Imagens imaginadas
Os poetas sempre quiseram ser passarinhos, e seus cantos são como asas tomadas de anjos e deuses, querendo igualá-los.
José Sarney
Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria solução. Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração.
Carlos Drummond de Andrade
UM CANTO NO CANTO DO MURO PODE SOAR TURVO COMO PODE SOAR MÚSICA
Numa passagem do livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago, o médico que acabara de cegar comunica ao seu superior, diretor clínico do hospital onde trabalhava que estava cego e que precisavam alertar ao Ministério da Saúde sobre a epidemia de cegueira: “Não lhe parece que deveríamos comunicar ao ministério o que está a passar”, “por enquanto acho prematuro, pense no alarme público que iria causar uma notícia destas”, “com mil diabos, a cegueira não pega”, “A morte também não pega, e apesar disso todos morremos”. “Todos morremos”, esta é a sentença. Morremos, e grande parte de nós cegou; não há remédio que nos traga de volta à luz.
Saramago na sua literatura nos coloca a par da nossa alienação, da nossa cegueira para as coisas do mundo. Talvez esteja aí a grande charada da dita pós-modernidade: o homem transformado na própria tecnologia, só a ela rende tributos: há muito que se esquecera do mundo real, há muito que perdera a autonomia, há muito que não mais sabe de si. Dito assim, soa como generalidade, parece que tudo se perdeu, mas não! Cito Saramago como contraponto para falar da poesia de Sinésio Dioliveira, mineiro de Belo Horizonte, que ainda cedo veio para Goiânia, formou-se em Letras Vernáculas – UCG, foi professor de Língua Portuguesa, até ingressar no jornalismo, quando demonstrou o seu talento como editor de cultura e como cronista, o que lhe rendeu o Troféu Goiás — categoria crônica - da Academia Goiana de Letras. Sinésio Dioliveira, que desde muito tempo conheço e respeito como poeta, só agora resolveu dividir com o goianiense sua percepção de mundo, a natureza filtrada pelas lentes de sua máquina e pelas belas imagens de sua poesia.
Sinésio tem vocação para palavra, tem tino para notícia, conhece bem o seu ofício, o que o deixa muito tranqüilo para ensaiar novas linguagens, como é o caso da fotografia, já que, como editor, sabe que uma boa imagem torna-se fundamental na composição de uma notícia. Acho que aí nasceu a idéia de fundir imagem fotográfica à imagem poética.
O poeta e sua câmera captando os melhores ângulos de uma vida dedicada à perscrutação do substrato do homem simples, da natureza pujante. De captar com maestria o instante, o silêncio, a verdadeira performance de quem assesta a sua lente para compreensão do homem inserto no tempo, incerto na vida, a percorrer os desvão de uma cidade medonha, como um flâneur baudelariano.
Sinésio é desses seres preocupados com a humanidade, tudo no mundo tem o seu valor; aprendeu muito cedo a valorizar a natureza, o respeito ao próximo. O poeta tem um olhar muito apurado para perceber o simples, justamente no momento que vivemos o supérfluo, o efêmero, sem nos darmos conta de estamos fora da realidade das coisas; vagamos como autômatos; somos diluídos na miséria assustadora dos que não podem ver porque lhes falta a compreensão do simples, ou na decrepitude daqueles que só enxergam os seus pares, a despeito de qualquer contato com as diferenças do mundo. A incapacidade humana para a percepção daquilo que lhe foge à compreensão, aquilo que dele diverge.
É aí que entra o homem, o poeta, o fotógrafo, chamando para uma nova forma de olhar: “Os pássaros são notas musicais duma canção celeste. Eles poesiam o céu”. assim se manifesta Sinésio Dioliveira num dos seus fotopoemas. Dessa forma Sinésio nos brinda com seu canto, um canto de beleza e sensibilidade, nos chamando para um aprendizado de chão, assim como também o faz Manoel de Barros.