Flávio Paranhos

Flávio ParanhosFudeu, Idomeneo! parte final


Fudeu, Idomeneo 1

Fudeu, Idomeneo 2      

Cena 8 – No cemitério. Idomeneo e o sujeito sentados cada um de um lado do túmulo aberto. Não se vê o que tem dentro.

 
            Sujeito – Eu avisei.
            Idomeneo – É uma verdade dolorosa demais pra ser revelada.
            Sujeito – Então não revele.
            Idomeneo – Sou rei, preciso ser fiel aos meus súditos.
            Sujeito – E desde quando ser fiel inclui contar tudo? Nunca foi casado?
            Idomeneo – Várias vezes.
            Sujeito – Foi sempre fiel?
            Idomeneo – Tá de sacanagem comigo?
            Sujeito – Desculpe, só ia seguindo uma linha de raciocínio.
            Idomeneo – De qualquer forma preciso contar...
            Sujeito – Será o caos.
            Idomeneo – Por quê?
            Sujeito – O ser humano ainda não está preparado pra isso. (Animando-se, como se estivesse discursando) Muitos séculos se passarão antes que a verdade absoluta seja descoberta sem ferir os olhos dos homens. Culturas inteiras serão dizimadas, histórias e geografias rearranjadas pra que os desígnios dos deuses sejam obedecidos. O mundo é absurdo. O homem é absurdo. A mulher é absurda. O preço das ovas de beluga é absurdo. O tempo de espera no Churrasco do Grego é absurdo.
            Idomeneo – Ah, sim, e por falar em desígnios dos deuses, vou precisar te matar hoje ainda.
           
            (Apagam-se as luzes.
            Coro – Pietá, Numi, pietá
           
Cena final – Na praia. Os soldados 1 e 2 seguram rudemente o sujeito, que está todo amarrado. Idomeneo segura uma grande espada e a movimenta em frente ao sujeito.
 
            Sujeito – Mas por quê? Por quê?
            Idomeneo – Não é nada de pessoal, procure entender.
            Sujeito – Pessoal, porque seria pessoal? Nem meu nome você sabe. Pra você sou um sujeito qualquer.
            Idomeneo – Precisamente.
            Sujeito – E isso quer dizer...
            Idomeneo – Sua desgraça, sujeito, é ser um qualquer.
            Sujeito – Mas conversamos tanto, pensei que já éramos camaradas.
            Idomeneo – Confesso que até me afeiçoava.
            Sujeito (esperançoso) – Então?
            Idomeneo – Sinto muito. Preciso obedecer o destino.
            Sujeito – Destino? Destino de quem? Me matar faz parte de seu destino? Tudo bem que é rei de Creta, mas não acha que sua megalomania está passando dos limites?
            Idomeneo – Você está começando a me cansar a beleza.
            Sujeito – Desculpe é que...
            Idomeneo – Tudo bem. (Levanta a espada, fazendo menção que a deixará cair na cabeça do sujeito).
            Sujeito – Peraí, peraí. Você podia ao menos dizer por que está fazendo isso comigo. Poxa vida, também, né!
            Idomeneo – Tá bom.
            Coro – Vai ter coragem de contar mesmo, Idomeneo?
            Idomeneo (ignorando o coro) – Já que você vai morrer pelo fio de minha espada, acho que merece a verdade.
            Sujeito – A absoluta?
            Idomeneo – Mas que sujeito exagerado. Não. Vou te contar a verdade sobre sua morte. Não é uma história da qual me sinta particularmente orgulhoso, mas, a essa altura do campeonato, foda-se. O negócio é o seguinte. Quando eu voltava com meus navios da guerra de Tróia uma enorme tempestade nos atacou. Netuno investiu contra nós com toda sua fúria.
            Sujeito – Deu pra ver daqui da praia.
            Idomeneo – Então.
            Sujeito – Não escapou ninguém. Exceto ...
            Idomeneo – Pois é.
            Sujeito – O que você prometeu pra Netuno, pra ele te salvar? (Meio que já sacando tudo). Peraí, você não... Ah, não, não é possível! Você não teria coragem!
            Idomeneo (sem-gracinha) – Pois é...
            Sujeito – Puta que o pariu!
            Idomeneo – Vamos acabar logo com isso (levanta de novo a espada).
 
            (Entra Idamante, esbaforido).
 
            Idamante (com voz de mezzo-soprano) – Papai, papai, não! Pelo amor de Zeus, papai, não faça isso!
            Idomeneo (parando com a espada no meio do caminho, irritado com a voz do garoto) – Puta merda, Idamante!
            Idamante – Soltem esse sujeito imediatamente.
 
            (Os soldados hesitam).
 
            Idamante – Estou ordenando, soltem o sujeito.
 
            (Obedecem).
 
            Idamante (corre pros braços do sujeito) – Meu amor, meu amor!
            Coro – Então é o sujeito!
 
            (Entram Ilia, Electra, o núbio, os rapazes atenienses e Sócrates, todos esbaforidos).
 
            Todos (em coro) – Então é o sujeito!
            Coro – Oh voto tremendo!
            Spettacolo orrendo!   
            Idomeneo – Idamante, o que é isso, meu filho?
            Idamante – Papai, não dá mais pra segurar, explode coração!
            Coro – Putz!
            Sujeito – Sabia que seu pai ia me matar porque prometeu uma vida a Netuno em troca da dele?
            Idamante (mais mezzo-soprano do que nunca) – Como, papai, como pôde?
            Idomeneo – Prometi sim, e daí? Quem aqui gosta de morrer afogado? Hã? Hein? Diz aí, qual de vocês gostaria de morrer? O que dirá afogado? Fiz o trato sim. Fiz. Pronto. E tem mais. Se eu não cumprir, Creta sucumbirá a uma infinidade de pragas. Coisas nunca antes sequer imaginadas acontecerão. Ele tem que morrer (levanta a espada novamente).
            Sujeito – Peraí, peraí, peraí. Qual, exatamente, foi o conteúdo de sua promessa?
            Coro – Ih, fudeu, Idomeneo! Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
            Idomeneo – Que importância tem isso agora?
            Sujeito – Toda importância do mundo. Diga, palavra por palavra, o que você prometeu a Netuno. Quem sabe a gente consegue achar alguma brecha jurídica? Quem sabe até propomos uma ADIN, um embargo, ou dá tempo de expedir uma liminar. O que, exatamente, você prometeu a Netuno?
            Idomeneo (hesitando, mas cedendo) – Que tomaria a vida do primeiro que encontrasse na praia.
            Idamante (sem se dar conta da gravidade) – Fui eu papai. Já te disse que te vi antes. Eu e o sujeito estávamos... Bem, catando conchinhas, daí eu te vi, fui buscar os guardas e enquanto isso o sujeito ficou do seu lado.
            Idomeneo – Puta que pariu, Idamante!
            Coro – Fudeu, fudeu, fudeu!
            Sujeito – Na verdade eu estava na praia caminhando distraído e tropecei nele...
            Idamante – Sujeito!
            Sujeito – O quê? Ah, já entendi, é uma tragédia.
            Coro – Não brinca.
            Beltrano do coro (legenda: Beltrano, graduado em filosofia, mestre em sociologia, doutor em antropologia, pós-doutor em literatura comparada, casado duas vezes, preso uma por não pagar a pensão dos cinco filhos, atualmente lavador de carros na praça central e infeliz, muito infeliz) – (olhando pra baixo, pras legendas, reclamando) _ Ei! Pra que esse tanto de detalhe! (Dirigindo-se à platéia, como quem está citando) - “É de um mesmo homem o saber fazer uma comédia e uma tragédia, e aquele que com arte é um poeta trágico é também um poeta cômico”.
            Sócrates – Opa, isso é meu!
            Coro – De onde esse surgiu?
            Sujeito – Com licença, estamos tentando desenvolver um raciocínio, pode ser?
            O coro e Sócrates – Foi mal.
 
            (Sócrates sai, o coro se cala – a propósito, sempre que o coro se cala pode-se apagar o telão ou mantê-lo projetado prestando atenção no que se passa. Essa última pode ser interessante, mas corre-se o risco de desviar a atenção da platéia)
 
            Sujeito – Obrigado. (Dirigindo-se a Idomeneo) Se me matasse no lugar do seu filho, não teríamos uma tragédia. Percebe? Que graça tem prometer a vida de um sujeito qualquer em troca da sua? A tragédia está no sacrifício do próprio filho. Precisa matar Idamante.
            Idamante (surpreso) – Sujeito?!
            Sujeito (se defendendo) – O quê? Vai desculpar, Ida, mas não tô te entendendo.
            Ilia (interrompendo, furiosa) – Como assim, “Ida”?! (para Idamante) Quer dizer então que ele pode?
            Idamante (soprando as unhas) – Pode. (Depois, consternado, dramático, para Idomeneo e o sujeito) Por que tem de ser assim? Por que alguém tem de morrer? Por quê? Por quê? (histérico).
            Sujeito (dá um tapa na cara de Idamante pra despertá-lo da crise histérica, depois, afaga-o) – Ida, meu carinho, sou um sujeito qualquer. Na cebola moral sou o último anel. Aquele que de tão longe parece uma abstração. Algo assim como uma notícia de morte no Oriente Médio, entende? Ou as crianças famintas na África. Ou a guerra do Iraque. Ou o furacão Katrina nos Estados Unidos. Ou a vaca louca na Europa. Ou...
            Coro – Chega, acho que dá deu pra ter uma idéia.
            Sujeito – Você fica sabendo dessas coisas no Jornal Nacional e a única coisa que te passa pela cabeça é “Por que deixam os gols do campeonato brasileiro por último?”. Ou “O que será que vai acontecer na novela hoje?”. Ou “Puta merda, esqueci de pagar a conta de luz pela Internet, agora não dá mais tempo”. Ou...
            Coro (e todos) – Chega!
            Sujeito – Não tem a menor importância. É como estou dizendo, na cebola moral, é o último anel. Longe, longe. Já imaginou que sem-graça? Um cara é salvo por um deus desde que mate outro e esse outro é um sujeito qualquer.
            Coro – No caso, você.
            Sujeito – Estou generalizando.
            Coro – Ah, sim.
            Sujeito – Não é uma tragédia. Quem é que vai escrever sobre isso? Não dá um libreto, entende? Não inspira ninguém. Você (para Idamante), por outro lado, é o miolo da cebola. Você é filho, daí a tragédia, entende?
            Coro (dirigindo-se a Idamante) – Faz sentido.
            Idamante – Faz sentido o caralho! Não vou morrer nem com a porra! Vou é fugir daqui. (Sai correndo)
            Idomeneo (para os guardas) – Prendam-no!
 
            (Os guardas seguram Idamante)
 
            Idamante – Papai?!
            Idomeneo – Sabe como é... Não se pode contrariar os deuses. E o sujeito tem razão...
            Idamante – Você teria coragem de matar seu próprio filho?
           
            (Idomeneo hesita, olha pra espada, corre os olhos pelos presentes, pensa)
 
            Idomeneo (olhando pro alto, supostamente dirigindo-se a Netuno) – Não posso fazer isso. Não posso!
 
            (Raios, trovões, etc)
 
            Voz de Netuno – Está bem, Idomeneo. Vejo que aprendeu a lição. Permito que morra no lugar de seu filho.
            Idomeneo – Como é que é?
            Voz de Netuno (levemente impaciente) – O que é? Qual parte de “Permito que morra no seu lugar de seu filho” você não entendeu?
            Idomeneo – Não é isso. Pensei que todo mundo ia se safar.
            Voz de Netuno – Idomeneo, seu verme desprezível, então acha que ninguém pagaria com a vida o que deve aos deuses?
            Idomeneo – Calma lá. Quem começou isso tudo foi você. Eu e meu exército voltávamos tranqüilos da guerra de Tróia quando você provocou aquele maremoto...
            Voz de Netuno (mais impaciente) – Não me teste, Idomeneo, que vocês estão todos na praia e posso fazer que o mar os engula de uma vez.
            Idomeneo – Não estou vos testando, oh grande e sapientíssimo Netuno...
            Voz de Netuno (emputecido) – Puta que o pariu, vai começar de novo?
 
            (Trovões, mar revolto, etc)
 
            Idomeneo – Desculpa aí...
            Voz de Netuno – Desculpa o caralho. Negócio é o seguinte: morre você, ou morre Idamante. Decida e faça isso logo, antes que eu despeje desgraças sobre Creta.
            Coro – Pietá, Numi, pietá!
            Idomeneo – Já que é assim... (Parte pra cima de Idamante, que está seguro pelos soldados 1 e 2).
            Soldado 1 – Só um instante.
            Idomeneo – O que é?
            Soldado 1 – Por que não jogam sua sorte nos dados?
            Idomeneo – E por que eu faria isso? Estou com a faca e o queijo na mão.
            Idamante (mezo-soprano) – Papai?!
            Idomeneo (irritado) – Puta que pariu, filho, quando é que vai mudar essa voz?
            Soldado 1 – Se jogar a sorte nos dados ficará melhor pra você. Se ganhar, pode alegar que teve de matar seu filho por força da fortuna.
            Idomeneo – É, mas e se eu perder?
 
            Soldado 1 (puxando Idomeneo de lado, meio que cochichando) – Seguinte: aposte no um.
            Idomeneo (desconfiado) – No um? Mas nunca vai dar um. São dois dados.
            Soldado 1 – Vai por mim.
            Idomeneo – Tem certeza?
            Soldado 1 – Vai por mim.
            Idomeneo (voltando para onde estavam todos) – Como sou magnânimo, vou jogar nossa fortuna nos dados. Se der um, eu serei obrigado a matar Idamante. Se der seis, eu morrerei por ele e por Creta.
           
            (Fazem uma roda, Idomeneo joga os dados).
 
            Idomeneo (constatando) – Quatro. (Dirigindo-se ao soldado 1) Quatro!?
            Soldado 1 (piscando pra Idomeneo) – Jogue novamente.
            Idomeneo (joga de novo) – Cinco e cinco... Dez!?
            Soldado 1 (piscando novamente) – Outra vez.
           
            (Idomeneo joga várias vezes e nunca sai um, nem seis. De saco cheio, joga e recolhe rápido pra ninguém ver que número deu) – (Aqui cabe, se o diretor quiser, uma referência –sutil ou não – à cena da moeda cara ou coroa, de Rosencrantz e Guildenstern estão mortos, do Stoppard)
 
            Idomeneo – Um! Deu um. Sinto muito, meu filho.
            Idamante – Um? Mas como? São dois dados.
            Idomeneo – O destino é mais forte do que nossa vontade.
            Idamante – Peraí, calma lá!
            Idomeneo – Peraí nada, vai baixando as calças.
            Coro – Fudeu, fudeu, fudeu, Idamante se fudeu!
            Todos (em coro, com o coro, de mãos dadas, rindo e cantando) – Fudeu, fudeu, fudeu, Idamante se fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu, Idamante se fudeu!
 
            Pano
 
            (Música – a última ária de Idomeneo, enquanto isso o telão vai mostrando o que aconteceu com cada personagem).
 
            Electra ficou com os dois rapazes atenienses e o núbio.
            Ilia ficou só. Está fazendo o supletivo. Pretende prestar vestibular pra medicina.
            O soldado 2 passa os dias jogando dados com o sujeito.
            O soldado 1 se suicidou.
            O coro  se suicidou.
            Sócrates se suicidou.
            Idomeneo, não. Depois de ser consumido pela culpa a ponto de quase se entregar às autoridades, lembrou-se de que ele era a autoridade. Vai muito bem, obrigado, comendo todas as mulheres de Creta, sem ter de dar satisfações a seu ninguém. Tá, vai, alguns rapazinhos atenienses também, de vez em quando.  

 




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