EnsaioGuimarães Rosa e Graciliano: Um antagonismo fecundo

Os estudos sobre o regionalismo literário, que pareciam esgotados, paradoxalmente revigoram-se na nova etapa da mundialização do capital. A urbanização forçada e descontrolada, em vez de enterrar velhos temas e formas literárias, fez renascer no seio das grandes cidades, o regionalismo
 
 
 
 
Hermenegildo Bastos
Professor Doutor da Universidade de Brasília
 
Procuro analisar obras de dois ficcionistas brasileiros modernos (Guimarães Rosa e Graciliano Ramos), e explorar um possível e fecundo contraponto entre os dois. Ao mesmo tempo, a partir dos estudos sobre os escritores, pretendo discutir os modelos historiográficos com que tem trabalhado a crítica nas análises da passagem do regionalismo crítico ao super-regionalismo. Trata-se, portanto, de uma investigação sobre literatura brasileira e, ao mesmo tempo, sobre modelos de crítica e história da literatura, especificamente sobre a evolução do regionalismo. Assim, este texto que agora apresento é parte de uma pesquisa maior em andamento.
 
As duas dimensões da pesquisa são indissociáveis: por um lado os modelos historiográficos parecem ter se congelado e, com isso, parecem ter perdido a capacidade de iluminar as leituras dos escritores; por outro lado, as leituras e as análises, que já se formulam, ainda que não se dêem conta disto, a partir do modelo dominante, correm o risco de repetir visões estereotipadas. Pretendo, assim, trabalhar com esta dupla abordagem.
 
Os estudos sobre o regionalismo literário, que pareciam esgotados, paradoxalmente revigoram-se na nova etapa da mundialização do capital. A urbanização forçada e descontrolada, em vez de enterrar velhos temas e formas literárias, fez renascer no seio das grandes cidades, o regionalismo. O regionalismo continua atual e, segundo Ligia Chippiani, que realizou levantamento bibliográfico sobre o tema, ganhou “uma amplitude maior na intersecção dos estudos literários e artísticos, históricos e etnológicos.” (CHIAPPINI, 1995, 153).
 
No nosso caso, porém, estudo formas passadas do regionalismo. E o faço na perspectiva do historiador. A história não é um fluxo ininterrupto que nos leva e levará ao progresso inevitável. Mundos passados, como estes que estão representados em Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, continuam presentes, não só porque com o progresso os velhos problemas, em vez de se resolverem, se agravaram, como também porque nestas obras o leitor depara com um tempo que poderíamos chamar de longa duração – o da história da modernização brasileira. Fala-se aí de um processo deformado e deformador que é o mesmo ontem e hoje. Para o historiador, a análise do passado pode trazer ensinamentos sobre os impasses que vivemos no presente.
 
A atualidade das obras de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa pode ser atestada com a simples consulta ao catálogo de publicações e de produção de teses acadêmicas. Uma afirmação comum sobre Guimarães Rosa é que a publicação de sua obra desnorteou a crítica, como de fato não poderia deixar de ser. Mas a crítica especializada evoluiu, desde Cavalcanti Proença, Antonio Candido, até Heloisa Starling, Willi Bolle, Luiz Roncari. A crítica caminhou em direção a uma leitura política, o que não combina com a idéia anteriormente difundida de um Guimarães Rosa apolítico, metafísico. Na verdade, a metafísica ou o simbólico, ou ainda, o mítico são também políticos.
 
Segundo Antonio Candido, Graciliano e Rosa são dois autores antagônicos, mas o antagonismo, no sentido dialético, é uma situação de tese e antítese, uma situação, pois, em que um pólo requer, ou mais, exige o outro.
 
A oposição não-dialética entre Guimarães Rosa e Graciliano Ramos não se sustenta mais. Recentemente dois ensaios publicados no mesmo livro, um sobre Graciliano Ramos, outro Guimarães Rosa evidenciam isto 1 . Há mesmo, como que unindo os dois escritores, uma dimensão política que, de resto, Antonio Candido entendeu como uma característica determinante da literatura brasileira – o seu caráter empenhado.
 
Normalmente, a um Graciliano Ramos realista, determinista opõe-se um Guimarães Rosa mágico, mítico e poeta do imaginário. Sem dúvida, a bibliografia especializada não vai nessa direção, mas ainda falta um estudo comparativo dos dois escritores e, ao mesmo tempo, um estudo sobre a evolução da ficção moderna brasileira na passagem do regionalismo crítico para o super-regionalismo.
 
A oposição não-dialética empobrece os dois escritores e simplifica o que na verdade é complexo e pode ser colocado como prova de riqueza da ficção brasileira do século XX. Se trabalhamos com a idéia de realismo conforme Auerbach, realistas são Rosa e Graciliano, o que não impedirá de ver as grandes diferenças entre eles. Segundo Auerbach, realismo é a representação da vida ordinária em forma severa, problemática e sobre um fundo histórico. (AUERBACH, 1996, epílogo).
 
Ao mesmo tempo, o substrato popular que, com diferenças profundas sem dúvida, está presente nas obras dos dois grandes escritores tem muito de determinismo. Há muito de determinismo em Grande Sertão: Veredas, o que não faz do livro uma obra determinista. O determinismo é um dado da experiência popular, mas também da tradição ocidental, com que os autores têm que lidar. Por sua vez, há poesia e imaginário em Vidas secas, o que, entretanto, não impede que o determinismo esteja presente 2 .
 
Como cada um deles equacionou as contradições presentes na experiência que o povo tem da vida, da morte, do amor, da guerra, da justiça, do bem e do mal, isto sim me parece que ainda está por ser feito de modo sistemático. As diferentes equações não são apenas dos escritores, mas da cultura brasileira como um todo. Com certeza, na contraposição dialética entre os dois GRs, encontraremos os debates do Brasil.
 
A partir dos conceitos de regionalismo pitoresco, regionalismo crítico (ou realismo crítico) e super-regionalismo (ou nova narrativa) Antonio Candido forneceu ao estudioso de literatura brasileira um modelo de periodização capaz de captar a lógica de evolução da literatura brasileira, na sua perspectiva local como também no seu relacionamento universal.
 
Tomo as obras de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa como leituras do Brasil, leituras diversas e capazes de iluminar, pela diversidade, as contradições seculares da condição colonial brasileira. Há nessas obras, além de interpretação do país, formulações de projetos, porque interpretar não é um gesto inocente. A perspectiva aqui é ainda a de Auerbach, da causalidade figural, uma percepção de causalidade segundo a qual o acontecimento posterior explica o anterior.
 
Quando, por sua vez, o crítico literário, em perspectiva histórica, procura compreender as diversidades, está fazendo leitura de leituras. A dimensão do seu trabalho é a de construir a autoconsciência da obra ou de um conjunto de obras articuladas em torno de um problema.
 
As observações aqui desenvolvidas a propósito de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa me surgiram a partir da leitura de umas poucas palavras de Antonio Candido sobre o que chamou de “um contraponto fecundo” a propósito das diversidades existentes (e resistentes, eu acrescentaria) entre Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. As contraposições se exibem à primeira vista, para um leitor comum, mas permanecem, ainda que modificadas, nas visões especializadas do crítico. Se isto é assim, se as contraposições se modificam na medida em que o leitor afina a sua visão, isto pode ser sinal de que elas são significativas, isto é, não são apenas das leituras, mas são também constitutivas do seu objeto.
 
Contraposições existem entre vários escritores. Porém, nesse caso tomo os dois como paradigmas de diferentes momentos de evolução da literatura brasileira, do realismo brasileiro, na perspectiva Auerbach-Candido (ver sobre o diálogo Auerbach-Candido, Waizbort, 2007). Importa no caso formular o conceito de realismo brasileiro e estudar a sua evolução especificamente na passagem dos períodos referidos.
 
Sobre o método, vão aqui três palavras.
 
Primeira: esses autores estão no passado, sendo que um deles está no passado para o outro. Ler Graciliano Ramos depois de ter lido Guimarães Rosa é, sem dúvida, uma operação de crítico-historiador. Relembre-se que Graciliano leu a primeira versão do que viria a ser Sagarana. Ali encontrou “belezuras”, ao lado de contos que considerou menos bons. Relembre-se também que Guimarães Rosa reescreveu esta obra, não, evidentemente, tocado pela leitura de Graciliano, mas a partir de sua própria evolução como escritor. Procuramos captar as obras na sua contemporaneidade, isto é, nos seus momentos históricos únicos e singulares. Complementando esta leitura, procuramos captar o valor e significado que elas têm hoje, incluindo aí o diálogo entre elas. Há o momento do autor e o do crítico. A obra inclui os dois momentos que cabe ao crítico analisar.
 
Segunda: o mundo narrado por Guimarães Rosa é em alguns casos historicamente anterior ao mundo narrado por Graciliano Ramos, ou é o mundo da epopéia ou o da narrativa da experiência, nos termos de Walter Benjamin 3 . Resíduos desta narrativa, entretanto, podem ser encontrados em Viventes das Alagoas e Alexandre e outros heróis de Graciliano 4. Graciliano Ramos, na linha machadiana da literatura brasileira, rechaçou o pitoresco sertanejo, donde a estética do seco e da escassez. Guimarães Rosa enfrentou o pitoresco, correndo todos os riscos, mas conseguindo retirar daí a universalidade. Na verdade, ele retorna formas literárias da literatura sertaneja rechaçadas por caducas pela geração anterior a ele. Este é um dado histórico da maior importância.
 
Terceira: embora se situem diferentemente na evolução da moderna ficção brasileira, as suas obras são equações diversas do mesmo problema – o da modernização à brasileira. Sobre a modernidade à brasileira escreveram também Drummond, Mário, Machado, Lima Barreto etc. Mas o que se realça nos dois GRs é o antagonismo, o qual, no sendo exclusivo deles, parece ter encontrado nas suas obras um momento único de alta tensão. Tanto em Graciliano quanto em Rosa há um repúdio à modernidade imposta, mas, diferentemente de Graciliano, que é também crítico do patriarcalismo, em Rosa parece haver em algumas obras uma glorificação do passado patriarcal 5. Este é um ponto cheio de interesse: sendo um escritor paradigmático da nova narrativa, posterior, portanto, ao realismo crítico, Guimarães Rosa em muitos momentos tende a glorificar o passado senhorial que Graciliano critica. Assim, senhores como Joca Ramiro, Medeiro Vaz, Zé Bebelo, Selorico Mendes, donos de terras e gentes, são os heróis do Grande Sertão: veredas.
 
Aproximações outras podem e são feitas: Machado de Assis e José de Alencar, Machado de Assis e Euclides da Cunha, Mário de Andrade e José de Alencar, Guimarães Rosa e Euclides da Cunha, Graciliano e José Lins do Rego etc. Mas a crítica parece ter preferido não enfrentar os GRs. Vale a pena anotar que João Luiz Lafetá deu a seu ensaio sobre S. Bernardo um título retirado de Guimarães Rosa – “O mundo à revelia”.
 
Dada a extensão das obras dos dois autores, é conveniente estabelecer um limite. Trabalho em duas frentes: 1ª) análise comparativa de Grande Sertão: veredas e São Bernardo; 2ª) análise comparativa de Vidas secas e “Meu tio, o iauaretê”, para o que me valho também de alguns contos de Primeiras Estórias.
 
No primeiro caso, incorporo a sugestão de Lafetá feita no ensaio citado. Um mundo à revelia é aquele que existe e prosseguirá existindo independentemente e contra a vontade do herói. Paulo Honório e Riobaldo vivem situações semelhantes no que tange à questão dos processos de modernização impostos. São, cada um à sua maneira, agentes da modernização, mas nos dois casos de modo extremamente problemático.
 
Em S. Bernardo, Graciliano valeu-se de um artifício narrativo que consistiu em criar um autor ficcional, Paulo Honório, que escreve o livro que o leitor está lendo. Em Grande Sertão: veredas, Rosa criou um fluxo ininterrupto de fala do personagem Riobaldo. Sobre a escrita nada se diz, mas o jogo narrativo sugere ao leitor a transcrição etnológica ou etnográfica de um depoimento oral. São, nos dois casos, jogos narrativos bastante diferentes, mas se assemelham enquanto tentativas de “ficcionalização da oralidade”.
 
Vale a pena também, ainda no primeiro caso, analisar os dois romances como narrativas fáusticas, investigando a possível existência de um “pacto” também em S. Bernardo assinalado pelos acontecimentos da capela da igreja onde se escondem as corujas. Trata-se possivelmente de um “pacto” entre Paulo Honório e as forças da modernização capitalista 6.
 
Com relação à segunda frente da pesquisa, um dos aspectos mais ressaltados em “Meu tio, o iauaretê” é o fato de a narrativa chegar diretamente ao leitor sem mediação de um narrador externo. O personagem conta sua própria história, o que tem sido assinalado pela crítica como sinal de superação das tradicionais barreiras que impediam que o personagem iletrado tivesse voz. Em Vidas secas, pelo contrário, um narrador externo conta a história de Fabiano e sua gente. O discurso indireto livre, porém, permite a Graciliano confundir narrador e personagem de modo a criar uma cumplicidade entre os dois, desfazendo a aparente neutralidade. A pergunta é: estes equacionamentos diversos da distância narrador/personagem a que correspondem na história social brasileira.
 
Guimarães Rosa é o inventor do idioma, o escritor que tomou para si a tarefa de recriar o idioma como forma de reinvenção do país. Manteve-se fiel ao espírito clássico da língua e da literatura, opondo-se assim, ao menos neste aspecto, ao ideário modernista, sendo este mais um dos ângulos da sua aproximação com Graciliano Ramos.
 
O ensaio de Alfredo Bosi “Céu, inferno” é ainda hoje a melhor tentativa de aproximação Graciliano Ramos/Guimarães Rosa. É uma leitura cuidadosa dos dois escritores e suas observações têm pertinência. E se aqui vou tomá-lo como ponto de partida da nossa crítica é porque o considero um ensaio fundamental para a questão que nos toca discutir 7 . O interesse aqui é estudar o contraponto entre os dois GRs como a dialética que vai muito além das suas obras e que pode ser expressão e/ou iluminação da dialética do Brasil. O contraponto é fundamentalmente literário, mas não só. Estão em jogo diferentes (e mesmo diversas) visões da literatura e do país. Mas unindo os dois escritores está a prática da literatura como vida, o que em inúmeras ocasiões foi enfatizado por eles.
 
A contraposição parece ser significativa por si mesma: de um lado a escrita da escassez, da contenção e do menos, de outro a da explosão, da exuberância e do mais. Mas, em que dimensão da literatura (e da cultura) brasileira essas escritas contrapostas de certa forma exigem-se, requeremse uma à outra? Que diálogo se dá entre as duas?
 
Diálogo no caso quer dizer que os dois escritores – antagônicos, como vimos –, complementam-se. Se as suas obras, reunidas, como diz Antonio Candido na entrevista citada, completam a nossa visão, é porque este antagonismo de certa forma define nossa cultura.
 
Em “Céu, inferno”, afirma Alfredo Bosi:
 
“A hipótese que me parece mais razoável é esta: separando Graciliano da matéria sertaneja está a mediação ideológica do determinismo; aproximando Guimarães Roas do seu mundo mineiro está a mediação da religiosidade popular”. (BOSI, 1988, p. 22)
 
À primeira vista ninguém discordaria desta afirmação. Mas não estou tão convicto de que a religiosidade popular está desprovida de determinismo e, sendo assim, “a mediação ideológica do determinismo” necessariamente não separa, podendo mesmo aproximar.
 
“A menina de lá” é um dos contos de Guimarães Rosa de que se vale Alfredo Bosi para estabelecer o contraste. Do outro lado está Vidas secas. Entendo ser possível fazer leituras outras dessas obras, o que vou aqui apenas esboçar.
 
Parece-me que à leitura de Alfredo Bosi de “A menina de lá” faltou considerar as diferentes perspectivas narrativas com que o conto é construído. Por um lado a perspectiva dos personagens, que também varia a depender de se é o pai, a mãe, a tia ou a gente; por outro lado, a perspectiva do narrador.
 
“E Nhinhinha gostava de mim.”, diz o narrador, para em seguida, antes dos acontecimentos centrais da história, dizer “Nunca mais vi Nhinhinha”. Os milagres de Nhinhinha chegam ao narrador por ouvir dizer, o que de fato nos coloca numa situação cara a Guimarães Rosa, a do narrador que recolhe histórias que correm pela boca do povo. Mas no caso em especial parece-me que o narrador toma distância dos fatos narrados, não que não creia neles, mas porque não faz parte do mundo de Nhinhinha 8.
 
Quanto à mediação da religiosidade popular, vale a pena retomar as discussões sobre a magia e o mundo mágico. A magia é também à sua maneira um modo de experienciar o mundo tão ou mais determinista do que o pensamento lógico-racional. Se isto é verdade, então estamos em face de dois tipos de “determinismo” e só poderemos entendê-los se nos reportarmos aos diferentes momentos da história brasileira representados nas obras dos dois escritores. Nessa perspectiva estudei “Meu tio, o iauaretê” como a narrativa da indisponibilidade ou impedimento da magia (ver BASTOS, 2006). Deslocado do seu mundo mágico, o caboclo do conto vive a magia como determinismo às avessas. É verdade que esta pequena obra prima que é “Meu tio, o iauaretê” é um conto diferenciado mesmo dentro da obra do próprio Guimarães Rosa 9.
 
Voltando à questão da distância, ou melhor, dos jogos de perspectiva narrativa, de “A menina de lá”, claro está que difere daquela que se impõe o narrador em Vidas secas, mas se a diferença é significativa o é no sentido de que são duas tentativas de equacionamento de um problema que para nós continua sendo o mesmo, um problema constitutivo da literatura brasileira – a relação entre narrador letrado e personagem iletrado. O que de fato não se pode dizer é que essa relação foi resolvida de forma satisfatória, nem literária nem socialmente 10.
 
É claro que em Vidas secas não há milagres na perspectiva do narrador que, entretanto, se mostra muitas vezes também cético com relação ao pensamento lógico-racional, o pensamento do intelectual brasileiro ansioso por doutrinar o homem da roça. Mas há milagres na perspectiva de Fabiano quando ele tenta curar o bezerro “no rasto”, como bem observa Bosi. Já em “A menina de lá” que função tem a frase “Nunca mais vi Nhinhinha” senão a de estabelecer uma distância entre os fatos narrados e o narrador? As questões de perspectiva narrativa ainda não foram, assim me parece, devidamente estudadas de modo comparativo com relação a Graciliano e Rosa.
 
O crítico uruguaio Ángel Rama desenvolveu o conceito de transculturação a partir do qual estudou alguns autores latino-americanos, dentre eles Guimarães Rosa. Segundo Rama, os transculturadores são ficcionistas que, entre outras coisas, superaram as barreiras que separavam o personagem iletrado do narrador letrado. Como já tive oportunidade de dizer em ensaios já publicados, a leitura de Rama absolutiza certos procedimentos narrativos e, como conseqüência, perde a visão histórica, mais relativa. As barreiras entre o personagem iletrado e o narrador letrado não deixaram de existir, migraram, deslocaram-se. O que urge estudar são as diversas maneiras de como os escritores tentaram equacionar o problema, que não é apenas das literaturas, mas das culturas latino-americanas.
 
Em ensaio que escrevi sobre Juan Rulfo e Graciliano Ramos, afirmei que a “ficcionalização da oralidade” (expressão cara a críticos ligados a Angel Rama), não é propriamente uma superação da barreira, a não ser que a entendamos como superação imaginária de um problema real – conforme alguns críticos têm procurado definir a atividade artística, dentre eles Jameson e Macherey-Balibar. Mesmo porque, na vida real, as barreiras entre o povo iletrado e os escritores não diminuíram. Se o personagem iletrado ascendeu à condição de narrador literário, isto não se fez acompanhar na vida real da ascensão correspondente. Assim em “Meu tio, o iauaretê” o personagem narra o seu próprio extermínio.
 
Da interação entre o personagem iletrado e o narrador letrado, o que podemos esperar, numa sociedade como a nossa marcada por tantas e enormes desigualdades, são negociações, quando muito, isto é, quando o outro de classe consegue se fazer notar. Graciliano e Rosa negociam a presença do personagem. As diferentes formas de negociação apontam para diferentes formas de relacionamento na vida social. Assim, se Fabiano não tem voz, entretanto invade e contamina o discurso do narrador e, com isso, negocia a forma da obra.
 
Chamo negociação o resultado do confronto entre o personagem e o narrador (ou escritor). A força que terá o personagem de fazer com que a obra se conforme aos seus interesses dependerá de sua presença e visibilidade na vida real. Esta não é uma relação mecânica, é claro. Os párias, os desclassificados, os vaqueiros, os jagunços, os migrantes, os pobres e explorados de todas as espécies estarão presentes nas obras com maior ou menor força conforme o escritor puder fazer ver o outro de classe.
 
As leituras políticas de Guimarães Rosa vêm crescendo desde Walnice Nogueira Galvão até Heloisa Starling, Willi Bolle e Luiz Roncari. Ao Graciliano Ramos político não já se pode contrapor um Guimarães Rosa apolítico. Há mesmo uma linha que une Graciliano Ramos e Guimarães Rosa como observa Heloisa Starling em entrevista que se segue a seu ensaio já citado sobre Rosa. A idéia de ruína une Machado de Assis, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. “A ruína, diz ela, é um lugar privilegiado de observação porque mostra que alguma coisa desapareceu, mas também ilumina o que provocou esse desaparecimento” (STARLING, 2006, p. 218).
 
A questão do determinismo e do seu oposto, a liberdade, é uma questão de grande complexidade em Graciliano Ramos. Em Angústia, por exemplo, a frase dita por Luis da Silva logo após o assassinato – “O que tem que ser feito tem muita força” –, contém inúmeros desvãos. É uma frase popular também, como um ditado ou provérbio. Em princípio nos passa a rigorosa causalidade que une os fatos narrados como numa cadeia que vai desde a infância de Luís da Silva até o assassinato de Julião Tavares. Esta rigorosa causalidade (como tento mostrar em ensaio ainda inédito), coexiste com a gratuidade: afinal para que seu Ivo dera a Luís da Silva uma corda? Seu Ivo e a corda, como também Vitória e as moedas enterradas, fazem parte de uma rede causal de ações que, entretanto, não deixam de ser gratuitas. A gratuidade, sim, é uma forma de causalidade perversa.
 
Luis da Silva vive dois momentos históricos: um o da velha fazenda do seu avô, na qual a lógica do capitalismo não se manifestava claramente; outro o da cidade onde a lógica capitalista se patenteia em todos os gestos, ações e situações humanas. De forma que o determinismo não é uma opção ideológica do autor, mas um dos efeitos do realismo de Graciliano Ramos, sendo o outro o grito por liberdade. Ora, o mundo narrado por Guimarães é, repito, muitas vezes historicamente anterior ao de Graciliano Ramos. E da análise desta diversidade poderemos retirar conclusões importantes.
 
Por outro lado em Vidas secas uma das questões centrais é a questão da liberdade, como procurei mostrar em outro trabalho (BASTOS, 2008). De fato o mundo de Vidas secas é o da necessidade, mas é este mundo mesmo que coloca como exigência a liberdade. À excelente análise de Bosi sobre o episódio do menino mais velho com a palavra inferno pode-se, entretanto, acrescentar o caráter eminentemente poético do romance. Já Carpeaux afirmara que Graciliano queria eliminar tudo para ficar só com a poesia. Ora, a atitude do menino mais velho é a atitude do poeta que vê a palavra como se pela primeira vez. A isto se segue o episódio da alpargata. Fabiano trabalha para desenhar no coro uma alpargata para o menino mais velho. O caráter teleológico de todo trabalho humano se faz presente aqui também, assim como a liberdade do criador. Mas o desenho do vaqueiro está de fato limitado pela crueldade do destino. Em Graciliano temos a exigência da liberdade como única saída para o homem, em lugar de simplesmente a reafirmação do determinismo.
 
A magia ou, na sua forma mais tênue, a saída inesperada para situações de aporia não pode também ser lida em Guimarães Rosa como consolo terreno para os injustiçados. Assim por exemplo em “Soroco, sua mãe, sua filha”, a cantiga puxada pela filha, depois pela mãe e, por fim, pela gente não é propriamente uma saída, uma resolução. Não é possível ver aí um rompimento do estado de necessidade inicial, tampouco é um consolo, repito. Então, o que pode ser? Segundo penso, é uma forma mais drástica de necessidade a que estão condenados os personagens.
 
Se as palavras de Nhinhinha viram coisas e as do menino mais velho não, a depender da leitura, o determinismo está no mundo de Nhinhinha, mais do que no de Vidas secas. As palavras de Nhinhinha de certa forma não podem não acontecer. Observe-se que, de modo paradoxal, a magia pode ser uma forma de aporia tão cruel quanto a que vive Fabiano frente às arribações. Aqui outra vez, deparamos com uma situação ainda não enfrentada pela crítica.
 
É claro que o ensaio de Bosi é muito mais complexo do que foi possível resumir aqui. Mas não posso concordar com a afirmação de que o narrador de Vidas secas olha de cima, “da História brasileira já conhecida”, o destino do seu vaqueiro. Pelo contrário, o destino do narrador (e do escritor) depende do destino do personagem.
 
Segundo Willi Bolle, o Grande Sertão: veredas é “o mais detalhado estudo de um dos problemas cruciais do Brasil: a falta de entendimento entre a classe dominante e as classes populares, o que constitui um sério obstáculo para a verdadeira emancipação do país”. Para Willi Bolle, o romance de Rosa é um “romance de formação” no sentido original presente no Wilhelm Meister de Goethe, o qual, em posição contrária à Revolução Francesa que defendia “o confronto armado entre as classes, propôs o diálogo entre elas.” (BOLLE, 2004, p. 10). Não sei, porém, se isto é tão pacífico em Rosa, entendo mesmo que há lugar aí para contradições. Ainda que esta seja a posição do autor, no plano dos acontecimentos e das personagens há muitas outras posições. O ponto de vista em Graciliano Ramos é claramente outro, acentuado que é o conflito de classe. Mas em Vidas secas, por exemplo, um dos poucos romances brasileiros em que se projeta com nitidez o outro de classe, Graciliano se distancia da esquerda brasileira da época.
 
Na perspectiva da crítica dialética, decisivo é assinalar o ponto de vista de classe do escritor, mas o ponto de vista que dá forma ao texto e que pode não corresponder às intenções do autor. O mundo narrado em Grande sertão: veredas, pela amplitude e magnitude da obra, com a diversidade de situações e personagens, representa, de fato, a pluralidade de pontos de vista que compõem o Brasil. Um Brasil arcaico, como o de S. Bernardo, que teima em permanecer como está. A recusa à modernidade pode ser tanto a posição de setores avançados que a vêem como forma de sacrifico e destruição do enorme contingente de seres humanos que não acompanham o processo de evolução, quanto pode ser a posição de setores retrógados que temem mudanças na estrutura social que mantém os seus privilégios.
 
 
NOTAS: 
 
1 - Ver os ensaios de Wander Melo Miranda e o de Heloisa Starling. In: Castro, Marcílio França (org.), 2006.
 
2 - Em entrevista concedida ao Correio Brasiliense, Antonio Candido enfatiza a importância de diálogos entre escritores brasileiros, dentre eles Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, que assinalam a complexidade da cultura. Diz ele: “Acho que Guimarães Rosa e Graciliano Ramos formam um par antagônico deste tipo e isto é uma sorte. De fato, é extraordinário termos ao mesmo tempo uma narrativa seca, contida, parcimoniosa, aderente ao real e outra transbordante, pródiga, rompendo as amarras da mimese. O leitor pode preferir uma ou outra, mas na verdade é melhor aceitar ambas porque, reunidas, elas completam nossa visão.” (CANDIDO, 2007). A nossa questão aqui é então esta: onde e como, reunidos, os dois escritores completam a nossa visão. Na verdade, esta colocação de Antonio Candido já está no ensaio “Literatura de dois gumes” (CANDIDO, 1987). Aí, ele se diz movido por uma atitude que define como “sentimento dos contrários” e que consiste em ver “em cada tendência a componente oposta, de modo a aprender a realidade da maneira mais dinâmica, que é sempre dialética”. Ele se demora na análise de quatro tópicos. No segundo – “Transfiguração da realidade e senso do concreto” –, encontra-se o contraponto que aqui pretendemos analisar.
 
3 - Davi Arrigucci Jr. vê em Grande Sertão: veredas ao mesmo tempo um romance de formação – um romance, pois, da tradição moderna – e um projeto épico de refazer em termos nacionais a história universal do romance. (ARRIGUCCI JR., 1994).

4 - O momento histórico da obra de Graciliano Ramos é o dos anos 30. Caetés e Angústia têm temática urbana. São Bernardo, embora narre uma história da conquista de uma fazenda, dá-se num espaço de tempo da modernização acelerada, e depois frustrada, da produção econômica. Vidas secas, escrito em 37, é a narrativa do início do processo de migração do Nordeste para o Sul do país. Já em Grande Sertão: veredas, como observa Walnice Nogueira Galvão, “Os limites máximos e mínimos [de tempo], em toda a sua deliberada imprecisão, demarcam contudo o contorno da República Velha.” (GALVÃO, 1972, p. 63).
 
5 - Luiz Roncari observa apropriadamente que no capítulo 7 de S. Bernardo Graciliano, contrapondo seu Ribeiro a Paulo Honório, aproxima-se de Rosa na glorificação do passado pré-capitalista, passando por alto a exploração que também aí existia. (RONCARI, p. 195-6).
 
6 - Este estudo começou a ser feito por Viviane Fleury Faria na sua tese de doutorado concluída e defendida em 2007.

7 - Alfredo Bosi é um dos poucos críticos e historiadores da literatura brasileira que se dedicou sempre com grande interesse tanto a Guimarães Rosa quanto a Graciliano Ramos. O leitor me dispensará de relacionar aqui os vários ensaios, todos divulgados e conhecidos.
 
8 - Luiz Roncari fala de “uma espécie de segundo ponto de vista, que aparecia só lateralmente, de modo a fazer um contraponto com as agruras do herói”. (2004, p. 17).
 
9 - A fortuna crítica de “Meu tio, o iauaretê” é imensa. A idéia do impedimento da magia aparece em vários críticos. Cito apenas, por economia, o estudo de Walnice Nogueira Galvão “O impossível retorno” (Galvão, 1978) e o de Flávio Aguiar “Mas allá del infierno. Contribuición a analise de “Meu tio, o iauaretê” in Zea (1993). 10 - Para Walnice Nogueira Galvão (1972) em Grande Sertão: veredas “perpassa a sombra do letrado brasileiro”.



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