Sinfrônio de Nina viveu um esmero na esbórnia, sem trela aos mandamentos de Moisés e numa furupa de fazer inveja a Clodino Burra Zóia, o puteiro mais afamado da nossa região, além de recitador de pecados. A vida de Sinfrônio foi uma beleza nas alças do malfeito, trançada no prazer de verdade com seqüência e sem conseqüência. Atilado na margaça, sorvia e dissolvia, neste caso e principalmente, os bofes. Uma tragédia aquela sina, na visão das beatas e dos aproximados do céu.
De forma que ninguém, em sã, ou mesmo doente, consciência previa escapatória neste mundo ou fora dele para aquela alma peregrina do prazer.
Ele, no entanto, tinha as reservas de ser galã, conquistava e desfazia famílias, imputando as mais cruéis culpas e as desencontradas desculpas a maridos chifrados e mochos. Até menina de menor entrou na lábia dele, sendo que naquele tempo a pedofilia caía na culpa da mocinha que se oferecia e que em seguida tomava o caminho do cabaré para custear sua vida. Sinfrônio, apesar de tudo, e ponha tudo nisso, se safava e se gabava, ao mesmo tempo em que aumentava sua famosa má fama.
Não houve ali moça, mesmo sem esmiuçar, que topasse se casar com ele, apesar de algumas tentativas de sua parte, com atentação do capeta e tudo, principalmente depois que também pegou fama de ladrão, arrombador notívago do comércio estabelecido. Só não ia preso porque era também um grande engambelador de meganhas, dissimulador de delegados e adulador da justiça.
Era tão atilado que desconstruiu os 10 mandamentos da Lei de Deus, outros tantos das igrejas e reconstruiu os sete pecados capitais com gosto de gás. Numa coisa Sinfrônio era mestre: tinha pose e por isso se safava com maestria, inclusive dos inúmeros filhos que aleatoriamente colocou nas barrigas das moçoilas de lá.
Eis que chega a idade pra lá do mais pra cá e nem tudo vira festa, apesar de muita coisa na vida dele ter acabado em festa. Depois de mais de sessenta e tantos anos de desvios e orgias, chegam a lassidão e as doenças e o cabra amofinou-se e se encolheu tanto, que o jeito foi cair nas garras socorristas da igreja e dos filhos de Deus que acomodam os perdidos e arrependidos.
Sinfrônio arrependeu-se de pronto, crente que arranjara a salvação. Não demorou muito, viajou num caixão duro no rumo dos sete palmos abaixo, deixando nos de cá o esperançoso sentimento de que se destinara ao céu de Deus e dos santos, amém. O diacho é que não achou passagem pra lá, ficou enganchado na porta, porque o santo que comandava a porta do paraíso achou pouco o resumo do arrependimento e não consentiu sua entrada. Ele argumentou com as questões inerentes ao perdão, mas o santo observou que ele estava mal informado sobre as novas regras da salvação eterna.
Doravante, segundo os novos preceitos, o arrependimento desses vadios havidos como inveterados tinha de abater ao menos a metade do tempo em que viveram na malandragem. E que, portanto, a porta do inferno era a serventia da casa.

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