Eberth VêncioBolero de Ravel na Praia do Jacaré
Quando tomados de forte emoção ou embebedados (minhas sinceras escusas aos abstêmios), ficamos mais suscetíveis a dizer e fazer bobagens, além de desatar alguns nós da memória e revelar as nossas verdades interiores a respeito de terceiros. Estas subitâneas revelações, geralmente, surpreendem, ferem e magoam pessoas. São equívocos muitas vezes incorrigíveis. Máximo cuidado com as armadilhas das palavras.
Há alguns anos, um famoso futebolista brasileiro que tinha a alcunha de “Animal”, fez uma declaração irada a uma emissora de televisão, após uma partida de futebol, criticando duramente o árbitro da partida e o chamando de “paraíba”, como se o adjetivo fosse obsceno e depreciativo. O arrogante atacante imaginava agredir o sujeito que era nascido num estado do Nordeste que não me recordo agora. A declaração do craque foi uma canelada e fez mais estrago na sua imagem do que no árbitro. Ninguém aprovou a asneira. Felizmente, poucos se solidarizam com manifestações discriminatórias.
Aproveitando o vultoso cachê da Revista Bula (risos...), fiz a matula e, hoje, escrevo a minha crônica semanal, não de Goiânia, mas de João Pessoa, a capital da Paraíba. Ao contrário de milhares de goianos, não fui me esbaldar, nem alimentar os mosquitos-pólvora, nas praias do Rio Araguaia neste mês de julho. Elegi o nordeste brasileiro.
Estou surpreso com a beleza da cidade e seus arredores. Fiquei, especialmente, muito impressionado com a simpatia dos paraibanos, com a consciência ecológica da comunidade e, por que não dizer, das autoridades locais (em geral, os administradores públicos negligenciam cuidados e reparos ao meio ambiente). O zelo com a natureza é observado em vários pontos da cidade. A limpeza das ruas e praias surpreende. Uma lei municipal proíbe a construção de prédios acima de quatro andares, o que assegura menor impacto ao meio ambiente, além de propiciar que a forte brisa do mar avance sobre o continente e refresque a vida dos cerca de seiscentos e quarenta mil moradores da metrópole paraibana. Foi didático para mim ficar bem pertinho da África, ao visitar a Ponta do Seixas, o extremo mais oriental do Brasil. Esticando o pescoço, tentei, em vão, enxergar uma girafa ou um antílope na savana. Avistei um mar azul turquesa de beleza invulgar.
Entretanto, o que me impeliu a escrever esta crônica colegial (quase burocrática) tipo “minhas férias de julho” foi um inesquecível evento que presenciei na Praia do Jacaré, às margens do Rio Paraíba que ali desemboca. Naquele local, há vários anos, o músico Jurandy do Sax repete a interpretação do Bolero de Maurice Ravel, deslizando dentro de uma silenciosa canoa sobre as águas do rio, durante o por do sol que acontece por volta das cinco horas e vinte minutos da tarde (o mais precoce do país). A bela cena emociona. Em geral, Jurandy, o criador do ritual tupiniquim, conclui as últimas notas musicais em seu sax, ao mesmo tempo em que os derradeiros raios de sol penetram o horizonte. Bares lotados, olhares atentos, bocas caladas. Uma platéia silenciosa preenche a bucólica paisagem. Qualquer expectador, com o mínimo de sensibilidade, fica extasiado com o espetáculo, que mais parece uma oração. O solo de sax, envolto em misticismo, é bonito, inesquecível, absolutamente recomendável a todos, sem restrição de idade ou credo. Trata-se de um dos passeios mais marcantes da cidade, quase uma marca registrada, dado à originalidade.
Concluindo, caros leitores, quem ainda não conhecem a Paraíba, sugiro que o faça. Dentre óbvios motivos, quem visita João Pessoa fica pertinho do Pernambuco e do Rio Grande do Norte, a meio caminho deles. Dá pra conhecer três Estados nordestinos aproveitando o mesmo pacote turístico e economizando uma grana.
Portanto, craque Animal, abaixo o preconceito e viva a Paraíba!
Boas férias e, sempre que puderem, conheçam o Brasil. Somos interessantíssimos.