Humilhados e ressentidos
03/11/2008 | Por em

Woody Allen mostrou como as coisas são. Dostoévski, como devem ser. O primeiro faz uma ética descritiva, o segundo, uma ética normativa. Ou, se preferirem, Woody faz uma ontologia, Dostoiévski, uma moral 
 

Calma, leitor amigo (particularmente os mais sensíveis). O título é apenas uma provocação. Outra, por sinal. Ninguém foi ou será humilhado, nem ressentido. É que não resisti à tentação de fazer um trocadilho com um dos títulos de um dos romances do escritor-alvo de nossa atenção (e, quem sabe, com esse ardil, atrair a sua).
           
Agindo dessa forma rendo também uma homenagem dupla, a Woody e a Fiódor, pois aquele também fez o mesmo com este, ao final de sua brilhante comédia “Love and death”. Boris Gruschenko está na cadeia esperando dar a hora de sua execução e é visitado por seu pai, quando travam esse hilário diálogo:
 
_ Lembra-se daquele menino bonzinho, nosso vizinho, Raskolnikov?           
_ Lembro.
_ Matou duas mulheres.
_ Oh, não, que história horrível!
_ Bobick me contou. Ele ouviu de um dos irmãos Karamazov.
_ Ele deve ter sido possuído!
_ Bem, ele era um adolescente.
_ Um adolescente? Ele era um idiota.
_ E ele agiu como um humilhado e ofendido!
_ Ouvi dizer que era um jogador.
_ Ele poderia ser o seu duplo! 

“Love and death” é uma comédia inteligente e erudita como Woody jamais faria outra igual. Repleta de referências filosóficas (essencialmente o existencialismo), literárias (Tolstói, Dostoiévski) e cinematográficas (Bergman), ao som da música de Prokofiev, ridiculariza todos os assuntos ‘sérios’ a que estamos acostumados a dar enorme valor. O recado que fica é esse: nos levamos a sério demais. Fico pensando se não é o que está acontecendo agora, com toda essa celeuma entre as opiniões de admiradores de um cineasta e um escritor.

Mas “Love and death” também deixou uma marca em Allen que nunca despregaria dele. Pelo menos para seus detratores. A de que não passa de um “filósofo ginasial”, que conhece os grandes temas apenas superficialmente. O suficiente para brincar com eles. De fato, para construir o diálogo acima, em que nada menos do que oito livros de Dostoiévski são citados, não seria preciso tê-los lido, bastava saber por alto do que tratam (ou nem isso).

Se Woody tivesse persistido nesse caminho a acusação procederia. Mas logo a seguir veio “Annie Hall” (1977), seguido de várias obras-primas até “Shadows and fog” (1991). Foi sua época de ouro. Foi quando ele exercitou o que sabe fazer melhor, comédias trágicas (ou doce-amargas). Por vezes mais comédias do que tragédias, outras, o contrário, como foi o caso de “Crimes e pecados(1989), em que a personalidade esquizóide de Raskolnikov (Raskol = schizo) foi literalmente dividida em dois personagens, Judah, o oftalmologista e Cliff, o cineasta.

O embate psicológico-filosófico que se passa na cabeça do estudante com alma kantiana quer tenta forçar sua natureza para o lado utilitarista (essa é a grande sacada filosófica de Dostoiévski, mostrar num personagem o que acontece na mente de todos nós, essa guerra interna, para alguns consciente, para outros nem tanto, do anjinho kantiano e o capeta utilitarista) é transportado para duas cabeças. No caso de Judah, o oftalmologista assassino (atenção, leitor: oftalmologistas, quando contrariados, podem ficar violentos, portanto, cuidado!), temos o privilégio de vê-lo “conversar” com sua família, em uma espécie de visão que tem sua consciência culpada quando visita sua antiga casa. É quando ouvimos de Tia May, a niilista, dizer o óbvio, de inspiração nietszcheana: “Moral é para quem quer ter moral. Se alguém comete um crime, não é flagrado, e escolhe não se entregar, vai ficar tudo por isso mesmo. A história é escrita pelos vencedores.”

Tia May vaticinava o que aconteceria ao final. Judah foi incomodado pela culpa, mas não o suficiente para se entregar. Escapou ileso, racionalizou a culpa, acabou feliz. O universo, como diz o filósofo-personagem prof. Levy, é indiferente (o professor de física de “Setembro” diz a mesma coisa). Nós é que o preenchemos com nossos sentimentos e com a nossa moral. O que Judah fez é o que todos nós faríamos. Claro, não estou me referindo a mandar matar a amante inconveniente. A maioria de nós resolveria o problema de outra maneira. Refiro-me a, uma vez tomada a drástica decisão, e levada a cabo, a imensa maioria de nós racionalizaria a culpa. Porque é isso o que fazemos sempre.

Isso é cínico? Pode ser visto como tal, admito. (Sempre admito que outras opiniões são possíveis, nada é disparatado quando se trata de opinião, pois, por mais que se a camufle de racional, sempre será uma opinião). Prefiro enxergar como realista. Os críticos que consideraram o filme cínico rotularam-no como uma “atualização” de “Crime e castigo” para a era Reagan nos EUA. Ora, basta ler os dois primeiros livros da “República” de Platão, pra se dar conta de que “Crimes e pecados” é tão atual quanto vários anos antes de Cristo. A definição de Trasímaco para “justiça” e a estorinha do anel de Giges são o retrato da natureza humana.

E é aqui que eu considero o filme filosoficamente superior ao livro. Woody Allen mostrou como as coisas são. Dostoévski, como devem ser. O primeiro faz uma ética descritiva, o segundo, uma ética normativa. Ou, se preferirem, Woody faz uma ontologia, Dostoiévski, uma moral.

Ora, seguindo meu próprio raciocínio desenvolvido no artigo anterior, se admito que minha opinião é o que decide, sou obrigado a admitir o mesmo para o outro. E mais: o outro pode achar Dostoiévski “superior” pelos mesmos motivos que acho “inferior”. Seria o caso, provavelmente, de Domingos Pellegrini, com quem me envolvi em uma polêmica no Rascunho (transcrita aqui na Bula), por conta de sua leitura moralizante de “Dom Casmurro”. Pelegrini (que confessara não ter lido o livro na época de estudante e ter assinado um trabalho a respeito sem ter participado efetivamente de sua realização), desaconselhava sua leitura para colegiais, por considerá-lo nocivo (!!). Vejam a incoerência: confessava ter assinado um trabalho colegial sem tê-lo feito, e desaconselhava um livro (Dom Casmurro!!) para colegiais. Esse é o grande problema com as éticas normativas, elas sempre acabam por morder o próprio rabo.

Cânones sagrados

De toda forma, não deixa de ser antropologicamente instigante observar como as pessoas se sentem ofendidas quando cânones são criticados, ainda que reconhecido seu valor (como é meu caso com o escritor russo). A opinião da maioria têm de ser respeitada, ou corre-se o risco de parar na fogueira de uma inquisição intelectual. Fico pensando o que aconteceria se eu abrisse minha boca pra falar o que penso de Guimarães Rosa e James Joyce. Provavelmente seria linchado.

E me faz lembrar o que o filósofo inglês John Stuart Mill disse a respeito da tirania da maioria:

“O princípio prático que guia essas pessoas para suas opiniões na regulação da conduta humana é o sentimento em suas mentes de que todo mundo deveria agir como elas, e as pessoas com as quais simpatizam, gostariam que agisse. Ninguém, realmente, reconhece para si mesmo que seu padrão de julgamento é seu próprio gostar; mas uma opinião num ponto de conduta, não baseada em razões, será apenas a preferência de uma pessoa. E se razões, quando dadas , forem um mero apelo a uma preferência sentida por outras pessoas, continuará sendo apenas uma questão de preferência, embora já de muitos, e não de um só. (...) As opiniões das pessoas quanto ao que é criticável ou elogiável, são afetadas por múltiplas causas que influenciam suas expectativas em relação à conduta dos outros, e são tão numerosas quanto as que determinam as expectativas em qualquer outro assunto.”

(On Liberty, Penguin Classics, pp.64-65)


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