Ademir LuizCrônica de um fim anunciado
A palavra utopia significa, em grego, “lugar que não existe” e foi popularizada no século XVI, pelo filosofo inglês Thomas Morus; que a utilizou para batizar uma ilha imaginária onde criou as bases teóricas do que seria um Estado perfeito. Um lugar de paz, harmonia, bonança, livre dos males da guerra e, sobretudo, da intolerância religiosa. De fato um lugar que nunca existiu.
O tempo passou e o termo utopia ganhou muitos outros significados. Porém, nunca a imagem da terra paradisíaca descrita por Thomas Morus foi esquecida. Boa parte da humanidade passou os últimos séculos acreditando poder chegar, em um futuro próximo ou distante, a este lugar inexistente. Muitas vezes matando ou morrendo em nome deste sonho. Hoje, no entanto, a ilha de Morus parece destinada a ser tragada pelo mar revolto da dura realidade. Ao menos é isto que defende o livro O Fim da Utopia – política e cultura na era da apatia, do historiador norte-americano Russell Jacoby. Obra que pode ser descrita, grosso modo, como uma reflexão sobre os caminhos que levaram o Ocidente ao estado de apatia generalizada em que se encontra atualmente.
Para entender o raciocínio de Jacoby é preciso conhecer sua concepção de utópico. Para ele utopia é a “crença de que o futuro pode superar fundamentalmente o presente”. Este é, como o próprio autor admite, o sentido mais amplo e menos ameaçador da palavra. Existem de fato poucas idéias realmente originais no livro. As citações são contadas as centenas e as melhores passagens, é justo observar, estão entre aspas. O que não depõe necessariamente contra Jacoby. O Fim da Utopia é o substrato final de uma longa discussão teórica que tem sido travada na academia há décadas. Sua natureza é mesmo a de síntese.
Em certos momentos faz lembrar o polêmico O Fim da História e o Último Homem, de Francis Fukuyama, sem contudo ter uma tese tão bombástica quanto este. A semelhança, inclusive de títulos, não é por acaso: de certo modo, O Fim da Utopia é um tipo de resposta para O Fim da História. Com a notável diferença de que Jacoby, a primeira vista, não é tão condescendente com o liberalismo democrático quanto seu colega nipo-americano.
O Fim da Utopia é um livro de teoria escrito com um olho na comunidade acadêmica, seu principal público, e outro no leitor médio, cada vez mais interessado neste tipo de discussão; fenômeno cultural que têm transformado teses universitárias em campeãs de vendas. Portanto, nada de elucubrações impenetráveis ou hermétismos eruditos. A clareza é uma de suas principais características e virtudes. Em um texto fluente, enxuto, por vezes irônico, ácido em certas páginas, fazendo crer que algumas vinganças pessoais foram realizadas nas entrelinhas do livro, Jacoby denuncia a total falta de norte em que se encontra nosso tempo. Época em que as principais manchetes políticas a ocupar os noticiários dizem respeito a escândalos sexuais na Casa Branca. Época em que graves denuncias contra a milionária industria dos cigarros, ou acordos de paz na Irlanda do Norte, parecem pouco atraentes em comparação com o julgamento do astro de futebol americano O. J. Simpson. Época em que a disseminação epidêmica da AIDS na África passa praticamente desapercebida.
Como se vê, desde a composição do livro até hoje, o cenário político transformou-se radicalmente em função dos atentados terroristas de 11 de setembro aos Estados Unidos. As notícias vindas da Casa Branca mudaram de tom: de pedidos públicos de perdão passaram a promessas públicas de vingança. Mas ainda assim não se pode dizer que a tese básica do autor tenha sido ultrapassada pela tragédia. O contrário: ela, de um modo especialmente cruel, reforça a idéia de que um desastre eminente nos espera no futuro. Desta vez encarnado em um conflito mortal entre Ocidente e Oriente.
Jacoby aponta o ano de 1955 como o começo do fim da utopia. A primeira peça de dominó a cair, provocando o efeito cascata, foi derrubada pelo então novo secretário-geral do Partido Comunista Soviético, Nikita Kruchev, ao denunciar os crimes do endeusado Stalin; acusando-o de assassino, maníaco e mentiroso. Estas denuncias colocavam a nu o fato de que a experiência socialista russa não era exatamente o paraíso que muitos acreditavam. Imediatamente os partidos comunistas de todo o globo entraram em crise de identidade. A crise pareceu superada quando eclodiu a Revolução Cubana, na virada para os anos 60. Em seu rastro seguiu-se uma nova safra de ideologias prontas para serem defendidas com ardor: black power, feminismo, luta pelos direitos civis, protestos contra a Guerra do Vietnã etc.
Porém, o vigor inicial destes movimentos perdeu a força com o tempo e, ao cabo de pouco menos de três décadas, diante da queda da União Soviética e da aceleração da globalização, parecem arcaicos, verdadeiras peças de museu. Foram substituídas pela falácia do multiculturalismo, teses vagas, carentes de conteúdo, que pretendem nos fazem crer que só existem duas escolhas: a Ku Klux Klan ou o Pluralismo Cultural. Para Jacoby o advento do multiculturalismo como uma idéia sacrossanta, acima de qualquer suspeita, é a maior prova do fim da utopia. A uniformidade cultural sustenta-se através da uniformidade política e econômica. Sob este signo “o futuro fica parecendo o presente com mais opções”. Portanto, acabou-se a discussão: todos estão certos.
Um dos principais termômetro usados por Jacoby para detectar o estado de apatia reinante é a juventude. Para ele, os jovens, tradicional combustível das esquerdas e portanto utópicos por definição, estão cada vez mais descrentes do futuro. O idealismo deu lugar a sensação “de que o que era possível a gerações anteriores já não é para esta”. A fascinante idéia de Revolução, que levava multidões de jovens a abandonarem suas vidas burguesas em troca do sonho revolucionário, como um dia aconteceu com o promissor acadêmico de medicina argentino Ernesto “Che” Guevara, não mais atrai. Mesmo a figura romântica de Guevara, antes venerado como herói e mártir, hoje confundisse entre as estampas de camisetas de bandas de rock pesado. Tornou-se um ícone pop, no melhor estilo Andy Warhol. Para Jacoby é inegável que se “o marxismo do século XIX era materialista e determinista; o do fim do século XX é idealista e incoerente”.
Outro aspecto fundamental é o papel do intelectual na sociedade contemporânea, pois se os jovens representam o combustível da utopia, os intelectuais são seu motor. A concepção moderna de intelectual teria surgido na França do século XIX, para definir uma classe de pessoas eruditas, independentes e politicamente engajadas. Ou seja: não bastava ser letrado, tinha que participar. Com o advento do marxismo os intelectuais passaram a ser vistos como hesitantes, oportunistas e lacaios da burguesia. Foram acusados de terem se tornado uma classe de burocratas, sobretudo dentro do regime stalinista, usando o conhecimento para monopolizar o poder, abandonando os operários. O autor cita o romance O Livro do Riso e do Esquecimento, do escritor tcheco Milan Kundera, para lembrar-nos que nos países ocupados pela URSS, “no jargão político da época , ‘intelectual’ era xingamento”.
Porém, nas últimas décadas, a natureza da atuação dos intelectuais na sociedade mudou radicalmente. De figuras utópicas, profetas de teses revolucionárias, muitas vezes atuando de forma marginal, passaram a ser um “grupo profissional com interesses profissionais”. Ocupam cargos importantes, na academia e fora dela, e capitalizam isto. Jacoby aponta que é sintomático o fato de que celebridades intelectuais como Cornel West e Camille Paglia, qual estrelas da música e do cinema, tenham agentes para organizar suas agendas e cobrar devidamente por suas concorridas conferências. Algo impensável para os intelectuais utópicos do início do século XX. Em poucas palavras: ser intelectual passou de condição à profissão.
Mas, posto tudo isto, volto a pergunta inicial: pode o homem viver sem utopia? O excesso de escrúpulos fez Jacoby recusar-se a bater o martelo. Infelizmente, ao concluir sua argumentação, ele cometeu o mesmo erro que seu companheiro Francis Fukuyama, em O Fim da História e o Último Homem. Após declarar a morte da história, Fukuyama, admitiu ser possível sua ressurreição, caso a imponderável vontade humana assim o desejasse. Jacoby, igualmente, pisou em ovos no fechamento de sua obra. Proclamou o fim da utopia, mas deixou as portas abertas para seu possível retorno, remetendo-se ao fato de que se esperava uma longa era de apatia na seqüência da conformista década de 50. Ao contrário, vieram os incendiários anos 60. Pergunta Jacoby, hesitante: “Quem poderá garantir que o futuro não nos reserva surpresas semelhantes?”