Ademir Luiz02
Brasigois Felício03
Chico Perna04
Cláudio Portella05
Eberth Vêncio06
Edival Lourenço07
Flávio Paranhos08
Helverton Baiano09
Lauro Marques10
Marcos Fayad11
Menalton Braff12
Nilto Maciel13
Ronaldo Angelini14
Valdivino Braz
Expediente
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Comentários (71)
Não me venha agora dizer que nada disso mais importa, que a memória (e o esquecimento) para a vida está plenamente morta. Que há um prodigioso chip no mercado que, se instalado bem de jeito, vai botar no chinelo aquele velho cérebro desgastado e obsoleto.
Não me venha agora dizer que o passado não importa mais, que a nova tecnologia poderá, num futuro não distante, reformular o passado inteiramente, em termos muito mais nobres e elegantes, e que aquelas tardes de privações sem vitória que povoaram minha infância podem ser por um recall, ou numa operação de upgrade, trocadas por instantes de fartura e glória.
Não me venha agora dizer que estas flores de antúrio, escandalosamente abertas em fálicos simbolismos, nada mais dizem às meninas impúberes, com a vida fervilhando a mil na calha dos ossos, e a ânsia criando bojos na composição do corpo de novas mulheres.
Não me venha agora dizer que Deus não está vivo, nem morto, mas anestesiado.
Que estamos vivendo o fim da história e que, neste contexto, as corporações comerciais detêm mais influência que os estados soberanos, que a vida de uma nação inteira tem menos importância que o balanço anual de uma montadora de carros coreana.
Não me venha agora dizer que não damos a mínima àquela aurora desatada sobre o verde da campina, que o superávit primário conta mais do que os rios perenes de água cristalina, mais do que uma temperatura amena em todas as estações do ano, mais do que um vento sem alarde todas as horas do dia, mais do que uma paisagem macia onde possamos repousar as vistas ao sol fatigante das quatro da tarde.
Não me venha dizer agora que somos fera, que somos o cróis, o bicho feroz de outra esfera e que, se a firma tiver lucro, respira até atmosfera de ácido sulfúrico. Que não importa o ouro em veludos matinais que em minha infância havia nos cerrados de Goiás chegavam chutando rebotalhos de noite como quem retira do caminho as aves de mau agouro.
Não. Não me venha dizer agora que o odor dos jasmins de maio poderá ser recriado por um software específico e que, se a firma estiver bem em Wall Street, poderemos simular o hálito das manhãs com uma química brutal de calcário dolomítico e solução de Furadan.
Não. Não me venha dizer isso agora. Sou velho demais para cair nesse conto de vigário.
Não. Definitivamente não creio nas superstições monetárias que elegeram o mercado como Deus, e o marketing como seu mensageiro absoluto.
Creio sim é no humano, no humano ser e no seu fazer libertário, como por exemplo, o seu engenho literário.