Os desenhos da palavra
29/09/2008 | Por em


Cedo me vi atado ao teu calcanhar de letras. Tu me vinhas untada em litros de óleo, impressa em latas de doce, e nas folhas de papel eu te copiava com a ponta de um graveto — a primeira caneta — molhada naquela tinta, aquela água azul-turquesa, obtida com a borra seca no vidro da Parker, encontrado no quintal de minha casa.

Com aquela água azulega, te imitava os desenhos, embora, hieróglifos do sonho, os não decifrasse ainda. Eras então a gênese de alguma coisa, ingênua matéria do que não se adivinha. Oh, eu nada supunha no que se me desenhava!

Entanto, algo já lá estava, insinuando-se numa nuança de sombra, à espreita no espelho onde eu me olhasse enquanto vivesse. O espírito das letras era o que se sombreava na borra que me preserva.

O tempo perdido, o mundo quebrado

Com as letras que o tempo logo apaga — como o risco n´água, sem ruído —, se foi perdendo o encanto, quebrado o mundo de vidro mágico, o cósmico visto a olho lúdico. O graveto era caneta, o prisma era luneta, e eu movia os planetas, antes que substituído o brinquedo por um mundo de assombros e medos.

Enorme perda, posto que não retorna, de mesmo nome e rosto, o vidro que adorna a vida. Não, Proust, nenhum tempo o mesmo, nunca redescoberto o completo encantamento. É o que nos faz, Proust. É o que nos faz tristes. O tempo é um travo de absinto e uma transparência de vidro vazio, borrado de tinta.

Alterações químicas do cuspe

As letras, provei-as com lápis-tinta, e ficaram-me a língua e os lábios arroxeados, impregnados de vogais e consoantes; todo o alfabeto na boca, o cuspe com gosto de cópia.

As palavras me vieram com a dor de suas cáries e, na forma da barbárie, o ruído agudo de um motor no cérebro, a rotação nevrálgica, demolidora, de uma broca odontológica; o cuspe com gosto de sangue e a redundância de purulentos abcessos.

Ficou-me o abalo do sangrento processo da restauração de canais, a comunicação entredentes e uma fala que se articula com sabor cirúrgico-metálico; o cuspe com zinabre de prata e crosta de tártaro, o bárbaro.

As unhas da vida, o rosto desfigurado

Umas palavras eu não disse, da minha meninice. As que me foram tomadas, as que me foram reprimidas, as que guardei para depois e não as pronunciei jamais. Por isso tantos livros na estante não preenchem o meu vazio.

Onde foi que o mundo me roubou o meu menino em mim? Ah, nunca mais me vi! Olho no espelho e não me vejo, olho no retrato e já morri.

Ficou-me o ríctus de dor no riso em rasgo e repuxos. No olhar, a sombra de tudo, e no rosto amargo as rugas que se apegam à pele do passado, ao modo de gavinhas cravadas no musgo de um muro antigo. O rosto que resta para o homem apresentar-se ao mundo.



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