Valdivino BrazO grito dos mutilados(Elementos para roteiro de curta-metragem)
Silêncio asfixiante, o destas casas, com suas portas e janelas fechadas. Mais parecem tumbas, tão sombrias moradas. Que se passa? Que tragédia, que desgraça lacrou estas casas e gerou o silêncio? Que medos, que sobressaltos ergueram tais abismos?
Assim começa o filme, começa com o poema sendo falado em off , imediata e logo simultaneamente ao travelling das imagens. E assim prosseguem o poeta e a câmera. O poeta é o sujeito oculto, até o momento de materializar-se em cena. Ouçamo-lo :
Um vírus maligno habitou o homem; um reflexo medroso no olhar da multidão. Mas o silêncio é um dínamo que gera o poema. O poema rompe a estrutura do próprio silêncio, e libera os átomos do grito. O grito é um petardo arrebentando o círculo absurdo da asfixia. O grito é feito mancha de sangue do tiro no peito. O grito de Münch dilacera a tela sombria do desespero. Girassóis de Van Gogh são os gritos do sol no museu. E são os corvos do dia, aquelas manchas negras sobrevoando o campo amarelo? Van Gogh foi aquele que decepou a própria orelha.
Aparece Van Gogh ao espelho, mutilando-se com a navalha. Escorre sangue ao olho da câmera que se aproxima; uma visada rápida para a cena sangrenta, acompanhando o movimento da lâmina. Tudo com um grito/ruído abrupto, feito um raio, agudo e metálico, malho de ferro na bigorna gutural da araponga, ou atrito dilacerante, de máquina, de ferragem retorcida, do que seja (o meio ou recurso corre por conta da técnica cinematográfica e da música certa). O impacto deve surpreender, chocar, arrepiar e fazer o espectador saltar na poltrona, e até gritar. Algo assim, meio Hitchcock, ou como num tratamento de choque. A cena seguinte é o retrato de Van Gogh com a bandagem em torno da cabeça, por causa da orelha decepada.
Por outro deslocamento de câmera, a cena muda-se bruscamente para uma evocação do 11 de setembro de 2001, podendo-se utilizar algo similar, se não o original, à cena inicial de 2001 – Uma Odisséia no Espaço , de Stanley Kubrick, quando o salto do osso primitivo no espaço se torna uma nave espacial, com a diferença de que, aqui e agora, o osso se transformará no primeiro avião a mergulhar contra uma das torres do World Trade Center .
O poeta declama: No espaço, aves de aço riscam o pano de fundo americano. Cá embaixo, as torres vêm abaixo e os homens se agacham por medo de aviões. Os homens se apequenam e se agacham feito galinhas no quintal, paralisadas pela sombra do gavião. Paranóia. Pânico no galinheiro. (São cenas subseqüentes; câmera mostra multidão em pânico e esta vai se tornando, literalmente, um alvoroço de galinhas. E aqui não se quer tripudiar sobre o povo norte-americano, antes mostrar a condição humana quando as pessoas de qualquer parte do mundo se sentem indefesas e apavoradas em situações extremas, de risco ou ameaça; quer também mostrar que as pessoas — a humanidade toda — são iguais em situações semelhantes, só podendo superar-se em sintonia com as diferenças de cada um e de todos conjuntamente).
O poeta continua: Numa terra abarrotada de medos, ávido batalhão de formigas marcha para o meu cadáver. (Mórbido, o poeta imagina-se morto e seu corpo sendo atacado e transportado, horizontalmente, ao rés do chão, por uma legião de formigas — o cadáver tem a cara do poeta/personagem, as formigas são desenho animado).
Ubíquo, o poeta está em toda parte, então a câmera passeia com ele. Corta para uma conversa de periferia, ou de excluídos sociais, um velho qualquer e um moço, de nome João, sob um viaduto: O mundo vai de mal a pior, meu véi , e a vida não está mole, não. Tenha fé, João. Pega com Nossa Senhora da Boa Sorte. Se a sorte não vier, é porque ela não lhe quer; mas então não se desespere não, rapaz. Pega com nossa Senhora da Boa Morte e descansa em paz. (Percebe-se o tom de amarga ironia na rima do ancião, e daí os dois bebem cachaça de uma garrafinha).
Em meio ao caos humano, fractal e pós-moderno, o meio do caminho não é uma pedra de Itabira. O tropeço nel mezzo del cammin são esbarrões dos transeuntes numa moradora de rua, com dores por conta de pedra nos rins. Negra, negra, como tem sido toda a sua vida. O rosto feito um mapa amarfanhado de sofrimentos. Emaranhado de espinhos, os caminhos de uma preta velha e desvalida. Trapo humano, retrato dos maltratos da vida. Os olhos encovados, tristes e turvos; baças vidraças, em dia nublado. O corpo seco, mirrado, em farrapos vestido. O braço sem mão estendido à indiferença da multidão. Negra mendiga, negra chaga social, negra como a noite que chega.
Entra em cena o poeta, um velho poeta, que recita ou representa diante de um grupo de pessoas estáticas, sentadas em rotos sofás; os olhos hipnotizados pela tevê: Adentro a sala do meu vizinho e sou mal-recebido pela novela das oito. Achatada nos sofás, os olhos grudados na tevê, toda uma família me ignora, como se eu fosse invisível. Que nefando aparelho é esse, que rouba-me o vizinho e dá-lhe um ar idiota, de estátua em museu de cera? Intruso em casa alheia, dou boa-noite a todos e sequer se dignam responder-me. Estão mortos, estrangulados pelo sistema de fios, tubos antenas. Que pena!
O poeta sai de cena e fala ao mover-se da câmera, de volta ao centro da metrópole, captando outros cenários. O ritmo é vertiginoso; o tempo é meio que um jogo entre câmera lenta e vertigem, podendo que a música seja um contraste ou contraponto de trilhas sonoras diferentes (imagine-se, a título de exemplo, Chopin e Beethoven), conforme a essência composicional dos elementos cênicos.
O poeta prossegue com sua matraca poética; com ele, a câmera vai de uma cena para outra, ilustrando a sucessão imagética: A metrópole é um processo evolutivo de mortos-vivos. Eretas estruturas subtraindo o espaço, encaixotando a vida. O homem engaiolado, sufocado pela gravata a prestação. Coca-Cola, hot dog, televisão. A flor plastificada, o ser, o nada, solidão. Pelas ruas da barriga de João (foco no personagem), o ronco rouco da fome. No coração inchado de João, a revolta do homem. Nos nervos de João, alta tensão. No punho cerrado de João, a porrada de prontidão. (Câmera muda o foco, de João para uma briga de cães, encarniçados num claro circular da noite lá na frente, como de um holofote na penumbra de um palco).
Multidões de zumbis se movem por aqui e por ali; um caminhar sem sentido, de seres sem vontade. Um caminhar alheio à realidade, um não-sentir dos fatos a gravidade, um passo a cada passo inconsciente, de reses condenadas ao abate iminente. Uma leva de pingentes que se leva aos dentes sanguinolentos da máquina de moer gente.
O poeta não se cala. A Câmera busca um outro ponto e se aproxima da menina de programa. (O poeta declama): Já vem vindo a madrugada e, até agora, nada. Só a garoa gelada, gelando a rua desolada, e ali a garota de programa, dentro da noite gorada. Volta, menina, pro aconchego do teu quarto, antes que um resfriado lhe pegue de jeito. Volta pra casa. Não. Agüentar um pouco mais. Quem sabe ainda aparece alguém que me pague um caldo quente, antes da transa? Mas pra onde foram os homens?
Os homens se foram, mas João se aproxima. Nos olhos fundos de João, o brilho cego da fúria. Na cabeça de João, a perda da razão. Na mão armada de João, a faca em ação. No desespero de João, a fera, o crime, a perdição. E lá vai João, presoalgemado no camburão. Tentativa de canibalismo. Coisa escabrosa. Começou a morder, queria arrancar pedaço, tinha fome e tinha sede, queria beber sangue, queria comer, pegou a faca pra cortar a coxa e comer viva a pobre moça. Literalmente — disse ali um espírito de porco a fazer fez troça, extrapolando os limites do bom senso.
Os ventos do norte não movem moinhos, o velho poeta reporta o canto de Secos & Molhados, anos setenta. Mas os ventos do Norte movem as pedras no tabuleiro da guerra. Noite adentro, intrínseco ao labirinto da metrópole, o poeta agora recita como quem caça vampiros: Cravo uma cunha no coração do silêncio e desencavo o grito calcado na medula do medo. Afugento os morcegos, quebro a opaca vidraça e clareio a escuridão desta mansão assombrada.
O poeta com o seu chapéu preto e sua barba rala e grisalha, misto de Ezra Pound e Bob Dylan, continua vagando até o fim da noite, até o fim da rua, podendo que seja um beco sem saída. A câmera dá um zoom e o bardo agora abarca a todos com a culpa de cada um: Nada, nada nos isenta da nossa culpabilidade individual nos acontecimentos. Nada nos absolve perante a realidade comprometedora. Nada nos redime da nossa cumplicidade nos crimes, a menos que assumamos sérias atitudes diante dos fatos. No que me diz respeito — o poeta bate com as mãos no peito, puxando para si um mea culpa —, confesso minha parcela de culpa nos crimes cotidianos, minhas atitudes omissas, minha co-participação em todos os delitos. Réu-confesso, julgue-me o tribunal no centro nebuloso da massa cinzenta, e condene-me à prisão perpétua na penitenciária de chumbo da minha consciência.
A cena vai-se obscurecendo aos poucos, entram como pano de fundo fragmentos musicais melancólicos (Chopin?), as formas vão-se tornando difusas, pessoas dentro da noite parecem árvores tristes. Corte abrupto, como quem interrompe um começo de hipnose. Volta a claridade com o violento clarão de uma explosão nuclear (o cogumelo da bomba atômica), retoma-se a vertigem com cenas ligeiras e música acelerada e aguda, crucial. Hiroxima, Nagasaki, Iraque e outros conflitos bélicos do planeta, crianças mutiladas, fusão de cenas, imagens confusas, borrões caóticos, em preto e branco, multicoloridos e alucinados, espirais psicodélicas, telas abstratas, traços de Kandinski, Guernica de Picasso, assimetrias e dissonâncias musicais de Stravisnki, um coquetel caótico, simbolizando ou sugerindo fragmentação, um liquidificador de tudo, conflito, ebulição da consciência, finalizando com a imagem congelada de uma pomba branca (símbolo da paz) abatida e ensangüentada nas mãos de uma criança perplexa, o que dá um outro viés ao clichê da pomba branca, já não tão branca assim, por causa do sangue.
A última cena retoma a normalidade rítmica dos fotogramas. A câmera se move ao longo de um muro sombrio, com fieiras de arame farpado em cima (evocação do Muro de Berlim), daí transmuta-se para a arte do grafite. No muro florido a spray, Deus tirou férias e não sabe quando volta . Assim escreveu e assinou: Nietzsche, o Vândalo , um dos velozes pichadores da noite, desses que usam skate pra driblar a polícia. A Câmera percorre o muro. Num flash, os cães encarniçados reaparecem no círculo de giz e são desenhos que ganham vida, feito desenho animado. Subentenda-se que a fúria dos cães continua. Novamente, a cena vai-se obscurecendo. Do cinza ao negro. A obra em negro. Blackout na tela. As luzes do cinema se acendem e — inusitado — lá está o imenso girassol, em close e luminoso, no centro da tela.
As interpretações à imagem congelada da flor ficam por conta de cada espectador que vai deixando a sala de projeções. Aonde vai a razão? Talvez não, talvez sim que o girassol seja o grito universal do coração.
Post Scriptum — Tudo supracolocado são idéias grosso-modo e experimento poético de um leigo em área de cinema; revogadas as pauladas intempestivas em contrário; bem-vindas as observações construtivas.