Salmo da primavera
29/09/2008 | Por em


Eu te saúdo, Primavera, como um ser de encantamentos e mistérios, que vem trazendo na bagagem o refrigério de um dia claro, sem as fumaças de agosto, sem este mormaço sufocante que nos deixa em letargia, a tal ponto de nem sabermos se vivos ou mortos estamos.

Eu te saúdo, Primavera, como a mão amiga que embrulha o toldo nefasto e nos devolve a visão das estrelas, que nos repõe a umidade do fôlego, que nos restaura a plena vontade de viver já um tanto exaurida pela sequidão inclemente.

Eu te saúdo, Primavera, como um ser seráfico, denso e de amplo espectro, que vem semeando ao vento a boa nova sobre os campos. Campos estes que hão de sentir-se regenerados e prenhes, como deveriam ser nos primeiros dias da criação, antes mesmo da malícia da peçonha da serpente, antes das garras ferozes do leão, antes da sanha gulosa dos arados.

Eu te saúdo, Primavera, como a força mágica que vem lançando seu discurso hídrico sobre a terra poenta, emendando num fluir sereno a fala dos riachos já gaguejantes, devolvendo a força de viver aos rizomas adormecidos, estimulando os grãos displicentes a brotarem, espargindo perfumes de vida nova pelos ares, enverdecendo planícies, vales e outeiros e ordenando às caraíbas para que acendam seus fachos de flores radiantes no horizonte.

Eu te saúdo, Primavera, como a viração da tarde, amena e doce, em que o Senhor passeia de bicicleta com os meninos em debandada, estirando ao vento as fraldas de suas camisas azuis e os cabelos em torvelinho. E depois, ainda na companhia dos meninos, trepa na árvore frondosa e salta de ponta-cabeça no poço do riacho de água transparente.

Eu te saúdo, Primavera, como a sonoridade límpida da música plena, pelo cantochão sem oscilações de notas, quem vem das cigarras ao cair da tarde até o anoitecer, pelo concerto de percussão dos sapos no brejo palpitante de vida, pelo violino das ervas do vento ao amanhecer.

Eu te saúdo, Primavera, pelo cheiro de coisa inéditas que tu antecipas no ar, que nem sei direito o que sejam, mas já as reputo alvissareiras e dignas de meu dicionário de coisas indizíveis, de minha agenda de fatos imprevistos.

Meu corpo, Primavera, alheio às dores e achaques de velho, expandirá em toda a extensão do horizonte, como um anjo de gás, e se sentirá irmão das rochas, das ervas, das árvores, dos rios, dos pássaros cantando na edificação de seus ninhos nas faldas dos ventos e o resquício de poeta que ainda resta em mim, há de sair por aí recitando inflamados madrigais.

E minha alma, Primavera, revigorada pelo teu sopro, há de pairar sobre a paisagem idílica, como o gavião quiriquiri sobre as ondas térmicas das tardes mansas, embevecida de si mesma e de toda energia que sustém o cosmos pairando no útero universal, num átimo de eternidade.



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