Eberth Vêncio

Eberth VêncioNotícias indigestas

As más notícias dos telejornais de ontem à noite fomentaram em mim um sono agitado. Também pudera... Já viu notícia feliz aumentar a audiência da televisão?! Uma menina que foi, garante a polícia, estrangulada e arremessada pela janela de um prédio pelos próprios pais. O desmatamento ganancioso e incessante da floresta amazônica. A disparada dos preços dos alimentos no Brasil (óleo de soja, arroz, feijão, trigo, carne). O risco dos bio-combustíveis piorarem a escassez de alimentos no mundo. As invasões, ataques truculentos e vandalismo dos chamados “homens sem-terra”. Enfim, muitos ingredientes para um agitado pesadelo estavam todos na minha cama naquela noite...

Sentados na varanda da casa, os quatro entreolharam-se em silêncio. Sobre a mesa, uma jarra com água até a metade. Água amarelada, barrenta, que o pai roubara agorinha mesmo do reservatório do vizinho. Quase foi desmascarado e capturado pelos algozes. É certo que um flagrante resultaria na sua morte antes da hora. Arrastou-se na relva, esgueirando-se feito cobra pelo quintal mal zelado, repleto de pragas. O volume d’água seria sim suficiente para que todos ingerissem os comprimidos. De acordo com seus cálculos (ele era médico), as duas crianças deveriam tomar cinco comprimidos cada, de uma só vez. O casal, o dobro da dose. Em pouco tempo, todos sentiriam um sono incontrolável, seguido de vertigem, desmaio e uma parada respiratória imperceptível, altamente eficaz, fatal, sem dúvida nenhuma. Após o banquete farmacológico, a morte adviria em seis ou sete minutos, sem dor, sem sofrimento, sem desespero, sem testemunho ou remorso.

Escolheram, em comum acordo, efetuar o plano durante o dia, quando dispunham da luz natural, embora o céu estivesse tomado de uma fumaça densa e plúmbea. A atmosfera poluída, carregada de metais pesados, dava a falsa impressão que o dia estivesse nublado. Antes fosse mesmo um prenúncio de chuva. Poderiam banhar-se nela, lamberem as poças d’água no chão, como animais sedentos que estavam. O blecaute já durava quase três meses. Nada de energia elétrica. Nenhum tipo de luz artificial, nem ao menos fósforos ou velas de cera. Os estoques de álcool, querosene e outros combustíveis tinham expirado. Não havia mais nada inflamável que pudesse garantir luz na escuridão daqueles dias. Os shoppings, hipermercados, vendinhas, todo o comércio de gêneros alimentícios estava saqueado e revirado de cabeça para baixo. Alimentos e água eram negligenciados, surrupiados, furtados, ou tomados com brutalidade, ainda que fosse preciso matar.

A família dispunha de alguns alimentos enlatados escondidos no fundo do quintal. Todos eles fizeram parte do bando que arrombou a venda do Seu Gaspar. A ação dos famintos foi meteórica. Em poucos minutos, as prateleiras ficaram vazias. Tudo o que era comestível foi levado pela multidão faminta. Gaspar, um homem gentil que, até então, gozava de popularidade e da amizade dos moradores do bairro, foi esmagado pela avalanche humana porque teimou em abrir as portas do estabelecimento e entregar os produtos de livre e espontânea vontade. O povo desfilou seus pés sobre ele e sobre o cão de guarda que mal tinha força para latir, quanto mais para proteger seu dono e morder alguém.

Havia um lampejo de felicidade entre o quarteto. Resquícios de esperança brilhavam nos olhos embaçados. Os pequenos criam mesmo que se reencontrariam num céu sem fome, sem sede, sem medo. Arrasada, a mãe rogava perdão a Deus, numa prece silenciosa e convulsa. O que fariam naquela tarde seria o pior dos pecados. Sim, ela tinha noção disso, mas não tinha outro jeito. A cidade, o país, o planeta todo estava entregue à barbárie e ao caos. O pai, ateu de longa data, esboçou uma efêmera fé nos últimos dias. Mesmo sem perceber, passou a crer em deus, pois tinha muita raiva dele, dele ou daquilo que fora responsável pela criação da raça humana. Diante da catástrofe que finalmente se abatera sobre a humanidade, ele entregou os pontos e clamou por misericórdia. Não havia mais lei, nem ordem, nem solidariedade, nem confiança. Cada qual defendia os seus suprimentos da forma que podia, servindo-se de sedução, trapaças, ameaças ou violência. Daquele clã, restavam apenas os quatro: um casal com dois filhos. Em pé, abraçaram-se no centro da cozinha, como se fossem atletas de futebol prestes a entrarem em campo para um jogo decisivo. A mãe principiou uma derradeira reza e foi seguida pelos filhos. O homem de silhueta miserável mordeu os lábios até sangrarem. Chorou de ódio. Então, eles mearam os copos com a única água da qual dispunham. Dividiram os comprimidos e cada qual deglutiu a sua fração, todos juntos, de uma só vez, sem vacilar. Tudo transcorreu conforme o planejado. Sobrevieram o sono, a moleza, o desfalecimento, o final. No entanto, houve um lapso que acabou se tornando mais um equívoco, dentre tantos cometidos (se bem que, na altura dos acontecimentos, não fazia mais nenhuma diferença...). Esqueceram do cachorro, também morador da casa. Apesar do corpo e das mandíbulas enfraquecidas, o pestilento animal fartou-se de carne humana durante dois dias consecutivos, antes que os corpos deteriorassem. Daí por diante, o banquete foi ofício de larvas e micróbios.



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