Brasigois FelícioA república da mediocracia
"Na monarquia como na república, abunda a malta dos raivosos e implacáveis defensores da "última flor do Lácio, inculta e bela". Em sua estrênua e intimorata defesa da incolumidade física e moral do idioma pátrio, os homens que falam javanês desferem, a torto e a direito (mais a torto do que a direito), as verrimas filipinas de suas farpas ferinas. E quanto mais abundam mais prejudicam.
Pobre e preto, Lima Barreto também foi vítima preferencial de tais abutres da mediocracia. Ele conheceu, na carne, a insuportável sensação de ser humilhado e ironizado por seu protetor e padrinho, o visconde de Ouro Preto. E quando, no desespero de tentar escapar de seu destino previsível de mestiço suburbano, pediu-lhe auxílio para os estudos, teve que ouvir dele um longo sermão antiacadêmico contra "essa mania de doutorado, copiada de ingleses e americanos.
Todo mundo quer ser doutor", bradou, colérico, o ilustre padrinho do pretinho que, sem eira nem beira, nascera lambendo embira. Este, diante do inusitado da malhação ilimitada, ficou branco de vergonha, e respondeu, com alguma lógica, que lhe era impossível romper com a mania de doutorado: "Se os aparentados e os relacionados apelam para a formatura, como haverei eu, mesquinho, semi-aceito, de fazer exceção?".
Mais um vagido pungente, do pingente que a Academia Brasileira de Letras não quis, por ser o indigitado preto e pobre, e por não ser médico ou general. Em seu desabafo onde espicaça a política republicana, onde há muito corrupto e safardana: "A República no Brasil é o regimen da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a "verba secreta", os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. A vida, infelizmente, deve ser sua luta; e quem não sabe lutar, não é homem.
A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras. Vem disso a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza de nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral de nossa população. Ninguém quer discutir. Todos querem "comer." Comem os juristas, comem os filósofos, comem os médicos, comem os advogados, comem os poetas, comem os romancistas, comem os engenheiros, comem os jornalistas. O Brasil é uma vasta comilança".
E assim falou Lima, o pingente: "Não sei grego nem latim, não li a gramática do Senhor Candido Lago, nunca pus casaca e até hoje não consegui conversar cinco minutos com um diplomata talhado; sigo, entretanto, o exemplo do severo e saudoso lente de mecânica da Escola Politécnica, doutor Licínio Cardoso, que estudou longos anos de matemática para curar pela homeopatia.
O seu espetáculo foi-me sempre fecundo. As reprovações que levei foram sempre justas. Antes de mim, todos os que passaram, iam maravilhosamente. Depois... oh! Então". Ai de mim, que também sou escritor analfabeto, crônicamente mordido e devorado pelos defensores da flor ferida. Crônico! Crônico! Eis o epíteto, resultado do crime hediondo que cometi: o de ser um escriba crônicamente incapacitado para o mister de alinhar palavras.
E mais lamentou o genial pingente: "E o duro epíteto, e mau, vai com a constância de uma eumênide, a nos perseguir no leito, no baile, na igreja, através dos meses, dos anos, torturando-nos a vida toda. Os graves burgueses ao saber viram-nos as costas; um criminoso talvez, pensam.
E assim vivemos nós, a ouvir sempre dos céus, das árvores, das coisas mudas, o duro epíteto: "Crônico! Crônico!". Logo adiante Lima Barreto consola-se, lembrando que Aristóteles e Descartes não seriam aprovados na Escola Politécnica, onde jamais conquistariam o canudo nobilitante: " Só tu - grave e equilibrado Pacheco - só tu não ouvirás durante o existir aquele desgracioso vocábulo. Burgueses honestos, lentes austeros, meninas casadoiras! Repeti aos ouvidos de Descartes, de Homero, de Aristóteles, aos meus também, tão agudo dizer, e reservai vossa consideração, as vossas delicadas mãos aos que não são analfabetos crônicos como eu".
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Os criadores criam enquanto passa, com histérico alarido, a caravana dos burocratas da criticocracia. Degas pintava e deixava os críticos fazerem suas teorias. Pensar que nem Machado de Assis escapou da sanha e da súcia da mediocridade gloriosa, arrogante ( e geralmente triunfante). Alguém que sumiu nas calendas do tempo escreveu: "esse pequeno representante do pensamento retórico e velho no Brasil é o mais pernicioso enganador, que vai pervertendo a mocidade. Essa sereia matreira deve ser abandonada. O senhor Machado de Assis simboliza hoje o nosso romantismo velho, caquético, opilado, sem idéias, sem vistas, lantejoulado de pequeninas frases, ensebadas fitas para efeito. Ele não tem um romance, um volume de poesias que fizesse época, que assinalasse uma tendência. É um tipo morto antes do tempo na orientação nacional".
Silvio Romero, em seu "Estudos da Literatura Contemporânea”, agride o grande escritor brasileiro de modo raivoso e radical: "Não tendo, por circunstâncias da juventude, uma educação científica indispensável a quem quer ocupar-se hoje com certas questões, e aparecendo no mundo literário há cerca de vinte e cinco anos, o senhor Machado de Assis é um desses tipos de transição, criaturas infelizes, pouco ajudadas pela natureza, entes problemáticos, que não representam, não podem representar um papel mais saliente no desenvolvimento intelectual de um povo. (...) Natureza eclética e tímida, sem o auxílio de uma preparação suficiente, entrou a se um parasita, espécie de comensal zoológico, vivendo à custa de uma combinação de classicismo e do romantismo. Não teve força bastante para romper com ambos, e foi sempre vacilante em seus cometimentos.
Os autores que deixei acima lembrados, quaisquer que sejam os seus defeitos, na evolução intelectual brasileira neste século, representam os elos de uma cadeia. Cada um deles tem o seu sentido e fisionomia própria. (...) As condições de sua educação, o meio falso em que há vivido explicam o seu acanhamento. Pode iludir e ilude ainda alguns ignorantes pela palavrosidade de seus períodos ocos, vazios, retortilhados e nada mais. Sem convicções políticas, literárias ou filosóficas, não é, nunca foi um lutador.
Este auxiliar de todos os ministérios, esse rábula de todas as idéias é, quando muito, o conselheiro da comodidade letrada. O que ele quer é representar o seu papel equívoco. O autor de Brás Cubas, bolorento pastel literário, assaz o conhecemos por suas obras, e ele está julgado. Continue a burilar frases inúteis, a produzir suas bombinhas da china, mas tenha o cuidado de conter-se na vacuidade embaumée pelos elogios de seus comparsas inconsiderados". O bruxo de Cosme Velho continuou produzindo suas obras imortais, enquanto os panacas dos Silvio Romero da vida, ranzinzas e ridicos de talento, ficam pelas esquinas, destilando seu veneno.