Valdivino Braz

Valdivino BrazTrês poemas no varal das rimas


VERTIGEM 

 

Tagore Biram
 
 
Se é claro viajo nuvens,
se escuro viajo estrelas.
Num vendaval de vertigens
fico acordado noites inteiras.
 
A vida é questão de segundos:
sinto que vou como quem fica.
Voragem que não se explica:
olhar partido em dois mundos.
 
Suspenso à luz das esferas,
a tudo dei mais do que pude.
“É primavera”
Tem a janela sua certeza.
Mas a paisagem não me ilude:
é um disfarce da natureza.
 
*
 
MUSEU DAS MUSAS
 
Pio Vargas
 
 
As musas, todas elas,
morreram belas
e agora ninguém as chama
 senão pelas chamas
 de algumas velas.
 
O mistério que as ungia
a maquiagem que as tingia
os lençóis as fantasias
hoje apenas enfeitam
o traje trágico
das lousas frias. 
 
O museu que as tolera
ainda guarda
o flagrante susto
da primavera
o medo que o encontro
tem da espera
e o remorso
do que um dia foi jamais
hoje é quem dera.
 
As musas
reclamam músicas
para o enterro.
 
*
 
MUSAS INDECOROSAS
 
Valdivino Braz
 
 
O que se anima das rimas,
uma por baixo, outra por cima,
por amanho de medusas?
 
Na ardósia de seus mijos,
o que medra e rima de musgo,
o apojo esponjoso das musas?
 
Musas, mijos,
e viver-se de brisa?
E os beijos?
E o paraíso?
Nunca lhe prometi um mar de rosas,
o livro.
 
Um hálito de eucalipto,
a boca de seus encantos
e arquejos.
 
Ardume de coentro,
misto de poejo
e lúbricas,
nos nichos ou esconderijos
da gruta.
 
 Variações do coito
e do mesmo tema.
 
Harpejos da carne
em chamas,
aranhas de olhos acesos,
no labirinto.
 
Mariposas,
bruxas,
peludas borboceletas
— atente-se para isso —,
feito tarântulas.
 
Cenas obscenas
do crime.
 
A fome da carne,
o crime carnal,
contra a moral
e os bons costumes.
 
O escarcéu,
o carnaval,
por trás das cortinas
e persianas.
 
O crime
que a todos redime
na retina de quem se ama
na cama.
 
Plumas,
papoulas
e petúnias.
 
Os nomes
espúrios
da rosa,
nos mistérios gozosos
e dolorosos
das musas
de cama e mesa.
 
Hipócrita
é quem reza
na cama,
coberto de pétalas
e asas
de borboletas que dormem
com as bocas abertas
e sangrentas.
 
Que coisa!
 
Esdrúxula
beleza
— assemelham-se a bromélias —,
as pernas abertas
das musas
indecorosas.



© Copyright 2008 - Revista Bula — Política de Privacidade
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural - editorial@revistabula.com
Powered By: Eureka Comunicação