Menalton BraffTarde da noite
Uma noite, ao chegar da rua em cima de suas pernas dormentes, a cunhada a segurou na cozinha e com a voz escurecida de aspereza disse que assim não dava mais: reclamações dos vizinhos por causa de estripulias dos dois meninos, a reforma da casa interrompida há mais de um ano, e as despesas excedentes, que vinham pesando muito no orçamento. Que desse um jeito em sua vida. Aproveitou esperta a ausência do marido, ele no banho, e disse tudo que vinha guardando há muito tempo como veneno espalhado por dentro das veias. Sua pele úmida exalava sem muita intensidade o cheiro azedo do ódio contido, aquela sua pele de plástico, mas os olhos chegavam bem perto do rosto da cunhada e a verberavam flamejantes. Houve um silêncio áspero em que muita coisa começou a estragar.
Os dois meninos na sala, com os primos, na frente da televisão. Era neles que a mãe pensava aflita, quase desesperada. Na cozinha pequena, as cunhadas frente a frente, muito existentes dentro da luz fria das duas luminárias, mudavam o futuro de lugar empurrando a vida com um ombro duro e pesado. Foi por causa dos meninos que sua boca se manteve escondida por trás de lábios secos e fechados, incompetente para as palavras. Então levantou-se muda e arrancou, com os dedos em gancho, tufos de cabelo que branqueavam no alto de sua cabeça baixa. Esparramou os fiapos aos pés da cunhada, como o primeiro ato de seu sacrifício: o holocausto. A outra talvez não tenha entendido o gesto, quando seus olhos vazios cresceram cegos, e ela foi tateando as paredes do corredor com as mãos estreitas em fuga para seu abrigo.
Naquela noite, ninguém, além da dona da casa, sabia por que Letícia tinha ficado no quarto sem querer jantar. E mesmo ela, Márcia, usando uma voz inocente, por várias vezes durante a refeição tinha perguntado a um e a outro por que será? As sobrancelhas erguidas repetiam a pergunta com admiração.
Os dois meninos comeram em companhia dos tios e dos primos aquela comida emprestada, sem nada perguntar.
Na manhã seguinte, as duas mulheres se avistaram de longe. Uma tomava conta do que era seu, mexendo em sua pia, preparando no fogão o café de seu marido. A outra saía mais cedo, carregando consigo uma dor nojenta: o asco pela vida. Os filhos continuavam dormindo no colchão posto ao lado de sua cama, e estavam entregues a si mesmos, os meninos, com pouco arrimo. Bem pouco arrimo. Como seria viver seu dia debaixo dos olhos da tia? Olharam-se apenas de relance, que é um modo enviesado de olhar, para evitarem um choque mais violento. Márcia não estranhou os olhos brancos de cega da cunhada, convencida de que deveria ser assim mesmo.
Elas não se cumprimentaram porque agora estava declarado com palavras de ácido o rancor que as unia.
Através da vidraça da sala, os olhos de verruma de Márcia acompanharam o afastamento das costas da cunhada. Estava ainda escuro como um luto e logo depois do portão seu vulto deixou de ser parente. O que faria aquela mulher na rua assim tão cedo? Saía à procura de uma casa para morar? Seria muito bom. Seria bom demais. Mas não acreditava. De onde ela ia tirar o dinheiro do aluguel? Talvez estivesse disposta a procurar serviço com mais empenho. Bem, mas isso sim já seria sinal de que a conversa da noite começava a ter resultados.
Quando o marido, esfregando o sono dos olhos, entrou na cozinha com o cheiro da pasta de dente na boca, Márcia estava tensa porque guardava um segredo. Levantou-se e trouxe do fogão o café quente. Depois de servir seu homem, sentou-se para servir-se também. Já estava clareando, mas não havia atraso. A Letícia, ela começou, a Letícia já saiu. Estava escuro ainda quando ela saiu. O irmão mastigava com movimentos firmes de maxilar e os olhos quase fechados pareciam não ouvir nada. Sei lá o que ela anda fazendo na rua, Márcia ainda provocou, mas sem resultado. Seu marido esvaziou a xícara e só então falou. Está na hora, ele disse, como se alguém tivesse perguntado alguma coisa. Levantou-se, beijou a testa de plástico morno da mulher e saiu com suas costas nítidas pelo mesmo portão por onde, ainda escuro, saíra sua irmã.
O dia inteiro arrastando sua sombra nas calçadas da cidade, Letícia segurava muito firme no pensamento os dois filhos de cujas estripulias registravam-se queixas por cima do muro. Eles agora eram sua família. Só eles. Distraiu-se um pouco, descansando o pensamento pesado, apenas durante as entrevistas, umas poucas em que, por razões fortuitas, foi recusada. Ao meio-dia comeu um ovo cozido ao balcão de uma espelunca e pediu um copo de torneirol para lavar a boca. Então voltou a caminhar com pressa como se estivesse atrasada para o encontro com seu destino.
Só pensou em voltar para a casa do irmão quando notou a iluminação no alto dos postes. Seu rosto enrugava-se com o movimento das pálpebras, que se abriam e se fechavam muito mecânicas, mas não inteiramente metálicas.
Depois de informada sobre sua verdadeira situação naquela casa, não teve mais vontade de respirar o mesmo espaço da cunhada, então, se pudesse, se não fosse pelos dois meninos, passaria o tempo todo na rua. Mesmo à noite, com toda a falta de boa iluminação nos becos da cidade, era neles que jogaria o corpo para que descansasse. Só a idéia de atravessar novamente o portão para pedir emprestado um lugar onde dormir com os filhos já lhe dava uma fraqueza nos pensamentos e uma ardência no estômago.
Empurrou o portão de ferro com cuidado para não fazer barulho. Ao perceber que a família estava reunida na sala para exercitar as emoções com a novela da tevê, ela contornou a casa, rente à parede através da qual os diálogos eram filtrados e vinham até ela. Não conseguia entender as palavras, que não chegavam nítidas, mas ouvia voz humana distorcida pelo alto-falante. Vozes conhecidas e diárias, aquelas vozes. O corredor entre o muro e a parede estava frio, talvez úmido. Letícia enfrentou a escuridão sem titubear, sentindo-se quase em estado de heroína ao evitar daquele jeito a passagem pela sala, recusando seus cumprimentos à família do irmão. A porta da cozinha estava aberta e a mulher foi silenciosa direto para o quarto onde dormia. De humanos, só tinha vontade de ver os filhos, mas sabia que teria de esperar algum tempo, por isso aproveitou para se trocar e deitar-se com as pernas, toda ela estendida na cama. Fechou os olhos e respirou muito até sentir que os músculos não estavam mais apodrecidos. Arrancou mais um tufo de cabelos para sentir que estava viva, convencida de que só a dor é a real medida do ser humano.
Um atrás do outro, o mais velho à frente abrindo caminho com a vantagem de sua altura, os dois irmãos atravessaram a cozinha quieta de tanta penumbra. Não falavam, ao atravessar a cozinha, mas sabiam ambos que estavam com os corações espremidos por terem passado o dia todo sem notícias da mãe e agora tinham de se arrumar sozinhos para dormir. O mais novo ensaiava o choro quando, abrindo a porta, a luz bateu-lhes no rosto e o irmão que seguia à frente, porque era o mais alto, gritou É a mãe. E correu a seu encontro. Seus olhos brilhavam como se tivessem descoberto alguma maravilha. Os dois disputaram espaço para seus abraços, de repente sentindo uma alegria que nem imaginavam tão possível.
Depois dos relatórios do dia, como é que passaram, se não tinham incomodado a tia, se tinham comido direito, o filho mais velho, com seus olhos cheios de dó, olhou de perto para o rosto de Letícia e disse Mãe, eu acho que seu rosto quer dormir, porque seus olhos estão vazios.
Apesar da pouca luz, os meninos perceberam que faltavam cabelos na cabeça da mãe e que em seu rosto sulcos muito fundos desciam diagonalmente, em fuga. Mas ela inventou um sorriso para os beijar e pô-los a dormir.
Madrugada escura, no dia seguinte, quando Letícia saiu. Márcia já abandonara o marido no último sono e fora preparar seu café. Cedo era, muito cedo, mas ela não queria perder a saída da cunhada, mesmo que fosse para vê-la apenas pelas costas. Depois poderia passar o dia todo perguntando aos filhos dela o que faz sua mãe tão cedo na rua? Iluminou a cozinha com a fluorescência da luminária e sorriu com antecipação para sua própria imagem que saltou na vidraça, muito fiscalizadora. Os ruídos que fez foram suavizados por sua vontade de ouvi-la abrindo a porta do quarto.
Letícia enfrentou aquele resto de noite para botar-se para fora, pois queria abrir padarias, levantar a porta dos bares, oferecer-se para a limpeza das lojas, quando estivessem abrindo, queria terminar de dormir num banco de praça, em companhia dos cachorros de rua.
Bem mais tarde, ao ver as costas quase ensolaradas do marido atravessando o portão, Márcia concluiu que a cunhada pusera-se doente, mas de pura mentira, só para passar o dia na cama. De pura manha, aquela, a irmã de seu marido. E por causa da idiota, tinha levantado meia hora mais cedo. Os olhos queimando e a boca aberta cheia de bocejos, e a fulana nem aí, estarrada debaixo do edredom!
Quando os dois irmãos, em fila, desentocaram seus ruídos infantis para escovar os dentes, a dona da casa sentiu uma necessidade terrível de orgasmo e foi espiar o interior do quarto pela porta que eles tinham deixado aberta. Só conseguiu uma decepção com os olhos, pois a cama estava lisa e fria, uma cama com toda sua impessoalidade como um ser inútil.
Então era vítima de mais uma das traições daquela: a que horas poderia ter saído? Por não ter surpreendido a cunhada em casa, Márcia passou o dia sentindo-se derrotada, por isso não comentou o assunto com ninguém. Mas à noite, durante a novela, repartiu os ouvidos entre a televisão e o portão da rua. Nos intervalos, corria a perscrutar a rua pelo postigo. Inutilmente. As emoções da novela não tiveram concorrência.
Naquele segundo dia, sua sorte não foi completa, mesmo assim conseguiu limpar um jardim coberto de ervas e folhas secas até o meio-dia e, à tarde, lavou a louça de um restaurante. Então voltou a arrastar a sombra nas calçadas até o início da noite, quando se sentou num banco de praça para descansar, vizinha de um mendigo habitante daquela paisagem, com quem ficou de conversa até bem tarde. .
Letícia, durante aquela semana, tinha percorrido os quatro pontos principais de uma cidade: norte, sul, leste e oeste. Sem vislumbre de emprego com que manter uma casa com dois filhos dentro. Por fim, conversando muito, uma conversa cheia de perguntas e pedidos, acabou descobrindo a possibilidade de alguns bicos.
A louça de um restaurante, os vidros de um sobrado, a roupa de uma família, a limpeza de um quintal. O dinheiro que recebia mal dava para enxugar o suor.
Na última noite daquela primeira semana, ficou até tarde lavando uma pilha de pratos. De longe, ao ver a fachada da casa do irmão, Letícia sentiu-se tonta e abraçou um poste que estava ali parado. Enxugou a testa com a manga da blusa, respirou fundo, atravessou o portão e esgueirou-se entre o muro e a parede, aquele corredor úmido e frio, como se aquele espaço já fizesse parte de seus direitos. Era o caminho que lhe tinham deixado. Estranhou a presença dos meninos no quarto, àquela hora, pois o ruído azul da televisão continuava na sala. Os dois estavam acordados de tanto aborrecimento. Ao perguntar o que era aquilo, aquele ar tristonho, o mais velho se queixou da tia, que no almoço tinha xingado os dois de esganados, porque não deixavam nada para os outros comerem. E ainda disse que eram dois sanguessugas devoradores da comida dos outros.
Os três choraram abraçados até o mais novo dormir. Letícia então recomendou que nunca mais saíssem do quarto. Só até o banheiro, nem um passo a mais. O filho, que estava com a garganta cheia de revolta, compreendeu a mãe e prometeu cumprir seu regulamento. Mas então, enxugando os olhos com as costas de uma das mãos, quis saber por que apareciam tantos ossos no rosto da mãe. Sem ter resposta satisfatória, a mãe o repreendeu e mandou que fosse dormir.
A cada dia, Letícia suicidava-se um pouco nas ruas, procurando trabalho. Márcia já parecia ter desistido de assistir à saída ou chegada da irmã de seu marido. Concentrava-se de ouvidos a postos, no que presumia serem os horários da cunhada, mas ela entrava e saía como se já se tivesse desfeito de toda matéria visível e que costuma provocar ruídos.
Em obediência à recomendação da mãe, os meninos não saíam mais do quarto. Não é que Márcia não estranhasse aquela ausência, mas não vê-los mais a sua frente era um conforto que ela não ousava atrapalhar.
Quando, tarde da noite, Letícia entrou flutuando no quarto, como vinha fazendo há alguns dias, o menino mais velho não se conteve: Mãe, ele disse, a senhora não tem mais cor na pele. O sorriso de cera com que ela respondeu, parecia de uma santa empalidecida, um registro velho colado na parede. É que nem todos os dias ela conseguia trabalho e, à noite, quando chegava, oferecia os seios flácidos para que os dois se alimentassem. Mas os seios também, mal alimentados, aos poucos murchavam. Algumas vezes teve de suportar muda o choro do menino mais novo, que se queixava de fome.
Letícia foi-se tornando transparente. Já se viam suas veias azuis, algumas vísceras e até as duas clavículas fechando o peito cheio de costelas podiam ser vistas. Os dois irmãos, que não saíam mais do quarto, a não ser para o banheiro, seguiam o modelo da mãe. Passavam o dia quietos na cama e já estavam quase invisíveis de tanto dormir.
Fazia uns dois meses que Letícia só entrava e saía daquela casa escondida pela escuridão da noite, quando os irmãos, uma manhã, estranharam sua voz, mesmo depois de terem escovado os dentes. De seu corpo nem se lembravam mais, contudo sabiam que ela estava na cama porque ela falou com eles. E sua voz era trêmula e tão fraca que os dois começaram a ficar assustados. Letícia então os chamou para mais perto e cochichou-lhes aos ouvidos que não, não se assustassem. Ela tinha ficado em casa para preparar a retirada dos três. A vida aqui, ela disse já em seu último fio de voz, a vida aqui nesta casa não é mais possível. Nós vamos embora ainda hoje.
Naquela mesma tarde, quando a dona da casa estranhou o silêncio e empurrou a porta bruta do quarto, espantou-se com a colcha lisa, o travesseiro frio e o colchão dos meninos escondido debaixo da cama. O único vestígio deles que descobriu foram os três retratos na parede.