Helverton BaianoQuando a gente levava o gado pro Gerais
Juntavam-se os vaqueiros na seca, tempo de gado magro, e aos magotes iam levando a vaqueirama de todos os lados para o Gerais, a modo de preservar aquele fio de vida, que dava esperança de um naco qualquer de sustento para as famílias. O leite pra uns e outros, um naco de carne para algum festejo, couro para os sapatos, além, é claro, da serventia de trabalhar no carreto, no engenho moendo cana e demais afazeres de roça.
Ali tudo começou nas roças das pequenas propriedades e o gado ajudava no serviço. Na seca, algumas cabeças ficavam para ajudar na lida e eram alimentadas na mão, com capim arrancado de longe, da beira de algum brejo, trazido no lombo dum burro ou jumento.
Pispiavam os meses do meio do ano, a chuva raliava e depois estancava, parava de vez, e o que tinha de verde esfumaçava num cinza avermelhado de secura, dando início ao sofrimento dos animais. Aí eles se juntavam na praça do lugarejo com os apetrechos do cigarro de palha e, entre uma baforada e outra, acertavam o dia de caravanear rumo ao Gerais, um lugar ermo, terra de ninguém, donde brotava um maná da natureza para alimentar bichos e passarinhos e aves. Para ali os sitiantes levavam seu gadinho no tempo de seca e lá eles ficavam dois, três meses sendo criados ao léu do céu, comendo e bebendo o que Deus dava. Às vezes também sendo comido por uma onça com desejo de carne diferente, enfarada de carne de veado e de paca.
Para eles, naquela pecuária extensiva de intensa precisão, era melhor perder uma ou duas reses do que o rebanho todo. O gado ficava no Gerais à solta, sem estribeira, comendo o bem bom que aquela terra produzia sem que ninguém plantasse. Iniciavam as chuvas, as chuvas de caju do cerrado, e eles se deslocavam para tanger e trazer o gado de volta. Aí demoravam mais, porque tinham de recolher um que escapulia, campeavam para encontrar outro que faltava e esperavam até ter a certeza de que o que não voltou ficou para comida de pintada. Há muitas histórias de pelejas com onças nas quais descontavam prejuízos e lucravam com o couro exótico, que era comprado pelos viajantes e mascates.
A chegada do gado do Gerais era festejada com rezas e quermesse sortida a licores, pinga e garapa, que eles mesmo faziam, e bolos e biscoitos, obras das mulheres. Um dia de muita alegria, algazarra e folia, que significava perspectiva de vida melhor, certeza de fartura e de futuro. A perda de uma ou duas reses não dava motivo a lamúrias. Não se falava em dinheiro, todos participavam por igual daquela epopéia de sobrevivência que a natureza proporcionava a troco da vontade de se ajudar. Quem não possuía gado e era tropeiro desempatado, ia assim mesmo, na conta da amizade e da cordialidade fraternal inerente a todos dali.
O gado também se alegrava no passo de volta, vencendo veredas e campinas, matas e sarobas. A volta era mais alegre, sob os compassos e marchas de uma singela vitória. No ano que vem poderá ter mais, porque na seca o gado seria o dono do Gerais, até quando Deus desse bom tempo.
Foi um tempo bom, antes de os fazendeiros de soja invadirem.