Marcos Fayad

Marcos FayadAndar com fé eu vou

...ou: A fé não costuma faiá, poderia ser também o título do artigo. O leitor escolhe ao final.
 
Dize-me com quem andas e eu te direi quem és, reza a máxima popular.  Alguns nutricionistas fazem o mesmo quando afirmam que o homem é o que ele come ou os estilistas que checam a elegância das pessoas pelo bom gosto (ou não) que elas demonstram ao se vestir, e por aí vai... 
 
Como estamos em época de eleições eu (nos) pergunto: o que lêem os políticos ou pretendentes a políticos que se exibem nos meios de comunicação de massa? E lêem? Porque o que um homem lê o define melhor que os itens enumerados acima, já que a leitura é muito mais significativa e conotativa da personalidade e caráter. 
 
Sabe-se, através de um ensaio sobre comportamento humano realizado por Jeremy Rice, o que liam certas personalidades mundiais como Hitler que se empanturrava com as biografias de Napoleão; Pinochet que desanuviava sua mente com histórias de Disney e tinha predileção pelas tirinhas sobre os irmãos metralha; Richard Nixon que se deliciava secretamente com o que se escreveu sobre czares russos; Idi Amin Dada, o sangrento ditador de Uganda que torturava seus desafetos atirando-os aos crocodilos entre uma máxima e outra do livro de São Cipriano conhecido manual de maldades e magia negra escrito em forma de orações; Stalin que desde criança não escondia sua admiração por contos macabros e cheios de suspense, etc... Seguindo as mesmas pistas pode-se até intuir que livros liam homens como Francisco Franco, ditador espanhol que se empenhou pessoalmente no assassinato do poeta Garcia Lorca em 1936 ou Salazar que tiranizou Portugal e odiava Fernando Pessoa e qualquer livro que cheirasse a poesia.
 
Mas voltemos ao nosso pequeno universo e fantasiemos sobre as preferências literárias dos políticos que nos pedem votos para se elegerem a cargos públicos. 
 
O que será que lêem esses homens e mulheres que apregoam por aí seus méritos e qualidades? Entre uma ironiazinha e outra a seus pares se sentam para ler algo de útil a seus espíritos ambiciosos e competitivos? Interessam-se por livros?
 
Sabe-se, pelo menos até o término desse artigo, que a maioria deles ainda não apresentou seu projeto de governo, caso seja eleito. Sabe-se também, por antigas práticas, que a cultura não ocupará grande espaço nesses projetos, apenas constará como coisa necessária para que não dêem o vexame de admitir que não levam em conta esta área da atividade humana. Algumas linhas servem para resolver o problema e ajudá-los a responder a algum jornalista o que farão pela cultura na cidade que pretendem governar. Como quase sempre, farão apenas o burocrático para manter a cultura respirando por aparelhos, sabemos todos, mas fingirão que esta é uma das suas preocupações e nós fingiremos que acreditamos que eles cuidarão dela de fato. 
 
Pura hipocrisia porque eles não sabem nem têm condições para opinar numa área em que são ignorantes por opção ou conveniência: cultura é realizada ou incentivada por pessoas que pensam, têm opinião, não se contentam com camisetas e outras esmolas do gênero, sabem distinguir intenções de realizações e costumam ter língua afiada e botar a boca-no-trombone, como este colunista atrevido, melhor evitá-las e adoçar sua boca com “perspectivas”. 
 
Na semana passada, exatamente como a quatro anos, fui convidado a participar de uma reunião onde se falaria de cultura com olhos à elaboração do projeto de governo de um dos candidatos a prefeito e, entre muitas bobagens discutidas, decidi fazer perguntas sobre o que o candidato lia, o que lhe interessava culturalmente, o que pensava para impulsionar a cultura em Goiânia, o que achava que melhoraria o nível das atuações que desenvolvemos aqui, quanto disporia, caso se elegesse, para o segmento cultural da cidade realizar ações que evoluíssem e fizessem diferença entre o que há atualmente.
 
O candidato não lê nada, insisti, mas nem se lembrava do último livro que leu, não assistiu a nenhuma atividade cultural em Goiânia nos últimos anos, mas citou um show que assistiu no Canecão no Rio e um musical norte-americano em São Paulo. 
 
Ficou confuso com minhas perguntas, não sabia o que responder, perplexo com o atrevido que, aceitando o convite para ajudá-lo a elaborar um programa de governo deveria era lhe agradecer pela grana preta que lhe pagaria ao invés de lhe fazer perguntas incômodas e inconvenientes diante dos seus assessores que, aliás, são todos limitados como ele.
 
Meio constrangido com o que tive coragem pra lhe dizer sobres seus conhecimentos culturais pediu sugestão de três ou quatro livros que eu sei que nunca vai ler, não sugeri nenhum e decidi escrever este artigo. Duvido que ele leia a Bula, mas...
 
Por aqui, e para não me omitir, sugiro ao candidato que leia pelo menos a letra da música criada pelo Ministro da Cultura e que faz voto de “andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá”. 
 
Quem sabe assim se anima a tocar uma campanha onde apenas a fé pode levá-lo a pensar em nos governar do baixo de sua ignorância cultural. 
 
Quanto a nós, só nos resta mesmo a trinca: fé, esperança e a caridade de suportar a sua presunção.



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