Helverton Baiano

Helverton BaianoGemidos

 

As estripulias da carne suscitam faíscas que chamuscam e esmeram em apoteoses as mais diversas e inusitadas. Voam os gritos mais autênticos e originais nos estertores do prazer e todos os dias matérias jornalísticas, pesquisas, histórias, fofocas e fuxicos perpassam esse mundo ensinando e cavoucando as instruções do xamego e do lutrimento,  que estimulam e produzem os retorcimentos e piripaques com os mais indolores e acalorados gritos e gemidos. É o momento mais alfabético e escalafobético do embate do prazer, com seus dias 'D', horas 'H', pontos 'G' e 'n' possibilidades.

Vindo de Saracutópolis, lugar pequeno, que não via sal e nem geladeira, onde a carne é fraca e apodrece rápido,  Zé Leréia aguçou os ouvidos  e desenvolveu uma sensibilidade ímpar para escutar os gemidos do fuque-fuque, anuência única que lhe proporcionava êxtase sexual. Só esses gemidos, e somente eles,  lhe davam prazer,  e a argúcia era tanta que,  numa distância de 500, 600 metros,  sua audição captava os ui, uis, ai, ais de gente furunfando. Incontinenti excitava e acompanhava o casal em um intenso solilóquio incestuoso com suas partes.

Antes de morrer, me contou, inclusive,  de algumas passagens em que fui, com algumas namoradas, protagonista para suas fantasias onanistas. Disse-me que isso começou nele por volta dos 14 anos, quando se despertou pra homem, e foi influenciado pela famosa janela noturna de Dona Nagilina e Seo Jinoé. Ele gemia que nem um porcão, com urrrhr, urrrhhrr, mas ela se desmanchava uri, uri, uri ... ipa, ipa, ai, ai, ai, uri, uri ... ai Jinoé, ai Jinoé, ai Jinoé, uri, uri, uri ..., ipa, ipa, ai, ai, ai, uri, uri. Era um tremelico de quatro a cinco minutos de gritos, sussurros e urros, que Zé Leréia se encantava e ria por dentro quando via Dona Nagilina andando faceira, pela rua, no dia seguinte. Pensava: "Aquela ali tem do que".

Quando se mudou de lá, desenvolveu e aguçou os ouvidos e o sestro acelerou-se ainda mais nele. Passou a catar e a selecionar as audições e se esmerava naquelas em que as mulheres eram as menos criteriosas com os gritos e espasmos. Adquiriu cátedra e passou a perceber que as mulheres usufruíam muito mais o tempo do prazer, na comparação que passou a fazer dos minutos que passavam gritando e retumbando de excitação e prazer nas culminâncias orgásticas.

Zé Leréia me contou que ouviu de um tudo nos seus mais de 60 anos de espreita: gemidos esotéricos, palrações enigmáticas, loquacidades exóticas, gritos ecumênicos, exaltações santificadas, imitações de brigas e contendas, risos galopantes, choros esfuziantes e xingamentos os mais obscuros. Tudo isso oriundo da saga orgástica feminina. Os homens, quando muito, urravam baixinho e gemiam gemidos comedidos.

Disse-me também que, da única vez que se apaixonou pelos estardalhaços de uma mulher, viveu mais de 15 anos à espreita do casal, que conheceu logo depois da lua-de-mel, procurando fixar residência sempre nas imediações de onde morava. "Era uma coisa do outro mundo", dizia, e até eu fiquei doido de vontade de dar uma espiadinha de ouvidos.



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