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ALEX SENS FUZIY
EM 05/03/2010 ÀS 06:12 PM
“Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer.” É assim, com ar deprimente, que começa “Os Espiões”, novo romance de Luis Fernando Veríssimo (Alfaguara, 142 páginas). Escrito de forma simples, direta, muitas vezes redundante e com algumas passagens repetitivas, o livro conta a história de um funcionário de uma pequena editora, mal-humorado e de ressaca nas segundas-feiras, com alguma boa-vontade nos dias restantes. Ele recebe exatamente numa terça-feira, em seu resquício de mau humor e dores de cabeça, o primeiro capítulo de um misterioso original com remetente de uma pequena e desconhecida cidade: Frondosa. É Ariadne quem assina o texto ausente de vírgulas, com graves erros gramaticais, texto este que desperta a curiosidade, o fascínio e até uma certa admiração exagerada — antes por parte do editor e depois de seus amigos e conhecidos de bar, porque tudo o que a misteriosa escritora quer com o romance é vingar-se do marido ciumento que, diz ela, matou seu amante.
Tanto o protagonista, o deslumbrado narrador, quanto seus amigos de bar, vão aos poucos sendo envolvidos pela imagem ao mesmo tempo interessante e irritante de Ariadne. Ela não só pretende mandar o livro em partes, esquiva e secretamente, como também suicidar-se quando o livro estiver pronto. Seria dramática e bela, poética até, se não fosse tão forçada e novelesca a personalidade desse quase-fantasma com fome de vingança. Depois de fatos sondados, ligações familiares descobertas através de nomes conhecidos, os personagens não mais têm curiosidade sobre seu objeto de mistério, mas real atração e um tanto de pena dele. Chega a ser quase cafona o modo como todos os amigos se reúnem, deslocando-se, desdobrando-se, alterando o próprio cotidiano, para, heroicamente, salvar Ariadne das mãos do marido que praticamente a deixa trancada dentro de casa.
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ALEX SENS FUZIY
EM 25/02/2010 ÀS 02:20 PM
Ou “Crônica de um Amor Desesperado”. Ou “Estrelas Vazias”. Ou “As Emanações Silenciosas”. Ou “A Vertigem Inominável”. Não importa realmente o título, mas a intensidade que mora em cada um deles, numa lista que antecipa o romance apaixonadamente dramático de Rafael Bán Jacobsen, mais um premiado escritor gaúcho (nascido na safra dos anos 1980) que resvala talento e recentemente ganhou a Bolsa Funarte de Literatura.
Assim como Clarice Lispector fez em “A Hora da Estrela”, Jacobsen nos brinda com outras opções de título para seu romance “Uma Leve Simetria” (Não Editora, 224 páginas). Cada uma das doze opções incluindo o título usado, cuja simetria é mais tênue do que parece, carrega todo o fardo invisível, porém palpável (como quando se sabe que o vento existe), de algum sentimento — mas qual? “As Emanações Silenciosas” e “A Vertigem Inominável” são títulos que deslizam perfeitamente sobre Daniel e Pedro, amigos que protagonizam ferozmente este romance que de leve não tem nada. Emoldurada pela cultura judaica, com seus costumes, regras e preceitos, a história fala de um sentimento que só recebe uma provável nominação em suas últimas páginas, o que não torna o livro uma surpresa nos valores tratados. Daniel é quem narra seu mais profundo amor por Pedro, seu amigo de infância, e a despeito de todo o cenário religioso que deixa as cenas descritas mais vivas e belamente enfeitadas, não é ela, a religião, o núcleo da história, mas a causa para ela, esta história, existir da forma como existe: pesada, complicada, aparentemente impossível. E as consequências que dela nascem formam o todo. Quem interessa aqui é a dupla de amigos, o amor que um nutre por outro, primeiro secretamente, para então ser revelado e ansiado pelo leitor.
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ALEX SENS FUZIY
EM 18/01/2010 ÀS 07:22 PM
Acho inevitável e certamente saudável na arte o momento da paralisia. A inércia de um artista é seu ponto de crítica, onde ele se defronta com a dúvida e por isso mesmo (ou então às vezes) se mostrando maduro e cuidadoso com seu trabalho.
Um pintor, segurando seu pincel molhado de tinta, leva a mão à tela, mas vendo melhor uma sombra ou a falta dela, para: e nessa hora nasce toda uma questão de saber cuidar de sua obra, do que será melhor e do que pode arruinar um contraste, uma noção exata de profundidade entre as árvores do fundo e as cadeiras debaixo do sol. A dançarina, erguendo sua perna no palco, dando uma pirueta no ar, voltando-se graciosa e leve para os cantos do próprio corpo, corre para onde não deveria porque foi seguindo o ritmo de sua euforia mágica de passos, então para: e nessa hora nasce a dúvida de para onde e como dobrar-se de uma forma que não desafine a cadência anterior de seus movimentos ensaiados. O escritor, sob a chuva de ideias que jorra (ou pinga) em sua mente, sente a falta de uma palavra ou não sabe se deixa o vento abrir a cortina e revelar ao homem que sua mulher está com outro no quarto, e para: nessa hora ele enfrenta o mistério da própria criação e suas dificuldades, mesmo que esse mistério já esteja revelado, embora não num plano ainda alcançável; ele descobre que sua história pode ser maior do que ele, com uma cena invertida possível de alterar destinos, pessoas, o meio todo, e assim o fim.
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