Amanheceu, finalmente, depois de uma noite de sono agitado. Sentia-se exaurido. No espelho de bordas mofadas, enxergou-se muito mais velho que o habitual. Era um homem judiado pelo tempo e pelo estar vivo. Sintonizou o rádio. Um tal de “Toninho da Ambulância” pedia voto aos eleitores bradando em português errado. A safra de candidatos a vereador naquele ano estava de lascar. O que poderiam o Toninho, sua ambulância, e outros candidatos com alcunhas igualmente toscas fazer pelo bem estar daquela cidade? Mesmo mal humorado, deixou o rádio sintonizado na propaganda eleitoral obrigatória.
Encurvado sobre a pia, o homem escovava os seus dentes. E a língua também. Aprendera recentemente na TV que urgia escovar a língua, esconderijo de palavras e de micróbios. A televisão vai salvar a humanidade. Ou dizimá-la. Deslizava a escova dentro da boca. Pensava na vida assim, logo cedo. Tinha muitas preocupações pela manhã. Era isto, certamente, que o deixava ainda mais velho a cada dia. Um fenecer além da conta, sabe como é?
Com o rádio ligado no último volume procurava manter-se aceso. Às vezes ria um riso trancado e espasmódico de quem está com a boca cheia, ocupada. Abriu os olhos e enxergou formigas. Dezenas delas em desorganizada correição na lisura do mármore. Os insetos garimpavam, frenéticos, partículas adocicadas nos vestígios de comida da noite anterior. Com freqüência, comia no banheiro, valendo-se da condição de homem solteiro, independente e desleixado.
A invasão formigável, ou melhor, formidável o irritou. Suspendeu a escovação na metade (apenas a arcada superior esta limpa e ok, tinha certeza disto). Inspirou fundo. Prendeu a respiração. Deu uma cusparada fluida e volumosa, esvaziando todo o conteúdo de espuma, baba, resíduos alimentares e, é claro, milhares de micróbios. Morram, formigas! Ficou assistindo ao afogamento coletivo. Sorria vitorioso. Sentia-se muito melhor depois daquele bombardeio. Espremeu o tubo de creme dental sobre a língua. Preparou mais munição. Salivou até não poder mais. Matou tantas formigas que ficou com uma sensação de que o dia estaria a salvo na ambulância do Toninho.

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