Ronaldo AngeliniDemônio: seu nome é Leão
Os terroristas endeusados têm em Osama bin Laden, o grande exemplo de liderança e heroísmo. Vejamos um pouco de sua história.
As finanças de Mohammed bin Laden, pai de Osama, cresceram acompanhando as da Arábia Saudita que até 1931, ano da descoberta de petróleo na região, era apenas um amontoado de famílias com seus reis sem anéis que tinham como principal fonte de renda o turismo das visitas à Meca e Medina, que, aliás, havia se reduzido devido à Grande Depressão.
A descoberta do ouro negro fez com que de hora para outra, os príncipes do deserto que até então vendiam tâmaras e tomavam leite de cabra, invadissem os cassinos do mundo perdendo milhares de dólares em menos de uma hora. Assim caminha a humanidade....
Neste período, Mohammed começou como estivador e passou para pedreiro e mestre de obras da Aramco, a Companhia de Petróleo Árabe-Americana. Com a pressão e o apoio do governo, a Aramco começou a estimular a economia local e ajudou Mohammed a fundar sua construtora que cresceu e fez seu proprietário, ministro honorário de Obras Públicas.
Anos depois, Mohammed acabou virando fiador do próprio governo e por isto criou fortes laços com a família real. Teve 54 filhos com 22 esposas (Osama foi o 17º). É interessante deixar claro que a lei saudita permite apenas quatro esposas. Assim, para a maior parte das mulheres de Mohammed, o casamento não durava um dia, pois ele se casara pela manhã e se divorciava na mesma tarde, apenas dizendo, como permite a machista lei local: “Eu me divorcio de você”. Foi mais ou menos isto que aconteceu com a Alia, mãe de Osama (que quer dizer, Leão) quando este tinha quatro anos. Magnânimo, seu pai casou-a com um de seus executivos, pouco antes de morrer num acidente de avião.
Segundo Lawrence Wright em seu “O vulto das duas torres” (Cia. das Letras, 505p. e Prêmio Pulitzer, 2007), Bin Laden foi uma criança normal que gostava de filmes de faroeste, em especial do seriado Bonanza. Infelizmente com 14 anos não assistia mais tevê, parou de usar trajes ocidentais e não admitia nenhum tipo de música que não fosse religiosa. Tornou-se um “aborrecente” que assustava irmãos, mãe e padrasto com seu radicalismo religioso-caseiro. Apesar disto, gostava de cavalos e de correr com o carro.
Casou-se pela primeira vez com 17 anos, entrou para a secreta Sociedade dos Irmãos Muçulmanos e foi estudar economia na Universidade Rei Abdul Aziz em Jidá (1976).
O teórico da Sociedade dos Irmãos Muçulmanos era Hassan Hudaybi que tinha uma postura tolerante e receptiva (seu livro tinha um título claro: Pregadores, não juízes), rivalizando com o radical Qutb (ver artigos anteriores aqui na Bula). Bin Laden concordaria com Hadaybi, mas não por muito tempo.
No natal de 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão para conquistar o estreito de Ormus e controlar o suprimento de petróleo do mundo. Inconformado, Bin Laden começou a viajar clandestinamente ao país vizinho, levando dinheiro arrecadado com ricos na Arábia Saudita para os mujahidin (guerreiros santos). Sua alma já batalhava, mas seu corpo só foi encarar a guerra em 1984 quando pegou em armas, montou a Cova do Leão e criou narrativas lendárias de suas batalhas contra o inimigo comunista e ateu. Algumas parecem ser verdadeiras, como aquela dos mísseis que não explodiram ao cair do seu lado.
É desta época, o financiamento dos EUA e da Arábia Saudita as atividades de Bin Laden, pois estes países parceiros também queriam a URSS fora de lá, mas claro, não por razões religiosas. Aparentemente, sauditas e americanos desconheciam o provérbio russo: “nunca se junte aos lobos para derrotar os cães”....
Neste período, o guia espiritual do Afeganistão, o xeique Abdullah Azzam, emitiu uma fatwa (decreto religioso) dizendo que todo muçulmano fisicamente apto era obrigado a lutar no Afeganistão e que este martírio seria glorioso, renderia as virgens no paraíso, etc....e, então, muitos jovens foram atraídos para esta jihad (literalmente “esforço”, mas neste caso, “batalha”).
Quando finalmente a URSS saiu do Afeganistão, em 1989, a guerra continuou entre os grupos internos que queriam o poder. O agora herói e líder Bin Laden, com apenas 31 anos de idade, juntou os jovens treinados e que estavam sendo mal recebidos em seus locais de origem (só na Arábia, 15 mil) montou a Al-Qaeda e foi para o Sudão, onde um golpe de estado colocara os radicais islâmicos ao poder.
Bin Laden levou seu dinheiro para aplicar no Sudão. Perdeu tudo quando foi enxotado de lá sete anos depois, pois o governo do Sudão começou a ser pressionado por abrigar os terroristas. Foi para o Afeganistão, mas mesmo os talibãs que acabavam de chegar ao poder, tinham o pé atrás com ele.
Bin Laden montou uma “batcaverna” em Tora Bora e começou a pensar mais seriamente nos EUA cuja presença no Oriente Médio o incomodava deveras. Mas qual a ameaça que um maluco numa caverna nos confins dos Judas podia ser ao grande império? E então, a trajetória de Bin Laden se entrelaça com a história do primeiro herói trágico americano do século XXI, John O’Neill. Mas isto fica pra semana que vem.