Enio VieiraA encenação do poder
A política é freqüentemente comparada a um teatro por conta de seus eventos trágicos, dramas pessoais, traições, peripécias e catarse do público. As referências a elementos da dramaturgia se devem mais à trama das disputas entre os políticos, e não tanto ao suposto caráter ficcional das situações. O que está em jogo no campo político é sempre algo bem verdadeiro e com reflexo concreto na sociedade. Ver o mundo como um palco levou autores como Marx e Tocqueville a usar fartamente imagens teatrais para abordar um período crucial da história européia nos livros 18 Brumário de Luis Bonaparte e Lembranças de 1848, respectivamente.
Embora seja fictício, o teatro permite ver os mecanismos de funcionamento da política. Exemplos são as tragédias gregas e as peças de Shakespeare. Na outra ponta, os políticos adotam recursos teatrais (e cinematográficos) para se relacionar com o público. O nazi-fascismo foi o caso mais evidente de utilização de tal artifício, inspirando Walter Benjamin a pensar na “estetização da política”. Os tempos recentes, globalizados, deram um passo adiante com o uso de recursos estéticos pela política no marketing e suas sofisticadas campanhas publicitárias. A disputa do poder se deslocou para o plano da mera construção de imagens.
A Rainha (2006), de Stephen Frears, é mais uma obra interessante que trata da encenação do poder. Há um atrativo adicional que é o fato de o filme focalizar a política no atual espetáculo da mídia. Ao invés de recorrer ao pobre formato das cine-biografias, que vendem a ilusão de contar uma vida, Frears escolheu um fragmento do presente. O curto período escolhido para a narrativa vai da posse do primeiro-ministro Tony Blair à morte da Princesa Diana em meados de 1997. Na verdade, a maior parte do filme transcorre na semana em que morreu Diana e levou a família real a mudar de posição de distanciamento frente a um evento de comoção mundial.
Um personagem tem uma definição sarcástica daquele evento: Diana conseguiu ser ainda mais chata depois de morta, e as pessoas não desgrudam os olhos da televisão. Frears é preciso ao mostrar a Rainha e Blair com seus assessores colados em frente de aparelhos de televisão para acompanhar os efeitos sobre o público.
O fio condutor do filme é o contraste entre os rituais da Rainha Elizabeth II e o lado pop do primeiro-ministro. Uma das primeiras cenas reproduz o que teria sido a apresentação formal de Blair, após as eleições, à Rainha. O personagem Blair recebe instruções de como se portar, quais as expressões mais adequadas de tratamento. A seqüência mostra todas as marcações teatrais de uma solenidade política que envolve duas pessoas sozinhas numa sala. De saída, a Rainha fulmina Blair com um olhar e lembra que, na poltrona onde ele está no momento, o então primeiro-ministro Churchill deu lições de política a ela. Demarcam-se assim os lugares no palco político.
O Blair do filme encarna um outro tempo. É o político midíatico que segue só o que dizem os jornais e as pesquisas de opinião. Ele entende o fenômeno da morte da princesa e custos políticos da posição assumida pela família. A Rainha não quer tratar Diana como uma integrante da realeza. Blair, por sua vez, é o mestre das regras do teatro político da mídia. Numa passagem, ele esquece sua imagem de político inovador ao questionar os assessores: por que incluir a palavra “revolução” num discurso? A assistente relembra ao político-ator que ele havia sido eleito justamente para mudar a Inglaterra e que ele é um trabalhista. Paira o ar de constrangimento que mostra todo o esvaziamento da política e a capitulação da esquerda ao marketing mais pobre.
A Rainha criada por Frears acredita que ela própria carrega a consciência de povo inglês. Essa é a visão da política que jamais leva um soberano a se sujeitar aos embaraços de um Tony Blair em diversos episódios de seu mandato, encerrado neste ano. Ao longo do filme, tem-se a impressão de que Blair ensina a Rainha a se portar nos tempos modernos e a preservar o poder real. Na seqüência final, porém, ela dá o troco e indaga se ele estaria, na verdade, com receio das vaias no futuro. É uma alusão exata de Frears ao melancólico final dos anos Blair, que saiu do cargo pelo apoio irrestrito à Guerra do Iraque e a concordância com as estratégias de George W. Bush.
No Brasil, um filme expôs bem as encenações do jogo político. O documentário Entreatos (2004), de João Moreira Salles, registrou a campanha presidencial de 2002 de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é uma ficção como A Rainha, mas expõe o faz-de-conta das imagens. O próprio título embute a idéia dos atos de uma peça teatral. O mérito do diretor foi buscar os diversos lados de um político, ou seja, como se incorporam os diversos personagens numa única pessoa. Existem inúmeras cenas de camarins e de reuniões de marketing, com o político sendo vestido e maquiado, o que vai explicitando a cena teatral. A certa altura do filme, Lula diz temer a pompa e os rituais palacianos que são justamente as etiquetas do poder.
O debate televisivo mostrado no final de Entreatos ocorre no formato de um palco. Durante o programa, os candidatos vão sendo orientados pelos assessores com base em consultas de grupos de discussão que obviamente estão fora da cena. Nesses grupos, tenta-se capturar as reações de quem assiste ao debate em casa. É simulação em cima de simulação. O político-personagem seja ele um Blair ou um Lula é construído em pesquisas de marketing, imagens pessoais e na atenuação de discursos que possam contrariar o gosto do público-consumidor-eleitor. Coincidentemente, ambos são de partidos de esquerda que possui uma tradição em Brecht de crítica à naturalização das relações sociais e políticas. Blair e Lula esquecem tal espírito crítico e aderem ao mais rasteiro marketing que é a marca do consumismo defendido pelos seus adversários à direita como o ideal de uma sociedade.
A novidade é a adesão da esquerda às práticas de teatralização que sempre foram associadas aos políticos mais atrasados, conservadores e populistas. Na Argentina dos anos 1930, por exemplo, uma atriz de radioteatro chamada Eva Duarte não conseguiu levar sua carreira artística adiante. O corpo magro impediu que ela tivesse um espaço num período em que se admiravam as curvas femininas. No entanto, ao se casar com o todo poderoso Juan Domingo Perón, Evita soube utilizar o próprio corpo – ela era muito pequena, branca e magra – e os bem cortados tailleurs para criar a imagem ideal do peronismo. A ensaísta argentina Beatriz Sarlo analisou esse fenômeno teatral da política no extraordinário livro A paixão e a exceção: Borges, Eva, Motoneros.
“O aspecto altamente visual da cultura peronista encontrou no corpo de Eva um suporte que já tinha se preparado para ser visto, mostrar-se e repetir-se em gestos e poses, durante os dois anos de êxito de sua carreira de atriz”, afirma Sarlo. O talento de Evita, porém, havia sido insuficiente para levá-la ao estrelato como atriz. Mas, segundo a autora, esses elementos se tornaram de grande valor para o jogo do poder. Pode-se concluir que, ao contrário do que se diz usualmente, os políticos são atores medíocres e só obtêm ganhos com uso de suas fracas habilidades cênicas em comícios, programas de televisão e debates vazios nos parlamentos às moscas.
Ao invés de falsificação e simulação, o teatro é uma forma artística muito boa para pensar a política. Paulo Eduardo Arantes notou recentemente que grupos teatrais de São Paulo vêm usando novos espaços urbanos e fogem do padrão das mega-produções. Acontece uma intervenção política pela ocupação de locais degradados nas metrópoles. Nos anos 1950 e 1960, bem ao gosto do nacional-desenvolvimentismo, o grupo Arena se voltou para o chão das fábricas ao montar suas peças e representar os dramas sociais. Agora, o palco é uma sociedade de desemprego crônico e de espaços públicos violentos e abandonados. A rua torna-se um local perigoso para quem controla o dinheiro. O bom teatro vai trazer para dentro de suas narrativas essa desconfiguração social.
A Companhia do Latão é um dos expoentes desse movimento. Liderado por Sérgio de Carvalho, o grupo retoma o método brechtiano, que foi equivocadamente apagado da dramaturgia após o fim do regime soviético. Mais do que nunca, é preciso trazer à luz os mecanismos do mercado. As mercadorias, os políticos e suas idéias tentam ser objetos naturais e desprovidos de quaisquer relações sociais. O mesmo vale para a representação de conflitos mundiais – o “choque de civilizações” sempre justifica qualquer confronto. Em 1993, Susan Sontag entendeu bem o movimento do mundo e encenou Esperando Godot, de Samuel Beckett, em plena Sarajevo, na Bósnia, em guerra. Os atores estavam famintos e pareciam espectros de seres humanos. Esse é o diálogo essencial do teatro com a política.