Noite afora, noite adentro: altas horas no mar aberto da noite. Há sempre um curral cheio de gente degradada de corpo e de alma, e demônios que de sua sordidez se alimentam, para não perder jamais a escuridão de não ser. E há sempre a hora em que a noite cai sobre a cidade, e todas as virtudes são demitidas, guardadas a sete chaves, para uso em hora mais apropriada.
É a hora pânica dos sub-homens e mulheres excluídos do sol e da vida. São os frequentadores dos esgotos da cidade, nas horas silenciosas, nas horas silenciosas, em que todos os pudores se perdem. De ntre os vícios a florescer na noite do abandono humano os há para todos os gostos e bolsos. As ratazanas humanas saem de nauseabundos esgotos (onde tentam sobreviver, com a mesma angústia de todos) e, vendendo as almas, e os corpos, tentam dizer, a si mesmos, e aos outros, que ainda não estão mortos. Mal os homens "acima de qualquer suspeita" davam os trâmites por findos do rude dia bancário, e a legião de "demônios" começa a dar o ar de sua graça nos becos, bordéis, suspeitas tascas, e inferninhos infernais. A noite desce sobre as cidades, e as almas dos homens ficam noturnas, pesadas, ansiando por sangue e tragédias.
É a hora do corvo: lascivas e lúgubres soam, no grande silêncio da "época dos tristes", as badaladas de sinistros relógios, a nos lembrar os murmúrios guturais de um amargo Poe: Nunca mais! Nunca mais! São horas, não ser dignos e honestos, (que isto não alivia a caderneta dos mal ditos), mas de ser tristes, e solitários. Aí então é que cada um, como náufrago, atirado às águas tempestuosas de um mar uivante e noturno, começa a ver que a solidão é essencial: a solidão, para quem sonha e navega em vertigens abissais, não é necessária: é essencial. E ninguém será tão comunhão, tão multidão, e tão universal, quanto o foram - e sempre serão os grandes, os eternos solitários!
Na viela dos desesperados tudo era trágico e sujo: da janela de meu quarto eu via copularem, sinistros e ávidos, prostitutos e veados. Fornicavam sem dignidade (se é que pode haver dignidade no ato de fornicar de pé, com medo da polícia, em troca de uns magros trocados. Traficavam corpos e esgares por prazer? Ninguém podia deixar um carro estacionado ali: casais (fossem homens ou mulheres) arrebentavam os vidros, entravam para dentro e, dando uma banana para o conceito de propriedade, faziam dos bólidos semoventes desconfortáveis motéis, e precários domicílios. No beco dos desesperados o sangue, o sêmen e a urina de putas e veados corria pelas valas, e deixava o no ar a pestilência, o furor e o desamparo que vem do povo da noite. Não raramente aparecia um policial, que transava com travestis - e o que achava incrível é que muitos, apesar da carranca, das armas e do fardamento, eram passivos, na relação.
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"FUI ME VESTINDO E LHE DEI A METADE DO QUE MERECIA:
A METADE DO FRACASSO".
Para Gabriela, presidente da Associação de Prostitutas, (hoje elevada a Sindicato) nenhum sociólogo, teólogo ou doutor psi sequer esboçou compreender o profundo mistério que faz uma pessoa entregar-se à prostituição. Eis o que disse Gabriela, sobre sua profissão, a mais antiga que se conhece, e que chegou ao requinte de lançar uma grif e, a Daspu, em concorrência desleal com a podre de chique Daslu: pouco se sabe sobre a diferença entre as milhões de mulheres que são atiradas às ruas, premidas por contingências econômico-financeiras e sociais, estimuladas pela própria família, que vê nisto uma saída (?) para seus problemas, tão graves, e as que mergulham no mundo da mecânica da carne e da marginalidade, puramente levada pela "vocação"; que energia é esta, que estranho fascínio pelo que é corrupto, perigoso e "sujo", que faz tantas pessoas se entregarem ao abismo e à degradação?
E para não dizerem que falou em teoria, e que não tem farta, alucinante e maravilhada "experiência própria", eis o que contou Gabriela, sobre como, por dever de ofício, para não fugir à ética da profissão (que obriga a prostituta a entregar seu corpo a quem pagar pelo ato o preço da solidão): Ao sair da boca do lixo onde trabalhava, deparei com um homem, horrendo, deformado, com mutilações nas mãos e braços.
Era uma criatura miserável, dessas que, em virtude de sua falta de atrativos, têm de frequentar prostitutas, e por serem de uma fealdade atroz, têm de pagar mais do que os outros.". Quanto é? O homem perguntou à prostituta, e ela, tomada por um profundo asco, uma insuportável sensação de nojo e rejeição, para afugentá-lo, disse-lhe que custava o triplo do que costumava cobrar a seus fregueses habituais.
No quarto, ainda presa a crescente sensação de nojo e náusea, fiquei encostada à parede, enquanto o homem, com visível dificuldade para falar e tirar a roupa, pediu-me, com absoluta humildade, (o que aumenta ainda mais a nossa mútua degradação e desespero), que eu lhe ajudasse a tirar a roupa. O profundo significado desta humilhação e desta impotência não podem ser desprezados".
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Da quitinete do centro da cidade, cubículo fétido, úmido e escuro, em que, qual homem-barata (sobrevivente do subsolo), como no desenrolar, como em um filme, projetado pontualmente, na mesma hora e lugar, eu via bichas e putas fumando crack e maconha, tomando picos, ou transando com seus machos; os filhos do desespero, a banda podre da cidade - a marginália que só sai às ruas protegida pelas trevas da noite, propiciava, aos moradores e freqüentadores daquela fétida e nauseabunda boca do lixo, um espetáculo digno de guerra civil não declarada.
Os menores e maiores abandonados, pivetecongues de maior ou de menor idade, passavam os dias a assaltar os transeuntes, dando tratamento preferencial às bolsas das senhoras e às carteiras dos velhinhos transitantes. E, depois de retirar, das bolsas roubadas, os pertences de valia, atiravam o que restava para debaixo dos carros. Não, é claro, sem antes dividir o produto do furto com a zelosa polícia, que sempre comparecia, nos momentos "igualitários", de levar a sua parte.
O ritual era sempre o mesmo; cercavam a vítima em bandos, cabendo ao mais pérfido e mais lépido "aliviar" a vítima do peso de sua bolsa; tudo feito com leveza (na base da gillete), ou com brutalidade, com a utilização do arranco; o autor do "ato de aliviamento" na primeira esquina de correria alivia-se do peso da culpa passando a "prova do crime" a outro comparsa; e de tal modo iam (vão) se "aliviando" em correria frenética, todos os membros do bando, que ninguém é apanhado em flagrante, e todos acabam se livrando; como, aliás, sucede nos linchamentos, em que todos dão suas cacetadinhas, mas ninguém é levado às barras dos tribunais, por homicídio culposo, ou doloso, pelo simples fato de que os crimes coletivos, assim como os crimes de guerra, bem como os crimes oficiais, serão sempre bem queridos pela súcia da malandragem e pela malta dos bandidos pés-de-chinelo.
P.S. fragmento da novela Memorial do medo

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