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André Gomes

POR EM 20/10/2008 ÀS 04:37 PM

Com licença, isso é um assalto

publicado em


O mundo já não anda mais violento. Ele parou mesmo, de vez, num estado de truculência ampla, total e irrestrita que assola todas as sociedades. Imagina se isso ia passar longe da chamada sociedade de consumo. A qualquer instante do dia, você e eu estamos sujeitos a uma abordagem desesperada.

- Todo mundo aí parado que ninguém se machuca!

Se isso acontece no semáforo, na fila do banco ou na rodoviária à noite, talvez ninguém mais estranhe. Agora, num supermercado cheio de senhoras, às oito horas da manhã...

- Isso é um assalto, meu filho?
- Não, vovó. É uma promoção de vendas. Mão na bolsa! MÃO NA BOLSA!

Pobres senhoras. Vítimas de mais um ardil cruel, arquitetado por engenhosos profissionais de planejamento.

- O plano é o seguinte, cambada. Vamos entrar discretamente, misturados aos consumidores. A equipe de promoção será dividida em duplas, cada uma posicionada em um ponto estratégico do estabelecimento. Ao meu sinal, um de nós anuncia o golpe e as duplas atacam as freguesas em grupos pequenos, positivo?

- Mas e se elas correrem?

- Não se preocupe. No horário da nossa ação, só sexagenários freqüentam o supermercado. Se ainda assim alguém fugir, tente aplicar um carrinho por trás.

Presa fácil, a clientela se submete à investida dos agentes sem qualquer resistência.

- A senhora já provou esse novo suco, provou?
- Não.
- Então vai provar agora – responde o agente, um segundo antes de atravancar a mulher pelo pescoço, apertar o seu nariz e enfiar-lhe o tal produto goela abaixo.

Tem também a ação-pegadinha das novas toalhas umedecidas. Um promotor aguarda a consumidora com uma torta cremosa nas mãos e começa a história.

- Já provou essa tortinha, senhora?
- Não.
- Então tó!

E manda o prato de massa mole na cara da criatura indefesa, como nas velhas comédias pastelão. Tudo para, em seguida, oferecer à desacorçoada dama uma amostra grátis da nova toalha umedecida descartável, criada com a mais alta tecnologia para limpar a sujeira que surge em momentos inesperados.

As abordagens estão cada vez mais variadas. Se o horário e o local da ação forem outros, com um público-alvo formado por pessoas mais fortes, jovens, dispostas a fugir do ataque ou partir para cima do agressor, a mecânica do contato muda por completo.

- O senhor gostaria de provar esse novo requeijão?
- Não, obrigado.
- Não mesmo? - insiste a promotora, enquanto alisa a lâmina de uma enorme faca.

Pouca gente não sucumbe de cara.

- Olha. O produto é bom, eu sei. Mas hoje não me interessa. Já jantei.
- O senhor tem certeza? Peço que reconsidere. Aliás, é melhor pedir do que roubar.

E o esforço é concluído, vitorioso.

Mas aí tem uma coisa: na reunião com o cliente para apresentar os resultados, o diretor de marketing discorda, grita, xinga e decreta que as vendas estão muito, mas muito abaixo do que ele esperava.

- Nossa agência está fazendo de tudo, doutor. O que mais podemos inventar?
- Sei lá, pô! Tentem uma abordagem mais agressiva.


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POR EM 26/08/2008 ÀS 01:19 PM

A muamba invadiu as agências

publicado em

Boa noite!
 
A polícia apreendeu hoje mais um caminhão carregado de contrabando. Entre a carga, os agentes encontraram perfumes importados, animais ameaçados de extinção e cinqüenta estagiários de propaganda.

Vamos ao vivo até o galpão da polícia onde a nossa repórter Eudes Graça tem mais informações sobre o caso:
 
Boa noite, William! Todo o carregamento seria comercializado em moeda estrangeira. Os perfumes foram avaliados em cem mil dólares. Os animais, em seiscentos mil euros. Já os estagiários custariam a seus supostos receptadores – agências de publicidade em cinco capitais – a quantia individual de vinte guaranis, moeda corrente do Paraguai.

A movimentação aqui no barracão da polícia para onde foi trazida a muamba é muito grande. Equipes de jornalismo, entidades de proteção ambiental e muitos, muitos curiosos lotam o local. Mas vamos tentar conversar agora com um dos agentes que participaram da operação.

- Cabo Coió! Cabo Coió! Como a polícia avalia este caso tão desumano?
- Positivo...
- A polícia avalia o caso como positivo?
- Negativo!
- É positivo ou negativo?
- Veja bem. É um caso desumano. Nunca vi uma coisa tão cruel. Os animais estavam exaustos e muitos vidros de perfume foram destruídos.
- Mas e os estagiários?
- Positivo. Foram eles que estressaram os bichos e quebraram os perfumes durante uma briga.
- Obrigada, cabo!

Segundo informações do sindicato dos publicitários, o mercado negro do estágio não-remunerado vem custando uma grana preta aos cofres públicos e aos bolsos da categoria. Aqui ao meu lado está um dos diretores do sindicato, Delfim Nagrana.

- Seu Delfim, o que o sindicato vai fazer com relação ao contrabando de estagiários?
- A primeira coisa que vamos fazer é investir na minha campanha para vereador. Depois, quero ser deputado e quem sabe prefeito.
- Mas e o contrabando?
- E o que eu tenho a ver com isso? Vá falar com as faculdades de comunicação. Todo semestre desovam milhares de profissionais “meia-boca” no mercado e botam a culpa na gente. Despacham estagiários às agências de propaganda para valorizar seu programa de ensino com slogans como “daqui o aluno já sai trabalhando” e depois vêm culpar o sindicato!
- Certo, então o senhor afirma que os contrabandistas são as faculdades.
- Hein?
- E as agências de propaganda? É verdade que muitos estagiários trabalham sem ganhar nada?
- Ah, mas isso não é só com estagiário. Tem muito publicitário de cabelo branco aí ganhando nada. O que acontece é que a mão de obra gratuita dos jovens tira o emprego dos profissionais experientes. É a máxima do “por que pagar mais se temos quem faça de graça?”. Isso causa sérios danos. Quem é que vai pagar a contribuição sindical?
- Muito bem, então o senhor afirma que os receptadores dessa muamba são as agências de propaganda.
- Hein?
- Obrigada!

Toda a carga embargada na operação já tem um fim determinado. Em até sete dias, os milhares de vidros de perfumes apreendidos serão distribuídos gratuitamente pela polícia nos principais terminais de ônibus da cidade em horários de rush, numa operação em parceria com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos.
 
A mesma sorte não foi reservada aos animais em extinção e aos estagiários. Sem vaga no zoológico e no mercado de trabalho, as espécies apreendidas deverão ser sacrificadas. Agora há pouco, quarenta senhoras católicas comovidas com a notícia vieram até o barracão da polícia para tentar salvar as vidas que estão em jogo. E parece que... é isso mesmo! Elas já estão saindo! Cada uma das quarenta senhoras está deixando o local com um casal de ararajubas, dois filhotes de lontras-ruivas e vinte frascos de perfume importado. É um belo gesto de solidariedade e amor à natureza!
 
Quem estiver interessado em adotar um animalzinho selvagem ou contratar um estagiário de propaganda, é só vir ao barracão da polícia, no endereço que aparece no vídeo. Mas venha rápido porque, segundo informações dos agentes, os estagiários estão bebendo todo o perfume e perseguindo os animais em extinção para fazer o churrasco da turma.
 
Voltamos a qualquer momento com mais notícias. É com você aí no estúdio, William!

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POR EM 14/07/2008 ÀS 06:12 PM

As mentiras que os publicitários contam

publicado em

Não. Isto não é uma carta de consumidor choramingando porque nasceu ontem e não teve tempo de aprender a ler mala-direta. Nem é uma resenha da reedição do livro de Oliviero Toscani. É só uma paródia do nome de um livro do Verissimo. Porque, sim, eu não tenho mais o que fazer.
 
Mas pra você não perder a viagem, aí vai a única verdade destas linhas: tem um publicitário mentindo na sua cara. Tá reclamando do quê? Eu disse que ia dizer uma verdade, não uma novidade. E quer saber? Aí vai mais uma piada velha: uma lista das mentiras que andam contando nas agências. Algumas velhas como a própria mentira e as promessas de políticos. Outras, novinhas como os estágios bem remunerados. E leia pra ver se eu estou mentindo.
 
1 – “Virei redator publicitário porque queria exercitar meu talento para escrever contos, crônicas e poesias.”

(Mentira! Você entrou nessa pra ganhar dinheiro. O que, aliás, nunca teria com seus contos, crônicas e poesias medíocres.)
 
2 – “Não trabalho por dinheiro.”

(A menos que isto seja dito por um estagiário de uma grande agência, é uma escandalosa mentira.)

3 – “Para chegar a este conceito, entrevistamos centenas de consumidores.”

(Mentira! Podem até ter entrevistado os consumidores. Mas chegaram ao tal conceito copiando a concorrência.)

4 – “Aqui na agência a gente nunca sai antes da meia-noite porque sempre tem muito trabalho.”

(Inclusive os freelas que o povo pega pra fazer no emprego.)
 
5 – “Nossa equipe é uma das mais bem pagas do mercado.”

(É por isso que o pessoal vive pulando de emprego em emprego por qualquer proposta.)

6 – “Nossos clientes são os mais satisfeitos do mercado.”

(Mentira! Mentira! Mentira! Cliente muito satisfeito tá puxando o saco pra conseguir uma boquinha na agência quando precisar.
 
7 – “Anunciantes bem atendidos por outras agências não nos interessam.”

(Tá bom. Agora conta outra.)

8 – “Eu sou criativo e me dou muito bem com o atendimento.”

(Pode apostar que tem sexo na parada.)

 
9 – “Escrevi exceção com dois “esses” de propósito, só pra testar o revisor.”
 
(Anrrã.)
 
10 – “A sociedade precisa se mobilizar para combater o trabalho escravo.”

(Ok. Então vamos começar remunerando os estagiários?)
 
11 – “Olha, não pense que você está sendo demitido só porque perdeu dois clientes esta semana, não. É contenção de despesas, mesmo.”

(E o medo de processo trabalhista, hein?)

12 – “Uma nova realidade está aí, batendo à porta das agências.”

(É mais uma leva de gente despejada das faculdades em busca de trabalho. E pare de conversa mole!)

13 – “Então, deixa a sua pasta aí que eu dou uma olhada depois.”

(Esse vai direto para o inferno.)

14 – “Pode cair o mundo. Hoje eu saio mais cedo.”

(Rá! Rá! Rá! Rá!)

15 – “A propaganda brasileira nunca teve tantos talentos. Metade deles está na minha agência.”

(Espera um minutinho que eu vou ali atrás vomitar e já volto.)

Pra concluir, depois de tanta mentira, uma verdade. Um diretor de criação, casado, pai de dois filhos, seduziu uma estagiária, saiu com ela e, ao levá-la de volta pra casa, sussurrou em seu ouvido:

“Amanhã eu te ligo.”

E ligou mesmo. Pra dizer à moça que ela estava na rua.

Agora, faça o teste. É só somar quantas dessas mentiras você já contou na vida pra saber o seu perfil. Menos de quatro: você é normal. De quatro a oito: vai se tratar. De nove a quinze: posso lhe mostrar minha pasta?

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POR EM 08/07/2008 ÀS 09:19 AM

O layout da pedra lascada

publicado em

Há centenas de milhares de anos, no tempo das cavernas, entre 200.000 e 40.000 antes de Cristo, os homens se locomoviam em toras de árvore arrastadas por outros mamíferos e resolviam toda e qualquer diferença no tacape, na pedrada, no tabefe e na mordida. Naquela época, a concorrência já era carnívora.
 
Em verdade, os hominídeos eram apenas mais uma espécie lutando para sobreviver em um cruel ecossistema primitivo, formado por bandos rivais de sujeitos peludos comendo de boca aberta, dinossauros em cio interminável e, claro, dezenas de agências de propaganda guerreando entre si pelas verbas de seus clientes.
 
Já naquele tempo não faltavam agências. A "Onk, Bongh e Blá" era uma das maiores. Também havia a "Ugh, Roargh e Neanderthal". E a "Sobrancelha e Pé-de-Atleta", de idéias mais moderninhas, vindas do estrangeiro. Era um mercado movimentado.
 
Foi em uma dessas agências que se deu a apresentação da campanha publicitária mais famosa da pré-história. Uma grande montadora de veículos havia inventado um artefato revolucionário que mudaria para sempre o hábito das pessoas de ir e vir. Os engenheiros dessa indústria haviam concebido uma peça circular para girar em torno de um eixo e, fixada na parte de baixo dos veículos, fazê-los se movimentar muito mais rapidamente. Eles tinham inventado a roda!
 
Os executivos da montadora concordaram que tamanha revolução merecia uma divulgação proporcional. E após uma rápida concorrência entre várias agências, encerrada após uma violenta luta, com os atendimentos abrindo a golpes de tacape a cabeça dos adversários, o diretor de marketing, os gerentes de produto, engenheiros e até o presidente da montadora seguiram até a caverna da agência sobrevivente para assistir à apresentação da campanha.
 
A equipe de criação havia caprichado. Vistosos layouts rupestres forraram todas as paredes da caverna e encheram os olhos dos inventores da roda. Os executivos adoraram os anúncios, as placas, os painéis. Pediram uma ou outra alteração nas chamadas e nas imagens, coisa pouca, mas aprovaram no ato a idéia de oferecer test-drives à população.
 
A campanha teve êxito seguro. Milhares de anúncios foram gravados nas paredes das cavernas de família. Em geral, exibiam um homem, uma mulher, um quadrúpede e muitas, muitas rodas. Havia no mínimo um anúncio em cada casa!
 
As novas carroças equipadas com rodas exibiam placas com o slogan do produto. Mensagens de fumaça foram espalhadas aos quatro céus. O boca-a-boca também ajudou. E a aceitação do público foi imediata.
 
As facilidades no transporte propiciadas pela roda resultaram no aquecimento da economia. Logo surgiram novos produtos e serviços. Transporte de carga, taxis, oficinas mecânicas, equipamentos para organizar o trânsito, como semáforos e placas indicativas. Sem falar na inevitável produção em série de carroças com rodas para famílias de todos os tamanhos e as mais diversas necessidades. Veículos blindados resistentes a pedradas, troncos conversíveis, com cabine estendida e tantos outros. Até as batalhas contra os dinossauros ganharam reforço com a invenção da roda. Catapultas gigantes passaram a deslizar mais fácil e rapidamente até os locais das guerras para surpreender o inimigo gigante.
 
Toda essa modernização encontrou nas agências de propaganda pré-históricas um grande aliado para divulgar os novos produtos e serviços entre o grande público. Tudo o que era anunciado nas paredes das cavernas do povo, tornava-se sucesso de vendas.
 
Foi um tempo de ouro para o Homem de Neanderthal. À noitinha, depois de um cansativo dia de trabalho, o pai de família chegava em casa, sentava com a mulher e as crianças no sofá da sala de estar e assistia, maravilhado, às criativas propagandas rupestres dos publicitários, gravadas com sangue de animais e tocos de carvão na parede de sua caverna. A modernidade havia chegado na manhã do mundo.
 
Mas quando o grande asteróide atingiu a Terra em cheio e destruiu tudo - dinossauros, homens sobre rodas e prosperidade - os publicitários já haviam se matado uns aos outros, quase que em sua totalidade, na guerra insana da concorrência do tacape.
 
O tempo passou. E passou. A roda continuou um produto campeão de vendas e a concorrência no mundo moderno segue carnívora até hoje, dezenas de milhares de anos depois. Agora, vira e mexe, algum pesquisador sem imaginação anuncia que os velhos desenhos rupestres, gravados nas paredes das cavernas em sítios arqueológicos, não foram mais do que meras tentativas dos nossos longínquos antepassados de se comunicarem com a gente no futuro. Sei...
 
- Olha só esse desenho, Alex! Está vendo?
- Estou. É um homem das cavernas, uma mulher, um quadrúpede, muitas rodas e um sujeito apoiado em uma tábua.
 
- É um diretor de arte numa prancheta. E ele está rabiscando um layout!
- Você está louco? Fotografa isso logo e vamos embora.
 
- Foto não adianta neste caso. Temos de levar esta caverna inteira para uma
análise mais aprofundada.
 
- Não inventa a roda, Chiquinho. Não inventa a roda!

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POR EM 01/07/2008 ÀS 06:00 PM

Vende-se oca dúplex em bairro nobre

publicado em

Em uma selva tropical distante, muito antes da chegada dos colonizadores europeus, viviam pacificamente diversas tribos indígenas. Os jê, zoe, krahô, tukuna, tupinambá e tantos outros levavam a vida caçando, pescando, fazendo indiozinhos e trocando coisas. E como em qualquer lugar onde se trocam coisas, lá também existia a oferta e a procura, o que incentivou o crescimento do comércio local e, logo, a divulgação dos produtos vendidos. Guardadas as dimensões e diferenças de época, diz a lenda que um dia se deu o seguinte diálogo no meio da mata, entre um índio e seu curumim:
 
- Pai, olha só o que eu achei!
 
- Que arara mais linda, meu filho!
 
- Posso levar para casa?
 
- Não! Esqueceu que a sua mãe está precisando de uma tanga nova? Vamos trocar a ave por um presente para a mamãe!
 
E o índio e seu filho foram até a praça central da tribo procurar um novo dono para a arara e uma tanga nova para a dona da oca.
 
Acontece que pai e filho haviam comido muita jaca na hora do almoço e estavam vivendo uma peleja intestinal. Sem condições de ficar ali por muito tempo, postados na praça esperando para fazer negócio, empoleiraram a arara num galho e penduraram lá uma placa.
 
Troco por tanga nova, tamanho M.
 
Quando voltaram do matinho, o índio e seu pequeno encontraram no galho onde haviam deixado a arara uma linda tanga colorida, de pele de sucuri, da última coleção de um famoso estilista local, um silvestre muito sensível e talentoso!
 
A idéia da placa para divulgar as mercadorias havia dado certo! E todo mundo copiou. Em pouco tempo, a aldeia havia se transformado num enorme ponto comercial. Em vez de índios oferecendo seus achados em voz alta, diversas placas ocupavam todos os espaços. Foram os primeiros anúncios publicitários dos trópicos!
 
Mas alguém precisava organizar aquela bagunça. Verdadeiros ataques de estilo estavam sendo cometidos contra o idioma. Então um índio muito esperto reuniu seus amigos e decidiu abrir uma empresa para cuidar de tudo, cobrando uma pequena comissão. Estava criada a Tukuna, Xicrim e Associados, a primeira agência de propaganda da selva.
 
O negócio ia tão bem que logo surgiram concorrentes. Vieram a Tupi & Guarani Publicidade, a Ia, No e Mami Comunicação, a Oca de Criação, a Arco e Flecha, a Onça furta-cor e tantas outras. Em qualquer uma delas, sobrava gente criativa, uma fauna de guerreiros das idéias, desde o estagiário curumim que montava os layouts em enormes folhas de seringueira até o cacique diretor de criação, o mandachuva do pedaço. Sem falar nas belas cunhatãs de pernas bronzeadas que atendiam os clientes.
 
Mas havia mercado para todos! O índio era um povo que adorava trocar produtos, fazer negócios e encher a oca de coisas que jamais usaria. E havia os novos serviços que surgiam para fazer a cabeça de toda a gente! Passeios de piroga pelo rio, escolas de esporte e danças típicas, casas de massagem, cursos de idiomas! Alguém tinha de divulgar isso tudo. Foi um tempo de ouro para a propaganda tupiniquim!
 
Até que chegou o capital externo, flutuando em grandes embarcações carregadas de ganância e pimenta do reino. As idéias européias revolucionaram o mercado! Novos produtos, novas estratégias de vendas. Novas moedas! E a concorrência foi ficando maior, e maior.
 
Os gringos ofereciam vantagens aos clientes que os empresários nacionais não podiam cobrir. Os caciques ficaram loucos de raiva e lançaram mão de agressivas estratégias para eliminar a concorrência, inclusive o canibalismo. Muitas cabeças rolaram. A cabana caiu! O capitalismo selvagem estava instalado!
 
Pouco a pouco, as pequenas agências dos índios entraram em extinção. Uma após a outra. Muitas foram incorporadas pelas multinacionais, mas a maioria fechou a cortina ou mudou o ramo de atuação. Virou casa de chá, auto-escola, agência de emprego e coisas assim.
 
O tempo foi passando e a propaganda evoluindo. Hoje, no século vinte e um, é dominada por novos caciques, e os índios (pelo menos os mais espertos) ganharam o mundo, as universidades, os cargos públicos. A velha concorrência silvestre agora se dá em outras selvas. Mas ainda carrega um cheirinho de folha, vindo sabe-se lá de onde. Assim é a vida. Uma sucuri que vive mordendo o próprio rabo.
 
Tanto que nos dias atuais, mais de quinhentos anos depois, um descendente muito, mas muito distante dos europeus que fundaram as primeiras agências deslumbra-se com a quantidade de criações suas que vê pelas ruas, nos outdoors e painéis eletrônicos, enquanto volta para casa dirigindo seu carro importado. Ele liga o rádio e ouve o anúncio que acabou de lhe dar mais um prêmio. A onipresença de suas idéias lhe causa uma sensação boa.
 
É uma verdadeira celebridade! Um artista!
 
Então ele chega em casa, liga a TV, assiste a três de seus filmes premiados e adormece um daqueles sonos superficiais, de trinta segundos no horário nobre. Desperta com o som do telefone. É engano. Ele vai à cozinha preparar um pacote da sopa para a qual criou aquela campanha genial. Abre a geladeira e o calendário imantado colado na porta cai a seus pés. Ele abaixa para resgatar os dias e meses, prega-os de volta no metal frio e nem percebe.
 
É doze de junho. Dia dos Namorados.
 
Ele vai dormir sozinho. E sonha com uma linda índia nua, caminhando descalça pelo pátio batido de uma pequena tribo. Entre os dedos encardidos de terra vermelha, ela segura uma pequena lata suada de um refrigerante de guaraná da Amazônia.

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