzir todas as batalhas – quem hoje não sabe? – para a lama fétida
onde fermenta o pior do excremento humano.
Saibas, urge que compreendas: o mundo pulsa, a vida lateja – vigorosa, voluptuosa,
graciosa – de homens e mulheres dignos, éticos, honestos.
Fervilha, em cada casa, em cada rua, em cada esquina,
uma multidão de anjos guerreiros, nobres paladinos da justiça.
Milhões e milhões de sábios valentes que diuturnamente pelejam
para resgatar o mundo de patifes, canalhas e cafajestes como tu,
que desdenham e odeiam a verdade,
que veneram e cultuam a mentira,
que idolatram e tecem loas à traição e à ignomínia.
O mundo, mulher, não duvides, foi, é, e será sempre dos bons, dos justos, dos simples!
Como não orar para que canalhas e patifes percebam que o sol não morreu
tão-somente porque o horizonte encontra-se crispado de nuvens densas
e sombriamente carregadas?
Não, mulher, para glória de Deus e dos homens,
Tu não mataste o sol.
O mundo não será das Calabresis!
O universo regozija-se, pois que dá de ombros ao jogo nauseabundo
das Calabresis!

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POR EM 01/04/2008 ÀS 09:17 AM

As lições de Tiradentes

publicado em


No Brasil colonial destacou-se, na economia, a mineração. Pelos idos de 1690 o ouro foi descoberto em Minas Gerais, em 1719 em Mato Grosso e em 1725 em Goiás. 

Portugal entrou em êxtase com a nova oportunidade. E logo a nova riqueza representada pela exploração do minério recebeu uma legislação específica. Os fiscais da Coroa eram os responsáveis pela distribuição das cobiçadas terras auríferas. E quanto mais ricas e poderosas as pessoas, maiores eram os lotes recebidos.
 
A título de imposto, Portugal ficava com nada menos que 1/5 de todo o ouro encontrado. Cabia à Intendência de Minas exercer a fiscalização da atividade e cobrar o Quinto.
 
O processo de cobrança era simples e eficaz. Todo o ouro encontrado deveria, necessariamente, ser levado à Casa de Fundição, que o processava de modo a transformá-lo em barras. Ao retornar para o mineiro, a Coroa já tinha retido seus 20%. Não havia outra forma legal para o ouro circular.
 
No período do Marquês de Pombal – Primeiro Ministro do rei D. José I, Portugal passou a exigir que o Brasil pagasse, no mínimo, 100 arrobas de ouro anualmente.
 
A atividade atraiu levas de imigrantes de modo que, quando a operação começou a ser tornar mais complexa, exigindo outro tipo de tecnologia para a extração do minério, o setor começou a declinar, quando então o Quinto se tornou um tributo por demais asfixiante para os mineradores.
 
E as penas para o descumprimento das leis eram severas, implicando em degredo ou prisão.
 
Foi chegando a um ponto que os protestos e revoltas começaram a eclodir, destacando-se o movimento de 1789 que entrou para a história brasileira com o nome de Inconfidência Mineira.
 
O movimento levou à execução de Tiradentes no ano de 1792. Levado à forca, o mártir da Independência brasileira teve ser corpo esquartejado e sua cabeça exposta em logradouro público, como exemplo para os que ousassem desafiar o sistema colonial e as determinações da metrópole.    
 
A cobrança do Quinto foi o mote encontrado pelos inconfidentes para obter apoio popular para a revolta.
 
Basta comparar os impostos praticados no Brasil colônia com os cobrados atualmente para perceber que as coisas pioraram, e bastante. Aliás, a sociedade civil agradeceria se o atual governo praticasse as mesmas taxas exigidas pela Coroa. Se Portugal estimulou revoltas e mais revoltas ao cobrar 20%, hoje o governo retira da sociedade algo em torno de 50% de tudo o que a nação produz.
 
Em alguns produtos os valores dos impostos pagos pelo consumidor beiram à extorsão.
 
Toda vez que o consumidor abastece o automóvel, deixa com o governo 57,13% do que desembolsa. Quando bebe uma cerveja, entrega ao fisco 56% do que paga. E ai segue, com a prática de tributos escandalosos, nada escapando à fúria arrecadatória do governo.
 
Dentre os países em desenvolvimento, o Brasil tem a maior carga tributária. É a segunda maior do planeta, só perdendo para a Dinamarca. Mas existe aqui uma diferença determinante, fundamental. No país europeu, tudo funciona como um relógio suíço, já por aqui...
 
Por aqui, o problema estrutural é que o governo arrecada muito, muitíssimo, e administra mal, muito mal. Não consegue retornar à sociedade – com serviços de qualidade - a colossal soma de recursos que confisca imperativamente.
 
Sobretudo setores como a infra-estrutura física e econômica, a segurança, saúde e a educação no Brasil encontram-se em frangalhos, em estado de indigência e completa insolvência.
 
Parte expressiva dos impostos arrecadados é manejada pelas ratazanas para alimentar a descomunal rede de corrupção. Uma outra parte considerável se perde nas teias intrincadas da burocracia, nos labirintos de um aparelho de Estado ineficaz e perdulário, na gestão desqualificada, no gigantismo abissal dos poderes da República... De modo que só uma pequena fração dos recursos investidos chega ao destino final, à ponta do processo.
 
A grande verdade é que o Governo brasileiro é uma mistura de Dinamarca com Gabão. Sua eficiência para arrecadar se nivela à européia, mas a qualidade de sua gestão não consegue superar sequer a do Gabão ou, com mais precisão, à de Serra Leoa, o país mais pobre do mundo, com uma renda per capita de 490 dólares por ano e expectativa de vida de 39 anos.   
 
É tanta injustiça que Tiradentes e os inconfidentes de Minas devem purgar dias e noites revirando nos túmulos, indignados com a aleivosia que domina o cenário nacional. O país tem se tornado uma fraude e a sociedade precisa se mobilizar para que o sonho dos inconfidentes não se perca nas páginas de livros mal cuidados esquecidos nos escaninhos das bibliotecas.

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POR EM 25/03/2008 ÀS 11:10 AM

Entre o egoísmo e o altruísmo

publicado em
 
O planeta gira, os dias passam e a realidade vai tomando um formato mais agressivo e inóspito para as pessoas. 
 
Basta olhar para os lados para perceber que os indivíduos tornam-se, a cada dia, mais e mais egoístas, mais e muito mais orientados para a busca e o atendimento de seus interesses imediatos, exclusivos, indiferentes ao próximo, utilizando o outro como mero instrumento, escada ou alavanca.
 
O termo ‘egoísmo’ provém do latim. O radical ‘ego’, eu, primeira pessoa do singular do pronome pessoal latino, e significa algo como amor de si mesmo. Freud adotou o termo ‘ego’ para caracterizar a entidade de que se tem experiência interior, uma integração de percepções sentimentos e pensamentos.
 
De ‘egoísmo’ derivam, por exemplo, os vocábulos ‘egocentrismo’, que designa aqueles que fazem do próprio ego o centro de seu universo; e ‘egotismo’, utilizado por Stendhal para denominar um tipo especial de estudo, o autobiográfico, aquele em que o escritor se debruça para analisar a própria individualidade física e mental. Mas ‘egotismo’ significa também um egoísmo mais refinado, de certa forma o culto narcisista de si. 
 
Até mesmo o veneno da cobra, quando dosado e aplicado na medida certa, pode salvar e curar enfermidades ao invés de matar. Assim é o egoísmo. Na medida certa é proveitoso, benéfico, salutar, por representar em cada um de nós uma tendência inata de nos preservar e, sobretudo de crescer, evoluir, progredir, nos desenvolver. 
 
Mas o sentido moral da palavra aponta para uma direção bem diferente. Um sentido em que só o que vale e importa é o amor exclusivo ou excessivo a si mesmo, pouco ou nada importando os interesses do próximo. E este é o sentido que parece ter fincado âncoras nas sociedades modernas.
 
Com o egoísmo sendo cultuado e elevado ao ápice do exagero, tudo passa a ser permitido e estimulado. O que importa é chegar ao outro lado do rio, ainda que pisando, asfixiando e afogando todos ao redor. Nada, rigorosamente nada deve ser obstáculo para que os objetivos sejam conquistados na tão conhecida cantilena de que os fins justificam os meios. Não há limites nem escrúpulos, tudo passa a valer: a mentira, a traição, a conspiração,... Os valores que imperam são a ambição e a inveja. Neste contexto, o outro é sempre um obstáculo, um eterno adversário, um ameaçador concorrente, um perigoso competidor, jamais um colaborador, um leal aliado, um companheiro. Nada de divisão, de solidariedade, de compartilhamento, pois implicaria em acumular menos, em defenestrar o benefício próprio.
 
Se nesta extremidade o mar é turvo e revolto, na ponta oposta, mares serenos de águas claras e cristalinas dão guarida ao vocábulo ‘altruísmo’, um contraponto capaz de resgatar a virtude e as possibilidades de viver em comunhão, uma palavra aveludada e sonora a confrontar com a sequidão e acidez do termo ‘egoísmo’.
 
Altruísmo também provém do latim, da raiz ‘alter’ que significa precisamente ‘outro’. Designa o que preocupa e se interessa pelos outros, jamais negando auxílio e ajuda, sendo capaz de abrir mão de seus próprios interesses. Numa extremidade está o egoísta, e na outra, oposta, o altruísta. Se a característica do egoísta é mentir, trapacear, embair e enganar para levar vantagens pessoais; a do altruísta é a generosidade, a nobreza, o amor ao próximo, o caráter reto. É um valor que não cai do céu, não brota em árvores, e não se encontra no mar. Mas que se forja no dia a dia, desde a tenra idade, desde a primeira infância, à medida que crescemos e amadurecemos para a vida.
 
Os pais devem atinar para a importância de incorporar este valor à personalidade dos filhos. É impossível alcançar a felicidade individual e familiar mantendo-se distante, indiferente ou refugando este valor de todo fundamental para a saúde espiritual e social.
 
De igual modo, as escolas devem assumir um compromisso explícito de trabalhar mais amiúde esta questão, não só através do ensino formal, mas, sobretudo inserindo esta reflexão nos jogos educativos, e nas atividades lúdicas e artísticas. Porque uma sociedade progressista, fraterna e solidária, onde as oportunidades estejam ao alcance de todos, só se desenvolve de forma sustentável quando conduzida e composta por indivíduos altruístas.

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:12 PM

Uma platéia salafra?

publicado em


O teatro na forma como o conhecemos no ocidente, originou-se das grandes marchas carnavalescas em homenagem ao deus grego Dionísio. 

Nessas ocasiões o povo acorria em massa e participava intensamente, rompendo com os padrões vigentes: num passe de mágica, eis que o despossuido estava investido do poder e da riqueza; o feio e rejeitado transformava-se em belo e querido; o fraco em rei e a devassa em vestal.
 
As ruas e os largos espaços públicos foram os templos primeiros dessa milenar arte popular.
 
Com o correr do tempo, novas necessidades delimitaram outros compromissos e o arranjo sucessivamente repactuado desafogava novas demandas.
 
A ruptura com as antigas origens ia conformando espaços mais restritos, até que o palco à italiana aprisionou o teatro entre quatro paredes.
 
A pujança e o vigor do renascimento medieval deram origem à Commedia dell’art que, novamente reintroduziu no panorama teatral o caráter libertário do teatro: a improvisação, as ruas e praças públicas como espaços prioritários, a alegria intensa, a magia, a fantasia,...
 
Em raros momentos da história atores e platéia conseguiram estabelecer uma relação bem resolvida.
 
Um ou outro, quando não os dois, quase sempre se mostram insatisfeitos, com as expectativas sempre por atender. E não me refiro simplesmente à satisfação emocional, a tornada visível com a vaia e o aplauso. E sim aquela mais profunda, que tem a ver com a essência da relação que se espera de um e outro: postura diante das grandes questões existenciais e políticas, visão de vida, compromissos sociais.
 
Este descompasso levou ao que, no teatro contemporâneo, os artistas e encenadores passaram a denominar descompromisso, alienação ou apatia da platéia.
 
E para qualificar a participação e fazer com que a platéia rompa com a passividade, os atores passaram a recorrer a modelos e artifícios inovadores, alternativos, que escapem das práticas convencionais.
 
Antonin Artaud quando criou o Teatro Jarry, fez questão de estrear com um espetáculo de Max Robur, Gigogne. Na apresentação, o protagonista dirigia-se à platéia nos seguintes termos:
 
“Meus senhores, minhas senhoras, vocês não passam de uns salafrários!”
 
E Artaud se decepcionou com a reação do público, pois a companhia se preparou para uma resposta instantânea, peremptória, em certo grau, violenta.
 
Nos dias que correm é comum provocar o espectador para que ele abandone o estado de apatia, obliteração e indiferença ante os fatos que o espetáculo desvela.
 
Na realidade, os que lidam com o teatro jamais se conformaram com uma platéia cujo papel se limite a tão efêmera participação.
 
No dadaísmo, movimento cultural que se originou em Zurique nos idos da 1ª guerra mundial, Tristan Tzara e Hugo Ball, dentre outros, preocuparam-se em sistematizar a idéia de uma “comunhão coletiva que abale a diferença entre poesia e teatro”, uma linguagem que agite e faça vibrar em lugar de apenas significar.
 
Enfurecido com as concepções reducionistas quando o texto dramático comprime ao invés de expandir o teatro, encarcerando-o inexoravelmente na literatura, Edward Gordon Graig protestava:
 
“... a arte do teatro nasceu do gesto, do movimento, da dança(...) o dançarino foi o pai do dramaturgo”. E rispidamente criticava os que escreviam para o teatro sem entender sua real dimensão: “nossos autores dramáticos são escritores de palavras”.
 
No que conseguiu a cumplicidade de Artaud que condenava o teatro ocidental exatamente por viver aprisionado à ditadura despótica da palavra.
 
Estava evidente a diferença entre os escritores que simplesmente escreviam para teatro e os verdadeiros dramaturgos. E Áppia trata de esclarecer o descompasso:
 
“(...) quem diz dramaturgo diz também encenador. Seria um sacrilégio especializar as duas funções. Podemos então estabelecer que se o autor não acumula ambas, não será capaz nem de uma, nem de outra coisa, pois é na penetração recíproca que deve nascer a arte viva.”
 
O processo de Dada exigia uma reação diferente da platéia, uma reação viva, vigorosa, imprescindível ao processo, sem a qual a manifestação cultural não atingiria seu objetivo.
 
Hoje já não se apresenta estranha a idéia de que é necessário mexer com o espectador, incomodá-lo, faze-lo vibrar, pressentir, reagir aos fatos que se desenrolam diante dele, abjurando a indiferença.
 
No Dadaísmo a procura era pela comunhão coletiva, uma sinergia que reduzisse a pó a diferença entre texto e teatro, palco e platéia.
 
A busca por uma maior interação entre platéia e palco levou a uma profusão de caminhos, propostas, concepções, escolas, movimentos...
 
Artaud, por exemplo, perseguiu um espetáculo multifacetário, circular, capaz de pulverizar os dois mundos fechados onde se escondem palco e platéia, “um espetáculo que espalhe suas irradiações visuais e sonoras sobre a massa de espectadores”.  
 
Mas foi Adolphe Appia um dos primeiros a insurgir, exigindo a supressão dos espaços entre artistas e platéia.
 
Appia chegou a desejar o desaparecimento do público, conclamando os espectadores a tornarem-se atores, apregoando uma arte dramática com ou sem espectadores.
 
Num diálogo de Mama de Tirésias, estreado em 1917, Guillaume Apollinaire define esta concepção cênica e este teatro que se buscava:
 
“Aqui tentamos infundir um espírito novo ao teatro
Uma alegria, uma volúpia, uma virtude
Para substituir esse pessimismo velho de mais de um século
O que é bem antigo para uma coisa tão aborrecida
A peça foi feita para um teatro antigo
Pois não nos teriam construído um teatro novo
Um teatro redondo com dois palcos
Um no centro, o outro formando como que um anel
Em redor dos espectadores e que permitirá
A grande apresentação de nossa arte moderna
Casando frequentemente, sem ligação aparente, como na vida
Os sons, os gestos, as cores, os gritos, os ruídos
A música, a dança, a acrobacia, a poesia, a pintura,
Os coros, as ações e os cenários múltiplos
Vocês encontrarão aqui ações
Que se juntam ao drama principal e o ornamentam
As mudanças de tom, do patético ao burlesco
E o uso racional das inverossimilhanças
E de atores, coletivos ou não
Que não são forçosamente extraídos da humanidade
Mas de todo o universo
Pois o teatro não deve ser uma arte enganosa”.
 
Nesta desesperada busca pelo teatro pretendido, livre de peais e entraves, os caminhos trilhados não foram poucos, muitos levando a contextos contrários aos desejados.
 
Enquanto Artaud se envereda pelo teatro metafísico e mágico, Piscator, Reinhardt, Stanislavski, Meyerhold e Brecht desenvolvem o teatro político.
 
Stanislavski registrou em suas recordações como Graig montou Hamlet em Moscou:
 
“ Graig não queria entreatos e cortinas. Os telões devem ser uma continuidade arquitetônica da platéia (...). A platéia e o palco não se distinguem um do outro e encontramo-nos transportados para um outro mundo”.
 
Appia chegou a desejar o desaparecimento do público, conclamando os espectadores a tornarem-se atores, desejando uma arte dramática com ou sem espectadores.
 
Uma nova relação entre platéia e artistas é uma busca que remete às origens do teatro. Nada tem de novo. E jamais chegará a termo. Sempre estará por fazer, por construir. E é importante que seja assim. Mais um dos mistérios a garantir a perpetuação desta milenar manifestação artística.

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POR EM 04/03/2008 ÀS 04:26 PM

Entre a escuridão a e a luminescência

publicado em


O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.

E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.

A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não têm sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo.

Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina. 

Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.

Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C. tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$20 milhões.

Também no império bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.

O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.
       
Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.
      
No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.

É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las efetivas e eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre as duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?

Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.  

No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto aos condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria. 

A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.

Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficiência e eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.  

E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.

Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.

Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga -  estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.     

Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’. O dilema é um só: optar entre a escuridão que aprisiona e a luminescência que liberta.  


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POR EM 02/03/2008 ÀS 01:36 PM

Açoites na educação

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Por incrível que pareça, mais da metade dos municípios brasileiros atuam ao largo das boas técnicas gerenciais e da eficácia administrativa, desperdiçando tempo, energia e, sobretudo, os recursos da sociedade. Pior, possibilitando ainda que o modus operandi em vigor seja sacralizado, generalizando as nefastas praticas do clientelismo, do fisiologismo, da gestão-caterva, aquela em que o profissionalismo é quase nada e a bisonhice e a malandragem quase tudo. Conseqüências mais imediatas? Desvios de toda ordem e as portas escancaradas para a corrupção. Por que digo isto? Dos 5.564 municípios brasileiros, tão somente 41% contam com um plano de educação. Pode? Não, não pode, evidentemente. Mas é o mais fiel retrato da cruel realidade brasileira, conforme relatório preliminar do Sicme, o Sistema de Informações dos Conselhos Municipais de Educação. 

Um outro grave aspecto que esta discussão faz emergir é o certo distanciamento que a sociedade vem mantendo sobre o tema. Uma eloqüente demonstração que a população de 59% dos municípios brasileiros desconhece alguns de seus mais destacados direitos. No processo de elaboração do Plano Municipal de Educação, uma etapa preliminar estabelece a obrigatoriedade da criação do Conselho Municipal de Educação, instância de deliberação colegiada integrada por membros do governo e da comunidade. É o Conselho quem hierarquiza os problemas e elege as prioridades educacionais, por isso é, sob qualquer aspecto, o mais poderoso instrumento de controle social disponível.

O Plano Nacional de Educação estabelece que cada um dos 5.564 municípios brasileiros deve ter o seu Plano Municipal de Educação. Mas 3.282 cidades optaram por ignorar a orientação do MEC, fazendo pouco caso da determinação constitucional. O interessante é que o Ministério suspende o repasse de verba para a merenda escolar - castigando diretamente nossas crianças – quando os prefeitos cometem alguma irregularidade como, por exemplo, atrasar a prestação de contas. Mas este mesmo Ministério não aplica punição alguma quando o Prefeito deixa de encaminhar à Câmara o projeto de lei criando o Plano Municipal de Educação.  

Uma grande conquista da Constituição de 1988 foi assegurar ampla autonomia política e administrativa para os municípios, autonomia jamais havida anteriormente, não na amplitude atualmente experimentada. Os municípios conseguiram resgatar sua importância política e institucional, e ocupam lugar privilegiado dentre os sujeitos de nosso ordenamento democrático; mas vê-se, principalmente na área da educação, que nossos prefeitos e edis não estão à altura da importância atribuída a eles pela Carta Magna. 

E o que faz o Plano Municipal de Educação? Exatamente organizar a atuação do governo local no setor, racionalizando e potencializando a aplicação dos recursos humanos, materiais e financeiros. Como define objetivos, diretrizes e rumos da educação municipal, deve ser discutido e votado na Câmara de Vereadores, que o transformará em lei.

O século XXI já não abriga quem lance dúvidas sobre a importância e necessidade do planejamento na vida das pessoas e das instituições. Sobretudo no aparelho de estado sua adoção é imperativa. Hoje, são inconcebíveis tergiversações sobre esta questão. Guiar-se por planos, programas e projetos que disponham, claramente, os objetivos, estratégias e metas a serem alcançados é obrigação legal e constitucional para tantos quantos atuem na administração do aparelho de Estado, mormente os gestores públicos.
 
E se o quadro envergonha e indigna, as coisas já estiveram bem piores. Em 2006, apenas 33% das municipalidades contavam como seu planejamento educacional.

Já convertido em lei, a comunidade pode acompanhar a implementação da norma, a execução do Plano, exercendo a fiscalização e o controle social sobre as ações do prefeito, do secretário municipal de educação, do diretor da escola e dos demais gestores que integram o sistema. Não existindo Plano e lei, tudo fica a mercê da boa vontade dos prefeitos, da improvisação, do tráfico de influência, prevalece a gestão-caterva.
 
Os brasileiros já têm, ao alcance da mão, diversos instrumentos de participação e controle social. O Conselho e o Plano municipais de educação são apenas alguns deles. Protestos e reclamações desvinculados da ação política viram fofoca e histerismo coletivo. A sociedade deve saber mais para exigir mais, mas num contesto de emprestar eficácia à sua manifestação. Os direitos já estão no papel. E não são poucos. Basta agora trazê-los para a realidade do dia a dia. Atividade só é possível com participação e organização. Não sendo assim, será a redenção da adminstração-caterva.
 


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