Marcos Fayad

Marcos FayadMenos do mesmo

Lendo todos os dias sobre o caos que se instalou no governo e no Estado de Goiás fiquei muito compadecido. Coitadas das autoridades e seus partidários eles não sabiam de nada que estava acontecendo antes de se candidatar, ganhar e assumir o poder. Nem tinham tempo pra saber, estavam ocupados demais com a campanha, a continuidade, os comícios, os conchavos, as alianças, os foguetórios e as passeatas, como é que se poderia exigir que além de tudo isso pensassem também no estado de falência do Estado?
 
Políticos têm de pensar em outras coisas tais como o terno que vão vestir no dia da posse; a quem vão encomendar o buffet da grande festa em palácio; os convidados, os discursos, não se pode exigir deles mais que isso, sejamos compreensivos. Agora estou aqui constrangido e solidário, um mero cidadão louco pra ajudar o governo a ter idéias de como sair desse impasse chamado déficit de mais de 900 milhões de reais. Todos temos de participar, nos ensina o governo.
 
Os jornais alardeiam as mortes, as humilhações na saúde, os secretários brigam entre si como galos garnizés pra ver que opinião predomina, um deles desiste da luta e a imprensa, essa cruel entidade perturbadora da ordem pública teima em noticiar tudo sem dó nem piedade com os ignorantes.
 
Ora faça-me o favor!
 
É preciso contribuir e é pra isso que escrevo esse artigo, pra sugerir coisas ao governo que podem ser economizadas e ajudar a encher os cofres públicos novamente. Afinal, quem está de fora vê melhor.

Minha primeira sugestão é acabar de vez com a AGEPEL. Afinal, cultura serve pra que mesmo? E esse órgão especialmente existe com que objetivo a não ser dar emprego a um monte de ex? Ex-músicos, ex-jornalistas, ex-qualquer-cargo, todos lá mamando os trocadinhos que as tetas ainda oferecem minguadamente, mas oferecem. AGEPEL é puro enfeite e nós não estamos em tempos de enfeitar nada.
 
Sejamos realistas e mandemos essa massa de gente sem função pra casa, bordar uns panos de prato, compor uns sambinhas maneiros, escrever pra revistinhas de sociedade, lavar uma trouxa de roupa. 
 
Não adianta mais eles fingirem que atuam só porque abriram inscrições pro FICA ou trouxeram a Lili Marinho com sua coleção de quadros por uma quinzena ou porque fazem reuniões e reuniões pra decidirem onde vão colocar a estátua eqüestre do Pedro Ludovico.
 
Essas mentirinhas culturais funcionavam na época da ditadura, foram desmascaradas há muito tempo pela realidade noticiada pela imprensa.
 
Sabemos que os Centros Culturais continuam desativados, que só o capim cresce viçoso nos espaços que eram da cultura, que a cabeça da entidade cultural está cheia de valium 10, sonolenta e mais perdida que cebola em salada de frutas. Dissolva isso, senhor governador, economize pra salvar algumas vidas. Aposto que ninguém vai dar por falta da extinção dessa AGEPEL e assumimos de vez nossa vocação rural onde a palavra cultura está mais associada a plantações de soja, milho, arroz. Que mal há nisso? Deixamos de pagar aos inúteis e não alimentamos bocas-livres como coquetéis de abertura de exposições onde as fotos sorridentes das autoridades não disfarçam mais o luto em que o estado mergulhou. Se sentirmos falta de algo ligado a cultura é só criar um museu nos moldes do Museu de Cera da Madame Tussaud com as figuras ao vivo desses velhos intelectuais chatos que apóiam todo e qualquer governo estabelecido. Temos tantos aqui, não custaria muito dinheiro e ajudaríamos naquilo que a AGEPEL sabe fazer tão bem: prestar homenagens. Artistas e intelectuais conscientes vão apoiar o governo nessa empreitada, tenho certeza. Trabalhadores da área da cultura como nós não fazem falta nenhuma se entrassem em greve ninguém perceberia porque não somos em Goiás gêneros de primeira necessidade como a saúde. Pessoas estão morrendo por falta de algumas caixas de remédio e a AGEPEL continua gastando os poucos caraminguás culturais com salgadinhos e vinho de péssima qualidade pra agradar dona Lili Marinho. Vamos fazer o seguinte: troquemos um cento de empadinhas por duas caixas de remédio, que tal? Duzentos quibes fritos por um estetoscópio. São vidas que se preservam e que podem perfeitamente passar sem a AGEPEL pela vida afora.
 
Mas sem o remédio, não.
 
Enfeite por enfeite já temos muitos, não precisamos de entidades culturais que não têm nada a ver com a vida.
 
Devolva, senhor governador, devolva essas centenas de pessoas inoperantes aos seus lares e às suas carreiras políticas e nos livre e guarde dessas bobagens que elas produzem à custa do dinheiro público surrupiado aos doentes que morrem neste momento nalgum nicho hospitalar de Goiás. Economizar é isso – é cortar na própria pele.
 
E há muito onde cortar, depois sugiro outros cortes ao senhor, com todo o respeito.



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