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Adelto Gonçalves

POR EM 23/03/2009 ÀS 03:37 PM

Música e sociedade na corte

publicado em

Dom João não era o bobalhão que pretensos historiadores até hoje procuram mostrar em livros que vendem muito e minisséries de TV, mas que não têm nenhum compromisso com a verdade histórica dos documentos. Era, isso sim, um homem de gostos refinados, preocupado com a música e as artes, na medida das possibilidades de sua corte que, em comparação com as cortes europeias, seria de uma pobreza franciscana

De 1808 a 1821, o Rio de Janeiro foi o único centro urbano do Novo Mundo a conviver com práticas de corte e seus protagonistas, já que antes disso nunca uma família real havia colocado os pés em suas colônias. Para recuperar o que foi esse tempo e, principalmente, para refazer os caminhos da música no Brasil na época do príncipe regente d.João (1767-1826), por meio da história da formação do gosto musical brasileiro e de seu entorno, foi que o historiador Maurício Monteiro escreveu “A Construção do Gosto – Música e Sociedade na Corte do Rio de Janeiro 1808-1821”, originalmente sua tese de doutoramento na Universidade de São Paulo, que acaba de ser lançada pela Ateliê Editorial.
 
Professor da Universidade Anhembi-Morumbi, de São Paulo, e do curso de pós-graduação em Cultura e Arte Barroca da Universidade Federal de Ouro Preto-MG, Monteiro, em seu trabalho, expõe o que foi o encontro da sofisticada música trazida pela corte portuguesa, ou seja, o classicismo de vanguarda de Mozart (1756-1791) e Joseph Haydn (1732-1809), por exemplo, e os novos gêneros musicais como música de concerto e óperas, com as já existentes no Brasil colônia, isto é, o rico barroco mineiro e os ritmos africanos. “O que importa aqui é perceber como as atividades musicais, aquelas que vieram e aquelas que já existiam por esses trópicos, desenvolveram-se, amalgamando-se, articulando-se ou criando outra”, como observa o autor.
 
Para tanto, Monteiro constatou a existência de uma trindade de músicos da corte joanina que se tornou o sustentáculo da espiritualidade e do divertimento social, da moral e dos costumes cortesãos, das necessidades e das possibilidades do gosto no Brasil. “Um era diferente do outro, mas viveram num sistema de trocas culturais”, diz Monteiro.
 
Marco Antônio Portugal (1762-1830) foi o representante do estilo italiano, embora tivesse nascido português. Já Sigismund Neukomm (1778-1758), aluno de Haydn, foi o classicismo vienense, embora tivesse vivido muito tempo na França. E o padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), mulato, foi a única possibilidade e o possível resultado tropical, embora nunca tivesse saído do Rio de Janeiro. “Em termos gerais”, diz o autor, “foram os três compositores de maior popularidade da sociedade carioca, foram os que mais prestígio tiveram junto ao príncipe e à família real”.
 
Até a chegada da família real, diz o autor, predominaria no Rio de Janeiro e no Brasil a ideia de que a atividade musical era uma tarefa mecânica, indigna de um homem branco. E que, portanto, não se tinha o músico como artista, mas como artesão, ainda que muito habilidoso. Com a chegada da corte, segundo Monteiro, esse pensamento ter-se-ia alterado, a partir do momento em que regras de “bem-viver” ou cartilhas de bom-tom começaram a proliferar, incluindo a música, que passou a ser vista sob a ótica da etiqueta e do gosto.
 
Mas isto não é bem assim. Não é certo que a música fosse atividade só de negros e mulatos. Essa é uma bobagem repetida por muitos historiadores e Monteiro a deve ter lido num desses trabalhos. Se tivesse lido “O Rio de Janeiro Setecentista” (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004), do arquiteto Nireu Cavalcanti, que não consta da bibliografia do seu livro, teria percebido que o mestre-capela Antônio Nunes de Siqueira, membro da Academia dos Seletos e da Academia Real da História Portuguesa, que depois entrou no sacerdócio, era branco, músico dos bons e figura importante na sociedade carioca (p.182). Aliás, da página 179 a 184 de seu livro, Cavalcanti relaciona vários músicos brancos (alguns seriam amadores porque não precisavam da música para sobreviver) que se apresentavam no Rio de Janeiro antes da chegada da família real.
 
Segundo Cavalcanti, era músico (amador) também o médico Francisco Correa Leal bem como seus filhos. Formaram eles um dos grupos que tocaram quando da chegada de dom João. A verdade é que havia músicos brancos, pretos e mulatos, mas, como foi o padre mulato José Maurício quem mais se destacou, historiadores apressados concluíram que era depreciativo ser músico no Rio de Janeiro colonial. Não era.
 
É claro que a chegada da corte fez crescer o movimento musical no Rio de Janeiro. Até cantores castrados (castratti) foram trazidos da Itália para interpretar árias e obras sacras, como ocorria em Lisboa e nas demais capitais europeias. Monteiro observa, porém, que, mesmo ditando preferências de estilo, a realeza e os reinóis recém-chegados não vieram a anular as já existentes, o que deixou espaço para a criação de novas práticas artísticas e culturais. Até porque, saindo às ruas, o que esses cantores e compositores ouviam, ainda que involuntariamente, eram os sons de batuques.
 
Nas duas primeiras partes do livro – “Música e historiografia” e “O Gosto e o costume” –, o autor traça um panorama da construção do gosto musical no Rio de Janeiro no começo do século XIX. Já em “Um lugar seguro nos trópicos” apresenta o impacto e as transformações artísticas e socioculturais que o Rio de Janeiro começou a sofrer a partir da presença da corte. Também aborda a música dos escravos africanos e dos indígenas e o seu entrecruzamento com a cultura europeia. Em “A música na sociedade da corte” mostra, entre outros temas, as associações religiosas leigas e irmandades que eram “as maiores fornecedoras e consumidoras” de artes no Brasil antes da chegada da corte.
 
O que se lamenta é que o autor repita a informação de que, com a família real, viajaram para o Rio de Janeiro em 1807 entre 10 e 15 mil pessoas, dando-a como líquida e certa, sem apresentar, porém, fontes de arquivo que a comprovem efetivamente. E que também escreva que o Rio de Janeiro contava com cerca de 50 mil habitantes antes da chegada do príncipe regente e que o número triplicou a partir de 1808 e que quase dois terços eram formados por negros e mestiços, igualmente sem apresentar fontes confiáveis.
 
Se dois terços da população eram de negros e mestiços – ou seja, 30 mil –, a levar-se em conta os dados que apresenta, é de imaginar que, das naus que acompanharam d.João e nas demais que chegaram ao Rio de Janeiro em 1808 e 1809, tenha desembarcado – e permanecido na cidade – quase o equivalente ao que havia de população dita branca (porque se sabe também que muitos dos homens principais, filhos de portugueses chegados havia mais tempo, já não seriam tão brancos assim). Imaginar que isso tenha ocorrido é imaginar também que tenha acontecido um tumulto de grandes proporções na cidade do Rio de Janeiro que a documentação que se conhece não comprova, apesar da insistência com que aqueles que sempre defenderam essa tese procuram fazê-lo.
 
A professora Lilia Moritz Schwarcz, uma das mais brilhantes historiadoras da última geração, que sempre repetiu em seus livros essa informação pouco confiável, em “A Longa Viagem da Biblioteca Dos Reis” (São Paulo, Companhia das Letras, 2002), já não se mostrou tão confortável assim com os números, depois que o arquiteto Nireu Cavalcanti, em sua tese de doutorado de 1997, transformada no livro citado acima, garantiu que, somando as listas de passageiros que constam de arquivo, vieram com o príncipe regente apenas 444 pessoas, entre as quais 60 membros da família real e da alta nobreza portuguesa “que chegaram ao Rio de Janeiro entre 1808 e 1809”.
 
Apesar de ter citado Cavalcanti, Lilia preferiu relacionar várias fontes em que se lê os mais disparatados números. Escreveu que o secretário do bispo Caleppi, “que a tudo assistiu de perto, avaliou que 10 mil pessoas embarcaram na esquadra real”. Citou também uma minuciosa listagem, que consta do arquivo do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (lata 490, pasta 19) que relaciona nominalmente 536 passageiros, número que seria maior porque ao lado dos nomes dos passageiros muitas vezes vinham termos imprecisos como “e mais sessenta pessoas” ou “e outros”.
 
Observou ainda que o historiador J.M.Pereira da Silva (1817-1897), em época posterior, estimou que “cerca de 15 mil pessoas de todos os sexos e idades abandonaram neste dia as terras de Portugal”. E que um documento encontrado nos papéis de d.Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), o conde de Linhares, hoje constantes do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que pretendia registrar os nomes dos nobres acompanhantes de d.João, apresenta ao final uma informação taxativa: “E mais 5 mil pessoas”. Sem deixar de acrescentar uma nota do tenente irlandês Thomas O´Neill, que acompanhou o embarque em Lisboa e a chegada ao Rio de Janeiro, segundo o qual teriam desembarcado de 16 a 18 mil súditos, incluindo quatro  mil soldados da tropa.
 
Citou também o historiador contemporâneo inglês Kenneth Light que estimou que, naquele 29 de novembro de 1807, em Lisboa, poderiam ter embarcado de 12 a 15 mil pessoas. Mas há mais: o historiador J.Vieira Fazenda avaliou que em três meses a população do Rio de Janeiro aumentou em mais de 20 mil pessoas, enquanto para Rocha Martins (1879-1952) seriam 13.800 os recém-chegados, para A.K.Manchester, 10 mil, e para o sempre pouco confiável Luiz Edmundo (1878-1961), 15 mil. Em conclusão, Lilia preferiu mesmo ficar com a “verdade” consagrada pela historiografia oficial de que os viajantes teriam variado de 10 a 15 mil, embora não haja documento que, peremptoriamente, confirme o dado.
 
É certo que pelo menos três dos documentos acima citados são coevos do tempo do embarque da família real rumo ao Brasil, mas igualmente podem trazer estimativas exageradas. Não dá para acreditar, por exemplo, que O´Neill, que era oficial da marinha inglesa, embarcado num navio ancorado a quilômetros de distância do porto de Belém, tenha ficado de prancheta em punho a contar o embarque de milhares de  viajantes. Esta é mais uma fantasia do tipo daquela segundo a qual d.Maria, que já não andava bem das ideias, teria dito na carruagem, descendo do Palácio da Ajuda para o porto de Belém, para que não corressem a fim de não dar a impressão de que estariam fugindo. Quem estava lá para saber se ela disse isso mesmo?
 
Já as demais são citações de historiadores que sempre fizeram do palpite o seu instrumento de trabalho, como ainda é muito comum nos dias que correm. Aliás, Luiz Edmundo já deveria ter sido “canonizado” como o santo padroeiro dos historiadores brasileiros por palpites, assim como Teófilo Braga (1843-1924) é dos portugueses.
 
O curioso é que nenhum desses historiadores consultou nos livros da Intendência Geral de Polícia da Corte, no Arquivo Nacional da Torre Tombo, as páginas referentes ao mês de novembro de 1807. Se o tivessem feito, com certeza, teriam tido suas convicções abaladas, pois lá está claro que as forças de segurança, às vésperas do embarque da família real, preocuparam-se em evitar que a população percebesse os preparativos para a retirada estratégica (ou fuga, se preferirem).
 
Assim, por determinação da Intendência, casas de pasto e botequins ao redor do Palácio da Ajuda não tiveram permissão para abrir as portas naqueles dias. E no Rossio foi reforçada a vigilância para evitar ajuntamentos e a propagação de boatos. Da leitura dos livros da Intendência, conclui-se, obviamente, que a saída da família real de Lisboa era um segredo de Estado. Portanto, se era segredo de Estado, como imaginar que a informação possa ter sido compartilhada por 10, 15 ou 18 mil pessoas?
 
Quem ainda assim duvidar deveria ler o texto “A reordenação urbanística da nova sede da Corte”, do mesmo Nireu Cavalcanti, publicado na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”, nº 436, jul.-set., 2007, pp.149-199. Ali se pode ler, por exemplo, que toda a operação de embarque da família real se deu em 40 horas. Não se esqueçam que as tropas de Junot estavam em Sacavém, às portas de Lisboa. Em outras palavras: a família real embarcou no dia 29 e, no dia seguinte, o exército invasor entrou na cidade. Colocar 15 mil pessoas nos navios em tão pouco tempo seria tarefa impossível. Até porque as naus ficavam ao largo e os viajantes tinham de ir até lá em escaleres.
 
Mas, como correções não se coadunam com os egos inflados de acadêmicos, a historiografia continua a consagrar aquele discurso contraditório, levando historiadores menos atentos a repeti-lo como verdade consagrada. É o caso de Monteiro que repete também a historieta de que teriam ocorrido muito problemas para a instalação daqueles que chegavam, dizendo que as iniciais P.R. (Príncipe Regente) assustavam a todos e que seriam traduzidas jocosamente como “ponha-se na rua”. Se isso se deu, é de imaginar que, praticamente, toda a população de proprietários do Rio de Janeiro (lembrem-se que dois terços seriam negros e mestiços, ou seja, não proprietários em sua imensa maioria) teria sido convidada a deixar suas residências para que fossem abrigados os recém-chegados.
 
E mais: levando em conta que a limpeza do Rio de Janeiro estava toda confiada apenas aos urubus, como observou Oliveira Lima (1867-1928) em “D.João VI no Brasil” (Rio de Janeiro, Topbooks, 4ª ed,. 2006), é provável que a presença abrupta de mais 15 mil pessoas acabasse por estimular uma epidemia sem precedentes numa cidade sufocante em que eram comuns ataques biliosos, disenterias, bexigas, linfatites, morféia e sífilis. Só que não há também registro conhecido de uma mortandade sem precedentes. Nem tampouco sobre a construção às pressas de casas ou aposentos para os recém-chegados.
 
É verdade que Luís Gonçalves dos Santos (1767-1844), o padre Perereca, em “Memórias Para Servir à História do Reino do Brasil”, diz que o vice-rei mandou que proprietários e inquilinos de um grande número de casas lhe levassem as chaves até que “aparecesse na Barra Real a esquadra”, mas isso poderia valer tanto para abrigar 500 ou 15 mil pessoas.
 
Portanto, onde teriam ido se alojar os 15 mil desabrigados consagrados pela historiografia oficial? É, no mínimo, estranho que nenhum documento registre esse pandemônio, sendo mais plausível que tenha ocorrido em dimensões bem reduzidas. Cavalcanti, aliás, em seu livro, diz que pesquisas que realizou sobre a questão da aposentadoria e sua aplicação no Brasil, em função da permanência da corte no período de 1808 a 1823, ano de sua extinção pela legislação brasileira, apontam para o diminuto número de cerca de 120 processos. Mais: naquele texto mais recente, publicado na “Revista do IHGB”, Cavalcanti diz que, segundo suas pesquisas na documentação, apenas 19 pessoas pediram casa para alugar, usando a lei da aposentadoria. Daqui se conclui que, se o episódio do “ponha-se na rua” ocorreu em 1808 ou 1809, envolveu bem poucas famílias.
 
Monteiro também repete o que a historiografia oficial consagrava sobre a presença da missão francesa de 1816 no Rio de Janeiro, com base em estudos de Afonso Taunay (1876-1958) e Donato Melo Júnior, sem levar em conta a importante revisão que Lilia Moritz Schwarcz fez sobre o assunto em “O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as Desventuras Dos Artistas Franceses na Corte de d.João” (São Paulo, Companhia das Letras, 2008), talvez porque o lançamento dos dois livros praticamente coincidiu. E não tenha havido tempo para correções ou aditamentos.
 
Monteiro ainda informa à pág.216 que, ao embarcar em Lisboa para o Rio de Janeiro, o príncipe regente trazia consigo alguns dos melhores músicos da corte, mas não relaciona seus nomes nem diz em que nau teriam vindo como tampouco aponta qualquer fonte de arquivo que possa corroborar sua informação. Seria mais um palpite.
 
Mas, a título de colaboração, pode-se dizer que há passaportes passados em Lisboa, ao final do ano de 1809, para os músicos Antonio Pedro Gonçalves, João Mazzioti, Joaquim Antonio Gomes Calão (padre cantor), José Caparica, José Joaquim Borges (cantor) e Nicolau Heredia. E que, em 1812, chegaram ao Rio de Janeiro Simão Portugal (mestre de música) e os músicos de câmara Eugênio José Farnese, Policarpo José de Faria e Vicente de L. C., cujos passaportes estão no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), de Lisboa.
 
Seja como for, estas observações não tiram a maior parte dos méritos do livro, uma importante contribuição para a reconstituição do que foi “um momento rico em informações e prática musical sofisticada e atualizada” que é “o período de permanência da nobreza portuguesa no Brasil”, conforme diz o maestro Júlio Medaglia no prefácio. E que mostra também que d.João não era o bobalhão que pretensos historiadores até hoje procuram mostrar em livros que vendem muito e minisséries de TV, mas que não têm nenhum compromisso com a verdade histórica dos documentos.
 
Como mostra Monteiro, d.João era, isso sim, um homem de gostos refinados, preocupado com a música e as artes, na medida das possibilidades de sua corte que, em comparação com as cortes europeias, seria de uma pobreza franciscana. Aliás, bem menos numerosa e aparatosa do que imaginaram muitos historiadores. E que, aliás, por isso mesmo, sempre exercitou a hoje chamada política de privatização, pois sempre que podia passava o chapéu entre os ricos comerciantes ou delegava a algum deles o direito de atuar em seu nome, como, por exemplo, recolher impostos, tal qual o governo luso atual que anda a privatizar consulados pelo mundo.
 
Nada disso, porém, impediu d.João de, a rigor, fundar a Nação brasileira, criando as instituições básicas do que viria a ser um país independente. Mas é claro que o príncipe regente continuará a ser apresentado como um tipo grosseiro e de maus bofes por aqueles pretensos historiadores –  até porque nunca ninguém perdeu dinheiro por apostar na estupidez humana.
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:16 PM

Beijar lábios cinzas

publicado em

 “Beijar Lábios Cinzas” reúne 17 entrevistas feitas pelo jornalista José Meirelles Passos, correspondente do jornal “O Globo”, em Washington, há mais de 20 anos, com Borges em seu apartamento na Calle Maipú, 900, entre 1980 e 1984, à época em que o repórter era correspondente da revista “Veja” em Buenos Aires

Não sei se foi quem inventou esta espécie de jogo, mas pelo menos a conheci ao ler um texto de Jorge Luis Borges (1899-1986), “El Acercamiento a Almotásim”, uma das notas que encerram “Historia de la Eternidad" (1936), em que o escritor argentino fez a resenha de um livro que só existia em sua imaginação. Por muito tempo, os críticos e leitores imaginaram que o livro havia sido mesmo escrito e publicado. E que o texto de Borges seria uma recensão de uma obra de Mir Bahadur Ali, escritor de Bombaim. Para confundir seus leitores, Borges não só fez um suposto resumo da obra como ainda citou críticos e jornais que haviam resenhado o livro, sem deixar de comparar o autor ao escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936). Era uma broma.
 
Ainda recentemente, o suplemento “Mais!”, do jornal “Folha de S.Paulo”, de 30/9/2007, partindo da inspiração borgeana, pediu a vários autores que escrevessem resenhas de livros imaginários. Alessandro Atanes, um dos mais talentosos historiadores literários da nova geração (veja-se a sua dissertação de mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo “História e literatura no porto de Santos: o romance de identidade portuária Navios Iluminados”, que está disponível em aqui , fez um arguto comentário, em sua coluna “Porto Literário” no site “www.portogente.com.br”, sobre o gênero da resenha fictícia, ao lamentar que os convidados da experiência do “Mais!” tenham esquecido exatamente daquilo em que Borges mostrou-se também mestre: simular que os livros que resenhavam tivessem sido realmente escritos.
 
Atanes lembrou que o gênero da resenha fictícia ainda apareceria na obra de Borges nos contos “Pierre Menard, autor de Quixote” e “Exame da obra de Herbert Quain”, sem contar a enciclopédia imaginária de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, que apareceram em “O jardim de veredas que se bifurcam”, textos de 1941 reunidos como a primeira parte de “Ficções” (1944), em cujo prólogo, o autor deixou esta observação: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.
 
Não é preciso dizer que não faz parte da intenção deste articulista imitar Borges, até porque lhe faltaria talento para tanto – e, portanto, tudo soaria falso –, mas, a bem da verdade, o que se quer aqui é dizer de um livro que, afinal, só existe na cabeça de seu autor, até porque até agora não foi escrito, apesar da insistência de seus amigos, inclusive, deste que escreve com a esperança de que, por artes da Internet, esta suposta recensão lhe caia sob os olhos, como uma daqueles garrafas que antigos náufragos costumavam lançar ao mar. E, dessa maneira, anime-o a colocar no papel o livro que já existe pelo menos na imaginação.
 
Esse livro – e aqui começa um arremedo desse exercício de se resenhar obras fictícias – tem por título “Beijar Lábios Cinzas” e reúne 17 entrevistas feitas pelo jornalista José Meirelles Passos, correspondente do jornal “O Globo”, em Washington, há mais de 20 anos, com Borges em seu apartamento na Calle Maipú, 900, entre 1980 e 1984, à época em que o repórter era correspondente da revista “Veja” em Buenos Aires. Por ocasião da passagem dos 20 anos da morte do escritor, Meirelles fez uma rápida evocação desses encontros em texto que publicou no caderno “Prosa&Verso” de “O Globo”, de 18/6/2006, e que também pode ser encontrado na Internet.
 
Por pouco – e por “mala suerte” – este articulista não participou de um desses encontros em 1984, a uma época em que descansava alguns dias na casa de Meirelles, no elegante bairro de Palermo, depois de ter feito a cobertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles para o jornal “A Tribuna”, de Santos, e passado uma temporada de férias na Colúmbia Britânica na residência dos amigos canadenses Linda e Douglas Brown, à beira do Shuswap Lake, em Salmon Arm.
 
(A nossa amizade com Meirelles teve início já lá vão quase 40 anos, pois foi no começo de 1970 que fizemos o vestibular para o curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Fundação São Leopoldo, hoje transformado na Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos (Unisantos). O mais arguto e estudioso de todos nós, Meirelles passou em primeiro lugar, enquanto este articulista ficou na 15ª colocação).
 
Feitos estes parênteses, lembro-me que, em Buenos Aires, chegamos até a telefonar para o apartamento da Calle Maipú, mas, por aqueles dias, o mestre deveria estar atendendo a um dos muitos convites que recebia para dar palestras em universidades norte-americanas. Ou, quem sabe, andasse a descansar na fria Genebra de sua adolescência.
 
De modo que nos restou apenas reconstituir o périplo que Borges costumava fazer pela manhã sob as árvores da Plaza San Martin, a meia quadra de seu apartamento, sempre de terno e gravata, e, às vezes, se estivesse frio, protegido por uma boina galega, além de tomar um café cortado na cafeteria na esquina diagonal à do antigo prédio em que ele morava na Calle Maipú, de onde se podia ver a janela de seu apartamento no 6º piso. Naquela cafeteria, o escritor habitualmente parava antes de subir para o seu lar, onde vivia, praticamente, sozinho desde que a mãe morrera em 1975 e fracassara em 1970 o seu fugaz casamento de dois anos com Elsa Astete Millán, uma viúva que era onze anos mais jovem que ele.
 
Tudo aquilo me recordou o périplo que eu fizera solitariamente em 1981, reconstituindo os passos que James Joyce (1882-1941) costumava dar pelas ruas de Trieste à época em que estava escrevendo “Ulisses”, por volta de 1914 a 1921.
 
Meirelles lembra que, na porta de madeira do apartamento 6-B daquele edifício da Calle Maipú, uma pequena placa dourada exibia, em preto, uma palavra que identificava o seu morador: “Borges”. Logo depois de tocar a porta, os visitantes tinham uma surpresa. Ela era aberta pelo próprio Jorge Luis Borges, apoiado em sua bengala chinesa de bambu, a favorita: “A minha governanta é um pouco surda... não ouve quem chega. Eu não enxergo, mas escuto bem – disse ele, com um sorriso irônico ao me receber na primeira vez que o visitei em setembro de 1980”, conta Meirelles, sem deixar de assinalar que a cena se repetiria outras 16 vezes nos cinco anos seguintes, então já sem necessidade da explicação, tornando-se uma espécie de ritual.
 
Meirelles lembra que a porta se abria e, depois dos cumprimentos, ele, então dizia: “Ah, é o brasileiro...”, e depois de se acomodar no sofá de tecido verde na pequena sala de estar com duas paredes cobertas por livros, perguntava: “E, então, quais são as novidades da rua?”
 
Solitário, Borges gostava de visitas, diz Meirelles, observando que o escritor não possuía televisão nem rádio ou sequer um aparelho toca-discos. “Bastava telefonar para ele e perguntar quando poderia conversar. Uma ou outra vez foi para entrevista formal. A maior parte das vezes foi pelo simples prazer da conversa”, recorda. “Se puder ser daqui a pouco... Ou quem sabe no início da tarde”, Borges dizia, ávido por uma companhia. “Vivo a monótona vida de um velho cego que já deveria ter morrido”, costumava justificar, recorda Meirelles.
 
No inverno de sua velhice, Borges atenuava a solidão criando contos que guardava em sua memória prodigiosa – como Funes, el memorioso, lembram-se? –, até que aparecesse um amigo para ouvir e transcrever, à máquina, o que ditava. “Ele não parecia triste. Melancólico, sim. Dizia não ter medo de morrer. Isso, afinal, seria o fim da solidão”, diz Meirelles, reproduzindo em seguida uma frase do escritor: “Estou um pouco cansado... gostaria de morrer o mais rápido possível”, disse-me em várias ocasiões, conta.
 
Ir ao cinema parecia ser a sua diversão preferida: cego, só podia ouvir os diálogos. E, mesmo assim, só podia ir de vez em quando porque vivia de uma frugal pensão de funcionário público que recebia desde outubro de 1973, quando se aposentara depois de exercer o cargo de diretor da Biblioteca Nacional desde outubro de 1955, de maneira ininterrupta. E também dos direitos autorais que pingavam aos poucos.
 
Meirelles conta que, certa vez, perguntou-lhe quem, afinal, era Borges. Depois de pensar longamente, ele abriu um sorriso maroto e balbuciou: “Ah, meu filho... isso eu ainda estou tratando de averiguar. Às vezes, eu mesmo me sinto farto de Borges”, conta.
 
O jornalista revela que um dos momentos mais sublimes nos encontros vespertinos que teve com Borges, a maioria deles por conta apenas de uma boa conversa, pois não se tratavam de entrevistas formais, aconteceu quando voltando, pela enésima vez, à questão da cegueira, o escritor contou que se sentia resignado a ela, sobretudo, porque um velho amigo sofria do mesmo mal e, segundo ele, tinha uma existência mais sofrida que a sua. E explicou: “Enquanto eu ainda consigo ver sombras e vultos amarelados, ele os vê cinzas”.
 
Ingênuo, Meirelles perguntou-lhe que diferença fazia isso, se, afinal, nenhum dos dois enxergava. Por que o amigo teria uma vida mais dura que a dele, devido a essa diferença de cor? E Borges, sorrindo gostosamente como quem acabara de pregar uma peça em alguém, respondeu: “Ah, meu filho... você já pensou o que é beijar lábios cinzas?”
 
Como o leitor pode perceber, vem desta tirada o título do livro. Ainda que seja um livro como tantos que foram escritos a partir de diálogos com escritores, este, sem dúvida, pode ser colocado ao nível daquele que Orlando Barone produziu com base em conversas de Borges com Ernesto Sabato (1911), que se deram em dezembro de 1974, reunidas em “Diálogos Borges-Sabato” (Buenos Aires, Emecé, 1976). Ou de “Conversaciones de Jorge Luis Borges con Osvaldo Ferrari” (Buenos Aires, Grijalbo, 1985), que saiu no Brasil em tradução de Eliane Zagury com o título “Borges em Diálogo” (Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1986), reunindo entrevistas para um programa de rádio que foram transmitidas na Argentina no decorrer de 1984.
 
É verdade que são livros em que as opiniões de Borges sobre determinados temas se repetem. No diálogo com Meirelles, Borges diz ter sido autor de um livro único do qual os demais seriam variações ou meras repetições. Por isso, os temas não variam de definições para a alma dos argentinos ou sua identidade, tigres, labirintos, espelhos, armas brancas (facas), milonga, tango, os westerns e a épica do cinema, a mitologia escandinava e a épica anglo-saxã ou incluem referências a nomes que lhe sempre foram gratos, como Macedónio Fernández, Leopoldo Lugones, Adolfo Bioy Casares, Güiraldes, Sarmiento, Pedro Henríquez Ureña ou ainda evocações de Kipling, Evaristo Carriego e outros.
 
A partir do sobrenome Meirelles tão luso, Borges sempre evocava seus antepassados maternos portugueses, os Acevedos. Era sempre por aí que começava o diálogo entre os dois, recorda Meirelles. E essa era também uma rara vez que ele se referia a seus familiares ou a questões íntimas. De seu matrimônio, dificilmente, lembrava-se: “Quiero Olvidarme de Mis Fracasos Domésticos”, desculpava-se, dizendo que preferia falar de livros (daqueles que lera e dos que escrevera). “Éramos dois Mundos Distintos”.
 
A Meirelles, certo dia, Borges recordou o que lhe fizeram em 1946, à época do governo Perón, quando, por vingança, afastaram-lhe da direção de uma das bibliotecas municipais de Buenos Aires, nomeando-o inspetor de aves. É que o autor de “Ficções” nunca escondera o horror que sentia daquela gente peronista e seu populismo, deixando clara sua adesão ao ideário da “Unión Democrática”, que, afinal, como partido não passava de uma bela fantasia. Ele lembrou que um jornal daquela época questionou o burocrata que lhe fizera tamanha maldade, perguntando-lhe se acreditava que a pátria argentina progrediria muito se os escritores se dedicassem a cuidar de galinhas e os avicultores a escrever novelas.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:27 PM

Cinco séculos de poesia

publicado em

A Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)


 

Os professores de Literatura Brasileira tanto do ensino médio como do ensino universitário já não precisam se preocupar tanto para elaborar seus planos de ensino nem consultar uma grande quantidade de livros nem sempre disponíveis nas bibliotecas de escolas ou mesmo de universidades públicas ou privadas. Foi pensando nisso que a Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O resultado é uma edição que merece toda a confiança do leitor e que permite “pensar a história da poesia no Brasil e suas principais linhas de força, ao longo de cinco séculos”, como assinala na apresentação do primeiro dos cinco volumes Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária na Unicamp, responsável também pela apresentação dos demais livros.
 
ANTOLOGIA DA POESIA BARROCA BRASILEIRA

O primeiro volume da série, Antologia da poesia barroca brasileira, traz poemas de Gregório de Matos (1636-1696), Bento Teixeira (c.1561-1600), Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), selecionados por Emerson Tin, doutorando em Literatura Brasileira pela Unicamp, responsável também pelo prefácio, por notas explicativas e de natureza literária, contextual e lexical e por uma pequena notícia biográfica de cada autor que ajudam a tornar cada poema mais legível ao leitor pouco versado na produção barroca luso-brasileira.

Não é preciso dizer que na produção poética do período a primazia é de Gregório de Matos, o que levou o organizador da antologia a selecionar 40 de seus poemas. Seu contemporâneo Botelho de Oliveira aparece com 20 poemas, enquanto Rocha Pita, consagrado autor da História da América portuguesa, tem resgatada a sua um tanto esquecida produção na Academia Brasílica dos Esquecidos. Quem, porém, abre a antologia é Bento Teixeira, conhecido especialmente pelo poema épico “Prosopopéia”, que tem como modelo “Os Lusíadas”, de Luís de Camões (1524?-1580).
 
ANTOLOGIA DA POESIA ÁRCADE BRASILEIRA

Com seleção e notas de Pablo Simpson, o segundo volume da série, Antologia da poesia árcade brasileira, dedica os maiores espaços, como não poderia deixar de ser, a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas também contempla parte da produção de Santa Rita Durão (1822?-1784), Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793) e Silva Alvarenga (1749-1814).

Reúne o que de melhor produziu a poesia árcade e, de certo modo, ajuda-a a recuperar um lugar que nem sempre lhe foi reconhecido pela crítica, especialmente a da primeira metade do século XX, que viu com prevenção a estilização e o apego de seus poetas a cânones não só portugueses como italianos, esquecendo-se de que, à época, o Brasil não existia como nação organizada e, na verdade, éramos todos portugueses.

Como assinala Paulo Franchetti na apresentação, o Arcadismo, embora não tenha recebido a fortuna crítica e a recepção entusiasmada com que o Barroco tem sido contemplado nos últimos anos, já pode ser visto de modo mais favorável. Além disso, o próprio movimento de constituição de agremiações intelectuais, as famosas academias, diz o professor, “parece mais simpático, quando se considera que o uso dos pseudônimos e a valorização do talento como único requisito para admissão dos membros encenavam, na sociedade estratificada do século XVIII, o ideal de uma aristocracia de espírito e não de sangue”.

Para isso, muito contribuíram os recentes estudos de Jorge Ruedas de la Serna, Vania Pinheiro Chaves, Ivan Teixeira, Alcir Pécora, Melânia Silva de Aguiar, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Joaci Pereira Furtado, José Ramos Tinhorão, Luís André Nepomuceno e, se permitem a pouca modéstia, a biografia de Tomás Antônio Gonzaga que este articulista escreveu.
 
ANTOLOGIA DA POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA

Já Antologia da poesia romântica brasileira, com seleção e notas de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, é um volume mais encorpado, em razão mesmo da necessidade de abranger maior número de autores. O período, a rigor, vai de 1836, quando o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882) publicou um ensaio na revista Niterói, editada em Paris, lançando as idéias de um programa para a edificação de uma literatura genuinamente brasileira, sob a influência da natureza americana, até meados da segunda metade do século XIX. E configura a presença do Romantismo em terras brasileiras.

Além do citado Gonçalves de Magalhães, o volume abrange autores díspares como Sousândrade (1832-1902), autor de “O Guesa Errante“, poema redescoberto pelos concretistas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003) a partir da década de 60 do século passado, e Gonçalves Dias (1823-1864), autor da antológica “Canção do exílio” e de alguns dos mais importantes poemas da lírica indianista brasileira.

Reúne ainda Luís Gama (1830-1882), com suas sátiras aos comportamentos, tipos e situações de sua época, Bernardo Guimarães (1825-1884), com sua poesia erótica e, às vezes, até pornográfica, Álvares de Azevedo (1831-1952), com sua fina e sepulcral poesia, Laurindo Rabelo (1826-1864), com sua poesia satírica e fescenina, Casimiro de Abreu (1839-1860), com sua lírica de tons suaves, Castro Alves (1847-1871), com seus versos grandiloqüentes em favor dos escravos, Fagundes Varela (1841-1875), com seus poemas religiosos uns, amorosos outros, de inspiração regional ou sertaneja, Juvenal Galeno (1836-1931), com seus versos francamente populares, e Junqueira Freire (1832-1855), com seus poemas de monge atormentado. 
 
ANTOLOGIA DA POESIA PARNASIANA BRASILEIRA

Com seleção e notas de Pedro Marques, Antologia da poesia parnasiana brasileira apresenta poemas de 14 poetas, entre consagrados e outros menos conhecidos do grande público, mas não menos representativos do parnasianismo. Entre os consagrados, estão Olavo Bilac (1865-1918) e Machado de Assis (1839-1908), cuja produção como poeta acabou abafada pelo êxito de seus romances da última fase. Entre os menos afamados, estão Luís Delfino (1834-1910), B.Lopes (1859-1916) e Francisca Júlia (1870-1920), única mulher entre os poetas reunidos.

Lembra Franchetti na apresentação que o parnasianismo, em seu grande momento, ocupou lugar proeminente em jornais, revistas, conferências públicas e saraus burgueses, atraindo grande público para a poesia, o que, aliás, nunca haveria de se repetir, guardadas as devidas proporções no tempo. É de ressaltar ainda que, desde os primeiros tempos do Brasil independente, a literatura esteve comprometida com as questões vitais da nação, tendo assumido a bandeira da causa abolicionista.

Encerrada a questão da abolição da escravatura -- embora a situação dos ex-escravos nunca tenha efetivamente preocupado o governo e as classes dirigentes --, e estabelecida a República, desapareceram os grandes temas épicos. Assim, a poesia refluiu a um exclusivo cultivo artístico, calcado em movimentos europeus posteriores ao Romantismo.

Embora fique clara a influência do movimento francês, os parnasianos brasileiros procuraram um caminho próprio, o que explica o fato de terem caído no gosto da população ou pelo menos daquele público letrado que se interessava pelas coisas do espírito. Com certeza, tal foi a importância do lugar que essa geração ocupou na sociedade de seu tempo que a ela se deve a criação da Academia Brasileira de Letras, como lembra Pedro Marques na sua introdução.

Se muitas vezes os modernistas atacaram sem medidas o parnasianismo, isso se deu por conta da necessidade que tinham de oferecer alternativas para o que consideravam fórmulas gastas dos parnasianos. Mas nunca deixaram de reconhecer a importância histórica do movimento.
 
ANTOLOGIA DA POESIA SIMBOLISTA
E DECADENTE BRASILEIRA


Com seleção e notas da professora Francine Ricieri, doutora em Teoria e História Literária na área de Literatura Brasileira pela Unicamp, Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira reúne nove poetas de um movimento que, ao não alcançar a repercussão do parnasianismo, agrupa nomes ainda pouco conhecidos do público. Diz a organizadora em aprofundado estudo introdutório à guisa de prefácio que esses poetas, como jamais pretenderam servir à causa nacional, “foram usualmente representados como alienados, desenraizados, fúteis, irracionalistas, incompreensíveis, colonizados”.

Seja como for, como observa Franchetti na apresentação, a poesia simbolista reserva muitas surpresas “e a leitura desta antologia por certo ajudará a reverter a idéia de desinteresse que se colou à produção simbolista”. Para que esta frase não fique aqui assim um tanto solta, é de lembrar que Franchetti, autor de As aves que aqui gorjeiam -- a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Lisboa, Cotovia, 2005), navega por estas águas com mão de mestre, como diria Massaud Moisés.

Missal e Broquéis, publicados no Rio de Janeiro em 1893, por Cruz e Sousa (1861-1898), teriam sido a primeira manifestação em livro no Brasil do Simbolismo ou Decadentismo. Por isso, além de peças de Cruz e Sousa, que abrem o volume, a organizadora recolheu poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), B.Lopes (1859-1916), Eduardo Guimaraens (1892-1928), Maranhão Sobrinho (1879-1915), Pedro Kilkerry (1885-1917), Da Costa e Silva (1885-1950), Emiliano Perneta (1866-1921) e Alceu Wamosy (1895-1923). É de notar que B.Lopes aparece aqui também porque sua poesia tanto tem traços parnasianos como simbolistas.

Desses, o mais visível nos dias de hoje é Da Costa e Silva, em razão do trabalho de resgate de sua poesia encetado por seu filho, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que tratou de republicar a produção do pai, embora Alphonsus de Guimaraens e Emiliano Perneta também sejam frequëntemente lembrados em estudos acadêmicos.

Outro bem conhecido seria Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja poesia apresenta recursos e temas relacionados à poesia simbolista, mas a organizadora preferiu deixá-lo de fora da antologia, argumentando que incluí-lo seria fornecer do poeta “uma visão que não condiz com a linha peculiar e tão característica em que sua poesia se definiu”. Até porque a produção de Augusto dos Anjos guarda igualmente traços parnasianos e até mesmo pré-modernistas.

Por isso, seria aceitável que alguns especialistas viessem a questionar a sua exclusão, mas a verdade é que o estudo introdutório de Francine Ricieri é tão bem embasado e didático e suas extensas notas de leitura tão esclarecedoras que essa se torna uma tarefa extremamente difícil e ingrata.

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).    

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POR EM 12/10/2008 ÀS 06:58 PM

Pensar o Brasil com Sérgio Buarque de Holanda

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Um ano antes da grande noite do Ato Institucional nº 5 que se abateria sob a Nação, Sérgio Buarque de Holanda deixava claro que acreditava que, apesar da sua ancestral submissão aos poderosos de plantão, o povo brasileiro permaneceria fiel aos princípios democráticos

             
Para quem não se conforma com os atuais altos índices de popularidade do presidente Luís Inácio Lula da Silva (aprovado por mais de 77,7% da população brasileira, um recorde histórico), a leitura de uma palestra dada por Sérgio Buarque de Holanda (1902—1982) na Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, em 1967, no começo da travessia do conturbado regime militar (1964—1985), pode ajudar a explicar muita coisa. 
    
A palestra, “Elementos básicos da nacionalidade: o homem”, encerra o livro Sérgio Buarque de Holanda: Perspectivas, coletânea que reúne ensaios de 28 estudiosos de várias gerações e procedências, além de imagens, bibliografia e textos poucos conhecidos do próprio historiador, lançada pela Editora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e organizada pelos professores Pedro Meira Monteiro, da Princeton University, e João Kennedy Eugênio da Universidade Federal do Piauí.
    
No texto, Sérgio Buarque de Holanda recorda uma observação de Joaquim Nabuco (1849—1910) sobre uma suposta submissão do povo brasileiro, que seria “maior do que a das outras nações sul-americanas”, o que poderia explicar um pouco o atual conformismo da população com o que o economista chileno Sebastián Edwards, professor da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e consultor econômico do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, já definiu como “economia da melancolia”, ou seja, uma trajetória sem crises, mas também sem crescimento.
  
 À época, na casa daqueles que haviam derrubado e enxovalhado as garantias individuais dos cidadãos, Sérgio Buarque de Holanda citou Joaquim Nabuco para contestá-lo, argumentando que não se podia dizer que as tentativas de governos ditatoriais haviam encontrado o povo brasileiro cegamente submisso ou inerte. “E se é certo que esse povo recebeu com aparente indiferença a mudança de regime em 1889, e não se deixou abalar, depois disso, por tendências restauradoras, para tanto há de ter contribuído largamente o sentimento generalizado de que a Monarquia já tinha cumprido sua missão e pouco adiantaria querer sustentá-la ou restaurá-la a qualquer preço”, dizia.
    
Àquele tempo, um ano antes da grande noite do Ato Institucional nº 5 que se abateria sob a Nação, Sérgio Buarque de Holanda deixava claro que acreditava que, apesar da sua ancestral submissão aos poderosos de plantão, o povo brasileiro permaneceria fiel aos princípios democráticos. Para ele, historicamente, o Brasil, depois de uma fase mais ou menos prolongada de ditadura, empenhava-se sempre por voltar à aplicação de constituições escritas ou das consultas eleitorais. Por trás da frase, com certeza, estaria a sua esperança de que a ditadura, que já levava três anos, logo refluísse e o País voltasse à senda democrática.  Aconteceu, porém, o contrário: Sérgio Buarque de Holanda nem viveria para ver o fim do regime ditatorial.
  
 Ao se referir ao regime igualmente de exceção que se inaugurou em 1930 — que, até hoje, é chamado de Revolução de 30 por historiadores pouco perspicazes —, não deixa de mostrar Getúlio Vargas como homem que se via como chamado pela Providência para guiar a nação em crise, exercendo forte apelo sobre as grandes massas, “lançando os dados nesta ou naquela direção, ora para a direita, ora para a esquerda, numa versatilidade que só não enganava aos muito precavidos ou aos muito teimosos”. Qualquer semelhança com o governante atual, descontado o fato de que vivemos hoje sob regime democrático com os devidos freios a aventuras caudilhescas, não é mera coincidência.
    
O resultado disso, dizia Sérgio Buarque de Holanda, foi que, “conservadas as massas, assim, na dependência do poderio de um homem, era como deixá-las em estado de menoridade ou de imaturidade para seguir os rumos naturais”. De onde vem, portanto, essa submissão natural das massas brasileira? Essa vocação para se deixar levar por um homem providencial?
    
Dizia Sérgio Buarque de Holanda que viria das duas sociedades diferentes nos níveis e modos de vida que existem no Brasil: a que, abrangendo a maioria do País e de sua população, exibe ainda hoje traços coloniais, e aquela que, representada sobretudo pelo Estado de São Paulo, não receia o progresso nem o futuro. Na primeira se achariam ainda encastelados os resíduos de um passado renitente e se apresentam condições arcaicas, que lembram as da Índia e do Egito, enquanto na outra, mais ativa e progressista, encontram-se aspectos capazes de evocar Nova Iorque ou Chicago.
    
Mais de 40 anos depois, essa análise, feita com base nas idéias do historiador francês Jacques Lambert, autor de Os Dois Brasis (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969), ainda seria válida? Sem dúvida, porque o Brasil, se cresceu muito nas últimas quatro décadas, poucas modificações sofreu em sua estrutura social e política porque continua refém do egoísmo e da cegueira das oligarquias que o dominam.
  
 Em outras palavras: não houve nenhuma revolução social nem qualquer ordenação nova na sociedade brasileira. Até porque as oligarquias estaduais — aquelas mesmas oligarquias que se achavam representadas no Parlamento ao tempo da Monarquia e que ganharam maior peso com a República — ainda continuam suficientemente bem representadas no Congresso, sempre dispostas a bloquear todos os esforços que visem eventualmente a romper o status quo.
    
Basta ver que, até agora, passados seis anos de governo Lula, o Congresso não se dispôs a votar uma reforma tributária para valer, que desonere os custos das empresas e dos cidadãos assalariados. A ponto de o País continuar a contar com duas espécies de cidadãos: de um lado, aqueles que pagam compulsoriamente ao Estado; de outro, aqueles que roubam o Estado. Até porque os que fazem parte das grandes massas marginalizadas nem sequer podem ser chamados de cidadãos.                  

II

Entre os ensaios dos analistas convidados a participar deste livro, um dos mais instigantes — embora seja difícil escolher os melhores, entre tantos tão bem escritos e pensados  —  é “Raízes do Brasil y El Laberinto de la Soledad: una comparación” em que José Ortiz Monasterio, do Instituto Mora, do México, compara as obras de Sérgio Buarque de Holanda e Octavio Paz (1914—1998), encontrando em ambas enormes semelhanças, já que tomam elementos da história, da sociologia, da literatura, da psicologia e outras disciplinas a ponto de tornar sua classificação extremamente difícil.
    
Já em “Sérgio Buarque de Holanda, historiador das representações mentais”, Ronaldo Vainfas, professor de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), admite que pensar Sérgio Buarque como historiador das mentalidades “avant la lettre” seria uma tentação fácil, mas que pode ser inexata, já que "Visão do Paraíso" (1958) é livro de tamanha complexidade teórica e erudição que seria impossível classificá-lo em qualquer esquema rígido ou escola historiográfica.
    
Vainfas lembra ainda que "Visão do Paraíso", quando saiu à luz, estava na contramão da história e, por isso, ficou relegado ao ostracismo por várias anos. E só na década de 80 acabaria por adquirir a importância devida, depois de ter servido de inspiração para Laura de Mello e Souza escrever "O Diabo e a Terra de Santa Cruz" (1986), livro que, segundo o professor, inaugurou a leva de pesquisas da hoje chamada “nova história cultural” no Brasil. Como se vê, os ensaístas concordam que a obra de Sérgio Buarque de Holanda é de tamanha amplidão que não pode ficar restrita a categorias ou classificações.               

III

Em “Raízes do Brasil: Uma Releitura”, Brasil Pinheiro Machado (1907—1997), antigo professor de História na Universidade Federal do Paraná, destacou também a análise de Sérgio Buarque de Holanda segundo a qual o liberalismo, nas democracias sul-americanas, tendem para o caudilhismo, diante da ausência ou inconsistência dos órgãos partidários. É o que se vê, hoje, na figura do presidente Lula, que paira acima dos partidos, inclusive daquele que fundou e que lhe serviu de apoio para ascender ao poder. Curiosamente, o prestígio político e popular de Lula, segundo as mesmas pesquisas, não surge, porém, como uma força capaz de se transferir para um possível candidato à sua sucessão. É, portanto, pessoal e intransferível, o que lhe permite sonhar com um tranquilo retorno à cadeira presidencial em 2014.                    

IV

Sérgio Buarque de Holanda, ainda estudante, começou a colaborar em publicações como “Correio Paulistano”, “A Cigarra” e “Revista do Brasil”. De tendências monarquistas, influenciado pela leitura de Eduardo Prado (1860—1901), autor de "A Ilusão Americana" (1893), que considerava funestos os transplantes mecânicos das instituições dos Estados Unidos, como fizeram os primeiros republicanos no Brasil, o futuro historiador mudou-se para o Rio de Janeiro em 1921, matriculando-se na Faculdade de Direito.
    
Ligado aos modernistas de São Paulo, tornou-se representante da revista “Klaxon” no Rio de Janeiro. Em 1927, foi diretor de um jornal em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, e, em 1929, viajou para a Europa, sobrevivendo em Berlim com colaborações para jornais brasileiros e trabalhando em agências de notícias, como a “Havas” e a “Associated Press”.
    
Retornou ao Brasil em 1930, publicando então na revista “Espelho” o ensaio “Corpo e alma do Brasil”, primeira versão do que seria o livro "Raízes do Brasil" (1936). Continuou a trabalhar na “Associated Press” e a coloborar como crítico literário no “Diário de Notícias”. Trabalhou ainda no Instituto Nacional do Livro. Em 1944, começou a trabalhar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e publicou "Cobra de Vidro", reunindo textos sobre crítica literária, sociologia, história e temas afins. Em 1945, saiu o seu primeiro livro de pesquisa em história, "Monções".
    
Naquele mesmo ano, assinou um manifesto contra a ditadura de Getúlio Vargas. Em 1946, mudou-se definitivamente para São Paulo, dedicando-se sobretudo à pesquisa histórica, embora continuasse a colaborar em jornais, como a “Folha Carioca” e a “Folha de S.Paulo”. Entre 1946 e 1956, foi diretor do Museu Paulista, mas, entre 1952 e 1954, atuou ainda como professor na Itália. De volta, retomou a direção do Museu Paulista, só o deixando para assumir a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia de São Paulo. Por essa época, publicou "Caminhos e Fronteiras" (1957).
    
De 1958 é a primeira edição de "Visão do Paraíso: Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil", apresentado originalmente como tese para a cátedra de História da Civilização Brasileira. Em 1972, como responsável pela "História Geral da Civilização Brasil", da qual se encarregou entre 1960 e 1972, publicou "Do Império à República", que formava o volume V daquela coleção.
  
Em 1979, publicou "Tentativas de Mitologia", em que reuniu ensaios semelhantes aos que incluíra em "Cobra de Vidro".  Em 1980, o antigo pensador de tendências monarquistas inscreveu-se como membro-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), que, antes de chegar ao poder com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República em 2002, anunciava-se como uma agremiação de tendências socialistas. Morreu em São Paulo, em 4 de abril de 1982.
  
Deixou inacabado "Capítulos de Literatura Colonial", que deveria ter sido o sétimo volume da "História da Literatura Brasileira", dirigida por Álvaro Lins, livro organizado e prefaciado por Antonio Candido em 1991. Em 1996, Antonio Arnoni Prado organizou "O Espírito e a Letra", coletânea em dois volumes de suas críticas publicadas em jornais entre 1920 e 1959. Sérgio Buarque de Holanda screveu ainda uma extensa introdução à coletânea de textos do historiador alemão Leopold von Ranke (1795-1886), O "Atual e o Inatual em L.von Ranke" (1979), e o livro "O Extremo Oeste", publicado postumamente em 1986.
    
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SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: PERSPECTIVAS, de Pedro Meira Monteiro e João Kennedy Eugênio (org;).. Campinas: Editora da Unicamp. Rio de Janeiro: EdUERJ, 719 págs., 2008.
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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:02 PM

Eça de Queirós redescoberto

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Em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada

Por que ler Eça de Queirós (1844-1900), mais de um século depois de sua morte? Essa pergunta continua a ser feita hoje em dia nas escolas de ensino fundamental e médio por adeptos de um método pedagógico que se propõe a estimular os jovens à leitura. E não só Eça, mas boa parte dos autores clássicos portugueses e brasileiros. Esse método, que, ao que parece, faz muito sucesso, defende que se dêem livros de fácil leitura às crianças e aos adolescentes para que se habituem a ter um exemplar na mão por alguns minutos ou horas. 

O argumento é o mais risível possível: imaginam que, se a criança acabar por pensar que a literatura é algo divertido, pode se afeiçoar ao livro, embora o que as pesquisas têm constatado é que, hoje, os jovens passam muito mais tempo diante da Internet do que de um livro. É possível que sejam mais bem informados do que éramos há 40 ou 50 anos, mas, com certeza, são bem menos capazes de escrever um texto com coerência, objetividade e clareza do que éramos naquele tempo. Também é preciso avaliar a qualidade da informação que recebem pelo meio eletrônico.
 
É provável que este articulista venha a ser considerado um dinossauro da imprensa ou das letras, mas nem por isso vai deixar de escrever aqui que, em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada. Em outras palavras: é preciso ensiná-los a se interessar pela dificuldade, não pela facilidade. Portanto, em vez da leitura tosca de um desses esotéricos da vida, que leiam Eça de Queirós ou Machado de Assis (1839-1908). Ainda que por obrigação.
 
Com certeza, hão de argumentar que ler os clássicos pode ser tarefa muito aborrecida, pois, às vezes, é preciso ter um pesado dicionário à mão. Mas é aqui que entra em ação o bom professor. Se não for para explicar os clássicos ou estimular a leitura, enfim, ensinar, para que servirá o professor?
 
Foi para facilitar o trabalho do bom professor -- porque, certamente, o mau professor o que menos faz é ensinar, embora quase sempre se esconda atrás de uma personalidade extrovertida e espalhafatosa -- que Paulo Franchetti, professor titular do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Campinas (Unicamp), e Leila Guenther, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), prepararam uma nova edição de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, que a Ateliê Editorial acaba de publicar.
 
Na apresentação que escreveu para esta obra, além de apresentar a história da produção e recepção da obra, Franchetti faz uma análise minuciosa e inovadora do romance. Já Leila Guenther procedeu a um extenso trabalho de anotação, relacionando preciosas indicações sobre os muitos instrumentos e inventos citados pelas personagens e incorporados ao dia-a-dia do nouveau rich Jacinto ao final do século XIX, bem como esclarecendo alguns vocábulos já em desuso no português falado hoje no Brasil, além de fornecer indicações sobre autores, pintores e personagens de livros que aparecem ao longo do romance. 
 
II 
 
Quando escreveu A Cidade e as Serras, Eça de Queirós já estava no fim de sua breve vida e, praticamente, consagrado como romancista, reconhecido e louvado por seus pares de Portugal e do Brasil, ainda que vivesse distante numa pequena casa dos Champs-Élysées em Paris, a uma época em que a Torre Eiffel já dominava amplamente o cenário da cidade-luz. Cuidava da revisão das provas tipográficas, mas não teve tempo de executar um trabalho que não se limitava a apurar frases ou eliminar hipotéticos erros de linguagem, mas sim fazer importantes ajustes, o que sempre o levava a modificar o manuscrito original. Àquela época, só diante do texto impresso é que o autor tinha uma visão mais completa de sua obra, o que o levava sempre a esses ajustes e, não raro, a acrescentar até capítulos inteiros.
 
No caso de A Cidade e as Serras, Eça de Queirós havia deixado o livro pronto até o capítulo IX. Com a morte repentina do autor, quem fez uma revisão radical na obra, a pedido da viúva, foi seu amigo Ramalho Ortigão (1836-1915), com quem colaborara em As Farpas, opúsculos de capa alaranjada que começaram a aparecer nas bancas e quiosques de Lisboa a 17 de junho de 1871.
 
Também o editor meteu-se a fazer cortes e adaptações, até que decidiu mandar de vez o livro à gráfica e colocá-lo, finalmente, nas livrarias, o que se deu em abril de 1901. Foi essa a versão que os contemporâneos de Eça conheceram, até que, em 1960, Helena Cidade Moura (1924), trabalhando com um autógrafo do autor, eliminou as contribuições de Ramalho Ortigão e as arbitrariedades cometidas por um editor nada ético.
 
Como observa Paulo Franchetti na apresentação, o trabalho de restauração preservaria até algumas inconsistências do manuscrito, como a troca de nomes de personagens e a falta de algumas palavras, esquecidas pelo autor no momento de passar para o papel o que lhe aflorava à mente.
 
Para Franchetti, que se deu ao trabalho de comparar as duas versões, a intervenção de Ramalho Ortigão também se mostrou desastrosa na medida em que tornou algumas frases menos precisas e o estilo menos coerente com a parte significativa do romance que havia sido revista pelo autor. 
 
III 
 
Portanto, esta não é a versão corrente do romance que ainda encontramos em livrarias. Nem é tampouco, claro, o livro que poderia ter sido se Eça tivesse tido tempo de revê-lo até o final. Mas é a versão que mais se aproxima dessa que teria sido a ideal.
 
Para quem ainda não o leu em nenhuma das duas versões, é preciso que se diga que o romance conta a história de Jacinto, jovem muito rico, de pais portugueses, que, nascido e vivendo em Paris, rodeia-se de tudo o que a civilização tinha de mais recente e promissor em termos de tecnologia e conhecimento. Enfim, um bon vivant, que não perdia uma festa de grã-finos e acompanhava durante o dia os seus muitos negócios espalhados pelo mundo.
 
Até que, um dia, entediado com tanto conforto, decide-se mudar para a zona rural, em busca de suas raízes, nas serras portuguesas. Surpreendido por um incidente de viagem, vê-se de repente sem o conforto e o aparato tecnológico a que se acostumara no berço da civilização. O resultado disso é um choque na vida de Jacinto: obrigado a colocar a mão na massa, como se diria hoje, acaba por descobrir a energia que tinha dentro de si. E vira Jacinto de Tormes.
 
Em outras palavras: o que Eça quis mostrar neste romance foi a supremacia da vida no campo em relação à vida na zona urbana, ainda que na principal cidade do mundo à época. Teria Eça, portanto, escrito um romance de tese que, segundo Massaud Moisés, constitui “uma narrativa que veicula uma doutrina, geralmente, explícita, tomada de empréstimo a uma forma de conhecimento não-estético, que o escritor encampa e luta por divulgar ou corporificar por meio de uma fabulação que lhe seja compatível” (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, 14ª ed., Cultrix, 2004, pp. 405-406).
 
De certa maneira, em A Cidade e as Serras, Eça retoma, com a ambigüidade e a ironia que marcam sua obra, um tema recorrente em seus romances: a oposição entre metrópole e província, entre tradição e modernidade, entre o tédio da vida moderna (ou do “excesso de civilização”) e as “vantagens” da vida simples do campo, o que, aliás, já era uma idéia comum entre os antigos (locus amoenus).
 
Em sua apresentação, o professor Franchetti, porém, expõe vários argumentos para rebater a idéia de que A Cidade e as Serras seja um romance de tese, embora a história que seu narrador (Zé Fernandes) apresenta seja uma exposição e comprovação de uma tese. Ou melhor: a tese exposta no romance não é defendida nem pelo narrador nem pelo autor.
 
Portanto, diz o crítico, o que dá graça ao livro é exatamente a dificuldade do narrador em sustentar a sua tese, “já que ele mesmo não se mostra, na maior parte do livro, convencido de que o percurso de Jacinto seja de fato um exemplo digno de imitação”. Aliás, como observa, Zé Fernandes até a sua última viagem a Paris não parece convencido de que o amigo teria feito a melhor opção, ao isolar-se no mundo rural.
 
Mais: Zé Fernandes, diz Franchetti, não é apenas uma testemunha da história e da mudança de hábitos de Jacinto, mas também uma personagem que se transforma sob o efeito da evolução que narra e acompanha de perto. 
 
IV 
 
Visto assim, este romance adquire novas nuances para quem já o leu em outros tempos e indica outros caminhos a quem vai percorrê-lo pela primeira vez. Até porque, como o leitor já deve ter percebido por experiência própria, cada obra tem um impacto sobre nós em função da época em que a lemos. Quantos livros que nos encantaram na juventude que, hoje, relidos, já não parecem carregar o mesmo fascínio?
 
Lembra Franchetti que, durante a ditadura salazarista, A Cidade e as Serras foi elevado à condição de obra-prima de Eça, com certeza porque fazia loas à vida saudável no campo, enquanto o Eça incômodo, socialista e revolucionário de As Farpas era deixado prudentemente de lado. Hoje, sabemos que há livros em que o autor se saiu melhor. Mas, de qualquer modo, vale a pena reler este romance que, entre outras coisas, induz o leitor a imaginar como seria a vida de Jacinto na casa de número 202 da Avenida Champs-Élysées neste começo de século XXI, cercado por tudo o que a tecnologia poder-lhe-ia oferecer. 

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