Desenho de  Wendy MacNaughton
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POR EM 08/07/2008 ÀS 09:15 AM

A forma mais leve de ser

publicado em

Os pais costumam brincar perguntando aos filhos o que gostariam de ser quando crescerem. Na realidade, a pergunta serve como uma catapulta para a lição que vem a seguir. “Se este é o desejo, então trate de garanti-lo, estudando, esforçando, perseverando”.

E quando o cenário é o país, a pergunta continuaria na ordem do dia? Quanto à terra Brasilis, que nação gostaríamos de deixar para nossos filhos e netos? Que país desejaríamos alcançar no futuro?
 
A resposta não poderia ser outra.
 
Enfocando o indivíduo, a sociedade ou o país, a solução é uma só: se o desejo é construir uma pátria progressista, desenvolvida e justa, o caminho mais rápido e seguro é apostar no conhecimento, no saber, na educação. Podem ocorrer divergências aqui e ali, num detalhe ou outro, mas, quanto à direção a seguir, nenhuma dúvida deve restar: o futuro sustentável é resultado direto dos investimentos que, hoje, fazemos na educação.
 
Estar plenamente sintonizado com a educação faz bem, mantém sã e vívida a aura que sustenta a alma das pessoas, individualmente, mas também coletivamente, sobretudo coletivamente, naquilo que muitos denominam espírito social, e que forja o patrimônio imaterial de um povo.
 
A famosa frase pronunciada por Rodoux Faugh no leito de morte mostra o quanto o ‘bem viver’, a alma e o espírito guardam relação com a educação: “A forma mais leve de ser faz morada no ensinar”.
 
Se a educação é o porto seguro onde os povos que singram mares tão revoltos deveriam atracar, os acontecimentos demonstram que o Brasil navega a esmo, perdido em alto-mar, muito distante do cais e da terra firme.
 
É o que demonstram os números recentemente disponibilizados pela Secretaria de Educação de São Paulo.
 
Os exames aplicados expõem à luz do meio-dia a completa indigência que é o ensino público no país, particularmente o ensino de matemática.

Tabulados os dados, o resultado que emergiu dos estudos assombra, assusta e indigna ao mesmo tempo: quase 100% dos alunos não dominam os conhecimentos básicos, aqueles triviais, mas que ancoram o que vem a seguir, e sem os quais tudo o mais se torna volátil e insustentável. Os números desnudam uma realidade inóspita e revelam o quanto as políticas públicas aplicadas nas últimas décadas pecaram pela inconsistência, irresponsabilidade e perversidade: mais de 80% dos estudantes foram literalmente reprovados nos testes.
 
Um exemplo? “Some 1/5 mais 1/10 mais 1/2 e dê o resultado em porcentagem.” Nada menos que 61% dos estudantes das escolas públicas do estado mais rico da Federação não conseguiram acertar essa questão.
 
Tão grave quanto a performance dos estudantes é o fato de que, analisando a série histórica das avaliações anuais, chegamos a uma conclusão terrífica: ao contrário de melhorar, a situação tem se tornado dramática, piorando ano a ano.
 
O fato é que o sistema concentra os esforços – já bastante limitados – na melhora da escrita. O que não é mal. O problema é que se esquecem de aplicar igual esforço na melhora das bases referentes às ciências exatas.
 
Que país desejamos inscrever no futuro, encontrar no amanhã? Um país melhor, mais justo, onde as oportunidades estivessem ao alcance de todos. Seria a resposta correta, mais adequada, mais oportuna, mais consentânea com a gente honrada e valente que labuta por aqui. Porém a leviandade e a falta de compromisso de alguns podem colocar nossos sonhos muito mais distantes do que seria suportável e razoável, confinando-os – quem sabe? – ao Tártaro, o inferno dos gregos antigos.
 
Nossa resposta deve ser categórica, dura e compacta como um bloco monolítico de granito. Racionalmente poderia se expressar numa peremptória palavra de ordem: “Toda prioridade para a educação”. Ou mais sentimentalmente, num singelo poema de Faugh:
 
"Em meu coração repousa um desejo
Imantado por lutas, suor, sangue, sacrifícios mil
Em meu coração lateja explosivo desejo
Temperado com sonhos idílicos, líricos, pastoris
Em meu coração pulsa e insinua passos de bucólica dança viril desejo
Tecido com todas as esperanças adultas, infantis, juvenis
Guarda pobre e efêmera rima, não nego, pois que abraça redenção
Distante – insisto – do que possa assemelhar sebastianismo, messianismo, salvadorismo...
Meu desejo secreto brinca, versa, entoa, cantarola
Observa, avalia, critica, recicla, processa, reprocessa, aprende e ensina
E destila todos encantos quando o trato é educação".

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POR EM 01/07/2008 ÀS 11:05 AM

Sobre cantorias, escolhas e caráter

publicado em

Os que gostam do velho Gonzagão jamais esquecem a bela melodia – não por acaso, sábia lição:
 
“(...) mas doutor, uma esmola pra um homem que é são
ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão (...)”
 
A bela obra é de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e ficou no imaginário popular e nos anais da música popular brasileira como um libelo à coragem, um vigoroso protesto contra a cultura da esmola, da vassalagem e do clientelismo.
 
“Vozes da Seca” deveria ser uma de nossas mais cultuadas músicas, aquelas ditas “de travesseiro”. Infelizmente não é. E por quê? Uma simples incursão pela cantoria, pelos primorosos versos da composição, não deveria dar margem a dúvidas:
 
Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos
 
Gonzagão é como ficou conhecido Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em dezembro de 1912, cidade de Exu, e encantado em 1989, no Recife. Por tudo o que fez, foi coroado pelo povo "rei do baião".
 
Aprendeu a tocar sanfona com o pai e ainda adolescente ja se apresentava em festas e feiras livres. “Asa Branca”, elaborada em parceria com Humberto Teixeira, lhe traria a consagração definitiva.
 
Os antigos sempre souberam dos perigos da ‘generosidade’ estatal travestida quase que invariavelmente com nomes pomposos, mas que redundam sempre na velha e surrada esmola, na ‘compra’ de votos e consciências. Os mais sábios tentavam responder com exemplos, lições, ensinamentos aprendidos ao longo da história. E nem sempre lograram êxito. Quem não se lembra das frases simples – singelas e profundas – tecidas por nossos antepassados? Algumas atravessaram o tempo perpassando os séculos, da pré-história à era contemporânea. É como se estivessem indelevelmente tatuadas na memória humana. Talvez a mais incisiva seja: “Bem melhor que dar o peixe, é ensinar a pescar”.
 
Mas, pelo que se percebe, boa parte dos governos reluta em assimilar o ensinamento tão relevante para a cidadania. A maioria dos programas governamentais gravita em torno de uma cobiçada fábrica: a que produz torrentes de ilusões e votos.
 
Para dourar a pílula ou untá-la com uma casquinha de verniz, convencionou-se fazer referência a esse tipo de assistencialismo como “políticas & ações emergenciais para debelar a fome endêmica”. Nome que empresta pompa e circunstância ao ‘dar o peixe’, que resulta em vício, dependência, e na perda de algo caro e precioso para nossos avós, a vergonha na cara. Já quanto ao ‘ensinar a pescar’, à institucionalização de portas de saída; quanto ao abrir janelas, alargar horizontes, assegurar profissão, emprego ou renda sustentável, gerar oportunidades e democratizá-las – essas ações ficam para ad calendas graecas.
 
O Bolsa Família, por exemplo, é um dos mais importantes programas sociais do governo federal.
 
Concebido como um programa de transferência direta de renda, beneficia famílias em situação de pobreza, aquelas com renda mensal de R$ 60,01 a R$ 120,00 por pessoa. Contempla também as famílias que se encontram em situação de extrema pobreza, as que não conseguem renda mensal superior a R$ 60,00 por pessoa.
 
As origens do programa estão ligadas a governos estaduais e municipais, como o de Cristovam Buarque, que, quando governador de Brasília, implementou o Bolsa Escola, garantindo renda às famílias que, efetivamente, assegurassem a freqüência de seus filhos na escola. O governo de Fernando Henrique deu dimensão nacional ao programa.
 
Sob o ponto de vista emergencial o programa tem cumprido seus objetivos. Só no período de 2001 a 2004 foi o responsável por uma queda de mais de 20% no índice de desigualdade do país. A renda mensal das famílias atendidas aumentou nada menos que 21%. São vitórias retumbantes, expressivas, a se comemorar com desfiles, festanças & fogos de artifício.
 
Portanto, enganam-se (ou estão obliterados pela má-fé) os que desdenham o programa. Na parte que funciona, os benefícios são eloqüentes. O programa exige, por exemplo, que todas as crianças com idade entre 6 e 15 anos tenham freqüência escolar mínima de 85%; e as que se encontram em idade de vacinação devam ter a carteira em dia. Das gestantes exige o exame pré-natal. A punição para os que descumprem requisitos pode levar à exclusão do programa.
 
Porém, se as vantagens e qualidades não podem ser ignoradas, os problemas também não.
 
E um dos inaceitáveis é que o governo faz vista grossa dos sistemas de avaliação e controle. Só a partir do final de 2004 se instituiu a sistemática de controle da freqüência escolar. E as regras de exclusão só foram estabelecidas no findar de 2005. Adiantou? Nada. Jamais alguém foi excluído do programa. Como os controles são frágeis e não há perigo de punições, muitas famílias tiraram as crianças da escola.
 
Outro problema da mais alta gravidade – e não há quem ignore – é que o programa se amesquinha à medida que não disponibiliza portas de saída, o que redunda em manter as famílias aprisionadas à miséria, à dependência indigente. Sinônimo da megaindústria da esmola? Megafábrica de votos.
 
Conseqüência imediata: ao mesmo tempo em que cresce o número de simpatizantes e uma potencial massa de votos, cresce também – entre os dependentes do Bolsa Família – o abandono escolar.
 
Apenas quando, com mais atenção, nos debruçamos sobre os números do Bolsa Família é que conseguimos nos dar conta do gigantismo e da real dimensão do programa. Um quarto da população do Brasil depende do Bolsa Família. São 45,8 milhões de habitantes, mais que toda a população da Argentina. E o mais grave, de todo inaceitável: as crianças beneficiárias não estão completando sequer os oito anos do ensino fundamental.
 
Tem sido cada vez mais comum cantores contemporâneos regravarem músicas antigas, sucessos do passado. Procura-se um para reconduzir “Vozes da Seca” às primeiras posições das paradas. Seria um tributo a Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Para os governos, uma lição sobre as melhores escolhas e opções, as que efetivamente levam à cidadania. E para a sociedade, uma mistura de beleza e encantamento com lições sobre o caráter e a vergonha na cara. 

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POR EM 24/06/2008 ÀS 10:28 AM

Eleições e educação

publicado em

Dadas às características da cultura política brasileira, é determinante a influência exercida pelo governo central sobre as unidades da federação. Historicamente, no Brasil, a União exerce uma concentração de poder - política e orçamentária – tamanha, que só restam aos estados e municípios reproduzir – com pouquíssimas variações – as diretrizes e orientações que emanam da capital federal.
 
Ainda que o Ministério da Educação procure disseminar uma imagem de gestão democrática, estimulando inúmeros grupos de trabalho, infindáveis fóruns e seminários em que presumivelmente chama a participação de todos, a política orçamentária gestada é que, verdadeiramente, estabelece os limites, determina quem ordena estabelece caminhos, diretrizes, estratégias e prioridades.
 
Neste contexto, o que tem ocorrido no sistema público de ensino médio e fundamental é de envergonhar. Uma tragédia descomunal: nossos adolescentes, desde muito cedo presentes nas salas de aula, não conseguem interpretar um texto básico de português elementar, uma simples seqüência de frases triviais.
 
Eis a descrição da face mais perversa do atual cenário:
 
• professores descontentes com os salários e as condições de trabalho;
• alunos satisfeitos com o “ensino” oferecido que pouco exige, muito pouco cobra e quase nada ensina;
• pais conformados por, ao menos no período em que os filhos estão nas escolas, contar que os pequenos permaneçam longe das ruas, distantes da violência explícita, da criminalidade, da prostituição e das drogas;
• o Estado sequioso por externar imagem de eficácia, “universalizando” o ensino, pretensamente “democratizando” as oportunidades e “viabilizando um caminho” para as futuras gerações.
 
Neste ambiente de grave crise institucional é difícil encontrar os responsáveis, ninguém se acredita culpado quando, na realidade todos o são. Os alunos que se conformam com a ociosidade improdutiva; os professores que fingem ensinar - enquanto o estado finge que remunera; os políticos e gestores públicos que preferem implementar políticas superficiais – maquiando problemas ao invés de resolvê-los; os pais e a sociedade – céticos e exaustos - sem forças para protestar, sair às ruas, pressionar, votar com consciência, participar de uma forma mais intensa e eficaz, ...
 
Periodicamente ocorrem no Brasil eleições que mobilizam mais de cinco mil municípios. Milhares e milhares de candidatos disputam cargos de representação no parlamento e no executivo. Pelo menos nos processos eleitorais a sociedade se debruça sobre a discussão dos grandes temas de interesse nacional, debatendo assuntos importantes para as localidades, refletindo sobre as inumeráveis propostas de mudanças e melhorias. E por isto – as eleições - acabam se constituindo no melhor instante para iniciar a esterilização do Estado nacional, jogando na lata de lixo os candidatos que se mostrem inadequados, incapazes, despreparados, irresponsáveis. Daí, dar prosseguimento a estratégia nas eleições subseqüentes até alcançar a situação ideal de colocarmos no executivo e legislativo, políticos que se conduzam pelos princípios da ética e eficácia, que cumpram o que, nas campanhas, se comprometeram.
 
Mas e no ínterim, no espaço entre as eleições? O tempo não pára, a vida continua e – dada a realidade nacional - urgentes providências precisam ser adotadas.
 
É preciso buscar no fundo da alma forças para intervir nesta realidade, procurando a todo custo transformá-la. Ao menos torná-la suportável até que a sociedade consiga se reorganizar para as transformações de fundo.
 
É lá no lugar mais recôndito do coração, onde o ceticismo e a descrença ainda não vergaram a esperança, que professores e educadores devem buscar as forças para motivar seus alunos.
 
Ao lidar com a construção, ao trabalhar a formação dos futuros cidadãos, os educadores estão lidando com o quê de mais nobre existe na natureza humana. Nossas crianças e adolescentes acalentam sonhos, expectativas, esperanças. E a materialização desses sonhos, em boa parte, dependerá do professor, do mestre, do timoneiro desta embarcação que navega em águas turbulentas e revoltas. Por isto a margem de erros do professor é muito diminuta.
 
Em sala de aula acostumei fazer uma indagação aos alunos: qual a porcentagem de erro admissível para o médico que, acabando de retirar a criança do ventre materno, deixa-a escorregar, se estatelar no chão? De cada dez partos realizados, quanto é aceitável de bebês estatelados no chão por terem escorregado das mãos do médico?
 
Tanto para o médico como para o educador só existe uma única margem de erro admissível: zero.
 
A boa saúde de nossas crianças depende, em grande medida, dos médicos. Assim como a boa jornada de nossas crianças em direção a um futuro de realizações depende, em boa medida, dos professores.
 
Na hora do ‘vamos ver’, do frigir dos ovos, o educador é a chave do processo de transformação pessoal e social; e o professor do ensino médio e fundamental, peça estratégica.
 
O bom educador sabe o que quer, aonde e como chegar. Procura explicar com simplicidade, de forma convincente, criativa e encantadora.
 
Cada atividade pedagógica, antes de efetivamente aplicada em sala de aula, passa por amplas discussões, envolvendo mestre e alunos: “Nossa meta hoje é chegar até este ponto. Para isto pretendo conduzir o assunto da seguinte forma, utilizando a seguinte estratégia, metodologia e equipamentos. Ao final da aula todos devem ter assimilado isto. Vocês entenderam? Estão de acordo? Alguma sugestão para tornar a aula mais interessante?”.
 
É simples assim. Sem magia ou mistério. O diálogo entre professor e aluno – quando existente – estrutura compromissos confiáveis, solidários, por isto, perenes e mais, produtivos.
 
Outro ponto não menos importante é detalhar os objetivos, tornando-os plenamente alcançáveis. Não existe nada mais desestimulante que estabelecer metas e objetivos inalcançáveis. Os alunos devem estar convencidos que darão conta do recado, que o chapéu encontra-se ao alcance da mão, bastando para isto esforço e dedicação.
 
O detalhamento das metas e objetivos possibilita que o próprio aluno monitore sua performance, seu aprendizado, promovendo os ajustes que a realidade requer. Sobretudo para recuperar-se na parte em que encontra dificuldades.
 
E o fundamental: estabelecer fina sintonia entre o que é ensinado em sala de aula e o que ocorre fora da escola, na família, nas relações sociais, na comunidade. As aulas devem respirar no sentido de expressar situações concretas, vivenciadas pelo aluno na sua rotina cotidiana. As disciplinas devem ser apreendidas à luz da reflexão crítica que se faz das realidades presente, passada e futura. Desta forma, o aluno se sentirá estimulado a participar da vida escolar e comunitária, compreendendo o que o dia a dia apresenta de forma dissimulada e incompreensível. Na vida familiar e comunitária utilizará os ensinamentos apreendidos em sala de aula. E na escola utilizará os ensinamentos apreendidos na vida comunitária.
 
Quando via de mão única, a educação não passa de palavra vazia na boca de politiqueiros e oportunistas. Já quando via de mão dupla, a educação se reveste da magia capaz de alterar o tempo e o espaço, se reveste da capacidade de operar a democratização das oportunidades.
 
É por tudo isso que as eleições são tão importantes. Porque o resultado, a apuração dos votos, determinará se continuaremos trafegando em uma via de mão única, ou se nos libertaremos numa larga via de mão dupla.

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POR EM 17/06/2008 ÀS 03:04 PM

Sobre corrupção e saúvas

publicado em

O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.
 
E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.
 
A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não tem sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo, de uma nação.
 
Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina. 
 
Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita, a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.
 
Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C. tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$ 20 milhões.
 
Também no Império Bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.
 
O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.
       
Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.
      
No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.
 
É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?
 
Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.  
 
No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto as condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria. 
 
A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.
 
Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.  
 
E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.
 
Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.
 
Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga - estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.     
 
Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’.
 

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POR EM 09/06/2008 ÀS 08:35 PM

Uma guerra invisível?

publicado em

O poema “Enjoadinho” de Vinícius de Moraes é uma ode aos nossos filhos.
 
Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
  
Os alunos são como nossos filhos. Melhor dizendo, são nossos filhos sob a guarda e orientação de um mestre. E como em casa, os filhos na escola costumam aprontar. Ás vezes uma simples brincadeira, de gosto duvidoso, sem maiores conseqüências. Mas quando os limites não são claramente pactuados, as conseqüências podem se tornar imprevisíveis, traumáticas, trágicas.
 
Dentre os casos extremos estão aqueles em que crianças levam para a escola a arma deixada pelos pais ao alcance das pequeninas e curiosas mãos. Progenitores relapsos e irresponsáveis, levianos e incapazes. O burburinho, a roda pequena em torno do instrumento letal que faz do policial e do super herói, justiceiros; o prenúncio da tragédia, o dedinho com dificuldade acionando a engrenagem, estampido seco, e um coleguinha ferido ou prostrado no chão.
 
Mas entre a normalidade e os casos extremos, existe um sem número de possibilidades que amesquinham o ambiente escolar.
 
A cidade da Rolândia, no interior do Paraná, serviu de cenário para um desses casos. Quem poderia supor que uma professora correria qualquer risco numa sala de aula, em seu ambiente de trabalho, enquanto exercia com responsabilidade seu ofício de educadora?
 
Quando se sentou na cadeira para fazer a chamada dos presentes, a professora sentiu um calor nas pernas, mas não deu tempo de se levantar sem que o estrago já estivesse consumado. Numa dessas brincadeiras sem limites, os alunos urdiram um plano travesso, janota: colar a professora na cadeira. Como desconheciam as conseqüências resultantes da interação de diferentes substâncias e solenemente ignoravam a química, ciência que elucida a estrutura das substâncias e suas reações, o que era para ser uma brincadeira traquina, uma peraltice, tornou-se caso de polícia.
 
A cola que lambuzava a cadeira reagiu com a camada de verniz que protegia a madeira, provocando o acidente que queimou as pernas da professora.
 
Auxiliada por uma servidora, a professora de matemática teve que recorrer ao hospital da cidade. E tão logo deixou o hospital, foi desabafar com o delegado, quando formalizou queixa de agressão. E o aluno identificado como responsável pela estultice foi punido, recebendo um gancho de três dias.
 
Já em Vacaria, interior do Rio Grande do Sul, na Escola Técnica Bernardina Padilha, um aluno da 6ª série resolveu, em plena sala de aula, praticar tiro ao alvo, fazendo, dos colegas, alvo. E a esmo, começou a atirar giz utilizando uma bodoqueira, um estilingue.
 
A inconseqüência não poderia render bons frutos. Um dos ‘petardos’ lacerou o olho esquerdo de uma coleguinha que perdeu 90% da visão. A criança teve que se submeter à uma cirurgia para transplantar a córnea.
 
Pais e mestres devem redobrar a atenção sobre as crianças e adolescentes. A irresponsabilidade é própria dos pirralhos, por isto são menores, estão com a consciência e a identidade em processo de formação. Mas faz parte – e parte importante – dessa formação a imposição de limites, a utilização apropriada da palavra ‘não’, a disciplina pactuada, exaustivamente discutida. Liberdade não pode ser confundida com licenciosidade e democracia com democratismo.
 
Pais e mestres devem aprender a desenvolver com os filhos e alunos relações democráticas. E enganam-se os que imaginam que democracia é o sistema do laissez faire e da libertinagem. Uma das grandes virtudes do verdadeiramente democrata é saber exercer a autoridade sem se fazer autoritário. E com todo o rigor, disciplina e responsabilidade que isto implica. Traduz-se em premiar com louvor quando merecido e punir com rigor quando necessário. O famoso jeitinho brasileiro, o nem-lá-nem-cá, o nem-uma-coisa-nem-outra, não gera referências, o que para uma criança em processo de formação soa tão grave quanto um crime. O melhor é deixar claros os limites; os direitos, os deveres, e a fronteira que os separam; e que apesar dos marcos delimitantes existe um largo espaço para a negociação. Daí, estabelecer os pactos e compromissos para que se extraia da convivência tudo o que dela se espera e pode oferecer.
 
Não sendo assim, teremos de nos resignar com a dor de receber nossos filhos retornando para casa maltratados, judiados, feridos. Como se regressando de um campo de batalha, não de uma escola.

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POR EM 02/06/2008 ÀS 05:20 PM

Sobre harmonia, São Francisco e cafajestes?

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Tudo no universo é energia. E a energia circula, interage, integra, assume diferentes formatos e intensidades. É assim no universo, é assim na natureza, é assim na vida e no dia a dia das pessoas.  Por isto, ao trocar, partilhar e interagir não estamos fazendo mais que observar a lei maior que rege o cosmos. 
 
Assim como no universo os astros – de uma forma ou de outra – interagem entre si, no corpo humano, uma célula também percorre o mesmo caminho e só captura a existência porque interage com outras. De igual modo ocorre com os átomos e com as partículas subatômicas, de sorte que tudo é pura e intensa interação, intercâmbio de energia.
 
Mas como poucos se dobram às certezas, digamos assim, científicas, da necessidade da troca e da interação, não custa recorrer aos ensinamentos espirituais e cristãos, como os apregoados por São Francisco de Assis, não por acaso o santo católico protetor da natureza.
 
São Francisco compreendeu e capturou a lei que regula as trocas de energia, a mesma que assegura equilíbrio e harmonia ao universo, e soube traduzi-la para o meio onde labutam os homens. Por isto, quando o batizado Giovanni Bernardone ensinou
 
“... é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...”
 
explicava, na realidade, que tudo no universo só tem sentido se envolto em trocas, em intercâmbios, em partilha, em ofertar e receber...
 
O ensinamento do fundador da “Ordem dos Frades Menores” - canonizado em 16 de julho de 1228 pelo papa Gregório IX - é tão poderoso que não resisto à tentação de reproduzi-lo por inteiro:
 
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...
 
A troca que assegura a contínua expansão do universo é a mesma que assegura o crescimento das pessoas e da sociedade.
 
Desde a mais tenra célula até o grupo social estratificado e a mais complexa das constelações estelares, nada faz sentido sem o ‘dar e receber’ preconizado por São Francisco.
 
Daí a importância de fazer com que valores como o amor, o perdão, a amizade, a solidariedade e a generosidade estejam em permanente circulação, permeando as relações entre as pessoas e os grupos sociais.
 
Todavia, se a lei é cristalina como parece, porque razão as pessoas estariam tão indispostas e resistentes à incorporação desses valores, por que ao invés da generosidade e do altruísmo, cultuam o egoísmo e o individualismo exacerbado? Por que ao invés do perdão, enamoram o ódio; ao invés da união, cultuam a discórdia; e mergulham a verdade num lodaçal de mentiras, intrigas e tramóias?
 
A teoria dominante é que as pessoas resultam da educação que recebem, da história de vida e do meio em que vivem.
 
Mas como toda regra, essa também tem suas exceções. O problema aqui é que as exceções ocorrem com tamanha freqüência que estão quase se convertendo em regra-mater.
 
Como explicar, por exemplo, que dois irmãos, criados pelos mesmos pais, com semelhante nível de atenção, recebendo as mesmas condições educacionais, culturais e amorosas, um consiga construir uma personalidade fraterna, generosa; e o outro destile avareza e rancor?
 
Aqui talvez valha a pena investigar o componente biológico. E ao que tudo indica as descobertas que se avizinham demolirão e lançarão por terra um bom número de paradigmas consolidados. Um deles consiste em subestimar a importância que a questão biológica tem no comportamento do individuo.
 
Pelo menos é o que parecem indicar pesquisas realizadas ao redor do mundo, como a promovida pelo Departamento de Psicologia da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os experimentos estão demonstrando que o material genético tem um determinado nível de importância na composição da personalidade.        
 
Um dos pesquisadores do grupo de estudos da universidade israelense, o psicólogo Ariel Knafo, é bastante enfático quanto aos resultados: "a conclusão central do trabalho é que há influência genética nas diferenças do comportamento altruísta das pessoas, porque existem diferenças no DNA, que estão relacionadas às diferenças em seu modo de se comportar”.
 
Um dos especialistas em genética do grupo de pesquisa, o professor Richard Ebstein se manifestou afirmando que todos os participantes que externaram generosidade tinham o gene denominado receptor 1A de arginina-vasopressina (AVPR1a) com uma forma mais alongada que nas outras pessoas. A conclusão é que gene AVPR1a exerce papel fundamental na química do cérebro, permitindo que o hormônio arginina-vasopressina (AVP) atue sobre as células cerebrais. A vasopressina foi relacionada com o estabelecimento de vínculos afetivos e sociais.
 
Os resultados da pesquisa apontaram numa direção bem definida: há maior disponibilidade para o altruísmo nas pessoas que possuíam uma parte específica e fundamental de maior tamanho neste gene.
 
Se ‘dar e receber’ é uma lei que regula a harmonia no universo, talvez esteja aqui, na genética, o início das explicações para que tantos se mantenham indiferentes à solidariedade, à verdade e ao amor. Talvez esteja na genética parte da explicação para a existência entre nós de tantos canalhas e cafajestes.
 
Alto lá. É muito cedo para extrair qualquer conclusão a respeito. Como também é inadmissível mergulhar as novas e incipientes descobertas no caldo medíocre do preconceito e do ‘politicamente correto’.

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POR EM 20/05/2008 ÀS 12:01 PM

Um país refém da ideologia dos batedores de carteira

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Alguns costumes castigam as pessoas e o mundo. Muitos deles vêm de milênios, acompanhando os diferentes estágios da evolução humana, mas mantendo a espécie num limiar entre o moderno e o bárbaro.
 
Dos mais graves é o costume de julgar, um hábito embebido de preconceito, açodamento, irresponsabilidade, leviandade, arrogância, posto que, na maioria das vezes, ocorre sem que se tenham os elementos mínimum minimórum de convicção, sem que a verdade esteja – de maneira irretocável – disposta, sem que os fatos estejam plenamente esclarecidos.
 
E realizado nessas condições, as possibilidades de erro, equívoco, engano, se multiplicam, elevam-se à enésima potência, escancarando as portas para que a injustiça mais vil e atroz se estabeleça soberanamente. Circula na web uma fábula - O pitbul e o coelho – uma boa ilustração para o assunto que tratamos:
 
Eram dois vizinhos.
 
O primeiro vizinho comprou um coelhinho para os filhos.
 
Os filhos do outro vizinho pediram um bicho para o pai, que decidiu comprar um cão pitbul.
 
Conversaram os vizinhos:
- Mas o seu cão vai comer o meu coelho.
- Que absurdo!, de jeito nenhum, imagina, o meu pitbul é filhote, os bichanos crescerão juntos, pegarão amizade, e olhe que eu entendo de bicho como ninguém.
 
E tudo levava a crer que o dono do cachorro estava coberto de razão. E não é que juntos os animais cresceram e mais que amigos ficaram?! De tal modo que ninguém mais estranhava ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa.
 
Eis que o dono do coelho resolve passar o final de semana na praia com a família e deixou o bichinho sozinho.
 
Domingo, final de tarde, a família saboreava o lanche quando entra o pitbul na cozinha.
Dentre os dentes, o cão trazia o coelho, todo imundo, vermelho de terra e, morto.
 
Não tiveram dúvidas. Mataram o cachorro de tanto agredi-lo.
Berrava o homem:
- O vizinho estava certo, e agora, o que vai ser? Só podia dar nisso!
 
Mais algumas horas e os vizinhos chegariam. Angustiados, todos se olhavam num misto de revolta e incredulidade.
O cachorro jazia prostrado no meio da casa, morto, irremediavelmente morto.
 
-Já pensaram como vão ficar as crianças?
 
Não se sabe exatamente quem teve a idéia, mas parecia infalível:
-Vamos lavar o coelho, deixá-lo limpinho, depois a gente seca com o secador e o colocamos na casinha dele.
 
E assim foi feito.
Até perfume colocaram no coelhinho. Ficou lindo, parecia vivo, diziam.
Logo depois escutam os vizinhos chegando. E os gritos desolados das crianças.
 
- Descobriram!
 
Não passaram cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.
 
- O que foi? Que cara é essa?
- O coelho, o coelho...
- O que tem o coelho?
- Morreu!
- Morreu? Ainda hoje à tarde parecia tão bem.
- Morreu na sexta-feira!
- Na sexta?
- Foi antes de viajarmos, as crianças o enterraram no fundo do quintal e agora reapareceu!
 
Um cão massificado com a fama de malvado, todos os dias ilustrando as páginas dos jornais com cenas de agressividade e violência explícitas, estraçalhando crianças, matando velhinhos, atacando pessoas, avançando em tudo o que ousasse simples movimento... Como não ser o pitbul? Está julgado, condenado e executado! ‘Tua fama te condena!’ Não é assim que procedemos? E mesmo quando não prevalece a fama, prevalecem os preconceitos.
 
Pouco importa que o pitbul seja inocente, que não tenha nada a ver com o ‘crime’. Pouco importa que, desesperadamente, tenha procurado o amigo de infância, esquadrinhado toda a redondeza, farejado por todos os quarteirões, numa busca frenética, angustiante, como a do pai que procura o filho perdido. Pouco importa que tenha desejado morrer junto com o amigo-coelho quando o encontrou enterrado. E que, carinhosa e cuidadosamente, tenha desenterrado o companheiro de todas as horas, e – se apegando num tênue fio de esperança - decidido recorrer ao dono, acreditando, com todas as forças, possível a ressuscitação... afinal não são os humanos tão poderosos e criativos?
 
Sim, os humanos sempre foram muito poderosos e criativos... para o bem e para o mal. E muitas vezes, a única ‘verdade’ que interessa é a urdida nos escaninhos do imaginário coletivo. Se o vermelho é púrpuro, torne-se azul; se o sabor é limão... ei-lo chocolate; se a textura é rugosa, num estalar de dedos está plenamente lisa e uniforme.
 
Mas... e os fatos, os antecedentes, a lógica, os indícios, as provas, os interesses, as contradições?
 
Qual o quê?! Se é noite, basta afirmar que o sol está a pino. É inverno? Decrete-se verão. É inocente? Oficialize-se culpado. O que importa são as convenções sociais. Se à consciência dói prender, então sejamos politicamente corretos, interne-se no manicômio. Bradam os hipócritas:
 
- A média é tudo! E não interessa que os pés estejam esturricando no forno em brasas e a cabeça petrificando, no congelador, pois que a temperatura média está em equilíbrio.
 
Vivemos o império da mentira. Os honestos, os íntegros, os éticos, os que cultuam e propagam a verdade são diuturnamente vítimas de ciladas, tramóias, intrigas, fuxicos, armações ilimitadas, urdis medonhos e mesquinhos...
 
Em Miami, na Flórida, EUA, um homem permaneceu durante 26 anos preso, condenado por ter cometido sete crimes sexuais. Foi detido no dia 29 de agosto de 1979 e acusado por nada menos que 25 mulheres. Todas, sob juramento, asseguraram terem sido violentadas ou vítimas de tentativas de violação.
 
A organização norte-americana “Projeto Inocência” - que investiga casos de possíveis erros judiciais - conseguiu convencer as autoridades a providenciar testes de DNA e escutar novamente as testemunhas, com o que se comprovou a inocência do indivíduo de origem cubana Diaz, no mais importante caso de reabilitação – dentre os 160 - já resolvidos pela instituição.
 
O Ministério Público local se manifestou informando que encerraria o caso contra Diaz, visto que as provas de DNA indicam que o criminoso é uma outra pessoa e que algumas das presumíveis vítimas alteraram os testemunhos apresentados.
 
Porém, 26 anos da vida de Diaz foram parar no esgoto, na lata de lixo. O pujante sistema judiciário ostentado pelo país mais poderoso e desenvolvido do planeta não foi eficaz o suficiente para impedir que o erro fosse perpetrado.
 
Um outro caso ficou como mácula indelével na história.
 
No início dos anos 20, dois imigrantes italianos foram detidos pela polícia de Boston, EUA. Nicola Sacco, sapateiro, e Bartolomeo Vanzetti, peixeiro, integravam o movimento político anarquista e foram acusados de responsáveis por um assassinato ocorrido no dia 15 de abril de 1920.
 
O sistema encontrou em Sacco e Vanzetti uma forma de reafirmar suas referências conservadoras e conduziu o julgamento para ‘verdadeirar’ suas versões e visões. O sentido de tudo era, sobretudo, nortear os estrangeiros imigrantes quanto aos valores defendidos pela América e deixar um exemplo suficientemente convincente para os que ousassem questionar o stabilishment.
Acusados de assassinato, em 1921 foram levados a julgamento e condenados num dos mais escandalosos episódios de erro judicial do século XX. O Estado acusava-os do homicídio de um contador e de um guarda de uma fábrica de sapatos. Nem o aparecimento de um outro homem admitindo a autoria dos crimes foi suficiente para inocentá-los.
 
E no dia 23 de agosto de 1927 a sentença foi executada com Sacco e Vanzetti sendo eletrocutados na cadeira elétrica. Todo o processo manteve-se a léguas de distância da reparação judicial para conforma-se no caldo raso e mesquinho dos interesses políticos.
 
Filmado pelo diretor italiano Umberto Marino, o filme teve – no período da ditadura militar - sua exibição proibida no Brasil.
 
Por aqui, um caso que chocou o mundo foi o que vitimou a família Shimada, proprietários da Escola Base, de São Paulo.
 
Em 1994, Maria Aparecida e seu marido Icushiro Shimada, além do colaborador Maurício de Alvarenga, foram acusados pela polícia de promover orgias com menores na escola infantil que mantinham no bairro da Aclimação, cidade de São Paulo.
 
Boa parte da mídia, ávida por escândalos que dêem visibilidade aos indicadores de audiência, embarcaram de corpo e alma na cantilena policial, ajudando a mobilizar o povo para o justiçamento. E foi o que literalmente aconteceu.
 
Tudo começou quando duas mães de alunos acusaram os proprietários da Escola Base de promoverem orgias com as crianças lá matriculadas. O delegado Edélcio Lemos, no afã de aparecer, acatou imediatamente a denúncia e, estabanadamente, deu curso aos procedimentos atropelando tudo o que a boa lógica e a gestão serena recomendavam.
 
Um delegado incompetente aliado à parte da imprensa sensacionalista e irresponsável conceberam e edificaram o ambiente propício para a caçada às bruxas. 
 
Pedofilia, violência contra crianças, abusos sexuais e estupros são questões que a plebe ignara utiliza para purgar os pecados coletivos, para redimir fracassos e frustrações. Pouco importa se, de fato, algum crime foi perpetrado, e se existem suspeitos. Como nos idos dos gladiadores romanos, a massa clama e requer martírio e sangue. Objetivam a catarse coletiva. Se não existe crime, invente-se. Não existem suspeitos? Criem-se culpados. O que resta? A aplicação da pena máxima, o justiçamento, preferencialmente por linchamento seguido de incineração do corpo. 
 
Neste caso, a formalização dos procedimentos deu ao episódio uma vestimenta de seriedade, ‘lógica’ e consistência oficial. Os trâmites dispostos nas normas foram observados, testemunhas foram ouvidas, laudos técnicos elaborados. O circo estava preparado para o trágico e insidioso espetáculo. A parte da imprensa que integrou a súcia gozava o êxtase. A Folha da Tarde chegou a estampar: “Perua escolar carregava crianças para orgia”. E a Revista Veja, num de seus piores momentos, deu como manchete: “Escola de horrores”.
 
Plenamente convencido da existência do crime e da cabal identificação dos ‘criminosos’, o povo foi cuidar de garantir – com as próprias mãos – a defesa dos interesses sociais, promovendo o que o Estado se mostrava incapaz de cumprir: através de telefonemas, bilhetes, cartas e gritos passaram a ameaçar de morte o casal Shimada; invadiram e depredaram a escola de educação infantil, levando-os à bancarrota; roubaram-lhes a paz e até hoje as seqüelas persistem. Raramente o casal sai de casa, e tanto Maria Aparecida como seu marido Icushiro Shimada só conseguem dormir à custa de medicamentos tarja preta. 
 
Logo o Estado teve que admitir o descomunal erro da polícia e a imprensa não teve como deixar de noticiar que as denúncias eram inteiramente falsas, desprovidas de qualquer fundamento.
 
Maiores vítimas da orquestração, os acusados foram considerados inocentes e o delegado tratou de arquivar, com a maior celeridade, o inquérito policial. Era necessário que todos esquecessem a sórdida trama: intimidação e tortura, testemunhas mentindo, provas arranjadas, laudos forjados, a ética profissional tripudiada e um conjunto indecoroso de procedimentos urdidos para consolidar o mal.
 
Um dos casos que devem angustiar Franz Kafka, impedindo-o de descansar no túmulo. Delegados, policiais e jornalistas saíram ilesos, ninguém foi punido, a não ser as vítimas que hoje, lutam na justiça por um mínimo de reparação.
 
A lição se prestou para alguma coisa? Qual?!
 
Todos os dias fatos similares ao da Escola Base ocorrem Brasil afora.
 
O ex-Ministro Alceni Guerra foi praticamente linchado por, segundo as autoridades/imprensa, ‘estar comprometido até os ossos’ com a corrupção e o desvio de dinheiro público, como o superfaturamento na compra de bicicletas. Provado a inocência, quem foi punido senão o ex-ministro, a vítima da tramóia?
 
Em 1996, na Choperia Bodega ocorreu um assalto seguido de dois assassinatos. Foi um episódio emblemático que gerou, inclusive, o surgimento do movimento Reage São Paulo. Em 15 dias as autoridades policiais chegaram a apresentar nove suspeitos. Posteriormente todos foram absolvidos e liberados por falta de provas. A tortura foi o mecanismo novamente utilizado para arranjar as confissões. E novamente parte considerável da imprensa caiu no conto de sereia policial, fotografando os suspeitos algemados, estampando-os nas primeiras páginas como marginais, delinqüentes, assassinos confessos. 
 
A comédia - gênero da dramaturgia universal originada na Grécia antiga - tem um lema que classifico como uma das regras de ouro do teatro: “castigat ridendo mores” - rindo, castiga os costumes. Na realidade, ao que tudo indica, o país transformou-se numa grande comédia aos avessos. Ri, e ri muito, mas não consegue castigar seus costumes. E o ‘julgue e execute primeiro para comprovar depois’ tem sido um de nossos mais hediondos costumes.
 
Ainda que a culpa esteja comprovada, todos deveriam ter direito a um julgamento nos moldes preconizados na lei, todos deveriam ter garantido o direito de apresentar defesa, contraprovas, testemunhas, todos deveriam ter assegurado direito ao contraditório. É o que preconiza a lei maior da nação.
 
A passagem registrada pelo evangelista João parece não ter mais sentido no mundo de hoje. Inocente ou não, o que vale é a lei do talião, a Lex Talionis, o Código de Hamurabi de 1730 a.C: olhos por olho, dente por dente. Na passagem bíblica, Jesus adverte aos que acusavam uma pecadora: “Aquele que não tem pecado que atire a primeira pedra...”.
 
Pouco tempo atrás escrevi uma fábula expressando minha indignação contra os que, qual gado em estouro de boiada, se deixam conduzir pela manada, sem sequer refletir sobre o rumo e a direção que perseguem. É um retrato de minha indignação contra os que semeiam a mentira e contra os que anseiam, os que estão sempre ávidos, solícitos e sedentos por uma nova rede de intrigas, novas teias de mentiras, urdindo fofocas e mais fuxicos, plantando boatos e mentiras, sequiosos por enganar e serem enganados. Ei-la aqui: 
 
A raposa e o estancieiro
 
A raposa, sendo surpreendida pelo dono da estância, não se fez de rogada:
- Foi o coelho quem comeu as galinhas, os pobres dos pintinhos e os suculentos patos também.
- Mas coelhos não são herbívoros? – replicou indignado o homem.
 
Procurando manter a pose e a empáfia, a raposa não se deixou intimidar:
 
- Não acompanhas a evolução do conhecimento, estúpido? Nada sabes sobre as revolucionárias inovações da genética, das pesquisas com células tronco, da nanobiologia? – E, impávida, arrematou toda impoluta e senhora de seus botões: - Com a modernidade, os coelhos tornaram-se vorazes carnívoros e nós, as raposas, redimidas de todo o mal, transformamo-nos em inofensivas devoradoras de relva e gramíneas, intelectuais orgânicas, cidadãs dos processos de inclusão e transformação social e baluartes do politicamente correto.
 
Respirando fundo para manter o controle, o estancieiro deu trelas ao animal, como que desejando investigar até onde chegaria a perversidade e a delinqüência do outro:
 
- Se é de relva que se alimenta, então qual a razão de tanto sangue e penugem nesses pontiagudos caninos?
 
Arfando ar autoritário e professoral, a raposa esquadrinhava o universo tentando localizar, no pantanal, um naco de chão onde pudesse firmar as pernas bambas:
 
- Como é insuportável lidar com a ignorância e a estultice. – E prosseguiu, intrépida e afoita: - Com o novo ordenamento dos filamentos helicoidais do DNA, a verde clorofila tornou-se púrpura intensa e a apetitosa gramínea adquiriu o formato de penas, plumas e penugens...
 
Não cabendo de revolta e repulsa, o homem riscou o facão no ar para ver a cabeça da raposa cair distante do restante do corpo. Náusea, fastio e asco lhe turvaram os sentimentos quando viu estampada na cabeça inerte da sanguinária e impiedosa assassina o olhar singelo, cândido e inocente só dado aos puros de coração.
 
Moral da história: jamais acuse o outro de fazer o que você faz. Ainda que tarde, haverá um dia em que a mentira sucumbirá frente ao inexorável e avassalador romper da verdade.
 
Poderíamos resgatar um antigo hábito que se esvaiu no tempo: o de questionar, fazer perguntas, inquirir, duvidar, analisar criticamente, identificar e refletir sobre os interesses em jogo, passar e repassar os fatos, checando com rigor os procedimentos adotados, assegurar como cláusula pétrea o contraditório, a premissa de que todos são inocentes até prova cabal em contrário, até esgotadas todas as instâncias processuais.
 
Onde foram parar os princípios que, desde a antiguidade, norteiam o raciocínio lógico, o encadeamento racional dos acontecimentos, as questões estratégicas que deveriam balizar o procedimento investigativo?
 
Quem não se lembra da piada do ladrão batedor de carteira que, correndo em fuga, ia abrindo caminho dentre a multidão gritando “pega o ladrão, pega o ladrão”?
 
Temos que zelar para que o Brasil não se torne o paraíso dos gatunos batedores de carteira.

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POR EM 13/05/2008 ÀS 10:16 AM

O que quer da vida?

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Há uma fase na vida do estudante em que tudo é dúvida e o futuro pode ser reduzido a um inquietante ponto de interrogação. As dúvidas pululam freneticamente, sobretudo, quando se trata de optar pelo destino a seguir, a carreira a escolher.
 
É uma etapa em que nada está claro, nada está definido. Nesta situação de insegurança e instabilidade emocional, solicitar que o aluno responda à angustiante pergunta (O que deseja da vida?) pode parecer crueldade das mais maquiavélicas, mas é como dor de parto, aquela dor tipicamente necessária, aquela tensão que antecede alguns raros momentos de genuína graça.
 
“O que você quer da vida?” é a questão chave argüida por todas as orientadoras vocacionais e que coloca muitos adolescentes e jovens na berlinda, no fio da navalha, tremendo como vara de bambu verde.
 
Tomar, quando se é tão jovem, uma decisão que – para o bem ou para o mal – será capaz de conformar toda a vida futura é tarefa das mais complexas, por isto o primeiro passo, a primeira resposta, seguramente não se encontra fora e distante, no mundo exterior, mas bem rente, dentro, pertinho, como cantam os poetas “no lado esquerdo do peito/dentro do coração”. Nesta fase da vida é necessário mergulhar, lançar o olhar para a alma, debruçar sobre o próprio interior, auscultando os valores e, nos valores, selecionando o que existe de mais íntimo e revelador.
 
É deste universo particular que o estudante deve resgatar – num bravio oceano de interesses difusos, quase todos alienígenas – os que efetivamente lhe pertencem, os que verdadeiramente guardam consonância com sua identidade, com sua vida pregressa e seus desejos e aspirações.
 
Neste ambiente estão fincadas as âncoras da carreira corretamente identificada, sabiamente definida, alicerce de uma vida profissional exitosa e satisfatória.
 
Uma série de testes e questionários ajuda o estudante a esquadrinhar este mundo um tanto inóspito, ainda misterioso e turbulento, mas que logo – com a ajuda de um profissional habilitado - se mostrará inteiro, claro e límpido.
 
Ao término deste processo o jovem terá acumulado insumos vitais: seu perfil, as habilidades mais destacadas, o temperamento, a personalidade, as aptidões, as preferências e, sobretudo, as profissões mais adequadas e que melhor se encaixam nas características encontradas. O potencial estará quase todo à mostra. Insisto, não todo. Porque na vida existe um conjunto de variáveis que sempre escapam ao nosso controle e domínio.
 
A vida de um iluminado naturalista britânico ilustra com perfeição a situação a que me refiro.
 
Quando adolescente, Charles Darwin, o homem que fez tremer o planeta ao lançar sua obra “A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural”, estava predestinado a seguir a carreira médica.
 
Pelo menos assim desejava seu pai, o proeminente físico Dr. Robert Darwin, que o conduziu à Escola de Medicina de Edimburgo mal completara 16 anos. Desde os pajés, xamãs e curandeiros primitivos, os que exercitam as lides medicinais sempre encontraram respeito de suas tribos e comunidades.
 
Mas a medicina mostrava-se aos olhos do adolescente um fardo insuportavelmente pesado, capaz de arriar seus sinceros desejos de corresponder às expectativas dos progenitores. Para enfrentar e seguir a carreira médica há que se ter um estômago a toda prova, como o da avestruz, atributo que, definitivamente, o jovem Charles jamais possuiu.
 
Não restou alternativa senão negociar com a família. Em troca da carreira médica, ofereceria a eclesiástica. Na época, as famílias e a sociedade estimulavam em seus filhos o interesse pelas coisas de Deus, pelas missões religiosas, de modo que, ao matricular-se no Christ’s College, de Cambridge, para tornar-se pastor, lançou uma pá de cal sobre o assunto, satisfazendo simultaneamente a gregos e troianos.
 
Pá de cal? Qual, meu caro! Enquanto há vida, há movimento. E como bem poderia ter dito Drummond No meio do caminho havia uma pedra / Uma outra alternativa pairava no meio do caminho”. E no caso de Charles Darwin a sorte grande o espreitava na esquina.
 
Dada as habilidades como professor das disciplinas relacionadas à história natural e a fama conquistada de dedicado colecionador de besouros, foi indicado por John Henslow, seu professor de botânica, para uma instrutiva e inusitada missão.
 
O navio HMS Beagle partiria para longa viagem numa missão cartográfica para mapear as águas do sul do continente americano. Mas seu capitão, como que antevendo a explosão de luz iluminando no futuro, resolveu levar quem pudesse se dedicar ao estudo científico das espécies encontradas.
 
E lá foi Darwin, em dezembro de 1831, iniciar um cruzeiro ao redor do mundo, uma viagem que demandou cinco longos anos, e que embasou a obra que marcaria a história da humanidade.
 
Portanto, Darwin passou por médico, pastor missionário, professor, colecionador de besouros, classificador de espécies encontradas, para se encontrar como grande cientista que revolucionou o mundo com sua doutrina evolucionista.
 
A leitura da obra de Darwin ensina que os seres vivos sobreviventes às grandes catástrofes planetárias não foram os mais fortes e sim os mais flexíveis.
 
Ao se deparar com o instante da decisão sobre o curso a seguir, o vestibular a fazer, a profissão a escolher, o jovem deve refletir sobre o fato de que, muitas vezes, a força reside na capacidade de flexionar, de se adaptar ao cenário e às circunstâncias.

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POR EM 06/05/2008 ÀS 11:33 AM

Crack

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Até pouco tempo atrás os pais preocupavam-se em explicar para os filhos o significado até então mais expressivo da palavra crack. E pacientemente discorriam sobre a crise de superprodução ocorrida no final dos anos vinte.
 

Tão logo terminou a segunda guerra mundial os Estados Unidos apresentaram um vigoroso processo de crescimento econômico. A indústria norte-americana chegou a responder por metade da produção mundial. O novo padrão de vida denominado american way of life caracterizava-se pela valorização dos bens de consumo, pelas aquisições de automóveis, eletrodomésticos e demais industrializados.
 
Ao mesmo tempo em que ocorria o boom do crescimento ianque, os países europeus recuperavam-se da destruição causada pela grande guerra, reorganizavam os sistemas de produção e iniciavam a disputa pelos mercados consumidores. Enquanto a Europa impunha restrições às importações de produtos norte-americanos, os EUA continuavam produzindo com sua conhecida e inesgotável voracidade capitalista. 
 
O cenário explosivo estava estruturado: mercado internacional desorganizado; cotações em permanente estado de oscilação; falências generalizadas; agudo desequilíbrio decorrente, de um lado, do excesso de mercadorias produzidas e, de outro, do diminuto poder aquisitivo dos consumidores. 
 
Até que no dia 29 de outubro de 1929, a face mais perversa do desenvolvimento capitalista se apresenta ao mundo, fazendo sua aparição na Bolsa de Valores de Nova York. As tensões que – dez anos depois – conduziriam à Segunda Grande Guerra materializam-se bem no centro, no coração econômico do mundo.
 
A população acorre em massa tentando vender suas ações – que já haviam perdido todo o seu valor de face – indústrias e corporações vão à bancarrota, dezenas de milhares que haviam dormido trilionários acordam miseráveis... mais de 15 milhões de desempregados...
 
Para melhor explicar a tragédia que representou este período, os pais faziam questão de recorrer às locadoras para assistir com os filhos uma das obras primas de Sydney Pollack, A Noite dos Desesperados (They Shoot Horses, Don't They?, 1969), onde Jane Fonda, de maneira categórica, magistral e irreparável, mostra toda a sua virtuosidade na arte da interpretação.
 
Mas como que picado por uma cobra peçonhenta, sendo tragado pela areia movediça, ou imerso em uma película de terror, um outro crack – que não o de 29 - é a atual fonte de pesadelos dos pais. Seu avant-première ocorreu em junho de 1990 quando o Denarc - Departamento de Investigações sobre Narcóticos – de São Paulo, apreendeu 220g com um barbeiro na zona leste da cidade. Mal decorridos dois anos e a nova droga estava disseminada pela maior cidade do continente americano.
 
Ao contrário da heroína e da cocaína, o crack é barato e está ao alcance de qualquer um, até mesmo dos mais pobres e despossuídos. Sua produção é obtida a partir da sobra do refinamento da merla (resíduo do processamento, do refinamento da cocaína). Essa sobra – ou ainda a pasta não refinada – é misturada ao bicarbonato de sódio e água, resultando na droga que ameaça transformar nossos estudantes e a juventude numa massa disforme, doentia, numa corja de zumbis sem alma ou vontade.
 
O Instituto Datafolha comemora seu um quarto de século de existência. E para não deixar a data passar em branco, refez uma pesquisa realizada no ano de 1983. Ao processar os questionários e tratar os dados, o que emergiu virulentamente da pesquisa é que, hoje, o maior temor da sociedade é que um jovem da família se envolva com as drogas.
 
Alba Zaluar, doutora em antropologia e coordenadora do Núcleo de Pesquisas das Violências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, comentando os resultados da pesquisa é enfática quanto ao que vem ocorrendo no Brasil:
 
Há agora essa epidemia de crack, que contribuiu muito pra aumentar o medo da droga
É uma droga que arrebenta com a pessoa, faz cometer loucuras e que é barata.
A cocaína é muito mais temida que a maconha. Mas o crack é a mais temida de todas.
 
Para a antropóloga os sentimentos da família não se limitam a temer que um de seus membros venha a se curvar ao vício: "Se envolver com cocaína e crack é se envolver com traficantes, com a criminalidade".
 
Mas não é só a relação dos filhos com as drogas e traficantes que deve preocupar pais responsáveis e educadores dedicados. Sobretudo a sustentabilidade das relações familiares deve ganhar prioridade em nossa hierarquia de preocupações. E neste contexto urge resgatar valores imprescindíveis às sociedades saudáveis como amor, virtude, altruísmo, respeito, autoridade (que em nada se assemelha a autoritarismo),...
 
Tão importante quanto qualificar as forças policiais para, como eficácia e inteligência, combater e debelar o tráfico e o crime, tão importante quanto construir mais presídios para manter os traficantes confinados longe de nossos filhos, tão importante quanto investir em educação de qualidade, é regatar os valores e princípios familiares, dotá-los do amor e da fraternidade que, às vezes, parecem ter se perdido no tempo.

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POR EM 28/04/2008 ÀS 08:15 PM

Deus ex machina

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O Brasil se tornou um país de martírios e tragédias. Vivemos a purgar episódios que nos remetem – diuturnamente – aos rincões mais profundos e inóspitos do inferno.
 

A freqüência com que ocorrem é tamanha que passamos a ostentar um certo esgar de desdém, hipnotizados que fomos pela barbárie mais intensa e explícita... E passamos a considerar o hediondo como fugaz, efêmera normalidade. Resulta deste comportamento um ser de áurea mortífera, espírito zumbi, face esculpida à indiferença, incapaz de expressar sentimento de repulsa e indignação, coração granítico, daqueles forjados a aço temperado, que não pulsa e nem sente, que não abriga, não dá guarida e nem ama.
 
O Brasil se tornou uma terra de martírios e tragédias. Enquanto purgamos uma e estamos a lamber as feridas – sempre em estágio de chaga exposta - já experimentamos o presságio da próxima se anunciando com estapafúrdia e estardalhaço.       
 
Dia 07 de fevereiro de 2.007. Em torno de 21h30min de uma quarta-feira mais que comum, Rosa Cristina Fernandes tomava o caminho de volta para casa. Com ela uma amiga da família e os filhos Aline, 13 anos de idade, e João Hélio, 6 tenros anos.
 
Num cruzamento o sinal fechou e Rosa Cristina - como fazem os motoristas responsáveis - parou o carro no sinaleiro. O semáforo que deveria proteger os cidadãos da hecatombe do trânsito serviu como sinal para que os marginais avançassem na execução do plano terrífico, pois que, avidamente, aguardavam para a perpetração do mal, para a consecução do inominável. Emergindo abruptamente da escuridão das trevas, três homens armados abordaram Rosa Cristina exigindo que todos abandonassem o veículo. As armas de fogo apontadas, engatilhadas, prontas para a mortandade, os gritos e berros ensandecidos dos bandidos, as ordens ameaçadoramente imperativas... E só deu tempo da pobre mãe avisar aos meliantes que não havia conseguido destravar e soltar o cinto de segurança que já abraçara João Hélio para a vida, mas que agora o garroteava para a morte.
 
Os bandidos arrancaram na velocidade máxima dando a mínima para a pequena criança dependurada do lado de fora do Corsa Sedan.
 
João Hélio, 6 anos de idade, foi arrastado por quatro bairros.
 
Todos os que presenciaram a cena nefasta gritaram aos latrocidas, avisando-os do inocente João sendo massacrado, decaptado, desfigurado...
 
João Hélio, 6 anos de idade, foi arrastado por sete quilômetros, sete quilômetros que - para os que involuntariamente acompanharam a cena – passaram como sete mil, e para o anjinho vitimado pelos súcubos e íncubos, sete trilhões de inesgotáveis e infindáveis quilômetros...
 
Um motoqueiro, em desespero, passou a seguir o veículo, sinalizando com os faróis, gritando desesperadamente, alertando que João Hélio estava sendo arrastado, preso ao cinto, batendo todas as partes do frágil corpinho no asfalto duro e áspero, chocando-se com o meio fio, com os postes, com os obstáculos do caminho...
 
“Zoando”, como dizem na gíria os filhos mais diletos do demônio, os latrocidas - destilando sarcasmo e ironia - respondiam de dentro do carro:
 
- O que esta sendo arrastado não é uma criança, é um mero boneco de Judas. 
 
Quando os bandidos abandonaram o Corsa, a alma angelical de João Hélio já havia sido resgatada por um Deus colérico, indignado tamanha a covardia e monstruosidade reinante sob os céus. Do lado de fora do carro, pendurado qual manta de carne lacerada, o que sobrara do pequeno arcanjo, um corpo completamente desfigurado, irreconhecível, o crânio esmagado, uns poucos restos do que sobrara da cabeça; e ao longo do trajeto, partes dos órgãos e massa encefálica.
 
Não bastou. O Brasil tem sede e fome de tragédias.
 
Em outro caso ocorrido em São Paulo, uma mãe acostumou-se a torturar o filho biológico utilizando, dentre outros instrumentos de tortura, uma chave de fenda colocada no céu da boca da criança.
 
Em tempos em que o amor pulverizou-se, só inocentes úteis acreditam que os casos de crianças sexualmente violentadas, estupradas, ocorrem com mais freqüência em casais que passaram por vários casamentos, com filhos de várias relações. Ledo e tosco engano. Os dados mais recentes dão conta que em 80% dos estupros registrados, os pais biológicos estão envolvidos.  
 
Há tempos os valores familiares e religiosos estão sendo diuturnamente jogados na lata de lixo, e os resultados são eloqüentes.
 
Pouco mais da meia noite. A estudante Suzane Richthofen, 19 anos, chegou em casa e foi se certificar que os pais dormiam. Conforme combinara com o namorado, Daniel Cravinhos, 21 anos, acendeu a luz do corredor. Era a senha fatídica. Daniel e o irmão dele, Cristian, 26 anos, entraram no quarto dos pais de Suzane armados com barras de ferro e, impiedosamente, massacraram o casal Manfred e Marisa Richthofen.
 
Tão logo perpetraram a chacina, Suzane e Daniel foram curtir a noite na suíte presidencial de um motel de luxo de São Paulo, e Cristian foi saborear um suculento sanduíche do MacDonald’s.
 
Na época do crime, Suzane cursava o 1º ano de Direito na PUC. Além de bela, expansiva e rica, alcançou a faixa preta em caratê e falava fluentemente inglês, alemão e espanhol.
 
Ao que se sabe, o problema que a afligia era a declarada aversão dos pais ao namorado que “não estudava, não tinha emprego fixo e nem tinha pretensões maiores na vida, além de usuário de drogas”.
 
O sangue frio da trinca impressionou até mesmo os policiais. Tão logo efetuaram o assassinato, orquestraram dar ao ocorrido características de latrocínio - roubo seguido de morte. Suzane correu para a biblioteca e lá espalhou diversos papéis e contas. Acompanhada pelos dois comparsas, pegou o revólver 38 que o pai mantinha escondido no fundo falso da gaveta do lavabo e o colocou no chão, bem rente ao pai. Cuidaram de não deixar impressões digitais utilizando luvas cirúrgicas roubadas da mãe, que era médica. Tanto Daniel como Cristian tiveram o cuidado de se valerem de meias-calças para não deixarem vestígio que fosse, sequer um pelinho de qualquer parte das pernas.
 
O delegado Armando de Oliveira Costa Filho até hoje se sensibiliza quando relembra algumas passagens deste caso que prostrou o Brasil. Como em um dos interrogatórios, quando “explicava que eles seriam responsabilizados por seus atos, Suzane perguntou se poderia vender o carro”. E conclui sempre com um misto de indignação e ceticismo: "a brutalidade aumentou dentro dos lares. Os valores não mais existem.”
 
Existe um fosso gigantesco entre as famílias que idealizamos – sempre fraternas e solidárias – e as que a realidade vai nos apresentando no dia a dia.
 
Quando a imprensa noticiou as torturas a que era submetida a pequena Lucélia, escrevi o poema transcrito abaixo:
 
O mundo não será das Calabresis ou Uma oração para canalhas
 
Quantas Calabresis não se encontram escondidas, disfarçadas, infiltradas, dissimuladas, em nossos lares e corações?
Vês, na obra de Goya, Saturno devorando o próprio filho?
Simulas indignação, desprezo, repulsa?
Como não tivesses incrustadas nos recônditos de tu’alma as palavras de Machado:
“O cinismo é a sinceridade dos patifes”.
Extorques e acusas o outro... Cretina!
Roubas e o ladrão é o outro... Mesquinha!
Corrompes e quem é canalha senão o outro? Torpe e soturna!
Liquidas, exterminas, assassinas e eis que sentencias o outro.
Urdes, engendras e conspiras contra a pátria e o outro é o traidor.
Em que te diferes de Saturno?
Não és tu a insana canibal a acusar o outro de sê-lo?
Quantos filhos devoraste impiedosamente enquanto acusavas o outro
do infanticídio, do aborto?
Em que te diferes de Saturno, mulher?
Não és tu que corrompes de maneira vil e torpe a verdade e cultuas satanicamente
a mentira, ao tempo em que propagas ao mundo que corrupto e mentiroso é o outro?
Não cultuaste tão diligentemente a Cannabis sativa – a que apelidaras “doce marijuana” – para agora avançares sobre o outro acusando-o de viciado, peçonhento, maconheiro?
Devoras o fruto de teu ventre e acusas Saturno?
Promoves a intriga e apontas o dedo para o primeiro que vislumbras?
Ensinas a covardia e abusas da mais tenra e amada criança ¬–
e quem assediou acabou de fugir?
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos –
e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro?
Tua fantasia doce, angelical, cândida e inofensiva – tecida para embair o mundo –
desmoronou... e vestes ‘coitadinha’, calças ‘sofridinha’, maquilas ‘vitimismo’.
Já não podes posar de cavaleira impoluta.
Praticas aos olhos do mundo o adultério –
e, doidivanas, acusas todos os homens de cometê-lo?
Jamais relutaste em atirar a primeira, a segunda e a terceira pedra.
Jamais renunciaste às tuas prioridades absolutas:
Tu sempre em primeiro lugar
Tu sempre em segundo lugar
Tu sempre em terceiro lugar
És Judas, o Iscariotes, e te queres Santa Joana d’Arc.
És Joaquim Silvério dos Reis, o coronel venal, e te queres Tiradentes.
És Calabar e te queres Maria Quitéria.
“Acuse-os sempre de fazer o que você faz” é teu lema, teu jargão, teu valor mais
nobre e soberano.
Não, mulher, tu não consegues mais surpreender qualquer homem de bem.
Como não recordar Nietzsche: “Todo homem vai se tornando aquilo que é”?
E Terêncio: “Sou homem. Nada do que é humano me é estranho”?
Não declares que no mundo só existem traficantes, suicidas e latrocidas
por teres reduzido teu universo a uma sórdida, nefasta e insalubre masmorra.
Não declares o fim da bondade, da humildade e do altruísmo
porque integras a súcia, a récua, a farândola, a caterva das máfias e quadrilhas dos malfeitores lobos do homem...
Lobos ferozes e insanos em pele de cordeiro.
Queres conduzir todas as batalhas – quem hoje não sabe? – para a lama fétida
onde fermenta o pior do excremento humano.
Saibas, urge que compreendas: o mundo pulsa, a vida lateja – vigorosa, voluptuosa,
graciosa – de homens e mulheres dignos, éticos, honestos.
Fervilha, em cada casa, em cada rua, em cada esquina,
uma multidão de anjos guerreiros, nobres paladinos da justiça.
Milhões e milhões de sábios valentes que diuturnamente pelejam
para resgatar o mundo de patifes, canalhas e cafajestes como tu,
que desdenham e odeiam a verdade,
que veneram e cultuam a mentira,
que idolatram e tecem loas à traição e à ignomínia.
O mundo, mulher, não duvides, foi, é, e será sempre dos bons, dos justos, dos simples!
Como não orar para que canalhas e patifes percebam que o sol não morreu
tão-somente porque o horizonte encontra-se crispado de nuvens densas
e sombriamente carregadas?
Não, mulher, para glória de Deus e dos homens,
Tu não mataste o sol.
O mundo não será das Calabresis!
O universo regozija-se, pois que dá de ombros ao jogo nauseabundo
das Calabresis!
 
Não bastou. O Brasil tem sede e fome de tragédias.
 
Agora estamos às voltas com o caso da pequena Isabella, brutalmente assassinada no dia 29 de março. A polícia acusa e indicia o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá. O ministério público deve acatar e dar prosseguimento à ação. Mas a população já apresentou seu veredicto: estão julgados e condenados. Procura apenas uma oportunidade para executar a sentença, fazendo justiça com as próprias mãos.
 
Para a elaboração do laudo, três médicos legistas foram mobilizados. Deram como causa da morte asfixia seguida de politraumatismo. A conclusão a que chegaram foi que, mesmo antes de ser arremessada do 6º andar, Isabelle já não tinha esperanças dada a esganadura que sofrera.
 
O suplício de Isabella teve a duração de séculos e mais séculos de séculos. Os legistas afirmam que durou sete minutos. Quem a agrediu apertou o frágil pescoço da criança por cerca de três minutos, quando ela desmaiou. Sem oxigênio, a pressão e os batimentos cardíacos despencaram celeremente. Nesse instante ocorreu a convulsão que conduziu secreções para o nariz e os pulmões.
 
Diante da TV, o Brasil assiste, atônito, a performance dos âncoras dos telejornais. O clima de revolta e indignação encontra-se no ápice.
 
O edifício onde reside Alexandre Jatobá, pai de Anna Carolina, chegou a ter o portão principal arrombado por manifestantes que desejavam invadir o prédio. Intentavam um linchamento público que só não ocorreu devido a chegada de seis viaturas policiais. 
 
Quantos, no silêncio das noites, não oraram suplicando a Deus pela inocência do pai, pois que, confirmadas as acusações da polícia, estaria evidenciado o quão impiedosa e satânica pode se conformar a natureza humana e o quanto de indigente e miserável pode se travestir a natureza paterna. 
 
Infelizmente a vida não é como desejamos e imaginamos. Entre nossos sonhos e a realidade existe uma infinidade de possibilidades, e muitas delas tecidas a sangue e infortúnio. Em sua peça mais longa, Hamlet, Shakespeare discorre sobre a intensa dor de Hamlet ao descobrir que o tio Cláudio matara covardemente seu pai para casar-se com sua mãe, de modo a usurpar o trono da Dinamarca. É nesta peça que se encontra uma das mais celebres frases da literatura universal: "Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que supõe sua vã filosofia".
 
De que mais serão capazes de urdir e tramar as mentes e corações pervertidos, aqueles enlameados pelo rancor, obliterados pelo ódio – e que exalam, em essência, falsa-inofensiva-normalidade?
 
Quando nos livraremos da maldição dos que assacam e conspiram contra a vida, contra os sonhos dos que, simplesmente, aspiram viver?   
 
Dói e avilta saber que muitos pais são completamente destituídos do amor paternal; que muitas mães desconhecem, desdenham e refugam tudo que se assemelhe ao espírito maternal.
 
Os que lidam com teatro utilizam, com certa freqüência, de um expediente herdado das antigas tragédias gregas e romanas. Em latim, denomina-se “deus ex machina” que, em tradução livre, significa um deus por meio de uma máquina. É utilizado quando, nas peças teatrais, a trama dramática se mostra por demais complexa, difícil de alinhavar, de alcançar o desfecho satisfatório. Então a estratégia consiste em fazer surgir do nada um deus para ensinar a saída, mostrar a ponta do novelo, apontar a direção a seguir. 
 
O Brasil tornou-se eterno refém de suas tragédias. Onde, quando e como será a próxima? Urge um deus ex machina.

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