J. C. Guimarães

J. C. GuimarãesMelville e seu monstro branco

 

Herman Melville nasceu em Nova Iorque em agosto de 1819. É, com justiça, um dos maiores nomes da literatura norte-americana no século XIX, o cara que concebeu Moby Dick, a baleia. Ele também inventou uma frase instigante, logo no primeiro capítulo de seu maior livro, assim traduzida por Péricles Eugênio da Silva Ramos: “a parte aquosa do mundo”. Eu a li e não a esqueci mais: “a parte aquosa do mundo”...

Dos romances que conheço (não são muitos, é verdade, mas são quase todos clássicos), nenhum tem uma introdução tão marcante quanto este. A mim me pareceu, de imediato, que seria possível um paralelo entre o norte-americano e, no Brasil, o Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas. Afinal, convém saber se “a parte aquosa do mundo” não seria uma destas tantas metáforas que, como “sertão”, designam a dimensão metafísica, sobrenatural, da realidade. Podemos acreditar que o oceano de Melville não passa do sertão rosiano. Como neste, trata-se de uma geografia misteriosa, só que freqüentada não por jagunços mas por baleeiros, montados não em cavalos mas em navios e povoada igualmente por lendas. De sua parte, este e aquele também muito se parecem: “o baleeiro é envolvido por influências tendentes a fazer que sua fantasia partureje portentos”. Ismael, o narrador de Melville, é, de algum modo, Riobaldo. As duas histórias são fantásticas, são igualmente fabulosas. Ambas referem-se diretamente às mesmas questões: Deus, o diabo, o mal. Sabe-se lá o que é Moby Dick, essa coisa cheia de sinônimos negativos e assombrosos: monstro, ser descomunal, ser maligno, assassino, ser solitário e, pasmem, inteligente.  

Mas não são apenas estes. Dois há que nos incomodam particularmente: Ismael diz que um dos atributos de Moby Dick é a ubiqüidade. Outro, que é imortal. Com efeito, já não se fala de um ser de carne e osso; já não se fala aqui do grande cetáceo que povoa os mares de “verdade”, mas de um ser imaginário que povoa e atormenta o espírito dos homens. Não admira que logo passamos a suspeitar que Moby Dick é muito mais do que uma simples baleia. Será a morte, talvez? O mar já não é, de sua parte, esse mar azul e exterior que entra pelos nossos olhos, mas as invisíveis profundezas da alma:
 
“os ocultos caminhos do cachalote, quando abaixo da superfície, permanecem, em grande parte, inexplicáveis para seus perseguidores” (grifo meu) 
 
Leio abaixo da superfície como além da matéria. Mais importante: que saibamos, o único ser dotado daqueles atributos (ubiqüidade e eternidade) - é Deus! Então, será que é contra Deus que investe o celerado capitão Acab? Talvez sim – a religião americana, ao tempo, tinha visões assustadoras, capazes de tornar Deus terrivelmente mal -, talvez não. As citações que introduzem o romance indicariam outra coisa, particularmente aquelas que procuram responder a esta dúvida do ponto de vista da fé cristã. Melville cita o Gênesis, Jó, Jonas e Isaias, os quais dão a entender que não se trata de Deus, mas de uma criatura criada por ele. Em Isaias, Melville quis que o Leviatã do profeta correspondesse ao cachalote branco, e tal Leviatã é o dragão que Deus subjugará ao fio da espada. Moby Dick, portanto, seria Satã (o mal, o capiroto, o Hermógenes de Rosa).  

Muita coisa chama atenção nesse livro, mas, como não é o caso de avançarmos muito, aqui, façamos ao menos uma observação, que se relaciona à linguagem, propriamente. À linguagem, pois, que insinua tantas coisas estranhas e nos deixa em suspensão, ante a esfinge de si mesma. O temperamento romântico de Melville reforçou em mim a impressão, captada fortemente em Grande Sertão, de que o romance pode ser o domínio da metáfora, tanto quanto a poesia. Não porque se torne lírico, propriamente, mas ainda que narre uma história aparentemente objetiva, aparentemente insuspeita. Conta-se que Moby Dick, à época do lançamento e depois, foi encarado pelos críticos de plantão como livro de entretenimento, quase um Julio Verne! Podemos imaginar quantos não o leram despretensiosamente, não enxergado nele algo além de uma aventura real num mar de verdade à procura de um cachalote de carne e osso por um bando de marinheiros brutos e tresloucados. Sem dúvida, é um livro que diverte, mas é preciso ser raso demais para não ser incomodado pela narração feérica, atravessada de simbolismos, do marujo Ismael. Por isso, mais do que qualquer outra coisa, perturba: é mais apavorante do que Tubarão, de Steven Spielberg:
 
“ao verem o cachalote, todos os peixes (inclusive os tubarões) “tomam-se dos mais vivos terrores” e “freqüentemente”, na precipitação de sua fuga, arremessam-se contra os rochedos com tal violência que morrem instantaneamente”.” (Cap.XLI) 

Esse monstro fantástico incomoda porque obviamente é uma grande matáfora, não um simples jogo de metonímia, figura característica da narrativa. O branco que o reveste é objeto de uma memorável e horripilante sugestão simbólica: é o que enxergamos quando não vemos cor. É a substância perene, entranhada, que resiste sob o aspecto visível da natureza, por baixo da fina e delicada camada de tons que nos comunicam apenas a superfície do mundo. O branco é profundo, denso, numa palavra - além. Branco é, pois, o cachalote de Acab.

Não é possível ler Moby Dick sem ler coisas que querem necessariamente dizer outras, exatamente como num poema. Ou seja, há aqui uma clara transposição de sentidos, em termos mesmo de comparação.

O problema é que um dia vieram os críticos, os especialistas, e dividiram ambos os domínios – o da prosa e o da poesia – sei lá se para efeitos didáticos, pois tinham a presunção de fazer ciência. Para seu desespero intelectual, cada vez que se lê algo fabuloso como Moby Dick, vemos como é inútil ou infundado seu esforço. O monstro branco e fabuloso de Melville destrói não apenas barcos e homens, mas inclusive essa ilusão dos críticos, esse devaneio científico em compartimentar coisas inseparáveis. É o triunfo da arte sobre a ciência. 



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