Muitos sentimentos tomam conta das pessoas quando vêem canalhas milionários à custa de bilhões surrupiados do povo brasileiro circulando por aí livres, leves e soltos. Eles estão por toda parte: na saúde, nos gabinetes do palácio do Planalto, nas grandes empresas, nas instituições governamentais, nas ONGs, nas câmaras de vereadores, assembléias legislativas, congresso nacional. Os pequenos ladrões ficaram desmoralizados (e tinham moral antes?) diante dos ladrões milionários de gosto refinado que são presos um dia, escondem as algemas com suéteres de grife e saem no dia seguinte com sorriso cínico estampado na cara. Nela, vergonha que é bom, nada.
Tudo isso culpa nossa. Esta semana teremos mais uma chance de interferir na grande vergonha nacional com nosso voto e precisamos nos manter atentos, abrir os olhos, examinar cada um, não votar por amizade.
Em Goiânia são mais de 600 candidatos, alguns espertinhos renitentes que precisam ser cuspidos fora do cargo a que nós mesmos os conduzimos, já conhecemos seus truques.
Não adianta nada se indignar sem ação. Indignação só faz sentido quando vem acompanhada de sua ação correspondente. Nós permitimos que esses canalhas riam de nossa cara; permitimos que a justiça tenha esses mil-e-um jeitinhos pra libertar ricos; permitimos que os tribunais superiores os libertem imediatamente após serem presos com algum dos recursos disponíveis na lei – tudo culpa nossa.
Não reagimos, estamos chapados na poltrona da sala assistindo á derrocada final que nem sabemos quando virá, mas que virá com certeza.
Derrocada moral.
Nos esquecemos que qualquer vereador, qualquer juiz, qualquer delegado federal, qualquer autoridade com autoridade pra interromper essa pouca vergonha são meros funcionários pagos por nós e não exigimos nada deles.
No redemoinho daquilo que, passivamente, consideramos uma tragédia nacional, nada fazemos pra interromper a roubalheira.
Tragédia certamente não é porque na tragédia originária na Grécia antiga havia sempre o embate entre Eros e Tânatos, vida e morte com seus respectivos sentimentos de culpa e castigo. Só assim as tragédias se realizavam.
Nem a grandeza da tragédia vivemos porque se o que caracteriza uma tragédia é o embate entre esses sentimentos; se são eles que lhe dão dimensão estamos mesmo é condenados à caricatura dela – um mero drama.
Culpas e arrependimentos desapareceram porque não existe o castigo, os políticos e os ricos cometem seus crimes e não são castigados, mas os homens comuns, sim, são castigados ainda que não pela suas consciências – o pior castigo. Na Grécia e na tragédia era imprescindível a figura de um deus, tudo se baseava no triângulo: a relação com deus, natureza e polis (cidade).
Hoje os deuses estão mortos, a natureza está morrendo e as cidades e o mundo estão em péssimas condições.
Hoje o posto dos deuses foi tomado pelo prefeito, o gerente do banco, o diretor da empresa, o presidente e só falamos das misérias cotidianas. Por isso é que hoje a tragédia não passa de mero drama, sem grandeza e sem horizonte.
Nenhuma grandeza resistiria sem perspectivas.
No bordel Brasil todas as falcatruas são cometidas porque se sabe que não haverá punição e, como disse acima, se houver todas as chicanas de advogados pilantras cuidarão de libertar o pilantra chefe. São dezenas e dezenas de exemplos recentes nos sendo atirados na cara quase que diariamente.
Só Prefeitos, Governadores e deputados indiciados são 181, todos envolvidos com algum processo e suspeitos de alguma falcatrua. 35 senadores da república na mesma situação, indiciados ou suspeitos. Como é que um pai ou mãe explica pros filhos o que é honestidade se eles vêem todas as noites nas TVs homens engravatados e aparentemente respeitáveis sendo alvo de todos os tipos de suspeita?
Li recentemente em O Globo que há mulheres que consideram seus maridos pobres e trabalhadores como uns bobões metidos a honestos; há filhos que invejam a desonestidade milionária dos pais de seus amigos que, mesmo aparecendo algemados e sendo comprovadamente desonestos, podem oferecer o melhor pra seus filhos.
Porque conforto e bem estar o dinheiro compra sim, sendo roubado ou não.
Se nós que pagamos e bancamos toda a festa do bordel em que esses homens vão transformando o Brasil, não reagirmos individual e coletivamente contra tudo o que nos indigna, então estamos justamente condenados a fazer mero mea culpa.
E mea culpa é nada mais que um ato improdutivo e masoquista ensinado pelas religiões. Em outras palavras: não serve pra nada.

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