Chamem-me de gênio, por favor!
Um diretor que luta desesperadamente para ser reconhecido como gênio, optando pelo escorregadio caminho do hermetismo

Terrence Malick, diretor do recém-lançado “A Árvore da Vida”, não frequenta festas. Essa atitude pode dizer muito sobre uma pessoa e, talvez, muito mais sobre um artista. Pauline Kael, decana da crítica cinematográfica norte-americana, desconfiava daqueles que chamam cinema de arte porque sua vasta experiência na indústria lhe mostrou que “escritores ficam em casa e trabalham; diretores de cinema vão em festas”. Portanto, se Malick não frequenta festas, nem colunas sociais, nem se deixa fotografar, nada mais natural que concluir que essa atitude reservada, quase monástica no ato de retirar-se do mundo, seria um indicativo de que ele é um raro cineasta sério, e, por conseguinte, um artista na acepção da palavra. Literalmente, um gênio.
Não se trata de nada novo. O escritor J. D. Salinger, autor do lendário romance “O Apanhador no Campo de Centeio”, é o mestre maior da fuga. Marlon Brando passou décadas recluso, superalimentando o corpo e a lenda. Howard Hughes glamorizou sua insanidade ao isolar-se em uma cobertura de Las Vegas. A esfinge nórdica Greta Garbo pediu para ser esquecida. No Brasil, o ex-presidente João Figueiredo imitou Garbo. O vampiro curitibano Dalton Trevisan e o mestre do crime Ruben Fonseca também especializaram-se em cultivar o anonimato. De todos os auto exilados no palácio da fama, o modelo de Malick parece ser Stanley Kubrick. Poucas aparições, poucos filmes, muito mistério.
O crítico de cinema ganhador do Pulitzer, Roger Ebert escreveu que “como ‘Cinzas do Paraíso’ deixou tão boa impressão, o fato do desaparecimento do diretor se tornou um mito de proporções ‘salingerianas’”. Porém, para muitos, diferente de Salinger, Brando & companhia, a reclusão de Malick é planejada demais, encenada demais, alardeada demais. Sua fuga dos holofotes seria uma muito bem pensada estratégia de marketing pessoal para transformar um diretor de inegável talento em gênio.
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“De Olhos Bem Fechados” possui algumas cenas fantásticas, a música é excepcional, a direção de arte, deliberadamente grandiloquente e cafona, é interessante. Tom Cruise está irrepreensível, no que talvez seja sua melhor atuação. Diversos coadjuvantes brilham. Por tudo isso, “De Olhos Bem Fechados” poderia ser considerado apenas um bom ou ótimo filme, se não tivesse sido dirigido por um mestre. Sendo o filme-testamento de Stanley Kubrick, é decepcionante.
Certa vez, do alto de sua sabedoria de Buda etílico, o grande Tim Maia afirmou que o Brasil é o único país do mundo onde cafetão sente ciúme, prostituta sente prazer e pobre é de direita. Piada tão sociologicamente correta quanto politicamente incorreta. Paradoxalmente, quase a totalidade de nossa elite intelectual e parte considerável da elite financeira simpatizam com a esquerda. Essa proximidade ideológica concretizou-se enquanto projeto em 2002, com a eleição de Lula, o que pode ser percebido nas reuniões de bastidores de campanha registradas no ótimo documentário “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles.
Meu ensaio
Fui assistir o recém-lançado documentário inglês “Senna”, de Asif Kapadia, temendo pelo pior. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados à marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um “Globo Repórter” em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que admitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.
Creio que estava no início da adolescência quando vi pela primeira vez uma tela de Antônio Poteiro. Representava uma cena de festa no interior. Uma quermesse talvez. Sabia vagamente quem era o autor. Sua figura barbuda, excêntrica, meio Papai Noel, era folclórica. Lembro-me que, sendo tolo e pretensioso como quase todo adolescente, pensei algo como: “Horrível! Eu desenho melhor que ele”. Naquela ocasião não pude decodificar o sentido íntimo daqueles traços rústicos e cores fortes. Amarelo manga, vermelho sangue, verde limão maduro. A aceitação, ou compreensão, do conceito de primitivismo artístico passava longe de meu imaginário caipira de goianinho caipora, (mal) acostumado que estava com pequenos manuais de divulgação do tipo “Da Vinci por ele mesmo” ou “O pensamento vivo de Picasso”. Não tinha olhos para ver. Mas não apenas eu.
O jornalista Milton Leite, autor do livro “As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos” (Contexto. 223 páginas), escreveu que “a seleção que conquistou em definitivo a Taça Jules Rimet entrou para história como o melhor time já montado na história dos mundiais”. Uma opinião absolutamente crível, canônica até. É possível que os mais exaltados, resgatando a memória do comentarista esportivo Nelson Rodrigues, chamem de “óbvio ululante”. É possível, reconheço. Porém, respeitosamente, discordo. 
Não sei qual foi o melhor filme brasileiro de 2009, mas, com certeza, o pior foi o melodrama “Do Começo ao Fim”. Não era para ser assim. A história dos dois meio-irmãos que vivem paixão homossexual prometia ser dramática e polêmica. O thriller era bem editado e instigante, chamou atenção. Intelectuais, cinéfilos, cults, libertários, bichos-grilos ficaram ansiosos para assisti-lo. Resultado: decepção.
Alguns personagens se fundiram de tal forma a personalidade de seus interpretes que nenhum outro ator pode ousar encarná-los sem ficar ridículo ou parecer um farsante. O vagabundo Carlitos só pode ser feito por Chaplin. Zé do Caixão só pode ser feito por José Mojica Marins. Os gêmeos Rambo e Rocky só podem ser feitos por Stallone. Por outro lado, a história do cinema está repleta de personagens que foram encarnados por diferentes atores de forma marcante. 007 é um caso exemplar. O James Bond canônico é Sean Connery. Ele criou a persona cinematográfica do espião. Não apenas interpretou-o muito bem, mas tornou-se o próprio Bond, James Bond. Contudo, todos seus interpretes, do pouco expressivo George Lazenby ao brucutu Daniel Craig, possuem seus defensores. Pessoalmente, considero Timothy Dalton, protagonista de “007 Marcado Para Morte” (1987) e “007 Permissão Para Matar” (1989), um ótimo Bond. Foi, até agora, o único ator que fez o papel conforme descrito nos livros de Ian Fleming. Mesmo assim é difícil imaginar que Connery foi superado. Sua interpretação perece ser definitiva. Esse é o ponto. Existem interpretações definitivas? E quando se trata de um personagem histórico? O erudito teórico e roteirista de cinema Jean-Claude Carrière escreveu em seu livro “A Linguagem Secreta do Cinema” que: “enquanto o tempo flui inexoravelmente, um dia teremos filmes greco-romanos, assírios e pré-colombianos. Qualquer período, quer tenha ocorrido antes ou depois da efetiva invenção do cinema, vai tender a se fundir com outros períodos (excetos para os eruditos, que provavelmente serão poucos e esparsos, isolados, talvez maltratados). E na mente coletiva, que pela preguiça e pela falta de imaginação, diferencia muito pouco as coisas, Marco Antônio vai ter as feições de Marlon Brando, seguindo-se a surpresa de ver outro filme em que as mesmas feições são dadas a Napoleão, de forma que alguns se maravilharão com a semelhança entre os dois grandes homens”. Mas Napoleão pode ter dono? Marco Antônio pode ter dono? E Richard Burton? Cleópatra é Elizabeth Taylor? Quem é César?